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2 A EXISTÊNCIA DE TERRITORIALIDADES ESPECÍFICAS EM BARCARENA

E. M.LIMA J.F.A Furtado

2.7 Festas e santos dos sitiantes do rio Murucup

Os sítios em torno do rio Murucupi possuíam denominação de santos, a demonstrar a devoção católica de seus moradores. Nas entrevistas feitas entre os quilombolas indígenas, dentre os mais antigos, observou-se sempre referências às ladainhas, aos círios, aos arraiais e leilões promovidos pela igreja e pelos moradores. Algumas comunidades possuíam seu santo padroeiro, como é o caso do Burajuba, no qual havia a festa de São Tomé e São Lourenço com a festa de São Francisco Xavier. A exemplo disso, o Sítio Cajueiro até comemora o dia de São Benedito, no mês de julho.

A imposição do progresso em Barcarena, na década de 1980, contribuiu de forma significativa para a mudança nos festejos e nas crenças dos moradores das comunidades tradicionais. Em Burajuba, a igreja de São Tomé foi destruída e seus Santos deslocados para o Laranjal. Apesar disso, atualmente, adotou-se o festejo a São Tomé, hoje, sua festividade católica principal. E no processo de retorno, os quilombolas de Burajuba reconstruíram a igreja, os quais nomearam São Sebastião o seu novo padroeiro.

Fotografia 2 - Igreja de São Tomé em Burajuba, destruída pela CODEBAR

Fonte: Foto cedida por José Roberto da Silva Cravo.

Fotografia 3 - A Igreja São Sebastião construída pelos quilombolas de Burajuba, após o retorno.

Fonte: Rosane Maia (14 de setembro de 2013).

Diante disso, a senhora Judite Souza Lemos86 narra como ocorreu a destruição

da igreja e o deslocamento dos seus santos.

[...] eles só vieram um dia e disseram olha tratem de sair dessa escola que amanhã mesmo a gente vai derrubar isso aqui todinho, a gente veio por bem, vocês não querem sair então vocês vão sair por mal, imediatamente eles entraram aqui na escola nos estávamos dando aula e eles entraram com o trator derrubando tudo, aí nos saímos para igreja nós tínhamos combinado com o bispo, que teríamos uma reunião com o bispo, aí eles vieram e o bispo foi e mandou parar e que eles não tinham o direito de fazer o que eles queriam, primeiro a comunidade tinha que se reunir para decidir algumas coisas, o nome do bispo era Ângelo Frota, foi ele que veio reunir a comunidade pra decidir algumas coisas, pra não destruir ele disse vamos tirar nossas coisas daqui, vamos lá pro laranjal, tinham dado um terreno lá no laranjal pra montar a igreja lá , e lá o bispo veio pegou os santos e levou pra lá tudinho e lá começou a organizar a comunidade com algumas famílias que já tinham saído daqui, a escola não estava porque nós não tínhamos nada a ver com a escola ainda, tinha que comunicar a SEDUC, nós mandamos uma carta e eles já tinham vindo aqui só que a gente não sabia o procedimento, não sabia que era tão rápido assim, aí eu esperando que eles viessem aqui me procurar, pra me dar uma escola, localizar meus alunos, só que não aconteceu isso quando eles chegaram aqui foi metendo trator derrubando tudo, no tivemos que sair com as crianças tudinho, aí eu fiquei dando aula uns dias em casa, [...] e depois disso eles meteram o trator na igreja, derrubaram e ficou só essa frente aqui, só a frente que ficou com mato ainda, tudo matagal e antes era tão bonito e eles foram quebrando tudo, passaram um trator por lá. (nformação verbal).

Nos tempos da igreja de São Tomé, havia várias comemorações religiosas, e a senhora Judith Souza Lemos tem essa lembrança em sua memória:

Porque cada uma aqui, cada família tinham suas imagens, eram muito centenárias, e depois que o bispo veio e levou o padroeiro pra laranjal, cada uma pegou e levou seus santos pra casa, então um dia Ricardo veio pra cá com os coleguinhas dele acampar, eles mexendo nos escombros da igreja no meio do mato eles acharam uma santinha, e ele diziam assim: a santinha é minha e agora não vamos dar pra ninguém. E a única que restou é essa aqui.

P. Quer dizer que derrubaram a igreja com os santos e tudo?

Isso, fazia dez anos que a imagem estava debaixo dela, ficou dez anos debaixo dos escombros, todo ano a festa dela era em novembro, dia 22 de novembro em janeiro sempre foi São Sebastião, dia 26 de julho era santa Ana, era uma festa que tinha casamento, crisma, batizado, tudo! Era uma festa muito grande a de santa Ana, e quando era novembro era nossa senhora das Graças, e em dezembro era o padroeiro que era são Tomé, então nos tínhamos quatro festas no ano. (nformação verbal).

Fotografia 4 - Imagem Centenária de Sant’Ana

Fonte: Rosane Maia (14 de setembro de 2013).

O senhor Raimundo dos Santos87, outro morador, também relembra das suas

crenças e mitos do passado. E expõe os motivos que fizeram as pessoas abandonarem essas crenças:

Nós aqui vivíamos antigamente, nós vivíamos das nossas ladainhas nas casas das famílias, tinha comissão de santo, o Santo padroeiro ele saía no período da festa, pra visitar todas as famílias. E nas casas, era difícil a gente chegar e não ter um oratório lá cheio de santo, era São Tomé, São João Batista, São Sebastião, São Francisco, na minha casa lá no meu quarto tá lá tudinho os santos ainda. Naquele tempo a gente não tinha igreja e hoje nós temos, tem duas vezes, todo mês tem a presença do padre na comunidade. Nós organizamos uma comunidade católica, aí também teve muitas outras religiões que chegaram, tem muitas igrejas evangélicas, com a chegada da nova mudança, do culto diferente e mais. Aí tinha a conservadora e a última que é a igreja moderna, com essa questão da igreja moderna, com essas celebrações mais pra cá, visando à questão da bíblia, nos foi tirado alguns costumes, por exemplo, a ladainha não tem mais. Antigamente nós batizava nossos filhos porque acreditávamos que com nosso tipo de batizado nossos filhos poderiam andar aí pelo mato e não ser flechado de bicho, não ia pegar quebranto, era um costume antigo, se não for batizado não pode ir no rio, tinha a curupira.

[...] Até a música que cantava na chegada do santo: “Ei nossa senhora! ela veio visitar, até para o ano quando aqui nós voltar” essa era a despedida, quando eles já estavam saindo.
Aí vieram outras família com outros costumes, aí chegaram e já não respeitaram os costumes, algumas famílias que vieram de outros estados, outros municípios e vieram com outros costumes, outras pessoas que chegavam que até caçoavam da nossa fala,

do nosso linguajar, vamos dizer. E isso também quebrou muito os nossos costumes, mudou muito nossas atitudes, acho que é mais ou menos isso. (nformação verbal).

A senhora Maria dos Santos Amorim também faz referências às festas do passado, na comunidade de Burajuba, da festa de São Tomé, por exemplo. Conta a história de visagem e lenda, sobre uma menina encantada por uma cobra, na beira do rio em São Francisco:

[...] tem o da menina que sumiu na beira do rio, a filha do Dico, lá em Barcarena, na cidade que o pessoal contava ainda era a vila do São Francisco, ele tinha uma mercearia assim que ficava na beiro do rio, porque a ribanceira era grande assim, e tinham as casas, aí então tinha essa menininha lá, ele tinha a mercearia dele, quando foi uma das vezes ela veio e disse que queria tomar banho, aí ele pegou deixou e saiu de lá da mercearia dele e saiu pegou ela e foi embora lá pro, ainda era escada, não era a ponte, que descia assim, chegou lá, deu banho nela e depois trouxe ela. Ele diz que deixou ela em cima do balcão e foi lá pra dentro da casa buscar a roupa dela pra vestir, quando ele voltou ele não viu a pequena lá, a menina. Aí procurou por ela e não achou, aí disseram, será que ela morreu afogada e ela foi lá pra dentro caiu e morreu. Aí foram pra lá, procuraram ela e só acharam uma cobra enrolada assim, só achavam uma cobra enrolada aí passou o tempo, e tinha uma ponte que atravessava assim e tinha um homem que ia pescar lá, quando o homem tava pescando lá e disque bateu na linha dele e ele puxou era uma pescada disque aquela pescada falou e ele disse que era a dita menina, eu não tô lembrado mais como era o nome dela, e pra ela se desencantar ele tinha que derramar um pouco de sangue na boca daquele peixe né pra ela se tornar menina, é isso que o pessoal contava né, aí disque essa cobra cresceu grande e esse negócio de curador que trabalhava e já baixou um curador e disse que a cobra já tinha crescido grande e já tinha saído lá pro rio maior.

P. A menina era a pescada ou era a cobra?

Aí dizem que o homem foi pegar a pescada né, e ela veio e falou, eu acho que isso era mentira, aí disse que pra desencantar a menina tinha que derramar uma quantidade de sangue na boca dela, aí depois o curador já baixou o negócio da serei, a cobra, sei lá quem foi, aí já disse que não desencantaram ela no tempo certo, como foi pedido, então que ela tinha saído de lá, no rio de fronte lá no Barcarena, então aí é essas mentira que o pessoal contava, eu já não acredito mais nisso não. (nformação verbal).

Lembra-se dos Negócios de Pajé de sua mãe, e deixa claro como estas histórias foram deixadas de lado, quando sua mãe seguiu a religião evangélica.

Ela ficou muito doente e depois já com o tempo já foram o negócio de pajé já ver ela, porque nesse tempo era o que surgia mais, e disse que ela tinha um dom que ela tinha que passar a cumprir, aí quando foi umas das vezes deu um negócio nela lá que tremeu, tremeu, tremeu e nossa casa de madeira só faltava derrubar a casa lá, e depois que passou ela ficou dura e não se mexia pra canto nenhum, e o papai dizia, ela vai morrer, aí foram chamar o pajé e ele disse assim; ah, é ela que tem que se endireitar com esse negócio de pajé, cumprir a sina dela, aí fizeram lá uns trabalhos e sei que passou esse negócio de ser pajé, espírito, essas coisas assim né, aí ela curava muita gente, as pessoas iam muito atrás dela, pra fazer trabalho e curar, essas

coisas assim e ficavam bom né, aí depois né, passou o tempo, meu pai morreu, aí ela ficou aí por fim ela morreu no meu canto, mas aí eu já tinha passado a estudar a bíblia, já tinha conhecido a verdade né, aí eu peguei e já não acreditei nesse negócio porque não fazia parte do que a bíblia diz. (nformação verbal).

As lendas, as ladainhas e a pajelança fazem parte do passado e representavam o modo de vida dos moradores das comunidades tradicionais. Por isso as mudanças provocadas pelo processo de urbanização e migração que o município sofreu a partir da década de 1980 foram perceptíveis para eles. Nesse aspecto, a destruição da igreja de São Tomé e o deslocamento de seus santos para o Bairro do Laranjal representam um símbolo de ruptura com a história de seus antepassados.

A senhora Adelaide dos Santos Santana88, da Comunidade de São Lourenço,

também expõe sua opinião sobre as alterações nas crenças, mitos e símbolos religiosos, ocorridas entre os moradores das comunidades tradicionais de Barcarena:

Eu também tenho um ponto de vista, que essa mudança, esse projeto teve a grande mudança cultural, foi assim, por falta dessa mão de obra, tiraram as pessoas nem deixaram o cultivo e tiveram que viajar pros outros estados, essa imigração cultural tem muita grande influência, o jeito de falar, de se vestir, porque hoje em dia mesmo, os pais de família eles têm que abandonar Barcarena pra trabalhar e buscar o dinheiro lá fora. Então com isso eles trazem na mala, eu sei porque a gente viajou, a gente traz muita coisa cultural que foge na nossa cultura, então já tá assim uma mistura de cultura. Não é de propósito, é porque vai e convive e quando já vê já traz outras coisas, outros costumes, no jeito de se vestir, então essa mistura, esse progresso entre aspas que a ALBRÁS, ALUNORTE trouxe acho que foi fictício porque eu mesmo já viajei em outros lugares aí e já vi os mesmo projetos, os mesmo sonhos que funcionaram, chega lá acaba com a mata, mas aí a população tá crescendo junto, coisa que a gente não vê em Barcarena. A grande pergunta que eu falo isso, engraçado porque o progresso, quando veio a ALUNORTE e a ALBRÁS, não funcionou, justamente por isso mão especializada na época não tinha, das grandes obras, foi que fizeram tipo assim um trabalho escravo, foi o que sobrou pros donos da terra, tanto é que a grande popularidade, as pessoas que têm aqui um pouco mais de... a riqueza mesmo em si, que a gente é mineiro, não é o pessoal dá que é conhecido o top de Barcarena. Na Vila dos cabanos tu vê a linhagem de lá, é mineiro, tu não vê um. (nformação verbal).

Na memória dos moradores, as festas religiosas marcaram intensamente o passado das comunidades. Isto pode ser comprovado em pesquisas e jornais, nos quais encontrou-se uma notícia sobre o carnaval em Burajuba e no Bacury, em uma coluna no Jornal Diário de Notícia chamada Cartas de um tabaréu, que sempre escrevia notícias de Mucuruça. Nela consta uma carta referente ao dia 10 fevereiro de 1891, designando Manuel Bastos da Pureza, o remetente, e o Senhor Domingos

das Neves, o destinatário, datada de oito de fevereiro de mil novecentos e noventa e um, na qual é narrado o carnaval em Burajuba. Assim diz a notícia:

Por aqui se festeja também o carnaval, e o bom povo da beira de todos os rios e igarapés deste distrito prepara-se para hoje a tarde, impiriquitado em suas montarias e igarités, assistir a passagem dos cordões fluvaes das tias Bernarda Angélica do Bacury e Ursula das Mercez do Burajuba.

Vae ser uma pandega compadre.

Eu faço parte deste cordão da tia Bernarda e vou vestido na conformidade do desenho que te envio, tirado a lápis pelo compadre Pimenta.

[...] As canoinhas que vão fazer parte dos cordões fluviais, estão passando todas embandeiradas e armadas de lindas folhas de palmeiras.

Estou compadre, na ponta dos pés, como por cá se diz, de tanta contentação. Viva o carnaval!

Viva o cordão da tia Bernarda! Viva eu, vestido de palhaço! E agora adeus. (nformação verbal).

É necessário enfatizar que o carnaval não é citado pelos moradores das comunidades tradicionais, no entanto estava também presente no mundo ribeirinho, pois os foliões desfilavam em canoas nas margens dos rios e igarapés, entre os diversos sítios e comunidades.

O progresso e a urbanização provocada pela irrupção desenvolvimentista do período militar alteraram o cenário, a reprodução social e cultural das comunidades tradicionais de Barcarena, de forma rápida e violenta, de modo que os seus rios e igarapés sofreram e sofrem sucessivas ações de destruições, como também as formas tradicionais de existência dos sitiantes.

Apesar desta tentativa aniquiladora da política de desenvolvimento em relação ao modo de viver e de existir das comunidades sitiantes de Barcarena, as comunidades tradicionais não desistiram de seus rios e igarapés e continuam lutando por sua territorialidade específica, no intuito de garantir os seus direitos, a saber, um modo de vida diferenciado daquele imposto pela lógica do progresso industrial.