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2 A EXISTÊNCIA DE TERRITORIALIDADES ESPECÍFICAS EM BARCARENA

E. M.LIMA J.F.A Furtado

3 PODER E PROCESSOS DESAPROPRIATÓRIOS DAS COMUNIDADES

TRADICIONAIS PELAS INSTITUIÇÕES E “AGENTES DO PROGRESSO”

A partir da década de 1970 o município de Barcarena recebeu as visitas dos “agentes do desenvolvimento”, por meio da CDI, ITERPA e SUDAM. Foram feitos os estudos demográficos e geológicos nos territórios que eram ocupados pelas comunidades de sitiantes. Uma equipe de técnicos da CDI foi recrutada para instalar o complexo industrial minerador, fato narrado pelo funcionário da CDI89, o qual

participou como avaliador e desapropriador dos sítios da área que pertencia à Prelazia de Abaetetuba:

Eu já estava no Estado através da META (Mosqueiro Empreendimento Turismo) que fez a ponte do Mosqueiro né, a ponte acabou em 76, e em 76 mesmo eu devo ter passado pra CEOP, é cedido, porque a CEOP tava, tava iniciando a obra de implantação do CENTUR, do Centro Turístico Cultural de Belém né, aí nessa época solicitaram que eu fosse pra lá porque achavam que eu, que eu tinha alguma experiência em, em fundação né [...], tá então eu fui pro CENTUR e em dezembro de 76 nasceu a CDI, a META fechou e nasceu a CDI, com a personalidade jurídica diferente, mas também uma S.A sabe como é, também uma economia mista, também vinculado ao governo e também o acionista majoritário do governo, né, tá e eu continuei ainda no CENTUR por algum tempo, algum, talvez um ano ou dois, quando eu fui chamado de volta pra CDI, se eu ia ou não ia querer passar pra CDI porque tinha serviço já, e o primeiro serviço era exatamente implantar a Albras e Alunorte [...] eu tive a felicidade já dessa vez encontrar o Sérgio Leão né, que até hoje tá no governo, é um técnico também da mais alta qualidade e o presidente era o César Mendes [...]

[...]aí a CDI nasceu né, nasceu como eu disse em dezembro de 76 e logo em abril de 77 é saiu um decreto estadual é, desapropriando cerca de 40 mil hectares de Barcarena, aí desapropriando pra que, pra implantação do projeto Albrás e Alunorte né, esse, essa área ela, [...] você sabe onde era a primeira versão da PA-150, que saía do cafezal, tá, o lado direito daquela via desde o cafezal até o antigo ramal de Beja que fica passando aquele trevo do Abaetetuba. (nformação verbal).

ITERPA, CDI, SUDAM e posteriormente CODEBAR trabalharam na reorganização espacial para a instalação dos grandes projetos. Para este propósito, tinha-se o que eles denominaram de força tarefa, a fim de organizar toda a infraestrutura para a instalação do complexo de mineração. A relação do ITERPA e CDI foi assim descrita:

Sempre que a gente pretendia uma área, a gente encomendava pro ITERPA, que é o órgão do governo que mexe com essa parte da demarcação e avaliação. [...] quer dizer o ITERPA fazia o levantamento topográfico encomendado pelo CDI, e também a parte discriminatória que entrava a parte

89 Entrevista realizada em 01 de abril de 2014. O funcionário ainda pertence ao quadro da CODEC

(antiga CDI). Era auxiliar técnico de operações na época das desapropriações em 1978, e atualmente exerce o cargo de engenheiro na empresa.

da avaliação. Então o ITERPA é que enviava para nós depois que fazia tudo isso, tudo transformado em dinheiro, baseado na tabela que o ITERPA tinha. (nformação verbal).

A SUDAM atuou na execução do planejamento do projeto minerador para Barcarena e organizou o Programa Especial de Desenvolvimento Regional- infraestrutura do Complexo Alumínio ALBRÁS/ALUNORTE, com a participação dos técnicos e arquitetos da instituição. Nesse contexto, o ITERPA possuía a responsabilidade de fazer um diagnóstico dos domínios territoriais dos moradores das áreas escolhidas para a instalação do Distrito Industrial, bem como da Vila dos Cabanos.

A CDI foi responsável pelas primeiras desapropriações, indenizou as famílias que moravam na área destinada para os projetos: Albrás, da Alunorte, do Porto, da Reserva Ecológica, da Eletronorte e de uma pequena parte do núcleo urbano. A CODEBARera uma empresa pública destinada inicialmente ao Ministério do Interior, tinha a responsabilidade de concentrar suas atividades na implantação do plano urbanístico de Barcarena, com prioridade para execução e administração de obras e serviços da Vila dos Cabanos. Teve como atividade prioritária a desapropriação da área destinada a este núcleo urbano.

Os procedimentos da desapropriação retiraram centenas de famílias de suas terras tradicionalmente ocupadas, recebendo indenizações mínimas, calculadas com a subvalorização das propriedades e benfeitorias, sem indicação de reassentamento. No período de 1979 a 1984, a CDI realizou 404 ações de expropriação em uma área de 40.000 hectares; por seu lado, a CODEBAR efetuou 155 desapropriações em uma área de 60.104 hectares.

Diante disso, a realidade socioeconômica e demográfica do município alterou- se de forma significativa. Em 1970, a população rural de Barcarena contabilizava por volta de 15.110 habitantes, e a população urbana era de apenas 2.388. Os dados confirmam que a população rural representava aproximadamente 86% da população total do município, logo, a maioria dos habitantes eram os sitiantes, que viviam nas margens dos rios e igarapés.

Dessa maneira, constituiu-se um clima de desconstrução de mundos e reelaboração de novos valores e conceitos que o Estado e a Empresa deveriam impor por meio de uma legitimidade. Naquele momento, a violência instrumentada se fez presente por meio da desapropriação, necessária para o que se pretendia

estabelecer. Com base em dispositivos legais, no caso, o decreto de desapropriação, os sitiantes de Barcarena são retirados de seu território e deslocados para outros lugares. Novos processos de apropriação de recursos (rios, igarapés, florestas, solo) foram violentamente impostos por uma via política e jurídica.

Os “agentes do desenvolvimento” das instituições encarregadas pela reorganização do espaço e instalação dos projetos que fazem parte do Complexo Minerador chegaram a Barcarena, deparando-se com a realidade de sitiantes moradores das margens dos rios e igarapés, os quais possuíam formas tradicionais de existência, em lotes de terras que variam de 1 a 500 hectares (MOURA; MAIA, 1989). Esses agentes chegaram entre 1979 e 1984, e assim construíram suas percepções sobre o município e seus moradores. Nas suas entrevistas expõem a percepção que tinham da vida dos sitiantes, que, na visão deles viviam isolados, como índios. O funcionário da CODEBAR exercia a função de legalização e desapropriação. Na entrevista90, faz uma breve descrição sobre estes cenários e seus sujeitos.

Questionado quanto ao impacto da saída dos sítios sobre os deslocados da CODEBAR, ele assim respondeu:

Agora o impacto da saída de seu sítio em princípio reclamavam assim, mas quando chegaram na casa nova, as mães não suportavam, mas os filhos adoraram desde criança até adolescente de 17 anos, agora os velho não suportavam e hoje em dia continuam tendo saudade do sítio, as crianças desde do primeiro momento vibraram com o negócio.

Não sei lhe explicar, as crianças e os adolescentes talvez gostassem, por passarem a viver em grupo, porque de uma casa para outra, a gente andava pra caramba, às vezes tinha três parentes próximos no mesmo sítio, mas daí pro outro era uma boa pernada, uma novidade para as crianças e adolescentes. Realmente o sítio deles era muito gostoso, moravam em beira de igarapé, tinham frutas, uns viviam em sítios bem cuidados, outros viviam igual índio. Teve um que era um pai e dois filhos, não sei se a mãe morreu só sei que mulher não tinha, era igual um índio esse cara, o 1º contato foi barra pesada. [...] era gozado você ver um cara daquele grosso para caramba, desde a roupa dos filhos era ele que fazia, tinha dois extremos, foi difícil o contato com ele. (nformação verbal).

O arquiteto e ex-funcionário da CODEBAR participou do Programa de Planejamento do Complexo de Mineração da SUDAM entre 1976 e 1982. Depois atuou na implantação do Plano Urbanístico de Barcarena quando assumiu o cargo de responsável técnico pela instalação da Vila dos Cabanos de 1982 a 2009. Em entrevista realizada em 30 de agosto de 2016, faz algumas considerações sobre os moradores que viviam nas áreas de atuação da Empresa CODEBAR. Quando

perguntado a ele se houve conflitos ou dificuldades nos deslocamentos dos moradores das comunidades tradicionais, respondeu:

Não. Simplesmente os núcleos urbanos que já existiam uma pequena população, e isso no plano foi considerado, nós chamamos de zona de proteção três. Se for ler dar para ver isso. Então Vila do Conde, São Francisco, Itupanema, todas elas foram mantidas e consideradas dentro de um perímetro urbano. Ninguém mexeu nelas. Olha só, nós até facilitamos alguns investimentos, melhoria da rede de água e criamos acesso para elas, na área do perímetro urbano da área da Vila dos Cabanos. Como dizia um amigo meu: não tem nada, o que tinha era uns índios, o que ele chamava. Era uma pequena comunidade de famílias praticamente, porque era relação quase que familiar, de parentesco. Um irmão casou com outro... Então que eu encontrei. A maior foi essa lá na cabeceira do Murucupi que tinham mais ou menos cinco casas. [...] E era uma coisa interessante lá, porque não tinha limites. Era quase que uma aldeia. O “cara” dizia assim aqui é do “fulano”, do filho, do parente, de um primo, ou irmão. Essa parte aqui é dele, mas aquele pé de cupuaçu passando aquela casa é meu e essa parte aqui é dele. Eles não tinham uma definição territorial. Por isso que eu estava te falando que é quase uma aldeia. Então era muito pulverizada e não houve problema nenhum, tá? Se eu for fazer um levantamento, tem lá no arquivo, no processo de desapropriação. Você tem uma coisa ínfima. Do pessoal que foi indenizado. Muito pouco. Porque se preservou a área onde se tinha um núcleo. (nformação verbal).

Para os técnicos da CODEBAR, os moradores dos sítios da área, a qual se constituiu Vila dos Cabanos, não tinham importância, pois, para eles, eram núcleos familiares e não povoados, porque viviam no que chamavam de aldeias, e por isso foram facilmente deslocados. Os povoados de Itupanema, São Francisco e Vila do Conde foram preservados, pois poderiam causar problemas na expropriação e deslocamento.

Esta mesma visão depreciativa foi descrita, em entrevista, pelo técnico da CDI91. Quando se refere aos moradores dos sítios desapropriados, afirma:

Então a gente pegava operário com um ano, e por exemplo depois de ter sido desapropriado e ter ido para uma vida urbana, vamos dizer assim, você pega a carteira de trabalho dele, ele tinha sete, oito carimbos de empreiteira durante um ano. Então ele trabalha não muito mais que um mês num empreiteira daquelas. Ele não consegue se enquadrar às regras, às normas. O “caboclo” ele não conseguia se enquadrar às regras, às normas. Eram pessoas que foram livres, eles sempre foram patrões de si mesmo, nunca tiveram patrão. Quer dizer, aí tá muito ligado aquela velha questão da “preguiça” do nosso caboclo, essa fantasia, esse folclore que se coloca né. Na realidade o projeto de vida dele era um projeto totalmente diferente. Eu sempre coloco o seguinte, o projeto de vida, eu posso até ser absorvido[...]. Na minha sensibilidade. Não é que o caboclo não tenha um projeto de vida, só que o projeto dele é um projeto muito curto, o projeto dele são os dois dias depois. A preocupação que ele tem é sempre se manter. Eles não plantavam nenhuma cultura perene. Você vê o seguinte, se você visitar a cultura da mandioca, você vê que não tem nenhum trato cultural, ele capina só até ela crescer um pouquinho. Ele tem camarão, ele tem peixe ele tem as frutas da

época sazonais, [...] geralmente pega para vender. Então praticamente a renda que ele tinha era da venda da fruta. [...] então você analisa a área, você vai ver que é intensamente utilizada. Se você sobrevoar você vai ver que não tem mais floresta. A cobertura de floresta foi praticamente toda removida pelas queimas, pelo constante uso. [...] Esse negócio do projeto de vida é um negócio assim impressionantemente. Então na visão deles, é muito curto. Eles são pessoas que não têm gana. (nformação verbal).

Os argumentos usados pelos “agentes do desenvolvimento” que atuaram no deslocamento das comunidades tradicionais na década de 70 e 80 demonstram a visão depreciativa e preconceituosa sobre os seus moradores, nas análises referentes à imposição da relação entre indigenista e índio no contexto de uma relação colonizadora e dominadora. Nesse ínterim, Oliveira (2000, p. 307) reflete que a

violência e a intolerância não são dimensões extemporâneas e anômalas da vida

social, mas sim componentes da sociabilidade e instrumentos para o estabelecimento de hierarquias sociais.

O técnico da CDI afirma: a coisa do Caboclo92, a coisa do índio é tudo muito ligado, ele não consegue articular um futuro que seja diferente daquilo que ele tem.

Neste aspecto, os “agentes do desenvolvimento” têm a visão colonizadora e acreditam que estão tendo a missão civilizatória diante daqueles selvagens aborígenes, habitantes dos sítios, das ribeiras dos igarapés e rios de Barcarena, que precisam sair do estágio da barbárie pelas mãos despretensiosas dos bravos progressistas, pois eles, os índios, não possuíam gana93.

O termo caboclo é usado como categoria de classificação social e relacional, no sentido que o define como alguém que pertence à classe baixa rural inferior, em comparação à classe urbana industrial branca. E os agentes e técnicos da CDI e CODEBAR usam esse vocábulo para reduzir os habitantes dos sítios a uma condição de inferioridade. Assim, incluem as qualidades rurais, descendência indígena e “não civilizada” (ou seja, analfabeta e rústica), que contrastam com as qualidades urbana, branca e civilizada (LIMA, 1999, p. 7). O conceito regional de caboclo vai além da

referência a essa população rural pobre. Inclui estereótipos de preguiçoso, indolente,

92 Segundo Oliveira (2016, p. 238), no português falado no Brasil o caboclo tem um sentido mais

ambíguo e encoberto, insinuando uma ascendência indígena, mas também usado em nível metafórico aplicado ao habitante do interior, de costumes simples e rudimentares. A identificação de caboclo como indígena foi residual e negativa. Nas análises sobre o termo caboclo, Lima (1999, p. 8) afirma que caboclo é uma categoria de classificação social empregada por estranhos, com base no reconhecimento de que a população rural amazônica compartilha um conjunto de atributos comuns, sejam atributos biológicos, econômicos, políticos ou culturais.

passivo e desconfiado. São tomados como evidência de inferioridade, pois são vistos como “primitivos”.

Nas entrevistas dos técnicos e “agentes do desenvolvimento”, estão presentes palavras e frases que demonstram o desconhecimento das práticas sociais e das territorialidades específicas das comunidades tradicionais, as quais foram desapropriadas, e, além disso, usavam argumentos de efeito depreciativo e inferiorizado, justificando a imposição de uma ordem lógica capitalista por meio de ações de desapropriação e desvalorização.

A definição do modo de viver das comunidades constituía-se de forma simplória e homóloga, descritas como pessoas que moravam mais para o centro, e que

moravam mais dentro do mato, pessoas que precisavam menos do contato com a civilização94. Há uma diversidade étnica brasileira que não pode ser compreendida a partir de categorias defasadas, construídas com base em modelos jurídicos coloniais. Faz-se necessário entender a história local e contextual para atravessar a fronteira étnica e mostrar criticamente o limite da etnificação (OLIVEIRA, 216, p. 71).

Os moradores dos sítios das terras desapropriadas pelos “agentes do desenvolvimento” também narram esses primeiros contatos, assim como o início da imposição violenta do progresso e a ruptura de seu modo de viver. Nas entrevistas sobre a ação de desapropriação da CODEBAR, os informantes narram que foram coagidos. Dessa forma, não havia outra escolha, como afirma José da Cruz Pinheiro95,

da Comunidade de Boa Vista:

[..] Foi quando o pessoal da CODEBAR foi lá, avisar da desapropriação, o Dr. Luziano e o Dr. Reis, ficaram fazendo pesquisa lá enganando a gente. Nós não íamos sair de lá por causa da CODEBAR, mas a gente vivia coagido, ninguém podia botar moleque para estudar nem fazer uma tarefa de roça. Ela queria é desmatar tudo, tirar a madeira do mato e não dar pra gente, e o terreno era no nome do meu pai, aí a mulher resolveu que a gente pegasse a mixaria da CODEBAR e saísse fora, não deu nem pra gente fazer uma casa, viemos de lá, eles prometeram emprego para nós, mas não deu, nós ficamos andando aí pelo “bota fora” quase um ano nesse “bota fora”, procurando cobre, alumínio, miúdo de galinha que jogavam fora pra mim dar para os moleques, eram sete moleques”. (nformação verbal).

Assim, na voz de dona Raimunda da Costa Correa96, do Sítio Nazaré:

Foi o Dr. Luziano e o Dr. Reis da CODEBAR, chegaram em casa um dia e me chamaram que queriam falar comigo sobre o meu deslocamento de lá, eu falei que não pretendia sair de lá, eles disseram: não! Mas tem que sair, a

94Auxiliar técnico da CDI em entrevista no dia 29 de setembro de 1988. 95 Entrevista realizada em 03 de dezembro de1987.

senhora sabe que isso é do governo e ele que manda a gente fazer isso. Eu ainda me arrepiei lá, porque no começo a gente é valente que só, mas depois passa tudo, parece que eles jogam um negócio na gente e acaba aceitando tudo[...]”. (nformação verbal).

Mas houve resistências às propostas de deslocamento e indenização realizadas pelos funcionários e técnicos da CODEBAR, como descreve o senhor Domingos Luís da Silva97, do sítio Cajueiro:

P. E quem foi da Codebar o senhor lembra? R. Foi Luziano, Reinaldo, Zé Maria, era uns três. P. Aí como foi que eles chegaram aqui?

R. Eles chegaram aqui, dando proposta pra mim, que a lei era federal que