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4.1 MUDANÇAS REGULATIVAS E POLÍTICAS PÚBLICAS

4.1.3 Políticas Públicas

4.1.3.2 FIES – Fundo de Financiamento ao estudante do Ensino Superior

No ano de 2001 foi aprovada a Lei nº 10.260 que “dispõe sobre o Fundo de

Financiamento ao estudante do Ensino Superior e dá outras providências”, o que

ocorreu após três reedições das medidas provisórias que o propunham. O FIES

substituía o programa de crédito educativo criado em 1992 (MENDES, 2015), sendo

seu principal objetivo o de financiar a mensalidade de estudantes matriculados no

ensino superior privado. Caso exista disponibilidade de recursos no fundo relacionado

ao FIES, ele também poderá financiar cursos de educação profissional e tecnológica,

mestrado e doutorado. (MENDES, 2015).

O programa não prevê o pagamento em dinheiro para as IES, mas sim na

forma de títulos públicos que serão utilizados preferencialmente na quitação de

tributos e contribuições previdenciárias. Caso o volume de títulos supere as dívidas

tributárias da IES, ela poderá revende-los para o governo federal, em rodadas de

compras que ocorrem trimestralmente. Esse mecanismo que visa reduzir a

inadimplência tributária de IES. (MENDES, 2015).

Ao longo dos anos o programa passou por uma série de mudanças gradativas.

Inicialmente, o programa previa o financiamento de até 70% do valor da mensalidade,

sendo esse percentual reduzido para 50% no ano de 2005. Em seguida, e em 2007,

com a publicação da Lei 11.552/2007, o valor passou para 100%. (OLIVEIRA;

CARNIELLI, 2010). Essa lei também ampliou o programa para alunos de cursos de

mestrado e doutorado, caso exista excedente de verbas no fundo após atender os

alunos de graduação. O financiamento pode ser solicitado por alunos matriculados em

cursos com nota igual ou superior a três no SINAES. (BRASIL, 2010).

Ao longo dos anos o programa sofreu alterações nas práticas de juros

definidas para os financiamentos. No ano de 2006 foi diferenciada a taxa de juros para

licenciatura, pedagogia, normal superior e CST, que tiveram sua taxa reduzida para

3,5% ao ano, enquanto alunos matriculados em outros cursos deveriam pagar a taxa

de 6,5% ao ano. Posteriormente, no ano de 2009, ocorreu uma redução da taxa de

juros dos outros cursos, que também foram igualados em 3,5% ao ano. Esse valor

sofreu nova redução em 2010, para 3,4% ao ano, válido para todos os cursos.

Recentemente, no ano de 2015, ocorreu uma alteração na política do FIES que

impactou na elevação da taxa de juros para 6,5% ao ano para todos os cursos,

conforme apresentado no QUADRO 13.

QUADRO 13. TAXA DE JUROS PARA FINANCIAMENTOS REALIZADOS VIA FIES

Ano Resolução BCB Taxa licenciatura, pedagogia,

normal superior e CST

Taxa outros cursos

2006 3.415 3,5 % a.a. 6,5% a.a.

2009 3.777 3,5% a.a. 3,5% a.a.

2010 3.842 3,4% a.a. 3,4% a.a.

2015 4.432 6,5% a.a. 6,5% a.a.

FONTE: Elaborado pelo autor, baseado nas resoluções do Banco Central do Brasil (2015)

O ano de 2010 foi marcado por mudanças significativas no processo de

contratação de financiamento. Conforme divulgado pelo MEC (2011) as principais

mudanças eram: o fim do prazo para que o estudante se inscreva no financiamento,

o que seria realizada pelo sistema informatizado do Fies (Sisfies); a redução da taxa

de juros para 3,4% ao ano, já citada; a ampliação os tipos de fiadores aceitos e a

ampliação do prazo para pagar.

Essas alterações trouxeram mudanças significativas na procura pelo FIES.

Entre os anos de 2004 e 2010 a assinatura de novos contratos variou entre 32 mil e

77 mil novos contratos, sendo o menor valor no ano de 2009. A partir de 2009 começa

a ocorrer um crescimento constante e intenso do número de novos contratos

formalizados, conforme apresentado na FIGURA 10.

FIGURA 10 –NOVOS CONTRATOS FORMALIZADOS E ALUNOS BENEFICIADOS PELO FIES

FONTE: Mendes, 2015

Entre o ano de 2010 e 2014 o número de novos contratos cresceu de 76 mil

para 732 mil. O número de alunos beneficiados pelo programa também cresceu nesse

período, alcançando 1,9 milhão de alunos em 2014, o que equivale a 43% dos alunos

matriculados no ensino superior privado presencial em 2013.

A FIGURA 11 analisa a relação entre a ampliação do número de ingressantes

em cursos presenciais de IES privadas, público beneficiado pelo FIES, e o número de

contratos formalizados por ano no FIES. Entre os anos de 2004 e 2009 foram

formalizados, em média, 48.932 novos contratos de FIES, atingindo seu pico no ano

de 2005, com a formalização de 77.212 contratos.

FIGURA 11 – CRESCIMENTO NO NÚMERO DE MATRÍCULAS EM CURSOS PRESENCIAIS EM

IES PRIVADAS E NÚMERO DE CONTRATOS DE FIES FORMALIZADOS

FONTE: Censo da Educação Superior (2003-2013)

Nesse período, não existe relação aparente entre os novos contratos

formalizados no FIES e o crescimento do número de ingressantes, visto que, no ano

do pico de novos contratos (2005), ocorreu uma leve redução no crescimento do

número de ingressantes em relação ao ano anterior, assim como no ano de 2009 em

que, apesar da estabilização do número de contratos de FIES formalizados, ocorreu

uma forte redução do número de ingressantes em cursos presenciais de IES privadas.

No ano de 2010 o número de contratos de FIES formalizados apresenta um leve

crescimento, chegando a 76.165 novos contratos e o número de alunos ingressantes

se estabiliza em relação ao ano anterior, com um leve crescimento de 12.712 alunos.

Conforme apresentado na FIGURA 11 o crescimento do número de novos

contratos de FIES nos anos de 2011 e 2012 foram acompanhados pela expansão no

número de ingressantes no ensino superior. Em 2011 foram celebrados 154.250

contratos e ocorreu o crescimento de 92.272 no número de ingressantes, alcançando

o total de 1.458.463 ingressantes, número semelhante ao alcançado no ano de 2007

e ainda inferior ao número de ingressantes do ano de 2008. A forte ampliação no

número de novos contratos do FIES formalizados em 2012 (377.780) resultou em forte

expansão do número de ingressantes em cursos presenciais de IES privadas,

chegando ao total de 1.705.086 alunos ingressantes. No entanto, a nova expansão

em contratos de FIES formalizados no ano de 2013, que totalizaram 559.905 novos

contratos, não foi acompanhada da expansão do número de ingressantes, que foi bem

modesta nesse ano, crescendo apenas 27.519 novos ingressantes, resultando no total

de 1.732.605. Esses dados podem indicar um possível limite de demanda de para

cursos presenciais de ensino superior em IES privadas na casa de 1,7 milhões de

alunos ingressantes por ano.

Vale ressaltar que as mudanças propostas ao FIES, em 2010, ocorreram após

o primeiro ano de redução do número de ingressantes em cursos presenciais no

ensino superior privado, conforme apresentado na FIGURA 11. Essa foi uma das

políticas públicas adotadas pelo governo com o objetivo de aquecer a economia

brasileira.

Essa ampliação do número de financiamentos resultou na ampliação da

proporção de ingressantes em cursos presenciais de IES privadas, conforme

apresentado na FIGURA 12, essa porcentagem cresceu de 5,57% em 2010 para

32,32 em 2013.

FIGURA 12 – PORCENTAGEM DE NÚMERO DE CONTRATOS DE FIES FORMALIZADOS EM

RELAÇÃO AO NÚMERO DE INGRESSANTES EM CURSOS PRESENCIAIS DE IES

PRIVADAS

FONTE: Censo da Educação Superior (2003-2013)

O rápido crescimento do FIES fez com que algumas IES priorizassem a

captação de alunos via financiamento. O relatório da Hoper (2015), apresentado na

FIGURA 13, indica que 10% das instituições que aceitam que os alunos utilizarem o

financiamento do FIES tiveram mais de 50% dos alunos nessa condição. O relatório

indica que quando acima de 21% dos alunos utilizam o FIES já deve ser considerado

como risco moderado para a sustentabilidade da organização. Segundo o relatório

1.456 IES aceitavam que os alunos utilizassem o financiamento via FIES.

FIGURA 13 – ESCALA DE RISCO DAS IES COM FIES

FONTE: HOPER (2015)

O rápido crescimento do número de contratos vinculados ao FIES fez crescer

o desembolso do governo com o programa, que passou de valores próximos a 1,2

bilhões de reais entre os anos 2004 e 2010 para 13,7 bilhões de reais, conforme

apresentado na FIGURA 14.

FIGURA 14 – DESEMBOLSO GOVERNO FEDERAL PARA FIES

FONTE: Mendes (2015)

Conforme destacado por Mendes (2015), consultor legislativo do Senado

Federal, as despesas relacionadas ao FIES em 2014 tiveram um crescimento de

1.100% em relação às despesas de 2004 e representaram 15% de toda a despesa

federal em educação. A elevada despesa financeira levou o governo federal a realizar

uma série de ajustes ao programa no final do ano de 2014 e ao longo do ano de 2015.

Dentre as principais mudanças destacam-se o aumento da taxa de juros para 6,5%

ao ano, alteração na recompra de títulos das IES e inclusão de critérios para seleção

dos alunos que receberão o financiamento. Devido à recente realização dessas

mudanças e a indisponibilidade de dados – tais como número de alunos matriculados

e contratos formalizados – o impacto dessas mudanças não será analisado.

4.1.3.3 PROIES - Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento das