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2.1 CAPACIDADES DINÂMICAS

2.1.3 Lacunas e desafios nos estudos de capacidades dinâmicas

Apesar dos inúmeros avanços na abordagem das capacidades dinâmicas,

permanecem ainda lacunas a serem superadas. Estes são desafios teóricos,

empíricos e metodológicos.

Um caminho para superar os desafios teóricos é a construção de pontes entre

teorias. O que Oliver (1997b) fez para analisar os fatores determinantes do processo

de vantagem competitiva sustentável por meio da união entre a VBR e a Teoria

Institucional é um exemplo de ponte teórica que pode ser construída. A autora afirma

que na organização a seleção de recursos é afetada tanto por fatores estratégicos

(VBR) como também por fatores institucionais (Teoria Institucional), e que no

ambiente a hetereogenidade de recursos é afetada por imperfeições do mercado

(VBR) e pressões isomórficas (Teoria Institucional). Outro exemplo de relação do uso

conjunto de teorias distintas é o trabalho de Foss e Foss (2008) que relacionou a

Teoria Baseada em Recursos com a Teoria dos Custos de Transação, demonstrando

que argumentos da economia dos direitos de propriedade auxiliam a compreender

como os empreendedores percebem oportunidades e realizam escolhas estratégicas.

Ao propor a construção da ponte entre a VBR e a Teoria Institucional Oliver

(1997) inicia descrevendo que a VBR não tem examinado o contexto social no qual

estão imersos os recursos que são selecionados pelas organizações. Assim, a autora

propõe estender a VBR ao combina-la com insights oriundos da Teoria Institucional,

pois esta analisa o papel da influência e pressão social sobre as ações

organizacionais. Após esta reflexão, Oliver (1997b, p. 700) apresenta uma série de

implicações que o diálogo com a Teoria Institucional trás para a VBR:

(1) organizações podem ser cativas [prisioneiras] de sua própria história e

tomar decisões inapropriadas sobre recursos; (2) custos irrecuperáveis

podem ser mais cognitivos do que econômicos e conduzir para escolhas

não-ótimas sobre recursos; (3) apoio cultural para o investimento em recursos

pode ser um determinante importante para o seu sucesso; (4) organizações

podem ser relutantes, mais do que incapazes, em imitar recursos e

competências, especialmente quando estes recursos carecem de

legitimidade ou aprovação social; e (5) as influências sociais exercidas sobre

as organizações reduzem o potencial da heterogeneidade organizacional.

Crubellate et al. (2008) apresentaram a proposta de incorporar elementos da

Teoria Institucional nos estudos da VBR, gerando a VBRL – Visão Baseada em

Recursos Legítimos. Segundo os autores, a escolha dos atores da organização é

mediada pelos seguintes contextos: a) contexto material-social (recursos tangíveis,

recursos intangíveis e capacidades), b) contexto institucional (legitimidades legal,

normativa e cognitiva); e c) interpretação dos atores. Desse modo, a escolha na

organização e a ação estratégica são entendidas como resultante de uma eficiência

possível, não existindo a eficácia plena. Um exemplo é o aspecto ressaltado por

Danneels (2010), em sua pesquisa empírica, de que o modo como os gestores

interpretam o ambiente e os recursos organizacionais influenciou a escolha

estratégica. Esse debate será aprofundado na sessão sobre interpretação.

Teece (2009, p. 107) descreve que "[a abordagem das capacidades

dinâmicas] é um quadro teórico integrativo e interdisciplinar". De maneira semelhante,

Wall et al. (2010, p. 5) afirmam que "a visão das capacidades dinâmicas só poderá

crescer em importância se for integrada com outras correntes teóricas existentes, mais

do que se tentar existir independentemente." Portanto, o uso da Teoria Institucional

para estudar capacidades dinâmicas encontra suporte em pesquisadores do tema.

Por sua vez estudiosos da Teoria Institucional incentivam o diálogo com os

estudos de capacidades dinâmicas, pois consideram que

a teoria das capacidades dinâmicas compartilha o interesse da teoria

institucional em como as práticas organizacionais tornam-se imbricadas no

repertório cognitivo das rotinas organizacionais e a maneira pela qual as

mudanças ambientais moldam-nas. (GREENWOOD; et al., 2008, p. 29).

Apesar do grande número de publicações recentes, e desses avanços, a

abordagem das capacidades dinâmicas ainda pode ser considerada emergente e em

construção. (TEECE, 2014a).

A segunda lacuna está nas pesquisas teórico-empíricas. Ao fazer a revisão

bibliográfica sobre o tema, Barreto (2010) ressaltou a predominância de trabalhos

teóricos sobre o tema e a falta de pesquisas empíricas. Nos últimos anos cresceu o

número de trabalhos empíricos, porém em muitos casos ainda permanece o desafio

de operacionalização do conceito.

Ressalta-se que os estudos teórico-empíricos tem privilegiado o setor

industrial, como a pesquisa de Shuen et al. (2014) sobre o setor de óleo e gás,

empresas do setor de tecnologia (e.g. Pandza e Thorpe (2009)) e grandes empresas

como nos estudos de Sambharya e Lee (2014) que pesquisaram multinacionais com

sede na Europa, Japão e Estados Unidos da América, ou da pesquisa de Harreld et

al. (2007) sobre a IBM. Poucas pesquisas foram realizadas no setor de serviços como

a de Jantunen et al. (2012) no setor de revistas, e de Kindström et al. (2013) que

realizaram oito estudos de casos de empresas prestadoras de serviços. No

levantamento bibliográfico para a pesquisa não foram identificados estudos no campo

educacional.

Metodologicamente, a terceira lacuna nos estudos do campo, pode-se

observar que há um predomínio de estudos quantitativos. Visando superar desafios

identificados ao revisarem o tema de capacidades dinâmicas, Ambrosini e Bowman

(2009) propuseram a utilização de métodos além dos estudos quantitativos. Todavia,

as pesquisas já publicadas sobre o tema também podem orientar a realização de

trabalhos futuros. Uma possibilidade é a de explorar longitudinalmente os dados por

meio de coleta de dados em tempos distintos. Alguns exemplos são o trabalho de

Danneels (2008), que, contribui ao mostrar uma melhor compreensão das mudanças

que ocorreram nas organizações no período. Drnevich e Kriauciunas (2011)

analisaram a variação de quatro capacidades em três anos distintos e como a

tecnologia da informação –a capacidade dinâmica do caso – auxiliou no processo de

criação de novas capacidades. Os trabalhos de Mahmood, Zhu e Zajac (2011) e

McKelvie e Davidsson (2009) também podem servir como referências para as

pesquisas longitudinais.

Alguns autores recomendam que novas pesquisas sejam conduzidas por

meio de abordagem qualitativa (e.g. NARAYANAN et al.,2009; DANNEELS, 2010) e

longitudinal (e. g. MCKELVIE; DAVIDSSON, 2009; MAHMOOD et al.,2011), que

possibilitem compreender como ocorre o processo de desenvolvimento das

capacidades dinâmicas e a relação entre os diversos conceitos propostos. Esta

recomendação é acatada aqui, pois este é o objetivo da tese.

Ao propor o uso de duas teorias, sendo uma delas de vertente sociológica

(Teoria Institucional), e ao entender que as capacidades dinâmicas podem ser

estudadas enquanto processo, considera-se que o olhar para esse fenômeno pode

ser realizado a partir de uma nova perspectiva, a social construtivista. O

posicionamento foi adotado por considerar que algumas das lacunas identificadas na

teoria dependem de um novo olhar para o processo, que pode ocorrer por meio de

outras epistemologias, teorias e métodos. A construção desta ponte e a revisão do

conceito estão baseadas no pressuposto epistemológico que a realidade é

socialmente construída, conforme descreveram Berger e Luckmann (2000).

O pressuposto epistemológico de que a realidade é socialmente construída

pode ser considerado alinhado com a abordagem das capacidades dinâmicas da

organização pelos seguintes fatores. Primeiro, por resgatar a importância da

dependência do caminho para o desenvolvimento das competências organizacionais.

Segundo, ao possibilitar a superação da ênfase demasiada no papel do esforço e da

razão no processo decisório, conforme criticam Hodgkinson e Healey (2011). A visão

social construtivista ressalta a recursividade presente entre a ação e a estrutura

organizacional, ou seja, a ação na organização é habilitada e restringida pela estrutura

e pode tanto reproduzir esta estrutura como alterá-la.

Em suma, dadas as lacunas apontadas, neste trabalho optou-se pela análise

das capacidades dinâmicas como uma abordagem por meio da TBR, para analisar a

reconfiguração de recursos, e da Teoria Institucional, para analisar o papel da

interpretação e a influência das lógicas institucionais. Ao propor o diálogo entre

estudos estratégicos e organizacionais de vertente sociológica e de vertente

econômica, a presente tese procura jogar luz sobre aspectos não enfatizados,

ressaltando outros temas centrais que são fundamentais para compreender o

processo de desenvolvimento das capacidades dinâmicas. Esta opção se justifica

porque se considera que há outros elementos que afetam a renovação da organização

por meio das capacidades de monitorar, apropriar e reconfigurar recursos no processo

das capacidades dinâmicas, como a interpretação do ambiente e dos recursos

organizacionais (TEECE, 2009; DANNEELS, 2010) e a influência de padrões societais

e de campo. Desta forma, pretende-se contribuir teoricamente. Quanto a lacuna

empírica, a escolha de uma organização situada em um setor de serviços ainda não

estudada traz contribuições para compreender o fenômeno em outro contexto.

Metodologicamente, a opção por estudos qualitativos é acatada para contribuir na

compreensão de um caso em profundidade.

Assim, a próxima sessão começa a tratar da interpretação enquanto uma

categoria que é relevante para compreender como o monitoramento contínuo do

ambiente (sensing) resulta em inovações, seja de produtos, processos ou serviços por

meio das decisões (seizing) e da reconfiguração de recursos (reconfiguring).