2 CONTEXTUALIZAÇÃO DA TEMÁTICA DO ESTUDO
2.1 Olhares a partir da compreensão do corpo e corporeidade
2.1.2 Filosofia e a tríade do pensamento filosófico
A filosofia clássica nasceu com Sócrates, filósofo ateniense (ano 470 a.C.), o primeiro da tríade da Filosofia Clássica Grega. Ele fundou o pensamento ocidental, e o alcance dos seus pensamentos ultrapassaram as ruas de Atenas
através da política, cultura, estética e ética. Atribui-se a ele o nascimento do que chamamos hoje de democracia. Este filósofo não registrou nada por escrito, valorizava o diálogo e o discipulado (MARCONDES, 1997). A genialidade de suas ideias o levou à morte, pois para seus inimigos não se poderia dizer coisas julgadas como verdade sem que antes fosse verificada a veracidade.
Sócrates sustentava, ainda, a noção do corpo como uma coisa má, pois durante todo o tempo em que tivermos o corpo, e nossa alma estiver misturada com essa coisa má, jamais possuiremos completamente o objeto de nossos desejos (PINTO; JESUS, 2000). Sócrates ocupou-se mais com a alma, e seu discurso excluía o corpo do ser homem. Para ele, o homem era sua psique3; a
matéria física não representava o que era ser o homem, pois os pensamentos elevavam a alma. Futuramente, seu principal discípulo inauguraria a dicotomia entre corpo e alma.
A experiência mostra-nos efetivamente que, para conhecermos com clareza um dado objeto, é indispensável que nos libertemos da nossa realidade física e observemos as coisas em si mesmas, pelo simples intermédio da alma. E então sim, ser-nos-á dado, ao que parece, alcançar o alvo das nossas aspirações, essa sabedoria de que nos dizemos amantes – depois de morrermos, já não em vida, como a lógica do argumento pressupõe. Com efeito, se, associados ao corpo, nada podemos conhecer com clareza, das duas uma: ou tal aquisição da sabedoria não existe, ou apenas se concretiza após a morte, precisamente quando (e não antes...) a alma existir em si por si, independentemente do corpo (PLATÃO, 1972).
Pensar no mundo enquanto estrutura natural levou os gregos a desenvolverem o pensamento sobre as questões acerca do corpo, pois nele cabe a vida e de modo cíclico essa vida um dia dará espaço à morte: o par correspondente do corpo é o cadáver, da vida é a própria morte. O conhecimento das coisas do mundo e do cosmos - espaço celeste, realidade ordenada enquanto mundo natural (MARCONDES, 1997) - nutre as reflexões dos gregos pré-socráticos acerca da alma e do corpo.
Para Platão, discípulo de Sócrates, (século IV a.C.), filósofo grego de grande destaque para o pensamento ocidental, considerava o corpo inferior à alma. O corpo, para Platão, era comparado à uma prisão, imperfeito, perene,
enquanto o “eidos4” de alma transcendia à matéria inferior do corpo, sendo pura,
imortal e perfeita, os sentidos embaçavam nossas ideias:
A Teoria das Ideias, núcleo principal da doutrina de Platão, será o fundamento teórico deste antagonismo corpo-alma. Por um lado, a alma participa de uma essência inteligível, complexa "que comporta necessariamente como sua determinação e seu acabamento a essência da vida, (ao contrário) do corpo fatalmente mortal que participa de uma essência que comporta necessariamente, com a dissolução, a mortalidade” (LATERZA, 2011, p. 244).
Platão inaugurou a separação entre corpo e alma, dizendo que a existência humana é sensível (corpo) e inteligível (alma), o corpo é inferior à alma porque se afasta do divino, se corrompe. Há clara hierarquização na relação da alma com o corpo, na qual este se subordina àquela, embora haja, simultaneamente, mútua dependência, ainda que desigual, por conta da própria diferenciação presente na relação de subordinação (OLIVEIRA; ABREU, 2015).
Para Aristóteles, aluno de Platão, um dos fundadores da Filosofia Ocidental, o homem não tem alma e corpo separados, mas é uno, substancialmente falando. O corpo exerce uma função material cognitiva, significa dizer que receber os sensíveis no corpo é tão logo determinar de qual sensível se trata, significa sofrer uma afecção correspondente a tal sensível a ser lida pela alma (AGGIO, 2009).O homem pode alcançar autorrealização por meio dos vínculos sociais e, para o pensamento aristotélico, a natureza humana o faz interagir com o outro, por isso o homem é um ser político.
Aristóteles não concordava com o dualismo de Platão sobre corpo e alma, ele considerava que o homem era composto de matéria e forma, indissociáveis; a matéria só existe na medida em que possui uma determinada forma, a forma, por sua vez, é sempre forma de um objeto material concreto (MARCONDES, 1997).
A alma imortal é incorruptível, vivia no mundo das ideias até ser “aprisionada” no corpo, ao corpo o conselho platônico era despojar-se. O corpo era um impedimento à elevação da alma, as atividades relacionadas ao intelecto eram consideradas nobres, reservadas à aristocracia, fomentava o chamado
"ócio prestigioso", e relegavam às classes inferiores os trabalhos braçais (DUMONT; PRETO, 2005, p. 7).
Apresenta-se abaixo figura representativa sobre a filosofia clássica e as visões do corpo.
Figura 3 - A Filosofia Clássica e as visões sobre o corpo
Homero (século IX ou VIII a.C.), poeta grego, ocupa-se em escrever sobre o corpo, cuja expressão é extremamente semelhante àquela encontrada em outras civilizações antigas e deriva principalmente da observação ou da
realização de sacrifícios (CASTRO; LANDEIRA-FERNANDEZ, 2011), alguns órgãos do corpo humano já eram conhecidos, porém, as suas funções não. Homero é anterior a Hipócrates (pai da medicina ocidental), viveu no ano 1200 a.C. e foi o primeiro a ensaiar os primeiros indícios da relação corpo e alma ou mente.
Homem e fenômenos físicos passam a ser o centro de discussões filosóficas, a relação com os deuses faz da imagem do corpo algo perene, incompleto, diante da simbologia do belo, do perfeito que só poderiam pertencer aos deuses.
Essa filosofia da natureza influenciou diretamente a visão de organização e funcionamento do corpo humano. O homem é compreendido como parte da natureza universal e, portanto, indivíduo aos mesmos princípios os quais regeriam os fenômenos físicos (CASTRO; LANDEIRA-FERNANDEZ, 2011, p. 801).
Importante destacar que Homero não desconsiderou o psiquismo, só poderia pensar sobre o corpo se houvesse uma alma.
Entre os pré-socráticos, a relação corpo-alma moveu o interesse de alguns filósofos. Alcmeão de Cróton (séc. V a.C.) ressalta que a multiplicidade das coisas humanas se dá em séries de pares correspondentes ímpar e par, masculino e feminino, unidade e pluralidade, direito e esquerdo, repouso e movimento, luz e sombra, bom e mau. (FERREIRA, 2006, p. 10).
Os gregos homéricos não tinham ainda desenvolvido uma concepção unitária da vida psíquica, o saber orgânico não comportou a problematização do funcionamento do corpo, portanto, a filosofia que é o estudo da natureza, iniciou a discussão sobre os efeitos dessa natureza no próprio corpo.
A guerra, por exemplo, permitia o contato dos gregos homéricos com o que era corpo e se transformara em cadáver, o corpo morto, sendo uma possibilidade de produção de conhecimento. Não é de estranhar o uso de órgãos do corpo para tornar determinado conceito mais próximo da realidade. Na verdade, os poemas homéricos falavam do corpo em si “enquanto totalidade visível” (DIOGO, 2015, p. 360).
Hipócrates (segunda metade do século V a.C.) continua as reflexões poéticas de Homero e as leva para a prática: o significado de saudável estava atrelado ao equilíbrio dos estados de humor, do contrário o corpo adoecia. Foi Hipócrates quem valorizou a alimentação equilibrada como remédio para
doenças e manutenção da saúde. Os conhecimentos desenvolvidos por ele retiram do humor dos deuses a responsabilidade pelas doenças dos homens. O mítico fica em segundo plano, e a anatomia, os fluidos do corpo, substituem “os castigos” das divindades.
A noção de diagnóstico e prognóstico começam a fazer parte do cuidado às doenças, Hipócrates sugeria terapias e mudanças na dieta, acreditava que a enfermidade era efeito natural do corpo:
Acreditando no poder da physis ou força vital orgânica (vis medicatrix) em restabelecer a saúde perdida – associando a deficiência de uma terapêutica específica que pudesse estimular esse princípio vital no sentido da cura – os médicos hipocráticos limitavam-se a afastar os impedimentos à recuperação da saúde, dando ao corpo (força vital) toda a ajuda possível por meio de repouso e dietas (TEIXEIRA, 2002, p. 111).
Ele estudou as aflições mentais, nas quais o cérebro era considerado o órgão de julgamento de emoções, tratava convulsões e sua teorização dos humores contribuíra para o aprofundamento de enfermidades como a melancolia e a histeria.