2 CONTEXTUALIZAÇÃO DA TEMÁTICA DO ESTUDO
2.1 Olhares a partir da compreensão do corpo e corporeidade
2.1.4 Modernidade se anuncia: Descartes e a dicotomia corporal
Passada a idade obscura para o conhecimento, a Idade Moderna inaugura o frescor de novos conhecimentos e descobertas em várias ciências. O Renascimento foi um movimento cultural e das artes, responsável por devolver à humanidade a beleza estética rumo à valorização da liberdade humana enquanto dirigente de sua própria vida e não apenas como massa de manobra para o Estado.
A valorização do indivíduo e da subjetividade desloca o lugar da certeza, da verdade e dos valores, cria uma oposição à tradição, às instituições e à autoridade externa (FERREIRA, 2006). O homem é o centro das artes, seu corpo retorna ao status de beleza harmoniosa entre as partes. A modernidade é marcada por um físico, matemático e filósofo francês chamado René Descartes, considerado o pai da modernidade; nesse ponto histórico as explicações acerca da natureza são dadas a partir da luz racional, com a crise institucional da Igreja.
Figura 5 - A balança da alma e corpo em Descartes
O teocentrismo é substituído pela racionalidade, sendo necessário despir- se da fé para explicar que o homem traz dentro de si a possibilidade de conhecimento (MARCONDES, 1997) e não mais a interferência do humor dos deuses, não mais as magias para curar, ler o mundo sem as influências dos cosmos, porém, a partir da razão. Esse movimento ganhou força na Modernidade. A possibilidade da dúvida abriu o caminho para o conhecimento do que é o homem despido de “subjetividade”, e separado de sua alma.
Descartes retoma a discussão do dualismo do corpo iniciado na Grécia e essa divisão rompe com a influência da religião nas discussões acerca do dualismo psicofísico:
[...] lançou os fundamentos do materialismo mecanicista com sua teoria dualista, que separa radicalmente o espirito da matéria. O homem passa a ser visto em uma perspectiva determinista, sendo um joguete submetido às forças da natureza, do meio e da raça (SILVA, 2009, p. 34).
A balança apresentada pelo autor representa a separação dessas instâncias que coexistindo no homem pesam para o pensamento moderno, não se tocam, mas ocupam a mesma estrutura, dividir para conhecer, mas há um equívoco em pensar que René Descartes não se ocupou do espírito:
Era uma substância cuja essência ou natureza consiste apenas no pensar, e que, para ser, não necessita de nenhum lugar, nem depende de qualquer coisa material. […] esse eu, isto é, a alma, pela qual sou o que sou, é inteiramente distinta do corpo […] para pensar é preciso existir […] julguei poder tomar por regra geral que as coisas que concebemos mui clara e mui distintas são todas verdadeiras (DESCARTES, 1979, p. 47).
A influência da física faz Descartes conceber que o corpo é uma máquina; ao observar a natureza, também a considera mecânica como uma engrenagem preparada e programada. Resta questionar: por onde anda a complexidade das emoções, a expressão da alma em nós? O biológico não comporta o objeto corpo, e seria o corpo um mero objeto? Entende-se que o corpo é falho inclusive, e o que dizer dos sintomas? O pensamento cartesiano não exclui a alma, mas a retira duvidosamente do mecanismo da própria matéria por onde ela se manifesta.
O pensamento de Descartes influencia o século XVIII, entre as luzes do Iluminismo e o fim da Idade Moderna. Este século se destacou na história como o momento da medicina, o saber médico transcendeu à era hipocrática e magias medievais no cuidado aos enfermos. Muito ainda deveria ser feito, pois, os controles das infecções, por exemplo, não eram possíveis devido às condições dos hospitais:
A medicina moderna fixou sua própria data de nascimento em torno dos últimos anos do século XVIII. Quando reflete sobre si própria, identifica a origem e sua positividade com um retorno, além de toda a modéstia eficaz do percebido (FOUCAULT, 1977, p. x).
O corpo do século XVIII foi aquele cuidado pelos médicos à beira do leito, o corpo era a doença, não apenas continha à mazela, mas se confundia com ela.
Desde o século XVIII, a medicina tem tendência a narrar sua própria história como se o leito dos doentes tivesse sido sempre um lugar de experiência constante e estável, em oposição às teorias e sistemas que teriam estado em permanente mudança e mascarado, sob sua especulação, a pureza da evidencia clínica (FOUCAULT, 1977, p. 59).
O corpo passivo de ser uma habitação doente confunde-se com o homem, por outro lado, as doenças se diferem pelo grau e pelo tempo que duram. A função do hospital a partir deste século é esgotar as tentativas de cura para as doenças, tem-se que o homem é parte de seu sintoma, mas isso não era considerado, não era o doente quem sofria, mas o órgão da doença.
A sexualidade tomou destaque na medicina e na sociedade e foi tema de vasto estudo do filósofo e psicanalista francês Michel Foucault. O mergulho que este autor faz nas questões do homem, suas doenças e seus prazeres subsidia nossa reflexão acerca do corpo do final da Modernidade para o início da Contemporaneidade. Sexualidade era assunto proibido e controlado, herança de Roma, mas Foucault afirmou que houve uma proliferação de discursos sobre a sexualidade a partir do século XVIII; ela perde o status pagão e a conjunção sexual é entendida como natural e não má.
Talvez nenhum outro tipo de sociedade jamais tenha acumulado e em período histórico relativamente curto tal quantidade de discurso sobre o sexo (FOUCAULT, 1999). “Saímos do corpo dividido, do corpo platônico desprezível para o corpo fonte de prazer, o regime proposto para os prazeres sexuais parece estar centrado inteiramente sobre o corpo, seu estado, seus equilíbrios e suas afecções [...] é o corpo que faz a lei para o corpo” (FOUCAULT, 2005, p. 134). Ainda assim, com essa proliferação de discursos sobre o sexo, a liberdade da mulher é deixada de lado, a ela cabe procriar e a função do casamento é normativa e para facilitar a cópula. Daí pode-se atribuir a histerização do corpo feminino, o título de mãe a retira do prazer sexual, propicia o aparecimento de questões nervosas.
Foucault atribui ao nascimento da aliança como um regulador do que pode e do que é proibido no relacionamento, a sexualidade obedece ao lícito e fora dele o prazer sexual é ilícito; o domínio próprio depois de casado era uma obrigatoriedade, guardar o desejo apenas para ser vivido com a esposa, uma exigência ética. Ao dispositivo aliança atribui-se poder sobre o corpo, sustentação do eixo família: marido e mulher, marido-mulher-filhos. É também no século XVIII que a família é valorizada, os incestos são proibidos justamente por quebrar esse eixo, o papel da aliança vai além do próprio compromisso entre duas pessoas, e a fixação de parentesco tenta controlar a sexualidade masculina
e feminina. A criação de vínculo afetivo é aspecto que só aparece no século XVIII.