Capítulo II Base Prática
1. Casos de Estudo
18.00 Fim do dia de trabalho 20.00 Hora de jantar
22.00 Fim do dia
2.3 Três Identidades
Cada um dos programas autonomiza‐se como um objecto arquitectónico por si. Não só a nível programático, como formal, estrutural e material. Criam‐se três identidades diferentes.
a)Programa
O Habitar foi programado por uma lógica de tipos de vida ao invés de número de quartos ou assoalhadas. Nos diferentes tempos de uma vida existem necessidades diferentes, vive‐se de forma diferente. Habita‐se os espaços de forma diferente. As tipologias habitacionais pensam os tempos da vida, a condição económica, educação, a cultura de quem a habita.
Sistematizando temos o seguinte quadro:
Tipos / Lógica Altura Grande Pequena Norma Qt %
Luxo 1 1 4 Família Média 4 2 2 2 10 37 Económica 4 4 15 Pequena 5 5 19 Trabalho 1 1 2 7 Townhouse 1 1 2 7 Experimental 1 1 1 3 11 27 100
O quadro apresenta na vertical a característica predominante na tipologia e na horizontal a lógica utilizada para a desenhar. Temos a característica predominante elaborada na norma e a partir dai trabalhamos o conceito numa lógica de condensação (Pequena), dispersão (grande) e altura.
A tipologia de Luxo ocupa três pisos. Exagerou‐se o Luxo e atribui‐se a cada piso uma valência diferente, o Privado onde estão os quartos, o público, o piso da entrada principal e o do lazer. Assim esta tipologia é facilmente transformada numa pousada ou hostel.
A tipologia da Família Média tida como convencional actualmente foi amplamente explorada dando uma normalidade aos conceitos estudados nas tipologias experimentais.
A tipologia Económica tem a ver com a habitação subsidiada. Não deve só servir para albergar pessoas em transição mas, sendo a sua lógica a de custo, possa ser comprada a um preço razoável. A tipologia Pequena está relacionada com o uso por tempos mais curtos (situação de idosos, recém divorciados, casais jovens, estudantes) prestando‐se mais a situações de arrendamento. A tipologia Trabalho tem a ver com pessoas que trabalham em casa como pequenos empresários e profissionais liberais (arquitectos, designers, costureiras, informáticos, advogados, etc.). A Townhouse representa um modo de viver unifamiliar com um acesso directo à rua.
A tipologia Experimental vai desenvolver o argumento a partir, em grande parte, do estudo das tipologias de Sverr Fehn. Tem a ver com um modo não convencional de estar na vida.
b)Estrutura, Ritmo e Detalhe
O edifício de habitação é construído integralmente em madeira. Para o seu estudo foi feita uma maquete à escala 1:20 de forma a estudar o melhor sistema de composição da madeira.
A construção em madeira trabalha com linhas e num processo constante de adição de sistemas. A estrutura principal trabalha com perfis de 80x30cm numa métrica de 7.5 x 5 x 10m. Os 10 metros de altura albergam três pisos com ajuda de duas vigas intermédias. O sub‐sistema que vai ajudar a configurar o espaço e vai construir as janelas é um sistema de perfis de 10x20cm que funcionam de 2.5m em 2.5m na direcção perpendicular à da parede exterior. Este sub sistema está desfasado por 1.25m da estrutura principal.
O modo de construir da madeira presta‐se ao argumento pois os limites convencionais, o tecto, a parede o chão acabam por se desmotivar uma vez que se desconstroem. Por exemplo o tecto tem variados pés direitos. O primeiro é onde o primeiro sistema começa, o segundo é outro, 80cm mais Figura 17 Maqueta ‐ Escala 1:20 Edificio de Madeira
acima, depois 20 cm mais acima outro e com isto o tecto ganha uma profundidade e uma riqueza, desmaterializando‐se como plano e contaminando todo o espaço.
As aberturas são feitas sempre retardadas em linha com a estrutura principal de modo a evitar as treliças que na parede exterior correm no plano que antecedo o revestimento final.
O alçado é construído por ripas verticais que ao chegar a uma abertura rodam sobre o seu eixo vertical tornando‐se guardas deixando entrever o que se passa atrás. Em adição a este sistema existe um sistema genérico a todo o objecto de uma rede metálica perfurada que concebe o invólucro final. Todo o conjunto vai criar uma interioridade com várias camadas de privacidade e diferentes limites
físicos. Do exterior a sensação que se vai ter a olhar para o alçado será a de interioridades mais profundas onde a luz vai esvanecendo, interioridades mais abundantes onde se denota apontamentos de arbustos e natureza ou perfurações simples e pouco profundas. Figura 18 Pormenor Maqueta ‐ Escala 1:20 Edificio de Madeira
Figura 20 Alçado Madeira _ esquema de composição
c)Organização das tipologias
Figura 21 Organização das tipologias As imagens apresentadas explicam como o motor das águas é utilizado para definir a vivência da tipologia. Na primeira imagem os motores colam‐se aos limites da tipologia deixando o resto do
espaço livre para ser apropriado pelos pátios verdes e pelos diferentes programas. O motor define o espaço que confronta.
Na segunda figura verificamos os motores separados e no meio do espaço. Estes contaminam a tipologia pelos quatro lados com que a configuram. Na última figura em vez de blocos separados de águas temos todo o conjunto do programa da habitação dentro de uma faixa que organiza toda a casa deixando o espaço fora da faixa livre, desprogramado.
Tendencialmente, nas diferentes tipologias as portas e os espaços fechados vão deixando de existir, originando apenas planos que vão transitando o grau de privacidade.
Tendo a estrutura de madeira uma presença tão imponente dentro do espaço foi decidido descolar as paredes limite das tipologias de estrutura principal, deixando‐a respirar e contaminar o espaço. O modo de apropriação do objecto arquitectónico que vai alargando foi através de vários pátios que ajudam a organizar a tipologia podendo estes ser de origem vegetal ou não.
II. Trabalhar
a)Programa
O programa do Trabalhar centrou‐se em humanizar um espaço muitas vezes mecânico e genérico. Os diferentes tipos de trabalhar que se emprestam a estes espaços foram tidos em conta pela forma como se podem relacionar entre si nos pisos que os configuram e com o espaço exterior. O primeiro piso de acesso mais directo ao exterior é o de uma livraria. Espaço caracterizado pelo Pensar que tem a possibilidade se estender para o mobiliário urbano no exterior. De seguida temos o ComPartilhar um espaço co‐work que se define por um conjunto de trabalhadores independentes que se juntam num espaço comum para trabalharem acompanhados incentivando redes socais e de trabalho. No piso seguinte é uma incubadora de empresas, espaço onde grupos de trabalho que queiram criar empresas se instalam e têm a oportunidade de usar recursos diponibilizados por uma “empresa mãe” como a reprografia, o departamento jurídico,etc. Tanto este piso como o do co‐work são servidos por espaço público com mobiliário urbano onde o Trabalhar se pode estender.No piso seguinte é o dos serviços que a empresa mãe disponibiliza à incubadora. Os três pisos onde a empresa mãe se desenvolve caracterizam‐se pelo Servir, o Produzir, open‐space com muitos trabalhadores onde a massa da empresa trabalha e o Gerir, espaço com gabinetes individuais e salas de reunião de onde se tomam as decisões sobre o rumo da empresa. O Alimentar é o piso que serve de combustível a toda a empresa e que pode ser também utilizado por pessoas externas. Figura 22 Diagrama Programático ‐ TRABALHAR
b)Estrutura, Ritmo e Detalhe
O objecto de betão tem uma forma que parece desafiar a gravidade. Foram estudados diversos sistemas de construção desde o metálico ao betão. O sistema que se mostrou mais eficaz e que servia ao mesmo tempo o argumento de criar uma identidade própria ao Trabalho foi o sistema Laminar de betão. Lâminas de 40cm de espessura atravessam toda a forma transversalmente com um intervalo de 7.5m e longitudinalmente com um intervalo de 5m. No entanto, e como era necessário ter mais circulação vertical, existe um núcleo de escadas que ajuda a suportar todo este peso.
Para aligeirar esta estrutura foram estudadas diferentes tipos de aberturas que atravessam tanto longitudinalmente, transversalmente e horizontalmente. Criando espaços de encontro que funcionam nas três dimensões. Esta perfuração foi estudada a partir da obra do Gordon Matta‐Clark do estádio do Sp. Braga do Souto Moura e da obra de Christian Kerez.
Figura 25 Processo ‐ Perfurar as Lâminas de Betão 2
Figura 26 Axonometria ‐ lâminas perfuradas
Figura 27 Diagramas Finais ‐Perfuração das lâminas estruturais de betão
Figura 29 Fotomontagens interiores
III. Viver
O espaço Viver é o agente que activa o edifício e o programa que consubstancia o argumento. Ele origina‐se a partir de uma praça tectónica onde três placas se parecem levantar para deixar descobrir uma linha de água. Essas placas vão criar a lógica da contaminação do espaço público no Objecto arquitectónico.
Num primeiro momento este espaço vai resolver a diferença entre as cotas das ruas que confinam o objecto que entre si fazem uma diferença de 7 metros. Ao desenhar os trajectos públicos de encontro à praça cria‐se uma bolsa de dois pisos térreos que ganham programa e interactividade com a praça. Todo o edifício vai crescer por entre as duas outras identidades sempre com uma lógica de espaço público que se movimenta por placas que rompem o espaço e que pontualmente contêm bolsas de programa. a)Programa
O programa do Viver pode‐se dividir em 6 acções principais: Actuar, Educar, Comer, Descontrair, Brincar e Praticar.
O actuar desenvolve‐se num espaço de auditório que está enterrado abaixo da cota da praça. Esse espaço contém uma black box, um espaço expositivo, e um café cultural. Actuar não só de participar num espectáculo mas também de Agir. O palco quando encerrado oferece um auditório a quem se quiser apropriar dele. Este espaço quer‐se de acção e de discussão, de cultura e pensamento.
O Educar refere‐se à cota da praça, consiste numa Creche, um A.T.L., uma biblioteca e um centro educativo.
O Comer encontra‐se a meio caminho de duas cotas das ruas confinantes, é um espaço que pretende ser de encontro à mesa com características para servir de cantina ou self service mais económico.
O espaço seguinte quer ser comprimido, calmo e descontraído. Alberga uma sala, um espaço encerrado onde se pode trabalhar, ouvir música, ler o jornal com o som da água ao nosso lado e o cheiro das flores a circular.
O Brincar é transversal a todo o programa do Viver mas neste piso existem condições que o facilitam, um escorrega, uma rede elástica que contém baloiços, e diferentes planos inclinados que constroem uma topografia artificial que se pode escalar, deslizar fazer acrobacias, etc. conjuntamente com espaços verdes onde se pode rebolar.
O Praticar refere‐se a um ginásio com a valência das máquinas de exercício, de estúdio de dança, espaço Spa e encabeçado por uma piscina. Desta piscina com cobertura de vidro tem‐se uma vista para um espaço de tensão entre os objectos do Trabalho e do Habitar.
Figura 31 Diagrama Altimétrico e Programático VIVER
b)Estrutura, Ritmo e Detalhe
Este edifício é construído em estruturas metálicas e vidro. Esta estrutura adapta‐se ao que o espaço quer ser. Regula‐se entre espaços comprimidos, ortogonais, poliédricos. Por vezes a cobertura de um espaço é habitada com um programa ou uma parede distende‐se para deixar passar alguém. Esta característica das estruturas metálicas que têm o poder de se distender reforça o argumento de que este espaço é dinâmico, interactivo e resulta de uma força externa que abre e descobre o espaço. É o Viver que envolve todo o edifício num só invólucro constituído por uma rede metálica perfurada e também ela contaminada por diferentes lógicas. Esta é a última camada antes do exterior. A rede tem 2.5m x 1 m e é afixada a um sistema de RHS que funciona de nível de um em um metro e que por sua vez estão afixados a um RHS de perfil que funciona de 2.50 a 2.50m. Este perfil vai ser afixado a uma viga treliçada que se encontra a um metro de distância. Quando não há espaço para esta viga a rede é afixada directamente ao edifício do Habitar ou do Trabalhar. O desenho da rede obedece a uma séria de transformações: inicia‐se com uma placa de aço corten de 2.5m por 1m perfura‐se um padrão circular recorrente no projecto, volta‐se a perfurar com uma malha quadrangular apertada para ganhar maior permeabilidade e dobra‐se a placa para ganhar resistência.
O espaço público no Viver é caracterizado na maioria dos pisos por mobiliário urbano, uma linha de água que unifica todo o edifício e que desagua na linha de água da praça, por vegetação de cheiro e relva e um escorrega para miúdos e graúdos.
Figura 32 Estudos de perfuração da lâmina metálica ‐ Fachada
Figura 33 Diagrama Final ‐ Lâmina Metálica Perfurada Figura 34 Maqueta digital ‐ Lâmina Metálica Perfurada da Fachada
Figura 35 Fotomontagem Interior VIVER
Conclusão
O edifício híbrido como modo compacto e sustentável de vida é actualmente um tema explorado em todo o mundo como solução às cidades segregacionistas e dispersas definindo‐se entre outras valências como a celebração da complexidade, diversidade e variedade programática. O argumento constrói‐se a partir da exploração do programa que existe para além da rotina habitual Casa‐Trabalho. Esse programa tem de ter a capacidade de se incutir nessa rotina transformando‐se numa mais‐valia.
O Projecto desenvolveu‐se em duas componentes principais: a componente sociológica, onde se definiu o programa como forma de questionar o paradigma estabelecido e a componente estrutural, onde a estrutura se tornou a identidade dos diferentes programas.
Os espaços criados tornam‐se estranhamento conhecidos quando existe um confronto entre formas estranhas, materialidades conhecidas e programas ordinários. Existe uma sobreposição de espaços, vistas, programas e materialidades que ousam criar novas maneiras de Habitar em comunidade, Trabalhar conectado e Viver livremente.
Este edifício pretende ser um grito à nossa cidade, re conectando todas as valências urbanas que hoje se encontram esparsas e parcas definhando com o tecido urbano. É um pensar no que é ser urbano e como pode um edifício responder a essa urbanidade necessária à cidade.
Habitar, Trabalhar, Viver a cidade e na cidade.
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