FACULDADE DE ARQUITECTURA UNIVERSIDADE TÉCNICA DE LISBOA
ontaminação
Confronto e Partilha
Joana Filipa Amaral Grilo
(licenciada)
Relatório de Projecto para obtenção do grau de Mestre em Arquitectura
Orientador Científico: Arq. Nuno Mateus Co‐Orientador: Doutora Cristina Cavaco Júri: Presidente: Arq. Madalena Cunha Matos Vogais: Arq. Diogo Burnay Arq. Nuno Mates Doutora Cristina Cavaco Lisboa, FAUTL, Dezembro de 2011
UNIVERSIDADE TÉCNICA DE LISBOA
FACULDADE DE ARQUITECTURA
Resumo
Título |Contaminação,
Confronto e Partilha
Nome | Joana Filipa Amaral Grilo Orientador | Especialista Arquitecto Nuno Mateus Co‐orientador | Doutora Cristina Cavaco Mestrado Integrado em Arquitectura com especialização em Arquitectura Lisboa, Dezembro de 2011 Palavras‐Chave: Contaminação, Confronto, Partilha, Crossbreeding, Heterotopia, Híbrido
O edifício híbrido como modo compacto e sustentável de vida é actualmente um tema explorado em todo o mundo como solução às cidades segregacionistas e dispersas. Define‐se como a celebração da complexidade, diversidade e variedade programática. O argumento constrói‐se a partir da exploração do programa que existe para além da rotina habitual Casa‐Trabalho. Esse programa tem de ter a capacidade de se incutir nessa rotina transformando‐se numa mais‐valia.
A Contaminação é definida por Purini como a consequência de dois actos, a produção do Novo e a fertilização desse objecto com uma célula linguística de genoma diferente. A arquitectura adapta‐se a este processo construindo a base do argumento desenvolvido. Para definir Confronto explora‐se a ideia de heterotopia como justaposição num único lugar real de diferentes espaços incompatíveis entre eles. Organizando a Vida de um modo multicelular flexível dentro de um invólucro que isola mas permite a sua penetração. A Partilha é desenvolvida a partir da noção de blurred zones de Eisenmann, como um modo de desenvolver espaços cujo significado não conseguimos apreender por inteiro, onde se insere um certo grau de estranheza. A contaminação pelo espaço público num edifício de Habitação e Trabalho foi controlada através da criação de três identidades distintas tanto programáticas como estruturais e formais. Criou‐se situações de sobreposição de sistemas de vida e dinâmicas de tempo que permite aos seus habitantes viver para além da rotina casa‐trabalho.
UNIVERSIDADE TÉCNICA DE LISBOA
FACULDADE DE ARQUITECTURA
Abstract
TitleContamination:
Confront and Share
Keywords: Contamination, Confront, Share, Crossbreeding, Heterotopy, Hybrid
The hybrid buildings as a compact and sustainable way of life are nowadays an explored theme all over the world as a solution to segregated and dispersed cities. It is defined as a celebration of the programmatic complexity, diversity and variety. The argument is constructed from the exploration of the program that exists beyond the usual routine house‐work. This program must have the ability to instil this routine becoming an asset.
Contamination is defined by Purini as a consequence of two acts, the production of the New and the fertilization of that object with a linguist cell from a different genoma. The architecture adapts to this process building this way the basis of the argument developed. To define Confront we explore the idea of heterotopia as a juxtaposition in a unique real place different spaces incompatible between them. Organizing Life in a multicellular flexible way within an involucre that isolates and allows penetration at the same time. The Share is built from the notion of blurred zones of Eisenmann, as a way of creating spaces whose meaning we cannot grasp in its entirety including a degree of strangeness.
The Contamination by the Public Space of a Housing and Office building was controlled by the creation of three distinct identities, programmatic, structurally and formally. It has created overlapping situations of life systems and time dynamics that allows its inhabitants to live beyond the house‐work routine.
Agradecimentos
A todos os que de alguma forma contribuíram para a realização deste estudo.
Ao Orientador por acreditar em mim e no projecto desde o início, pelas sugestões e críticas pertinentes.
Aos Raminhos que me apoiaram durante todo o curso em particular nesta fase final, desde a China a Londres com motivação, carinho e paciência.
Á minha Família por estarem sempre presentes, pela motivação e apoio incondicional.
Ao Tiago Oliva por me aturar nos momentos mais difíceis e por acreditar sempre em mim e no meu trabalho.
Índice
Introdução ... 1 Capítulo I Estado dos conhecimentos Base Teórica ... 2 1. Do Híbrido ... 2 2. Contaminação ... 6 3. Confronto ... 10 4. Partilha ... 15 Capítulo II Base Prática ... 19 1. Casos de Estudo ... 19 2. Caso Prático ... 24 Conclusão ... 51 Referências Bibliográficas ... 53 Desenhos Finais do trabalho ... 55Índice de Figuras
Figura 1 Híbrido Horizontal ... 3 Figura 2 Híbrido Vertical ... 3 Figura 3 Híbrido Proposto ... 4 Figura 4 Diagrama Viral. Ilustração por Franco Purini e Sara Petrolati ... 6 Figura 5 Diagrama Contaminação ... 7 Figura 6 Edifício cortado ‐ Gordon Matta‐Clark ... 8 Figura 7 Caso de Estudo COAG ‐ Evolução Formal ... 19 Figura 8 Caso de Estudo COAG ‐ Cortes transversais – “Tronco” de circulações e interacção com a praça ... 19 Figura 9 Habitação, Sverr Fehn ... 21 Figura 10 Desenho de Estruturas, Estádio de Braga, Arq. Souto Moura ... 22 Figura 11 Holcim Competence Center de Christian Kerez ... 23 Figura 13 Diagrama Formal ... 24 Figura 12 Corte diagramático ... 24 Figura 14 Estratégia Urbana ... 25 Figura 15 Programa ... 26 Figura 16 Programa Habitação ... 29 Figura 17 Maqueta ‐ Escala 1:20 Edificio de Madeira ... 30 Figura 18 Pormenor Maqueta ‐ Escala 1:20 Edificio de Madeira ... 31Figura 19 Pormenor Maqueta ‐ Escala 1:20 Edificio de Madeira ... 31 Figura 20 Alçado Madeira _ esquema de composição ... 32 Figura 21 Organização das tipologias ... 33 Figura 22 Diagrama Programático ‐ TRABALHAR ... 35 Figura 23 Maquete Estrutura Laminar Betão ... 36 Figura 24 Processo ‐ Perfurar as lâminas de Betão ... 37 Figura 25 Processo ‐ Perfurar as Lâminas de Betão 2 ... 38 Figura 26 Axonometria ‐ lâminas perfuradas ... 39 Figura 27 Diagramas Finais ‐Perfuração das lâminas estruturais de betão ... 41 Figura 28 Maqueta Digital Betão ... 42 Figura 29 Fotomontagens interiores ... 43 Figura 30 Diagrama Programático VIVER ... 45 Figura 31 Diagrama Altimétrico e Programático VIVER ... 46 Figura 32 Estudos de perfuração da lâmina metálica ‐ Fachada ... 48 Figura 33 Diagrama Final ‐ Lâmina Metálica Perfurada ... 49 Figura 34 Maqueta digital ‐ Lâmina Metálica Perfurada da Fachada ... 49 Figura 35 Fotomontagem Interior VIVER ... 50
Introdução
O edifício híbrido como modo compacto e sustentável de vida é actualmente um tema explorado em todo o mundo como solução às cidades segregacionistas e dispersas definindo‐se entre outras valências como a celebração da complexidade, diversidade e variedade programática. O argumento constrói‐se a partir do questionamento dos dois programas que dominam a nossa rotina diária: Casa – Trabalho e o movimento pendular consequente. Propõe‐se explorar o programa que ultrapasse essa rotina e que ao mesmo tempo tenha o poder de se infiltrar nela, contaminando‐a, transformando‐a. Acrescentando valor ao nosso dia‐a‐dia.
A Contaminação é definida por Purini como a consequência de dois actos, a produção do Novo e a fertilização desse objecto com uma célula linguística de genoma diferente. A arquitectura adapta‐se a este processo construindo a base do argumento desenvolvido. Para definir o Confronto explora‐se a ideia de heterotopia como justaposição num único lugar real de diferentes espaços incompatíveis entre eles. Organizando a Vida de um modo multicelular flexível dentro de um invólucro que isola mas permite a sua penetração. A Partilha é desenvolvida a partir da noção de blurred zones de Eisenmann, como um modo de desenvolver espaços cujo significado não conseguimos apreender por inteiro, onde se insere um certo grau de estranheza.
Os casos de estudo foram analisados em diferentes fases do projecto. O COAG, Colégio de Arquitectos de Vigo é tido como o exemplo que lança as premissas de Projecto, e que acompanha em quase todas as fases o argumento apresentado. Foram estudadas diversas tipologias de Sverr Fehne para o habitar sobre o contexto do argumento e o estádio do Sp. Braga de Souto Moura. O trabalho de Christian Kerez e de Gordon Matta‐Clark lançam as premissas da contaminação através da perfuração.
O trabalho prático é abordado como um trabalho de investigação em constante evolução. A clarificação do argumento deve ser feita a cada passo dado desde a construção cuidadosa do programa aos diagramas usados para o transmitir. A partir da construção de diversas maquetes procura‐se ir respondendo ao argumento indiciado. Cada desenho é visto como uma oportunidade de desenvolver esse argumento. Cada avanço numa nova escala surge como uma oportunidade de transformação e evolução do projecto. Assim, o trajecto não é linear nem o pretende ser. É constantemente contaminado pelas diferentes fases a que o projecto deve responder. Do contexto urbano ao detalhe como sintoma do todo.
Capítulo I
Estado dos conhecimentos
Base Teórica
1. Do Híbrido
“The concept of hybridization originates from genetics and refers to the cross breeding of different species”1Os edifícios híbridos são estruturas capazes de combinar programas diferentes e encorajar a interacção de usos urbanos distintos combinando usos privados com usos públicos. Os híbridos vão para além dos usos mistos: o termo refere‐se à combinação da esfera pública e privada em habitação, espaços públicos e serviços cívicos e responde a três preocupações principais da nossa sociedade:
. A escassez e valorização consequente do território
. A necessidade de intensificar o uso do território para contribuir para o desenvolvimento sustentável. . A necessidade de densificar usos para revitalizar os centros urbanos. Actualmente um grande número de projectos em curso, sobretudo especulativos, necessitam alojar distintos usos simultaneamente. O grau de concentração e hibridação é entendido como um método para activar o edifício, cada um dos seus usos e o tecido urbano que o rodeia.
A ideia de híbrido não é nova. Ao longo da história, densidade, preço do solo e sobreposição de funções estiveram intimamente relacionadas. Na antiguidade as cidades‐estado confinavam‐se ao interior das suas muralhas para se defender e definir a distinção entre civilizado e inexplorado. Naquele tempo a maioria dos transportes e movimentos da população realizavam‐se a pé. Por consequência, os espaços de trabalho, casa e comércio compartilhavam lugares ou sobrepunham‐se sem grandes distinções entre espaços e funções. Neste contexto de espaço limitado, qualquer construção nova implicava anexação e sobreposição, e portanto Densidade. Os usos, em vez de se
1
Fenton, J. “Hybrid Buildinds” in Pamphlet Architecture no. 11: Hybrid Buildings, Princeton Architectural Press, New York, 1985, p.5
situarem em lugares isolados da cidade, preenchiam qualquer vazio sobrante da malha urbana, dando lugar a uma única entidade híbrida em constante evolução.
Até à compilação de Joseph Fenton de 1985, os edifícios híbridos foram ignorados como tipologia de edifício e catalogados como usos mistos. Segundo Fenton, existe uma clara diferença entre híbrido e usos mistos no sentido em que nos híbridos os programas individuais relacionam‐se entre si, começam a partilhar intensidades e ajustam‐se à malha urbana em que se inserem.
Recentemente a editora A+T lançou uma Série de três revistas centradas no tema dos edifícios híbridos e diferenciando os projectos analisados por Híbridos Horizontais, Híbridos Verticais e Híbridos Residenciais. Nesta publicação o edifício Híbrido é definido como sendo um novo ser unificador e cosmopolita. A sua personalidade é a celebração da complexidade, diversidade e variedade programática. Alimentando‐se do encontro entre a esfera privada e pública. Lutando contra morfologias segregacionistas e diluindo as categorias e/ou tipologias. Parte‐se do princípio que a propriedade e desenvolvimento do solo podem ser híbridos assim como a estrutura, a construção e a sua gestão. A mistura de usos torna‐se uma potência motora que actua como vasos comunicantes. São organismos com múltiplos programas interconectados e preparados para acolher tanto as actividades previstas como as imprevistas de uma cidade. O esquema híbrido propõe intensos contornos de fecundação cruzada, que misturam os genotipos conhecidos e criam alianças genéticas para melhorar as condições de vida e revitalizar a urbanidade onde se encontram. A escala de um híbrido e a sua relação com a envolvente mede‐se pela justaposição das secções programáticas. Nos híbridos verticais, as funções unem‐se por sobreposição e nos horizontais por adição em planta. Pela escala do híbrido podem‐se aplicar estratégias próprias da composição urbana introduzindo‐se no domínio do urbanismo. Figura 1 Híbrido Horizontal
Percebe‐se então o edifício como um sistema estrutural e construtivo multifuncional capaz de responder a diferentes programas. Origina uma dinâmica própria entre o âmbito privado, público e o entretanto. Um processo específico a um objecto destes é a contaminação das várias partes entre si, um cross breeding. Cada programa contamina o próximo numa mutação da espécie num ser atipológico. O espaço mais paradigmático deste processo é o espaço do entretanto, o espaço existente entre programas.
O argumento constrói‐se pensando nos dois programas principais que dominam a nossa rotina, a Habitação e o Trabalho e tudo o que pode acontecer entre eles a que denominamos de Vida. O programa da Vida não se basta num cariz social como a creche, o A.T.L, o auditório, mas presta‐se a reflectir em tudo o que pode existir para além disso. Trazendo características da rua e do espaço público para a porta de casa e do trabalho o programa social dissolve‐se em espaços desprogramados que se prestam à Vida.
Figura 3 Híbrido Proposto O estudo tem como objectivo último alcançar uma vivência de cidade que existe desde a Idade Média. A cidade medieval correspondia na perfeição a um programa híbrido com uma vivência de bairro contínuo onde os espaços de contaminação proliferavam em todos os programas e todos os níveis de interioridade. Chegaram aos dias de hoje signos destituídos já desse significado. Assim são as namoradeiras, os alpendres, as escadarias, os espaços de entrada, a própria varanda era a
Contaminação2 s. f. 1. Acto de contaminar. 2. Mancha, impureza. 3. Infecção. Contaminar3 v. tr. 1. Sujar, manchar (o que é puro ou respeitável) por contacto vil ou pestilento. 2. Fig. Infeccionar. 3. Comunicar alguma doença, mal ou vício. 2 Dicionário Priberam de Língua Portuguesa 3 Idem
2. Contaminação
“The objective of any form of artistic écriture is not, in the first instance, beauty.”4
A écriture
Franco Purini descreve a forma artística, denominando‐a de
écriture, como o resultado formal da convergência de três
intenções num complexo sistema de signos. A primeira é a produção do Novo, a segunda é a construção de uma entidade Viva, a definição de uma estrutura linguística múltipla e metafórica capaz de evoluir de acordo com um plano próprio e a terceira é a evocação do original. A dimensão do belo da écriture é sustentada pela acção conflituosa da multiplicidade de componentes que cada uma das três dimensões traz com ela.
Contaminação
Qualquer écriture artística nasce numa primeira instância por
partenogénese. Origina‐se de si própria. O germinar de um novo
organismo a partir de um existente. Segue‐se a fertilização de uma célula linguística, com um genoma diferente. Para uma
écriture nascer é necessário um factor aleatório, algo estranho,
algo que não só marque a diferença mas também entalhe uma medida de hostilidade. Uma substância agressiva, que cause um conflito celular. Este terceiro facto é um elemento de
contaminação. Contaminação previne a écriture de se retirar para
a tendência de repetir a sua própria estrutura e o seu próprio
4 PURINI, Franco, “Viral Architecture”, Lotus 133, 2008, p.85.
Figura 4 Diagrama Viral. Ilustração por Franco Purini e Sara Petrolati
modo de formação. É uma prática melhorativa que não debilita a base da identidade viva, limitando‐ se a aumentar as suas capacidades através da inserção de potencialidades. Por outro lado, a contaminação contém algo infeccioso, tão perigoso como um vírus desconhecido. Atacada pelo vírus, que por vezes pode tomar a forma de um erro, a écriture descobre o Outro, revela‐se a si mesma o que tende a esconder; aceita tornar aquilo que se lhe opõe internamente na sua própria essência. Contaminação é um processo no qual a écriture se estende até ao abismo do alienígena, do repelente, é a localização de tudo o que está doente, confuso, monstruoso, errado, impensável e, acima de tudo, impuro.
O Argumento de projecto nasce também de partenogénese, é criado à semelhança da sua envolvente, a cota mais alta e o programa encaixam com o construído. A cota é a 120 e o programa divide‐se ente o Trabalho e a Habitação. Cria‐se o Novo. A fertilização por um genoma diferente é feita pela lógica do espaço público. Esta lógica agressiva vai dissolver o programa criando bolsas que obedeçam à lógica vindo do exterior. No fim existe uma adaptação mútua entres os espaços. O espaço público vive do habitar e do trabalhar tanto como o habitar e o trabalhar necessitam do espaço público.
Figura 6 Edifício cortado ‐ Gordon Matta‐Clark
Agressão viral
Se o que acabou de ser resumido é o processo genético que leva ao nascimento de uma écriture artística, outros processos de contaminação acompanham o trabalho que nasce destas écritures na sua existência. Na arquitectura quase todos os edifícios estão sujeitos, desde o momento da sua realização, ao fenómeno de agressão viral que os transforma. A eliminação de algumas partes, adição de outras, a super afectação de volumes que parasitam os originais e a modificação dos materiais de construção configuram um processo destrutivo que também é tomado como uma manifestação de extrema vitalidade. Os cortes
violentos que Gordon Matta‐Clark fez em edifícios pré‐existentes, levando o espaço envolvente urbano para dentro deles, assim como as mais introvertidas transmissões semânticas resultantes destas contaminações, são o resultado de uma alargada série de causas, todas reunificadas pelo tempo. É a vida ao longo do tempo do edifício que requer uma contínua redefinição da sua função, são as mudanças no gosto que se produzem ao longo do tempo que impõem, à vez, uma série de transformações e é o próprio
tempo, finalmente, que desgasta os edifícios, causando a sua inevitável redução ao estado de ruína. A cidade não pode viver sem conflito. Por este motivo, existe uma necessidade de provocá‐los e mantê‐los vivos numa moda cíclica até que chegue ao tempo, em que eles tendo crescido tão desestabilizados, requerem recomposição; uma recomposição que, a seguir a um certo período, será seguida ainda por outro conflito. A heterotopia de Michel Foucault, com a mudança radical das convenções arquitectónicas e urbanas que derivam daí, captura por inteiro o sentido intrínseco e indefeso do habitar humano, dos seus códigos físicos e comportamentais e os seus modelos
Confronto5 s. m. 1. Acto ou efeito de confrontar. 2. Cotejo, comparação. Confrontar6 v. tr. 1. Cotejar (comparando). 2. Dir. Acarear. v. intr. 3. Estar virado para; confinar 5 Dicionário Priberam de Língua Portuguesa 6 Idem
3. Confronto
Of other spaces: utopias and heterotopias – Michel Foucault A nossa Era parece obcecada com o espaço. Estamos na Era do simultâneo, da justaposição, do perto e do longe, do lado a lado e do disperso. Um período em que o mundo se coloca a teste não tanto como um modo de vida exemplar destinado a crescer no tempo mas como uma rede que conecta pontos e cria o seu próprio caos.Na Idade Média existia um sistema hierárquico de lugares, sagrados e profanos, protegidos e indefesos, urbanos e rurais. O espaço contemporâneo ainda não perdeu estas características sacralizadas, as nossas vidas ainda são dirigidas por um certo número de opostos inflexíveis. Opostos que tomamos por garantidos tal como o contraste entre o privado e o público, espaço social e familiar, espaço cultural e utilitário, o espaço do trabalho e o espaço do prazer – opostos ainda sobre a influência de uma sacralidade velada.
O espaço exterior onde vivemos é em si mesmo heterogéneo. Vivemos num conjunto de relações que definem posições que não podem ser equiparadas ou sobrepostas. Existem arranjos dessas relações dotados da curiosa propriedade de estarem relacionados com todas as outras, de tal modo que suspendem, neutralizam ou invertem o conjunto de relações projectadas, reflectidas ou espelhadas por elas mesmas. Estes espaços que estão em harmonia com todos os outros e no entanto os contradizem são de dois tipos: ‐ Utopias, arranjos que não têm espaço real, têm uma analogia directa ou inversa com o espaço real da sociedade. Representam a sociedade levada a um extremo de perfeição ou o seu reverso mas na sua essência são fundamentalmente irreais.
‐ Heterotopias, espaços reais e efectivos que são delineados na instituição da sociedade mas que constituem uma espécie de arranjos contraditórios da utopia, no qual todos os outros arranjos reais
da sociedade estão simultaneamente representados, desafiados e contrariados: um espaço que fica fora de todos os espaços e no entanto é localizável. Em contraste com as utopias, estes espaços que são absolutamente outro a respeito a todos os arranjos que reflectem e dos quais falam podem ser descritos como heterotopias. Princípios das heterotopias 1º Princípio ‐ Todas as culturas do mundo são feitas de heterotopias, é uma característica constante em todos os grupos humanos. Estas, assumem uma grande variedade de formas, não existe uma única e absolutamente universal.
No entanto é possível classificá‐las em dois tipos principais:
_ Nas sociedades primitivas existem as heterotopias de crise, o que incluí espaços privilegiados, sagrados ou proibidos que são reservados para o indivíduo que se encontra num estado de crise em relação à sociedade ou ao ambiente onde vive: adolescentes, mulheres no período menstrual ou parturientes, os idosos, etc.
_ Na nossa sociedade estas heterotopias estão a ser substituídas por heterotopias de desvio, ocupados pelos indivíduos cujo comportamento desvia da média ou norma. Centros de dia, residências assistidas, clínicas psiquiátricas, prisões, etc.
2º Princípio – No decurso da história a mesma heterotopia pode funcionar e ocupar um lugar na
sociedade de maneira muito diferente. Por exemplo, o cemitério, é certamente um “outro” lugar a respeito aos lugares culturais comuns, e no entanto está ligado a todas os locais na sociedade uma vez que cada família possui lá um familiar. Até ao século XVIII o cemitério localizava‐se no centro da cidade, na igreja, e constituía o sagrado e imortal fôlego da cidade. Actualmente, o cemitério mudou‐se para o limite da cidade representando agora a “outra” cidade, onde cada família possui a sua habitação sombria.
3º Princípio – A heterotopia tem o poder de justapor num único lugar real diferentes espaços e locais
incompatíveis entre eles. Como exemplo podemos nomear o palco de um teatro, o ecrã de um cinema ou um tapete, no sentido oriental da palavra, como o jardim do mundo.
4º Princípio – Heterotopias estão conectadas na sua maioria a pedaços de tempo e entram
plenamente em função quando o homem se encontra numa ruptura total do tempo tradicional.
Existem heterotopias de tempo que acumulam ad infinitum, como museus e bibliotecas, criando um arquivo universal que inclui todos os tempos, todas as eras, formas e estilos num único lugar e existem heterotopias que são absolutamente efémeras como as feiras e os festivais ou as vilas que servem exclusivamente para as férias. 5º Princípio – As heterotopias pressupõem um sistema de abertura e encerramento que ao mesmo tempo que as isola permite a sua penetração. 6º Princípio ‐ As heterotopias funcionam tanto como lugares de liberdade e ilusão como lugares de disciplina e compensação. Assim temos os antigos bordéis parisienses como os colonatos europeus nos Estados Unidos da América ou os colonatos jesuítas na América do Sul.
A heterotopia mantém a estabilidade da cidade como um sistema auto organizável ao gerir as excepções. A sua forma é amplamente diversa e constantemente em fluxo, não existe uma única e estável aparência ou aspecto sob a qual as heterotopias desempenham as suas complexas funções. Embora a forma destes espaços tenha mudado ao longo do tempo as razões sistemáticas da sua existência não o fizeram. O espaço ocupado pela comunidade excluída cria uma ordem espacial alternativa. Uma vez que as heterotopias contêm todas as excepções, uma heterotopia típica é multicelular (para organizar/classificar as excepções), flexível e contida entre uma fronteira mais ou menos fechada e protegida por guardas de portão.
A palavra heterotopia vem da medicina onde significa uma célula ou grupo de células que vivem de forma não maligna dentro de uma célula hospedeira distinta ou tecido. A formação de um tecido numa zona onde a sua presença é anormal.
Onde uma heterotopia existe, algo completamente “outro” reside dentro do corpo do hospedeiro numa relação benigna, os dois sistemas toleram as suas diferenças. Esta coexistência é possível porque a heterotopia contém dentro de si múltiplos compartimentos que podem albergar espaços
contraditórios e complementares, isto é a heterotopia é um único espaço real constituído de vários espaços e lugares incompatíveis entre si. A heterotopia é um espaço ambíguo que contem vários espaços díspares dentro de um único perímetro controlado por portões onde diversos actores interagem num modo complexo e por vezes indirecto, usando códigos, imagens e espelhos.
O argumento desenvolve o Confronto na justaposição num único lugar real de diferentes espaços incompatíveis entre eles. Esta incompatibilidade advém de um número de opostos inflexíveis sacralizados pelo tempo. Como o contraste entre o privado e o público, espaço social e familiar, espaço cultural e utilitário, o espaço do trabalho e o espaço do prazer.
Pensando no cronograma diário de um adulto podemos quebrar a rotina Casa‐Trabalho confrontando‐o em casa ou no trabalho com as alternativas, com a Vida. A educação, o parque, a cultura… Quebrar a percepção do tempo tradicional e dos movimentos pendulares intrínsecos a este. Esta Vida organiza‐se de uma maneira multicelular flexível dentro de um limite que isola mas permite a sua penetração. A diversidade no programa existe entre os conjuntos multi‐celulares assim como as células em si que partilham uma característica entre elas mas são opostas em tudo o resto. Por exemplo, o programa de Habitação e o programa de Trabalho são tidos como opostos, dentro da Habitação as células são opostas entre si. Habita‐se de forma muito diferente em cada célula no entanto habita‐se. Dentro do Trabalho, existem formas de vivenciar o trabalho contraditórias, em comum têm esta característica, são espaços onde se trabalha.
Partilhar7 v. tr. 1. Fazer partilha de; dividir, repartir, distribuir. v. intr. 2. Participar. 7 Dicionário Priberam de Língua Portuguesa
4. Partilha
1) Make a wall to live in. 2) If needed we work to disprove the common belief that all starts with the plan. There are forms without plans – dynamic orders and disorders. 3) Microcosmic space build a model living space in the gargoyle’s mouth. 4) A response to cosmetic design completion through removal, completion through collapse completion in emptiness. Gordon Matta‐Clark.8 Blurred Zones ‐ Peter EisenmanA arquitectura consegue proporcionar afecto – uma forma de articulação que apela tanto ao somático como ao articulado: ao corpo, à mente e à visão ao mesmo tempo. Algo que outros media não conseguem fazer. Blurring ou blurred zones lida com o mundo do afecto, em vez de efeito, apresentando uma estratégia para uma relação diferente entre a mente e o corpo na arquitectura. Ao Afecto interessa o modo como efeitos particulares da arquitectura e a sua retórica conseguem deslocar a experiência convencional e esperada do espaço. Se, como Walter Benjamim disse, a
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arquitectura é vista num estado de distracção, tais afectos podem provocar uma consciência diferente na experiência entre o tempo e o espaço. O afecto opera no modo como a parte superior do corpo se movimenta dentro e em volta do espaço, calibra a experiência somática do sujeito na presença e na informação, assim como o desejo fundamental por estas experiências. Este desejo gera uma expectativa inconsciente e somática por parte do sujeito. Benjamim chama a esta reacção uma questão de hábito. Os hábitos estão enraizados no desejo, e o desejo é muitas vezes motivado pelo hábito. A maioria da arquitectura é a concretização do hábito. Existem motivações primitivas e inconscientes que se tornam conscientes na arquitectura: o desejo pelo solo ou por estar enraizado; o desejo por abrigo; o desejo de sentido. Estes desejos mais que o objecto de desejo em si, motivam um status quo na arquitectura. Se a arquitectura conseguir começar a deslocar esta motivação, então o desejo manifestado na expectativa do habitual ou somático poderá talvez ser reorientado. A palavra arquitectura conjura um enorme leque de sentidos que abrange tudo, da casa ao edifício, do símbolo à função. Mas enquanto inclui estas coisas, também assume certas condições para além dos limites do necessário e suficiente para definir o discurso particular da arquitectura. Por sua vez estes pressupostos reprimem outras possibilidades. Blurring envolve fundamentalmente a questão de se tornar desmotivado de três condições: tornar‐se desmotivado da presença, tornar‐se desmotivado do signo e do sujeito. O conceito chave de se tornar desmotivado é tornar‐se
(becoming), um movimento entre estar‐se completamente motivado para algo menos motivado –
uma condição intersticial. Blurring é uma estratégia para desmotivar não o desejo em si mas, o desejo específico de presença, solo e sentido. É uma actividade conceptual. Uma acção destas começa por deslocar categorias tais como o visível e o articulado e para isso separa a forma de uma relação directa com a função e o significado. Procura debilitar a clareza conceptual e física de elementos como a figura e o solo. A Arquitectura é uma ocorrência do dia‐a‐dia, não serve para entreter nem para chamar a atenção à sua própria retórica e assim é vista como uma resposta a um desejo de lugar, de solo, confinamento, representação e por aí adiante. Seja consciente ou não, um dos desejos básicos do ser humano é o de tornar as coisas reais, tangíveis, seguras e confortáveis. A Arquitectura é um dos lugares principais destes desejos, pois envolve não só a presença, um invólucro real, mas também a ideia metafísica de conforto e segurança. Na Arquitectura a presença é tanto activa como fundamental. A desmotivação não lida com questões de segurança e conforto no entanto tenta problematizar o seu uso como um factor de legitimação na arquitectura.
Blurring sugere uma condição onde a arquitectura nem é dependente das suas narrativas anteriores
nem é desprovida de significado mas reside entre as duas, onde outras formas de significado e situações significativas podem ocorrer. O tornar‐se desmotivado é um processo entre a clareza de um significado e o não ter significado. A arquitectura nunca pode tornar‐se completamente desmotivada ou sem significado. Símbolos como o solo, o invólucro e a fachada que dominaram o discurso arquitectónico desde o século XVI são o que se chama de condições motivadas. Estas condições foram tomadas como garantidas. Ao longo do tempo foram tomando qualidades do natural, quando de facto são apenas convenções. Tomando como exemplo o termo fachada que é usado como termo para elevação, plano vertical, etc., é um termo motivado que se assume ser natural e por isso neutro ao nível estético. Mas fachada literalmente significa face, ter uma face, os planos verticais mais exteriores são legitimados como fachadas por terem uma face. Uma face é composta, tem uma estética e nessa estética um significado simbólico e icónico. A fachada cria diferença e hierarquia entre o dentro e o fora, o público e o privado, o sagrado e o profano. O
Blurring tenta apagar essa hierarquia e as condições que previamente a legitimaram, mas sem perder
a condição de encerramento do plano vertical. Em vez de legitimar o invólucro, o Blurring permite ao plano vertical ser outra coisa qualquer.
Se é possível o blur e o deslocamento da presença tradicional – para deslocar conceptualmente a estabilidade de lugar – e se o signo pode tornar‐se menos motivado e orientar‐se em direcção a uma condição inicial, deixa‐nos assim com a condição do sujeito.
Como se muda a motivação do sujeito? Por outras palavras, se a arquitectura é vista como algo que é conhecido e percebido, pode alguém mudar a arquitectura para algo que pode apresentar o inesperado dentro do esperado?
“A estranheza é um dos graus de intensidade do familiar”9
Blurring tem definições muito diferentes – o entretanto, o intersticial – e formas bastante diferentes.
O processo de Blurring introduz uma terceira fase no processo de projecto. A primeira fase de qualquer projecto considera o sítio, o programa e a função, que são a realidade do que é pedido. O segundo tipo de material textual vem da interioridade e anterioridade da arquitectura. A interioridade define a disciplina e a anterioridade é a história sedimentada da arquitectura. Os textos
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Mateus, Nuno in “ARX Portugal”, Arq./a nº39, Setembro | Outubro 2006, p.22.
da função, sítio e programa e os textos de interioridade e anterioridade da arquitectura juntos definem a prática tradicional.
A tentativa de criar o Blurring requer a introdução de outros, terceiros textos. Estes textos aparecem inicialmente para desmotivarem os conceitos iniciais do programa, sítio, contexto, interioridade e anterioridade. Estes textos são arbitrários e contingentes no sentido de que ambos se relacionam e têm a habilidade de alterar as condições dos textos tradicionais. A introdução de uma condição aparentemente arbitrária entre a relação dos outros textos começa a desfocar, blur, a prévia relação directa entre as formas produzidas e as suas funções ou significados. Estes textos supostamente arbitrários estão contidos na sua capacidade de desfocar. No sentido em que são escolhidos para produzir efeitos arquitectónicos que irão deslocar os tradicionais. Isto produz o que se pode chamar um diagrama, uma condição desfocada entre a forma e o conteúdo, entre o sítio e programa, onde os signos já não estão completamente motivados. A interferência do padrão do diagrama previne o recurso à relação anterior forma – função e forma ‐ conteúdo. O argumento constrói esta desmotivação através da inserção de um elemento estranho numa ordem estabelecida. Quando a lógica do espaço público invade lógicas de esfera privada tais como o Habitar e o Trabalhar, questiona o invólucro como elemento limite, entre o público e privado, entre o trabalho e o prazer, entre o social e o familiar. Ao invés o invólucro alberga espaços onde estes elementos opostos entre si se encontram e por sua vez dentro desse espaço existem outros invólucros. A desmotivação não é só feita no invólucro, o espaço público deixa de pertencer ao solo para se tornar num volume que ocupa todo o espaço entre dois invólucros. Existe também uma desmotivação de conceitos como a cobertura, a parede e o chão. Estes limites que costumam ser massa expandem‐se para conter espaço habitável.
Capítulo II
Base Prática
1. Casos de Estudo
Os casos de estudo foram analisados durante diferentes fases do projecto. Relacionam‐se com o argumento de forma diferente originando novos olhares sobre um mesmo tema.
COAG, Colégio de Arquitectos de Vigo, estúdio ip.
Este caso de estudo lançou as premissas base do Projecto. No contexto urbano adapta a sua forma
ao local respondendo
geometricamente às suas diferentes frentes. Urbaniza o local com uma praça que interliga diferentes cotas de rua. O objecto age como agente estranho que vai contaminar um casco antigo dissolvendo nele a sua contemporaneidade. O programa é construído de forma evolutiva onde é dada importância aos diferentes graus de privacidade. Para isso existem duas peles que formam um
Figura 7 Caso de Estudo COAG ‐ Evolução Formal
tronco de árvore autónomo com as circulações comuns e onde estão ligadas bolsas que permitem a sua utilização de forma independente do resto do edifício. A organização interna responde também a estes critérios de flexibilidade, o programa mínimo da sede do COAG permanece distribuído de forma contínua em secção, deixando as bolsas que conectadas directamente com a circulação exterior, podem ser usadas de modo autónomo e com diferentes horários e alojando também entre as capas os espaços colectivos de relação e descanso. Todo o edifício tem como objectivo funcionar durante o dia inteiro nas suas diferentes valências desde o escritório mais privado ao café mais social passando pela praça e espaços de seminários que se tornam independentes. A transparência da fachada permite incorporar a vida e ofertas culturais do edifício nas actividades urbanas que se desenrolam na praça, ampliando desta maneira a dimensão social numa envolvente antes degradada. O edifício tem três plantas térreas de modo a gerar um espaço de entrada de acessibilidade natural desde as diferentes cotas da rua que embocam na praça o que por sua vez induz que a actividade própria do edifício colonize e expanda a sua presença na praça. A praça é pretendida como uma topografia que na sua resolução gere os seus próprios equipamentos de mobiliário urbano e natureza construída. Assim as dobras que conformam as áreas de estar são bancos e escadas para estar ou desfrutar das actividades colectivas.
Para construir um argumento para a Habitação foi estudada a obra de Sverr Fehn. A sua abordagem ao doméstico, aos diferentes níveis de privacidade e interioridade, às diferentes combinações de tipologia que consegue apenas pelo modo como desenha o motor de águas (casas de banho e cozinha). Juntos ou separados, num compartimento fechado ou estendendo‐se para fora dos seus limites. Partilhados ou individuais. Colocando‐o numa posição central na casa onde organiza todo o resto do habitar ou num limite desta. Todas estas tipologias podem ser lidas sobre o argumento da contaminação, do confronto e da partilha e foram referência para criar diferentes tipos de habitar no projecto. Figura 9 Habitação, Sverr Fehn
O Estádio do Braga do arquitecto Souto Moura, o Holcim Competence Center de Christian Kerez e a obra de Gordon Matta‐Clark ajudaram a argumentar o tema no programa Trabalhar. A contaminação é vista aqui como um prolongamento do espaço tridimensionalmente entre programas normalmente encerrados. Existem perfurações que atravessam todo o edifício na sua transversalidade, longitudinalidade e verticalidade. O que normalmente seria o espaço de encontro entre os diferentes trabalhadores de um piso vai passar a ser o espaço de encontro de três pisos. Vão existir espaços de Partilha, entres os diferentes modos de trabalhar. Figura 10 Desenho de Estruturas, Estádio de Braga, Arq. Souto Moura
Figura 11 Holcim Competence Center de Christian Kerez
2. Caso Prático
2.1 Contexto Urbano
O plano urbano foi concebido a partir de uma massa uniforme que surge a uma cota predefinida e que foi esculpida a partir de diferentes temas urbanos. Uma massa à cota 120 recortada por cinco temas, corredor ecológico, percursos, cluster, praça e enquadramentos. Esta metodologia pretende beneficiar o espaço público, (des)construindo o plano urbano através da sua caracterização. Construir o plano urbano através do espaço público. Assim sendo, acrescentou‐se um sexto tema, a exposição solar.O Objecto em estudo sofreu transformações formais através da metodologia usada no plano urbano e da adaptação à sua envolvente construída. As confrontações directas do edifício passam por uma praça urbana a Sul, torres habitacionais a Norte, dois edifícios do plano urbano e o edifício da Marconi que o objecto conjuntamente com a praça se propõe a urbanizar.
Figura 13 Diagrama Formal Figura 12 Corte diagramático
Para além destas transformações gerais da forma, o Objecto faz ainda no seu plano térreo a ligação de diferentes cotas das ruas que o confinam. Fazendo a ligação não só para dentro do seu edifício mas também servindo diferentes trajectos públicos que ligam à Praça. À semelhança do caso de estudo COAG apresentado o objecto torna‐se assim num veiculador de vida adaptando‐se a uma envolvência hostil. Figura 14 Estratégia Urbana
2.2 Programa
O Programa do objecto arquitectónico como já foi argumentado passa por três situações distintas: o Habitar, o Trabalhar e o Viver.
O Viver propõe‐se a explorar as situações, o programa, na nossa vida que ultrapassa o habitual movimento pendular diário Casa‐Trabalho e que contem o poder de se conseguir infiltrar nessa rotina, contaminando‐a, transformando‐a. Criar alternativas na Vida das pessoas, o que se passa para lá do trabalho no nosso dia‐a‐dia. Não são procuradas aqui situações de excepção, de desvio do habitual.
Para cada situação foi estudado um programa diversificado, tanto quanto os modos de habitar e de trabalhar conseguem ser. Esta situação induz que pessoas à partida muito diferentes habitem um mesmo espaço. Dá também oportunidade ao edifício de suportar dinâmicas muito variadas , estando a funcionar a todos as horas do dia, em simultâneo sempre com mais que uma dinâmica. Criamos assim uma heterotopia onde dentro de um invólucro se sobrepõem simultâneas dinâmicas, pessoas, objectos e espaços opostos entre si. Figura 15 Programa Foi criado um exemplo de um cronograma diário onde encaixam muitas narrativas diferentes.
8.00 Início do dia
10.00 Meio da manhã
12.30 Hora de almoço
18.00 Fim do dia de trabalho 20.00 Hora de jantar 22.00 Fim do dia
2.3 Três Identidades
Cada um dos programas autonomiza‐se como um objecto arquitectónico por si. Não só a nível programático, como formal, estrutural e material. Criam‐se três identidades diferentes.
a)Programa
O Habitar foi programado por uma lógica de tipos de vida ao invés de número de quartos ou assoalhadas. Nos diferentes tempos de uma vida existem necessidades diferentes, vive‐se de forma diferente. Habita‐se os espaços de forma diferente. As tipologias habitacionais pensam os tempos da vida, a condição económica, educação, a cultura de quem a habita.
Sistematizando temos o seguinte quadro:
Tipos / Lógica Altura Grande Pequena Norma Qt %
Luxo 1 1 4 Família Média 4 2 2 2 10 37 Económica 4 4 15 Pequena 5 5 19 Trabalho 1 1 2 7 Townhouse 1 1 2 7 Experimental 1 1 1 3 11 27 100
O quadro apresenta na vertical a característica predominante na tipologia e na horizontal a lógica utilizada para a desenhar. Temos a característica predominante elaborada na norma e a partir dai trabalhamos o conceito numa lógica de condensação (Pequena), dispersão (grande) e altura.
A tipologia de Luxo ocupa três pisos. Exagerou‐se o Luxo e atribui‐se a cada piso uma valência diferente, o Privado onde estão os quartos, o público, o piso da entrada principal e o do lazer. Assim esta tipologia é facilmente transformada numa pousada ou hostel.
A tipologia da Família Média tida como convencional actualmente foi amplamente explorada dando uma normalidade aos conceitos estudados nas tipologias experimentais.
A tipologia Económica tem a ver com a habitação subsidiada. Não deve só servir para albergar pessoas em transição mas, sendo a sua lógica a de custo, possa ser comprada a um preço razoável. A tipologia Pequena está relacionada com o uso por tempos mais curtos (situação de idosos, recém divorciados, casais jovens, estudantes) prestando‐se mais a situações de arrendamento. A tipologia Trabalho tem a ver com pessoas que trabalham em casa como pequenos empresários e profissionais liberais (arquitectos, designers, costureiras, informáticos, advogados, etc.). A Townhouse representa um modo de viver unifamiliar com um acesso directo à rua.
A tipologia Experimental vai desenvolver o argumento a partir, em grande parte, do estudo das tipologias de Sverr Fehn. Tem a ver com um modo não convencional de estar na vida.
b)Estrutura, Ritmo e Detalhe
O edifício de habitação é construído integralmente em madeira. Para o seu estudo foi feita uma maquete à escala 1:20 de forma a estudar o melhor sistema de composição da madeira.
A construção em madeira trabalha com linhas e num processo constante de adição de sistemas. A estrutura principal trabalha com perfis de 80x30cm numa métrica de 7.5 x 5 x 10m. Os 10 metros de altura albergam três pisos com ajuda de duas vigas intermédias. O sub‐sistema que vai ajudar a configurar o espaço e vai construir as janelas é um sistema de perfis de 10x20cm que funcionam de 2.5m em 2.5m na direcção perpendicular à da parede exterior. Este sub sistema está desfasado por 1.25m da estrutura principal.
O modo de construir da madeira presta‐se ao argumento pois os limites convencionais, o tecto, a parede o chão acabam por se desmotivar uma vez que se desconstroem. Por exemplo o tecto tem variados pés direitos. O primeiro é onde o primeiro sistema começa, o segundo é outro, 80cm mais Figura 17 Maqueta ‐ Escala 1:20 Edificio de Madeira
acima, depois 20 cm mais acima outro e com isto o tecto ganha uma profundidade e uma riqueza, desmaterializando‐se como plano e contaminando todo o espaço.
As aberturas são feitas sempre retardadas em linha com a estrutura principal de modo a evitar as treliças que na parede exterior correm no plano que antecedo o revestimento final.
O alçado é construído por ripas verticais que ao chegar a uma abertura rodam sobre o seu eixo vertical tornando‐se guardas deixando entrever o que se passa atrás. Em adição a este sistema existe um sistema genérico a todo o objecto de uma rede metálica perfurada que concebe o invólucro final. Todo o conjunto vai criar uma interioridade com várias camadas de privacidade e diferentes limites
físicos. Do exterior a sensação que se vai ter a olhar para o alçado será a de interioridades mais profundas onde a luz vai esvanecendo, interioridades mais abundantes onde se denota apontamentos de arbustos e natureza ou perfurações simples e pouco profundas. Figura 18 Pormenor Maqueta ‐ Escala 1:20 Edificio de Madeira
Figura 20 Alçado Madeira _ esquema de composição
c)Organização das tipologias
Figura 21 Organização das tipologias As imagens apresentadas explicam como o motor das águas é utilizado para definir a vivência da tipologia. Na primeira imagem os motores colam‐se aos limites da tipologia deixando o resto do
espaço livre para ser apropriado pelos pátios verdes e pelos diferentes programas. O motor define o espaço que confronta.
Na segunda figura verificamos os motores separados e no meio do espaço. Estes contaminam a tipologia pelos quatro lados com que a configuram. Na última figura em vez de blocos separados de águas temos todo o conjunto do programa da habitação dentro de uma faixa que organiza toda a casa deixando o espaço fora da faixa livre, desprogramado.
Tendencialmente, nas diferentes tipologias as portas e os espaços fechados vão deixando de existir, originando apenas planos que vão transitando o grau de privacidade.
Tendo a estrutura de madeira uma presença tão imponente dentro do espaço foi decidido descolar as paredes limite das tipologias de estrutura principal, deixando‐a respirar e contaminar o espaço. O modo de apropriação do objecto arquitectónico que vai alargando foi através de vários pátios que ajudam a organizar a tipologia podendo estes ser de origem vegetal ou não.
II. Trabalhar
a)Programa
O programa do Trabalhar centrou‐se em humanizar um espaço muitas vezes mecânico e genérico. Os diferentes tipos de trabalhar que se emprestam a estes espaços foram tidos em conta pela forma como se podem relacionar entre si nos pisos que os configuram e com o espaço exterior. O primeiro piso de acesso mais directo ao exterior é o de uma livraria. Espaço caracterizado pelo Pensar que tem a possibilidade se estender para o mobiliário urbano no exterior. De seguida temos o ComPartilhar um espaço co‐work que se define por um conjunto de trabalhadores independentes que se juntam num espaço comum para trabalharem acompanhados incentivando redes socais e de trabalho. No piso seguinte é uma incubadora de empresas, espaço onde grupos de trabalho que queiram criar empresas se instalam e têm a oportunidade de usar recursos diponibilizados por uma “empresa mãe” como a reprografia, o departamento jurídico,etc. Tanto este piso como o do co‐work são servidos por espaço público com mobiliário urbano onde o Trabalhar se pode estender.No piso seguinte é o dos serviços que a empresa mãe disponibiliza à incubadora. Os três pisos onde a empresa mãe se desenvolve caracterizam‐se pelo Servir, o Produzir, open‐space com muitos trabalhadores onde a massa da empresa trabalha e o Gerir, espaço com gabinetes individuais e salas de reunião de onde se tomam as decisões sobre o rumo da empresa. O Alimentar é o piso que serve de combustível a toda a empresa e que pode ser também utilizado por pessoas externas. Figura 22 Diagrama Programático ‐ TRABALHAR
b)Estrutura, Ritmo e Detalhe
O objecto de betão tem uma forma que parece desafiar a gravidade. Foram estudados diversos sistemas de construção desde o metálico ao betão. O sistema que se mostrou mais eficaz e que servia ao mesmo tempo o argumento de criar uma identidade própria ao Trabalho foi o sistema Laminar de betão. Lâminas de 40cm de espessura atravessam toda a forma transversalmente com um intervalo de 7.5m e longitudinalmente com um intervalo de 5m. No entanto, e como era necessário ter mais circulação vertical, existe um núcleo de escadas que ajuda a suportar todo este peso.
Para aligeirar esta estrutura foram estudadas diferentes tipos de aberturas que atravessam tanto longitudinalmente, transversalmente e horizontalmente. Criando espaços de encontro que funcionam nas três dimensões. Esta perfuração foi estudada a partir da obra do Gordon Matta‐Clark do estádio do Sp. Braga do Souto Moura e da obra de Christian Kerez.
Figura 25 Processo ‐ Perfurar as Lâminas de Betão 2
Figura 26 Axonometria ‐ lâminas perfuradas
Figura 27 Diagramas Finais ‐Perfuração das lâminas estruturais de betão
Figura 29 Fotomontagens interiores
III. Viver
O espaço Viver é o agente que activa o edifício e o programa que consubstancia o argumento. Ele origina‐se a partir de uma praça tectónica onde três placas se parecem levantar para deixar descobrir uma linha de água. Essas placas vão criar a lógica da contaminação do espaço público no Objecto arquitectónico.
Num primeiro momento este espaço vai resolver a diferença entre as cotas das ruas que confinam o objecto que entre si fazem uma diferença de 7 metros. Ao desenhar os trajectos públicos de encontro à praça cria‐se uma bolsa de dois pisos térreos que ganham programa e interactividade com a praça. Todo o edifício vai crescer por entre as duas outras identidades sempre com uma lógica de espaço público que se movimenta por placas que rompem o espaço e que pontualmente contêm bolsas de programa. a)Programa
O programa do Viver pode‐se dividir em 6 acções principais: Actuar, Educar, Comer, Descontrair, Brincar e Praticar.
O actuar desenvolve‐se num espaço de auditório que está enterrado abaixo da cota da praça. Esse espaço contém uma black box, um espaço expositivo, e um café cultural. Actuar não só de participar num espectáculo mas também de Agir. O palco quando encerrado oferece um auditório a quem se quiser apropriar dele. Este espaço quer‐se de acção e de discussão, de cultura e pensamento.
O Educar refere‐se à cota da praça, consiste numa Creche, um A.T.L., uma biblioteca e um centro educativo.
O Comer encontra‐se a meio caminho de duas cotas das ruas confinantes, é um espaço que pretende ser de encontro à mesa com características para servir de cantina ou self service mais económico.
O espaço seguinte quer ser comprimido, calmo e descontraído. Alberga uma sala, um espaço encerrado onde se pode trabalhar, ouvir música, ler o jornal com o som da água ao nosso lado e o cheiro das flores a circular.
O Brincar é transversal a todo o programa do Viver mas neste piso existem condições que o facilitam, um escorrega, uma rede elástica que contém baloiços, e diferentes planos inclinados que constroem uma topografia artificial que se pode escalar, deslizar fazer acrobacias, etc. conjuntamente com espaços verdes onde se pode rebolar.
O Praticar refere‐se a um ginásio com a valência das máquinas de exercício, de estúdio de dança, espaço Spa e encabeçado por uma piscina. Desta piscina com cobertura de vidro tem‐se uma vista para um espaço de tensão entre os objectos do Trabalho e do Habitar.