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Contaminação. Confronto e partilha.

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Academic year: 2021

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  FACULDADE DE ARQUITECTURA  UNIVERSIDADE TÉCNICA DE LISBOA  

ontaminação 

 

Confronto e Partilha 

 

 

       Joana Filipa Amaral Grilo 

       (licenciada) 

Relatório de Projecto para obtenção do grau de Mestre em Arquitectura 

  Orientador Científico: Arq. Nuno Mateus   Co‐Orientador: Doutora Cristina Cavaco      Júri:  Presidente: Arq. Madalena Cunha Matos  Vogais: Arq. Diogo Burnay  Arq. Nuno Mates  Doutora Cristina Cavaco        Lisboa, FAUTL, Dezembro de 2011

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UNIVERSIDADE TÉCNICA DE LISBOA

FACULDADE DE ARQUITECTURA 

       

    Resumo 

Título | 

Contaminação, 

Confronto e Partilha 

 

Nome | Joana Filipa Amaral Grilo  Orientador | Especialista  Arquitecto Nuno Mateus  Co‐orientador | Doutora Cristina  Cavaco  Mestrado Integrado em  Arquitectura com especialização  em Arquitectura    Lisboa, Dezembro de 2011              Palavras‐Chave: Contaminação, Confronto, Partilha, Crossbreeding, Heterotopia, Híbrido

O  edifício  híbrido  como  modo  compacto  e  sustentável  de  vida  é  actualmente  um  tema  explorado  em  todo  o  mundo  como  solução  às  cidades  segregacionistas  e  dispersas.  Define‐se  como  a  celebração  da  complexidade,  diversidade  e  variedade  programática.  O  argumento  constrói‐se a partir da exploração do programa que existe para além da  rotina  habitual  Casa‐Trabalho.  Esse  programa  tem  de  ter  a  capacidade  de se incutir nessa rotina transformando‐se numa mais‐valia. 

A  Contaminação  é  definida  por  Purini  como  a  consequência  de  dois  actos, a produção do Novo e a fertilização desse objecto com uma célula  linguística  de  genoma  diferente.  A  arquitectura  adapta‐se  a  este  processo  construindo  a  base  do  argumento  desenvolvido.  Para  definir  Confronto  explora‐se  a  ideia  de  heterotopia  como  justaposição  num  único  lugar  real  de  diferentes  espaços  incompatíveis  entre  eles.  Organizando  a  Vida  de  um  modo  multicelular  flexível  dentro  de  um  invólucro  que  isola  mas  permite  a  sua  penetração.  A  Partilha  é  desenvolvida  a  partir  da  noção  de  blurred  zones  de  Eisenmann,  como  um  modo  de  desenvolver  espaços  cujo  significado  não  conseguimos  apreender por inteiro, onde se insere um certo grau de estranheza.  A  contaminação  pelo  espaço  público  num  edifício  de  Habitação  e  Trabalho foi controlada através da criação de três identidades distintas  tanto  programáticas  como  estruturais  e  formais.  Criou‐se  situações  de  sobreposição de sistemas de vida e dinâmicas de tempo que permite aos  seus habitantes viver para além da rotina casa‐trabalho. 

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UNIVERSIDADE TÉCNICA DE LISBOA

FACULDADE DE ARQUITECTURA 

       

       

Abstract 

Title 

Contamination:  

Confront and Share 

 

                                  Keywords: Contamination, Confront, Share, Crossbreeding, Heterotopy, Hybrid 

 

The  hybrid  buildings  as  a  compact  and  sustainable  way  of  life  are  nowadays  an  explored  theme  all  over  the  world  as  a  solution  to  segregated  and  dispersed  cities.  It  is  defined  as  a  celebration  of  the  programmatic  complexity,  diversity  and  variety.  The  argument  is  constructed from the exploration of the program that exists beyond the  usual  routine  house‐work.  This  program  must  have  the  ability  to  instil  this routine becoming an asset. 

Contamination  is  defined  by  Purini  as  a  consequence  of  two  acts,  the  production of the New and the fertilization of that object with a linguist  cell  from  a  different  genoma.  The  architecture  adapts  to  this  process  building  this  way  the  basis  of  the  argument  developed.  To  define  Confront  we  explore  the  idea  of  heterotopia  as  a  juxtaposition  in  a  unique  real  place  different  spaces  incompatible  between  them.  Organizing  Life  in  a  multicellular  flexible  way  within  an  involucre  that  isolates and allows penetration at the same time. The Share is built from  the  notion  of  blurred  zones  of  Eisenmann,  as  a  way  of  creating  spaces  whose  meaning  we  cannot  grasp  in  its  entirety  including  a  degree  of  strangeness. 

The Contamination by the Public Space of a Housing and Office building  was controlled by the creation of three distinct identities, programmatic,  structurally  and  formally.  It  has  created  overlapping  situations  of  life  systems and time dynamics that allows its inhabitants to live beyond the  house‐work routine.  

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Agradecimentos 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A  todos  os  que  de  alguma  forma  contribuíram  para  a  realização deste estudo. 

Ao  Orientador  por  acreditar  em  mim  e  no  projecto  desde  o  início, pelas sugestões e críticas pertinentes. 

Aos  Raminhos  que  me  apoiaram  durante  todo  o  curso  em  particular  nesta  fase  final,  desde  a  China  a  Londres  com  motivação, carinho e paciência. 

Á  minha  Família  por  estarem  sempre  presentes,  pela  motivação e apoio incondicional. 

Ao  Tiago  Oliva  por  me  aturar  nos  momentos  mais  difíceis  e  por acreditar sempre em mim e no meu trabalho. 

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Índice 

  Introdução ... 1  Capítulo I Estado dos conhecimentos Base Teórica ... 2  1.  Do Híbrido ... 2  2.  Contaminação ... 6  3.  Confronto ... 10  4.  Partilha ... 15  Capítulo II Base Prática ... 19  1.  Casos de Estudo ... 19  2.  Caso Prático ... 24  Conclusão ... 51  Referências Bibliográficas ... 53  Desenhos Finais do trabalho ... 55   

Índice de Figuras 

Figura 1 Híbrido Horizontal ... 3  Figura 2 Híbrido Vertical ... 3  Figura 3 Híbrido Proposto ... 4  Figura 4 Diagrama Viral. Ilustração por Franco Purini e Sara Petrolati ... 6  Figura 5 Diagrama Contaminação ... 7  Figura 6 Edifício cortado ‐ Gordon Matta‐Clark ... 8  Figura 7 Caso de Estudo COAG ‐ Evolução Formal ... 19  Figura 8 Caso de Estudo COAG ‐ Cortes transversais – “Tronco” de circulações e interacção com a  praça ... 19  Figura 9 Habitação, Sverr Fehn ... 21  Figura 10 Desenho de Estruturas, Estádio de Braga, Arq. Souto Moura ... 22  Figura 11 Holcim Competence Center de Christian Kerez ... 23  Figura 13 Diagrama Formal ... 24  Figura 12 Corte diagramático ... 24  Figura 14 Estratégia Urbana ... 25  Figura 15 Programa ... 26  Figura 16 Programa Habitação ... 29  Figura 17 Maqueta ‐ Escala 1:20 Edificio de Madeira ... 30  Figura 18 Pormenor Maqueta ‐ Escala 1:20 Edificio de Madeira ... 31 

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Figura 19 Pormenor Maqueta ‐ Escala 1:20 Edificio de Madeira ... 31  Figura 20 Alçado Madeira _ esquema de composição ... 32  Figura 21 Organização das tipologias ... 33  Figura 22 Diagrama Programático ‐ TRABALHAR ... 35  Figura 23 Maquete Estrutura Laminar Betão ... 36  Figura 24 Processo ‐ Perfurar as lâminas de Betão ... 37  Figura 25 Processo ‐ Perfurar as Lâminas de Betão 2 ... 38  Figura 26 Axonometria ‐ lâminas perfuradas ... 39  Figura 27 Diagramas Finais ‐Perfuração das lâminas estruturais de betão ... 41  Figura 28 Maqueta Digital Betão ... 42  Figura 29 Fotomontagens interiores ... 43  Figura 30 Diagrama Programático VIVER ... 45  Figura 31 Diagrama Altimétrico e Programático VIVER ... 46  Figura 32 Estudos de perfuração da lâmina metálica ‐ Fachada ... 48  Figura 33 Diagrama Final ‐ Lâmina Metálica Perfurada ... 49  Figura 34 Maqueta digital ‐ Lâmina Metálica Perfurada da Fachada ... 49  Figura 35 Fotomontagem Interior VIVER ... 50     

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Introdução 

 

O edifício híbrido como modo compacto e sustentável de vida é actualmente um tema explorado em  todo  o  mundo  como  solução  às  cidades  segregacionistas  e  dispersas  definindo‐se  entre  outras  valências como a celebração da complexidade, diversidade e variedade programática. O argumento  constrói‐se a partir do questionamento dos dois programas que dominam a nossa rotina diária: Casa  –  Trabalho  e  o  movimento  pendular  consequente.  Propõe‐se  explorar  o  programa  que  ultrapasse  essa  rotina  e  que  ao  mesmo  tempo  tenha  o  poder  de  se  infiltrar  nela,  contaminando‐a,  transformando‐a. Acrescentando valor ao nosso dia‐a‐dia.  

A Contaminação é definida por Purini como a consequência de dois actos, a produção do Novo e a  fertilização desse objecto com uma célula linguística de genoma diferente. A arquitectura adapta‐se  a este processo construindo a base do argumento desenvolvido. Para definir o Confronto explora‐se  a ideia de heterotopia como justaposição num único lugar real de diferentes espaços incompatíveis  entre  eles.  Organizando  a  Vida  de  um  modo  multicelular  flexível  dentro  de  um  invólucro  que  isola  mas  permite  a  sua  penetração.  A  Partilha  é  desenvolvida  a  partir  da  noção  de  blurred  zones  de  Eisenmann, como um modo de desenvolver espaços cujo significado não conseguimos apreender por  inteiro, onde se insere um certo grau de estranheza. 

Os  casos  de  estudo  foram  analisados  em  diferentes  fases  do  projecto.  O  COAG,  Colégio  de  Arquitectos de Vigo é tido como o exemplo que lança as premissas de Projecto, e que acompanha em  quase todas as fases o argumento apresentado. Foram estudadas diversas tipologias de Sverr Fehne  para o habitar sobre o contexto do argumento e o estádio do Sp. Braga de Souto Moura. O trabalho  de  Christian  Kerez  e  de  Gordon  Matta‐Clark  lançam  as  premissas  da  contaminação  através  da  perfuração. 

O  trabalho  prático  é  abordado  como  um  trabalho  de  investigação  em  constante  evolução.  A  clarificação  do  argumento  deve  ser  feita  a  cada  passo  dado  desde  a  construção  cuidadosa  do  programa  aos  diagramas  usados  para  o  transmitir.  A  partir  da  construção  de  diversas  maquetes  procura‐se ir respondendo ao argumento indiciado. Cada desenho é visto como uma oportunidade  de desenvolver esse argumento. Cada avanço numa nova escala surge como uma oportunidade de  transformação  e  evolução  do  projecto.  Assim,  o  trajecto  não  é  linear  nem  o  pretende  ser.  É  constantemente contaminado pelas diferentes fases a que o projecto deve responder. Do contexto  urbano ao detalhe como sintoma do todo. 

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Capítulo I 

Estado dos conhecimentos

 

Base Teórica 

 

1. Do Híbrido  

  “The concept of hybridization originates from genetics and refers to the cross breeding of different  species”1 

Os  edifícios  híbridos  são  estruturas  capazes  de  combinar  programas  diferentes  e  encorajar  a  interacção de usos urbanos distintos combinando usos privados com usos públicos. Os híbridos vão  para  além  dos  usos  mistos:  o  termo  refere‐se  à  combinação  da  esfera  pública  e  privada  em  habitação,  espaços  públicos  e  serviços  cívicos  e  responde  a  três  preocupações  principais  da  nossa  sociedade: 

. A escassez e valorização consequente do território 

. A  necessidade  de  intensificar  o  uso  do  território  para  contribuir  para  o  desenvolvimento  sustentável.  . A necessidade de densificar usos para revitalizar os centros urbanos.     Actualmente um grande número de projectos em curso, sobretudo especulativos, necessitam alojar  distintos usos simultaneamente. O grau de concentração e hibridação é entendido como um método  para activar o edifício, cada um dos seus usos e o tecido urbano que o rodeia. 

A  ideia  de  híbrido  não  é  nova.  Ao  longo  da  história,  densidade,  preço  do  solo  e  sobreposição  de  funções  estiveram  intimamente  relacionadas.  Na  antiguidade  as  cidades‐estado  confinavam‐se  ao  interior  das  suas  muralhas  para  se  defender  e  definir  a  distinção  entre  civilizado  e  inexplorado.  Naquele  tempo  a  maioria  dos  transportes  e  movimentos  da  população  realizavam‐se  a  pé.  Por  consequência, os espaços de trabalho, casa e comércio compartilhavam lugares ou sobrepunham‐se  sem  grandes  distinções  entre  espaços  e  funções.  Neste  contexto  de  espaço  limitado,  qualquer  construção  nova  implicava  anexação  e  sobreposição,  e  portanto  Densidade.  Os  usos,  em  vez  de  se        

1

 Fenton, J. “Hybrid Buildinds” in Pamphlet Architecture no. 11: Hybrid Buildings, Princeton Architectural Press,  New York, 1985, p.5 

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situarem  em  lugares  isolados  da  cidade,  preenchiam  qualquer  vazio  sobrante  da  malha  urbana,  dando lugar a uma única entidade híbrida em constante evolução. 

Até à compilação de Joseph Fenton de 1985, os edifícios híbridos foram ignorados como tipologia de  edifício e catalogados como usos mistos. Segundo Fenton, existe uma clara diferença entre híbrido e  usos  mistos  no  sentido  em  que  nos  híbridos  os  programas  individuais  relacionam‐se  entre  si,  começam a partilhar intensidades e ajustam‐se à malha urbana em que se inserem. 

Recentemente  a  editora  A+T  lançou  uma  Série  de  três  revistas  centradas  no  tema  dos  edifícios  híbridos  e  diferenciando  os  projectos  analisados  por  Híbridos  Horizontais,  Híbridos  Verticais  e  Híbridos  Residenciais.  Nesta  publicação  o  edifício  Híbrido  é  definido  como  sendo  um  novo  ser  unificador  e  cosmopolita.  A  sua  personalidade  é  a  celebração  da  complexidade,  diversidade  e  variedade  programática.  Alimentando‐se  do  encontro  entre  a  esfera  privada  e  pública.  Lutando  contra  morfologias  segregacionistas  e  diluindo  as  categorias  e/ou  tipologias.  Parte‐se  do  princípio  que  a  propriedade  e  desenvolvimento  do  solo  podem  ser  híbridos  assim  como  a  estrutura,  a  construção e a sua gestão. A mistura de usos torna‐se uma potência motora que actua como vasos  comunicantes. São organismos com múltiplos programas interconectados e preparados para acolher  tanto  as  actividades  previstas  como  as  imprevistas  de  uma  cidade.  O  esquema  híbrido  propõe  intensos contornos de fecundação cruzada, que misturam os genotipos conhecidos e criam alianças  genéticas para melhorar as condições de vida e revitalizar a urbanidade onde se encontram. A escala  de  um  híbrido  e  a  sua  relação  com  a  envolvente  mede‐se  pela  justaposição  das  secções  programáticas.  Nos  híbridos  verticais,  as  funções  unem‐se  por  sobreposição  e  nos  horizontais  por  adição  em  planta.  Pela  escala  do  híbrido  podem‐se  aplicar  estratégias  próprias  da  composição  urbana introduzindo‐se no domínio do urbanismo.           Figura 1 Híbrido Horizontal

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Percebe‐se  então  o  edifício  como  um  sistema  estrutural  e  construtivo  multifuncional  capaz  de  responder a diferentes programas. Origina uma dinâmica própria entre o âmbito privado, público e o  entretanto. Um processo específico a um objecto destes é a contaminação das várias partes entre si,  um  cross  breeding.  Cada  programa  contamina  o  próximo  numa  mutação  da  espécie  num  ser  atipológico.  O  espaço  mais  paradigmático  deste  processo  é  o  espaço  do  entretanto,  o  espaço  existente entre programas.   

O  argumento  constrói‐se  pensando  nos  dois  programas  principais  que  dominam  a  nossa  rotina,  a  Habitação  e  o  Trabalho  e  tudo  o  que  pode  acontecer  entre  eles  a  que  denominamos  de  Vida.  O  programa da Vida não se basta num cariz social como a creche, o A.T.L, o auditório, mas presta‐se a  reflectir  em  tudo  o  que  pode  existir  para  além  disso.  Trazendo  características  da  rua  e  do  espaço  público  para  a  porta  de  casa  e  do  trabalho  o  programa  social  dissolve‐se  em  espaços  desprogramados que se prestam à Vida.  

 

Figura 3 Híbrido Proposto  O  estudo  tem  como  objectivo  último  alcançar  uma  vivência  de  cidade  que  existe  desde  a  Idade  Média.  A  cidade  medieval  correspondia  na  perfeição  a  um  programa  híbrido  com  uma  vivência  de  bairro contínuo onde os espaços de contaminação proliferavam em todos os programas e todos os  níveis de interioridade. Chegaram aos dias de hoje signos destituídos já desse significado. Assim são  as  namoradeiras,  os  alpendres,  as  escadarias,  os  espaços  de  entrada,  a  própria  varanda  era  a 

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              Contaminação2   s. f.  1. Acto de contaminar.  2. Mancha, impureza.  3. Infecção.    Contaminarv. tr.  1. Sujar, manchar (o que é puro ou respeitável) por contacto vil ou pestilento.  2. Fig. Infeccionar.  3. Comunicar alguma doença, mal ou vício.        2  Dicionário Priberam de Língua Portuguesa  3  Idem 

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2. Contaminação  

“The objective of any form of artistic écriture is  not, in the first instance, beauty.”4 

A écriture 

Franco  Purini  descreve  a  forma  artística,  denominando‐a  de 

écriture,  como  o  resultado  formal  da  convergência  de  três 

intenções  num  complexo  sistema  de  signos.  A  primeira  é  a  produção  do  Novo,  a  segunda  é  a  construção  de  uma  entidade  Viva,  a  definição  de  uma  estrutura  linguística  múltipla  e  metafórica capaz de evoluir de acordo com um plano próprio e a  terceira é a evocação do original. A dimensão do belo da écriture  é  sustentada  pela  acção  conflituosa  da  multiplicidade  de  componentes que cada uma das três dimensões traz com ela. 

Contaminação 

Qualquer  écriture  artística  nasce  numa  primeira  instância  por 

partenogénese.  Origina‐se de si própria. O germinar de um novo 

organismo  a  partir  de  um  existente.  Segue‐se  a  fertilização  de  uma  célula  linguística,  com  um  genoma  diferente.  Para  uma 

écriture  nascer  é  necessário  um  factor  aleatório,  algo  estranho, 

algo  que  não  só  marque  a  diferença  mas  também  entalhe  uma  medida de hostilidade. Uma substância agressiva, que cause um  conflito  celular.  Este  terceiro  facto  é  um  elemento  de 

contaminação. Contaminação previne a écriture de se retirar para 

a  tendência  de  repetir  a  sua  própria  estrutura  e  o  seu  próprio        

4 PURINI, Franco, “Viral Architecture”, Lotus 133, 2008, p.85. 

 

Figura 4 Diagrama Viral. Ilustração por  Franco Purini e Sara Petrolati 

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modo de formação. É uma prática melhorativa que não debilita a base da identidade viva, limitando‐ se  a  aumentar  as  suas  capacidades  através  da  inserção  de  potencialidades.  Por  outro  lado,  a  contaminação contém algo infeccioso, tão perigoso como um vírus desconhecido. Atacada pelo vírus,  que por vezes pode tomar a forma de um erro, a écriture descobre o Outro, revela‐se a si mesma o  que  tende a  esconder; aceita tornar aquilo que se  lhe opõe internamente na sua própria  essência.  Contaminação  é  um  processo  no  qual  a  écriture  se  estende  até  ao  abismo  do  alienígena,  do  repelente,  é  a  localização  de  tudo  o  que  está  doente,  confuso,  monstruoso,  errado,  impensável  e,  acima de tudo, impuro. 

O  Argumento  de  projecto  nasce  também  de  partenogénese,  é  criado  à  semelhança  da  sua  envolvente, a cota mais alta e o programa encaixam com o construído. A cota é a 120 e o programa  divide‐se  ente  o  Trabalho  e  a  Habitação.  Cria‐se  o Novo.  A  fertilização  por  um  genoma  diferente  é  feita pela lógica do espaço público. Esta lógica agressiva vai dissolver o programa criando bolsas que  obedeçam  à  lógica  vindo  do  exterior.  No  fim  existe  uma  adaptação  mútua  entres  os  espaços.  O  espaço  público  vive  do  habitar  e  do  trabalhar  tanto  como  o  habitar  e  o  trabalhar  necessitam  do  espaço público. 

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Figura 6 Edifício cortado ‐ Gordon Matta‐Clark

Agressão viral 

Se  o  que  acabou  de  ser  resumido  é  o  processo  genético  que  leva  ao  nascimento  de  uma  écriture  artística, outros processos de contaminação acompanham o trabalho que nasce destas écritures na  sua  existência.  Na  arquitectura  quase  todos  os  edifícios  estão  sujeitos,  desde  o  momento  da  sua  realização, ao fenómeno de agressão viral que os transforma. A eliminação de algumas partes, adição  de outras, a super afectação de volumes que parasitam os originais e a modificação dos materiais de  construção configuram um processo destrutivo que também é tomado como uma manifestação de  extrema  vitalidade.  Os  cortes 

violentos  que  Gordon  Matta‐Clark  fez  em  edifícios  pré‐existentes,  levando  o  espaço  envolvente  urbano  para  dentro  deles,  assim  como  as  mais  introvertidas  transmissões  semânticas  resultantes  destas  contaminações,  são  o  resultado  de  uma  alargada  série  de  causas,  todas  reunificadas  pelo  tempo.  É  a  vida  ao  longo  do  tempo  do  edifício  que  requer  uma  contínua redefinição da sua função,  são  as  mudanças  no  gosto  que  se  produzem  ao  longo  do  tempo  que  impõem,  à  vez,  uma  série  de  transformações  e  é  o  próprio 

tempo, finalmente, que desgasta os edifícios, causando a sua inevitável redução ao estado de ruína.  A  cidade  não  pode  viver  sem  conflito.  Por  este  motivo,  existe  uma  necessidade  de  provocá‐los  e  mantê‐los  vivos  numa  moda  cíclica  até  que  chegue  ao  tempo,  em  que  eles  tendo  crescido  tão  desestabilizados, requerem recomposição; uma recomposição que, a seguir a um certo período, será  seguida  ainda  por  outro  conflito.  A  heterotopia  de  Michel  Foucault,  com  a  mudança  radical  das  convenções  arquitectónicas  e  urbanas  que  derivam  daí,  captura  por  inteiro  o  sentido  intrínseco  e  indefeso  do  habitar  humano,  dos  seus  códigos  físicos  e  comportamentais  e  os  seus  modelos 

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                    Confronto5  s. m.  1. Acto ou efeito de confrontar.  2. Cotejo, comparação.    Confrontar6    v. tr.  1. Cotejar (comparando).  2. Dir. Acarear.  v. intr.  3. Estar virado para; confinar        5  Dicionário Priberam de Língua Portuguesa  6  Idem 

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3. Confronto 

  Of other spaces: utopias and heterotopias – Michel Foucault  A nossa Era parece obcecada com o espaço. Estamos na Era do simultâneo, da justaposição, do perto  e do longe, do lado a lado e do disperso. Um período em que o mundo se coloca a teste não tanto  como um modo de vida exemplar destinado a crescer no tempo  mas como uma rede que conecta  pontos e cria o seu próprio caos. 

Na  Idade  Média  existia  um  sistema  hierárquico  de  lugares,  sagrados  e  profanos,  protegidos  e  indefesos,  urbanos  e  rurais.  O  espaço  contemporâneo  ainda  não  perdeu  estas  características  sacralizadas, as nossas vidas ainda são dirigidas por um certo número de opostos inflexíveis. Opostos  que  tomamos  por  garantidos  tal  como  o  contraste  entre  o  privado  e  o  público,  espaço  social  e  familiar, espaço cultural e utilitário, o espaço do trabalho e o espaço do prazer – opostos ainda sobre  a influência de uma sacralidade velada. 

O  espaço  exterior  onde  vivemos  é  em  si  mesmo  heterogéneo.  Vivemos  num  conjunto  de  relações  que definem posições que não podem ser equiparadas ou sobrepostas.  Existem arranjos dessas relações dotados da curiosa propriedade de estarem relacionados com todas  as outras, de tal modo que suspendem, neutralizam ou invertem o conjunto de relações projectadas,  reflectidas ou espelhadas por elas mesmas.  Estes espaços que estão em harmonia com todos os outros e no entanto os contradizem são de dois  tipos:  ‐ Utopias, arranjos que não têm espaço real, têm uma analogia directa ou inversa com o espaço real  da sociedade. Representam a sociedade levada a um extremo de perfeição ou o seu reverso mas na  sua essência são fundamentalmente irreais. 

‐  Heterotopias,  espaços  reais  e  efectivos  que  são  delineados  na  instituição  da  sociedade  mas  que  constituem uma espécie de arranjos contraditórios da utopia, no qual todos os outros arranjos reais 

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da sociedade estão simultaneamente representados, desafiados e contrariados: um espaço que fica  fora de todos os espaços e no entanto é localizável. Em contraste com as utopias, estes espaços que  são absolutamente outro a respeito a todos os arranjos que reflectem e dos quais falam podem ser  descritos como heterotopias.    Princípios das heterotopias   1º Princípio ‐ Todas as culturas do mundo são feitas de heterotopias, é uma característica constante  em  todos  os  grupos  humanos.  Estas,  assumem  uma  grande  variedade  de  formas,  não  existe  uma  única e absolutamente universal. 

No entanto é possível classificá‐las em dois tipos principais: 

_  Nas  sociedades  primitivas  existem  as  heterotopias  de  crise,  o  que  incluí  espaços  privilegiados,  sagrados ou proibidos que são reservados para o indivíduo que se encontra num estado de crise em  relação  à  sociedade  ou  ao  ambiente  onde  vive:  adolescentes,  mulheres  no  período  menstrual  ou  parturientes, os idosos, etc. 

_  Na  nossa  sociedade  estas  heterotopias  estão  a  ser  substituídas  por  heterotopias  de  desvio,  ocupados  pelos  indivíduos  cujo  comportamento  desvia  da  média  ou  norma.  Centros  de  dia,  residências assistidas, clínicas psiquiátricas, prisões, etc. 

2º  Princípio  –  No  decurso  da  história  a  mesma  heterotopia  pode  funcionar  e  ocupar  um  lugar  na 

sociedade de maneira muito diferente.   Por exemplo, o cemitério, é certamente um “outro” lugar a respeito aos lugares culturais comuns, e  no entanto está ligado a todas os locais na sociedade uma vez que cada família possui lá um familiar.   Até ao século XVIII o cemitério localizava‐se no centro da cidade, na igreja, e constituía o sagrado e  imortal fôlego da cidade. Actualmente, o cemitério mudou‐se para o limite da cidade representando  agora a “outra” cidade, onde cada família possui a sua habitação sombria. 

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3º Princípio – A heterotopia tem o poder de justapor num único lugar real diferentes espaços e locais 

incompatíveis  entre  eles.  Como  exemplo  podemos  nomear  o  palco  de  um  teatro,  o  ecrã  de  um  cinema ou um tapete, no sentido oriental da palavra, como o jardim do mundo. 

4º  Princípio  –  Heterotopias  estão  conectadas  na  sua  maioria  a  pedaços  de  tempo  e  entram 

plenamente em função quando o homem se encontra numa ruptura total do tempo tradicional.  

Existem heterotopias de tempo que acumulam ad infinitum, como museus e bibliotecas, criando um  arquivo  universal  que  inclui  todos  os  tempos,  todas  as  eras,  formas  e  estilos  num  único  lugar  e  existem heterotopias que são absolutamente efémeras como as feiras e os festivais ou as vilas que  servem exclusivamente para as férias.  5º Princípio – As heterotopias pressupõem um sistema de abertura e encerramento que ao mesmo  tempo que as isola permite a sua penetração.  6º Princípio ‐ As heterotopias funcionam tanto como lugares de liberdade e ilusão como lugares de  disciplina e compensação. Assim temos os antigos bordéis parisienses como os colonatos europeus  nos Estados Unidos da América ou os colonatos jesuítas na América do Sul. 

A  heterotopia  mantém  a  estabilidade  da  cidade  como  um  sistema  auto  organizável  ao  gerir  as  excepções. A sua forma é amplamente diversa e constantemente em fluxo, não existe uma única e  estável aparência ou aspecto sob a qual as heterotopias desempenham as suas complexas funções.  Embora  a  forma  destes  espaços  tenha  mudado  ao  longo  do  tempo  as  razões  sistemáticas  da  sua  existência  não  o  fizeram.  O  espaço  ocupado  pela  comunidade  excluída  cria  uma  ordem  espacial  alternativa.  Uma  vez  que  as  heterotopias  contêm  todas  as  excepções,  uma  heterotopia  típica  é  multicelular (para organizar/classificar as excepções), flexível e contida entre uma fronteira mais ou  menos fechada e protegida por guardas de portão.  

A palavra heterotopia vem da medicina onde significa uma célula ou grupo de células que vivem de  forma  não  maligna  dentro  de  uma  célula  hospedeira  distinta  ou  tecido.  A  formação  de  um  tecido  numa zona onde a sua presença é anormal.  

Onde  uma  heterotopia  existe,  algo  completamente  “outro”  reside  dentro  do  corpo  do  hospedeiro  numa  relação  benigna,  os  dois  sistemas  toleram  as  suas  diferenças.  Esta  coexistência  é  possível  porque  a  heterotopia  contém  dentro  de  si  múltiplos  compartimentos  que  podem  albergar  espaços 

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contraditórios e complementares, isto é a heterotopia é um único espaço real constituído de vários  espaços  e  lugares  incompatíveis  entre  si.  A  heterotopia  é  um  espaço  ambíguo  que  contem  vários  espaços  díspares  dentro  de  um  único  perímetro  controlado  por  portões  onde  diversos  actores  interagem num modo complexo e por vezes indirecto, usando códigos, imagens e espelhos. 

O  argumento  desenvolve  o  Confronto  na  justaposição  num  único  lugar  real  de  diferentes  espaços  incompatíveis  entre  eles.  Esta  incompatibilidade  advém  de  um  número  de  opostos  inflexíveis  sacralizados  pelo  tempo.  Como  o  contraste  entre  o  privado  e  o  público,  espaço  social  e  familiar,  espaço cultural e utilitário, o espaço do trabalho e o espaço do prazer.  

Pensando  no  cronograma  diário  de  um  adulto  podemos  quebrar  a  rotina  Casa‐Trabalho  confrontando‐o  em  casa  ou  no  trabalho  com  as  alternativas,  com  a  Vida.  A  educação,  o  parque,  a  cultura… Quebrar a percepção do tempo tradicional e dos movimentos pendulares intrínsecos a este.  Esta Vida organiza‐se de uma maneira multicelular flexível dentro de um limite que isola mas permite  a sua penetração.   A diversidade no programa existe entre os conjuntos multi‐celulares assim como as células em si que  partilham uma característica entre elas mas são opostas em tudo o resto. Por exemplo, o programa  de Habitação e o programa de Trabalho são tidos como opostos, dentro da Habitação as células são  opostas entre si. Habita‐se de forma muito diferente em cada célula no entanto habita‐se. Dentro do  Trabalho, existem formas de vivenciar o trabalho contraditórias, em comum têm esta característica,  são espaços onde se trabalha.         

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                                        Partilhar7   v. tr.  1. Fazer partilha de; dividir, repartir, distribuir.  v. intr.  2. Participar.        7  Dicionário Priberam de Língua Portuguesa 

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4. Partilha 

  1) Make a wall to live in.  2) If needed we work to disprove  the common belief that all starts with the plan. There are forms  without plans – dynamic orders  and disorders.  3) Microcosmic space  build a model living space  in the gargoyle’s mouth.  4) A response to cosmetic design  completion through removal,  completion through collapse  completion in emptiness.  Gordon Matta‐Clark.8    Blurred Zones ‐ Peter Eisenman 

A  arquitectura  consegue  proporcionar  afecto  –  uma  forma  de  articulação  que  apela  tanto  ao  somático como ao articulado: ao corpo, à mente e à visão ao mesmo tempo. Algo que outros media  não  conseguem  fazer.  Blurring  ou  blurred  zones  lida  com  o  mundo  do  afecto,  em  vez  de  efeito,  apresentando uma estratégia para uma relação diferente entre a mente e o corpo na arquitectura.  Ao  Afecto  interessa  o  modo  como  efeitos  particulares  da  arquitectura  e  a  sua  retórica  conseguem  deslocar  a  experiência  convencional  e  esperada  do  espaço.  Se,  como  Walter  Benjamim  disse,  a        

8

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arquitectura  é  vista  num  estado  de  distracção,  tais  afectos  podem  provocar  uma  consciência  diferente na experiência entre o tempo e o espaço. O afecto opera no modo como a parte superior  do  corpo  se  movimenta  dentro  e  em  volta  do  espaço,  calibra  a  experiência  somática  do  sujeito  na  presença  e  na  informação,  assim  como  o  desejo  fundamental  por  estas  experiências.  Este  desejo  gera uma expectativa inconsciente e somática por parte do sujeito. Benjamim chama a esta reacção  uma questão de hábito. Os hábitos estão enraizados no desejo, e o desejo é muitas vezes motivado  pelo hábito. A maioria da arquitectura é a concretização do hábito. Existem motivações primitivas e  inconscientes que se tornam conscientes na arquitectura: o desejo pelo solo ou por estar enraizado;  o desejo por abrigo; o desejo de sentido. Estes desejos mais que o objecto de desejo em si, motivam  um status quo na arquitectura. Se a arquitectura conseguir começar a deslocar esta motivação, então  o desejo manifestado na expectativa do habitual ou somático poderá talvez ser reorientado.  A palavra arquitectura conjura um enorme leque de sentidos que abrange tudo, da casa ao edifício,  do símbolo à função. Mas enquanto inclui estas coisas, também assume certas condições para além  dos limites do necessário e suficiente para definir o discurso particular da arquitectura. Por sua vez  estes  pressupostos  reprimem  outras  possibilidades.  Blurring  envolve  fundamentalmente  a  questão  de  se  tornar  desmotivado  de  três  condições:  tornar‐se  desmotivado  da  presença,  tornar‐se  desmotivado  do  signo  e  do  sujeito.  O  conceito  chave  de  se  tornar  desmotivado  é  tornar‐se 

(becoming),  um  movimento  entre  estar‐se  completamente  motivado  para  algo  menos  motivado  – 

uma  condição  intersticial.  Blurring  é  uma  estratégia  para  desmotivar  não  o  desejo  em  si  mas,  o  desejo  específico  de  presença,  solo  e  sentido.  É  uma  actividade  conceptual.  Uma  acção  destas  começa por deslocar categorias tais como o visível e o articulado e para isso separa a forma de uma  relação  directa  com  a  função  e  o  significado.  Procura  debilitar  a  clareza  conceptual  e  física  de  elementos como a figura e o solo.  A Arquitectura é uma ocorrência do dia‐a‐dia, não serve para entreter nem para chamar a atenção à  sua própria retórica e assim é vista como uma resposta a um desejo de lugar, de solo, confinamento,  representação e por aí adiante. Seja consciente ou não, um dos desejos básicos do ser humano é o  de tornar as coisas reais, tangíveis, seguras e confortáveis. A Arquitectura é um dos lugares principais  destes desejos, pois envolve não só a presença, um invólucro real, mas também a ideia metafísica de  conforto e segurança. Na Arquitectura a presença é tanto activa como fundamental. A desmotivação  não lida com questões de segurança e conforto no entanto tenta problematizar o seu uso como um  factor de legitimação na arquitectura.  

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Blurring sugere uma condição onde a arquitectura nem é dependente das suas narrativas anteriores 

nem  é  desprovida  de  significado  mas  reside  entre  as  duas,  onde  outras  formas  de  significado  e  situações  significativas  podem  ocorrer.  O  tornar‐se  desmotivado  é  um  processo  entre  a  clareza  de  um  significado  e  o  não  ter  significado.  A  arquitectura  nunca  pode  tornar‐se  completamente  desmotivada  ou  sem  significado.  Símbolos  como  o  solo,  o  invólucro  e  a  fachada  que  dominaram  o  discurso  arquitectónico  desde  o  século  XVI  são  o  que  se  chama  de  condições  motivadas.  Estas  condições  foram  tomadas  como  garantidas.  Ao  longo  do  tempo  foram  tomando  qualidades  do  natural,  quando  de  facto  são  apenas  convenções.  Tomando  como  exemplo  o  termo  fachada  que  é  usado  como  termo  para  elevação,  plano  vertical,  etc.,  é  um  termo  motivado  que  se  assume  ser  natural e por isso neutro ao nível estético. Mas fachada literalmente significa face, ter uma face, os  planos  verticais  mais  exteriores  são  legitimados  como  fachadas  por  terem  uma  face.  Uma  face  é  composta,  tem  uma  estética  e  nessa  estética  um  significado  simbólico  e  icónico.  A  fachada  cria  diferença  e  hierarquia  entre  o  dentro  e  o  fora,  o  público  e  o  privado,  o  sagrado  e  o  profano.  O 

Blurring tenta apagar essa hierarquia e as condições que previamente a legitimaram, mas sem perder 

a condição de encerramento do plano vertical. Em vez de legitimar o invólucro, o Blurring permite ao  plano vertical ser outra coisa qualquer. 

Se  é  possível  o  blur  e  o  deslocamento  da  presença  tradicional  –  para  deslocar  conceptualmente  a  estabilidade de lugar – e se o signo pode tornar‐se menos motivado e orientar‐se em direcção a uma  condição inicial, deixa‐nos assim com a condição do sujeito. 

Como se muda a motivação do sujeito? Por outras palavras, se a arquitectura é vista como algo que é  conhecido  e  percebido,  pode  alguém  mudar  a  arquitectura  para  algo  que  pode  apresentar  o  inesperado dentro do esperado? 

“A estranheza é um dos graus de intensidade do familiar”9 

Blurring tem definições muito diferentes – o entretanto, o intersticial – e formas bastante diferentes. 

O  processo  de  Blurring  introduz  uma  terceira  fase  no  processo  de  projecto.  A  primeira  fase  de  qualquer projecto considera o sítio, o programa e a função, que são a realidade do que é pedido. O  segundo  tipo  de  material  textual  vem  da  interioridade  e  anterioridade  da  arquitectura.  A  interioridade define a disciplina e a anterioridade é a história sedimentada da arquitectura. Os textos        

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 Mateus, Nuno in “ARX Portugal”, Arq./a nº39, Setembro | Outubro 2006, p.22.    

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da  função,  sítio  e  programa  e  os  textos  de  interioridade  e  anterioridade  da  arquitectura  juntos  definem a prática tradicional. 

A tentativa de criar o Blurring requer a introdução de outros, terceiros textos. Estes textos aparecem  inicialmente  para  desmotivarem  os  conceitos  iniciais  do  programa,  sítio,  contexto,  interioridade  e  anterioridade. Estes textos são arbitrários e contingentes no sentido de que ambos se relacionam e  têm  a  habilidade  de  alterar  as  condições  dos  textos  tradicionais.  A  introdução  de  uma  condição  aparentemente arbitrária entre a relação dos outros textos começa a desfocar, blur, a prévia relação  directa  entre  as  formas  produzidas  e  as  suas  funções  ou  significados.  Estes  textos  supostamente  arbitrários  estão  contidos  na  sua  capacidade  de  desfocar.  No  sentido  em  que  são  escolhidos  para  produzir efeitos arquitectónicos que irão deslocar os tradicionais. Isto produz o que se pode chamar  um diagrama, uma condição desfocada entre a forma e o conteúdo, entre o sítio e programa, onde  os signos já não estão completamente motivados. A interferência do padrão do diagrama previne o  recurso à relação anterior forma – função e forma ‐ conteúdo.  O argumento constrói esta desmotivação através da inserção de um elemento estranho numa ordem  estabelecida. Quando a lógica do espaço público invade lógicas de esfera privada tais como o Habitar  e  o  Trabalhar,  questiona  o  invólucro  como  elemento  limite,  entre  o  público  e  privado,  entre  o  trabalho  e  o  prazer,  entre  o  social  e  o  familiar.  Ao  invés  o  invólucro  alberga  espaços  onde  estes  elementos  opostos  entre  si  se  encontram  e  por  sua  vez  dentro  desse  espaço  existem  outros  invólucros. A desmotivação não é só feita no invólucro, o espaço público deixa de pertencer ao solo  para  se  tornar  num  volume  que  ocupa  todo  o  espaço  entre  dois  invólucros.  Existe  também  uma  desmotivação  de  conceitos  como  a  cobertura,  a  parede  e  o  chão.  Estes  limites  que  costumam  ser  massa expandem‐se para conter espaço habitável. 

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Capítulo II 

Base Prática

 

1. Casos de Estudo 

Os  casos  de  estudo  foram  analisados  durante  diferentes  fases  do  projecto.  Relacionam‐se  com  o  argumento de forma diferente originando novos olhares sobre um mesmo tema.  

COAG, Colégio de Arquitectos de Vigo, estúdio ip. 

Este caso de estudo lançou as premissas base do Projecto. No contexto urbano adapta a sua forma 

ao  local  respondendo 

geometricamente  às  suas  diferentes  frentes.  Urbaniza  o  local  com  uma  praça  que  interliga  diferentes  cotas  de  rua.  O  objecto  age  como  agente  estranho  que  vai  contaminar  um  casco  antigo  dissolvendo  nele  a  sua  contemporaneidade.  O  programa  é  construído  de  forma  evolutiva  onde  é  dada  importância  aos  diferentes  graus  de  privacidade.  Para  isso  existem  duas  peles  que  formam  um 

Figura 7 Caso de Estudo COAG ‐ Evolução Formal

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tronco de árvore autónomo com as circulações comuns e onde estão ligadas bolsas que permitem a  sua utilização de forma independente do resto do edifício. A organização interna responde também a  estes  critérios  de  flexibilidade,  o  programa  mínimo  da  sede  do  COAG  permanece  distribuído  de  forma  contínua  em  secção,  deixando  as  bolsas  que  conectadas  directamente  com  a  circulação  exterior, podem ser usadas de modo autónomo e com diferentes horários e alojando também entre  as capas os espaços colectivos de relação e descanso. Todo o edifício tem como objectivo funcionar  durante o dia inteiro nas suas diferentes valências desde o escritório mais privado ao café mais social  passando pela praça e espaços de seminários que se tornam independentes.  A transparência da fachada permite incorporar a vida e ofertas culturais do edifício nas actividades  urbanas que se desenrolam na praça, ampliando desta maneira a dimensão social numa envolvente  antes degradada.  O edifício tem três plantas térreas de modo a gerar um espaço de entrada de acessibilidade natural  desde as diferentes cotas  da rua que embocam na  praça o que  por sua vez induz  que a actividade  própria  do  edifício  colonize  e  expanda  a  sua  presença  na  praça.  A  praça  é  pretendida  como  uma  topografia  que  na  sua  resolução  gere  os  seus  próprios  equipamentos  de  mobiliário  urbano  e  natureza  construída. Assim as dobras que conformam as áreas de estar são bancos e escadas para  estar ou desfrutar das actividades colectivas.  

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Para construir um argumento para a Habitação foi estudada a obra de Sverr Fehn. A sua abordagem  ao  doméstico,  aos  diferentes  níveis  de  privacidade  e  interioridade,  às  diferentes  combinações  de  tipologia  que  consegue  apenas  pelo  modo  como  desenha  o  motor  de  águas  (casas  de  banho  e  cozinha).  Juntos  ou  separados,  num  compartimento  fechado  ou  estendendo‐se  para  fora  dos  seus  limites. Partilhados ou individuais. Colocando‐o numa posição central na casa onde organiza todo o  resto do habitar ou num limite desta. Todas estas tipologias podem ser lidas sobre o argumento da  contaminação, do confronto e da partilha e foram referência para criar diferentes tipos de habitar no  projecto.      Figura 9 Habitação, Sverr Fehn 

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O Estádio do Braga do arquitecto Souto Moura, o Holcim Competence Center de Christian Kerez e a  obra de Gordon Matta‐Clark ajudaram a argumentar o tema no programa Trabalhar. A contaminação  é vista aqui como um prolongamento do espaço tridimensionalmente entre programas normalmente  encerrados.  Existem  perfurações  que  atravessam  todo  o  edifício  na  sua  transversalidade,  longitudinalidade e verticalidade. O que normalmente seria o espaço de encontro entre os diferentes  trabalhadores de um piso vai passar a ser o espaço de encontro de três pisos. Vão existir espaços de  Partilha, entres os diferentes modos de trabalhar.        Figura 10 Desenho de Estruturas, Estádio de Braga, Arq. Souto Moura     

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  Figura 11 Holcim Competence Center de Christian Kerez           

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2. Caso Prático 

 

2.1 Contexto Urbano 

O plano urbano foi concebido a partir de uma massa uniforme que surge a uma cota predefinida e  que foi esculpida a partir de diferentes temas urbanos. Uma massa à cota 120 recortada por cinco  temas, corredor ecológico, percursos, cluster, praça e enquadramentos. Esta metodologia pretende  beneficiar  o  espaço  público,  (des)construindo  o  plano  urbano  através  da  sua  caracterização.  Construir o plano urbano através do espaço público. Assim sendo, acrescentou‐se um sexto tema, a  exposição solar. 

O Objecto em estudo sofreu transformações formais através da metodologia usada no plano urbano  e da adaptação à sua envolvente construída. As confrontações directas do edifício passam por uma  praça  urbana  a  Sul,  torres  habitacionais  a  Norte,  dois  edifícios  do  plano  urbano  e  o  edifício  da  Marconi que o objecto conjuntamente com a praça se propõe a urbanizar.  

  Figura 13 Diagrama Formal  Figura 12 Corte diagramático

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Para além destas transformações gerais da forma, o Objecto faz ainda no seu plano térreo a ligação  de diferentes cotas das ruas que o confinam. Fazendo a ligação não só para dentro do seu edifício  mas também servindo diferentes trajectos públicos que ligam à Praça.  À semelhança do caso de estudo COAG apresentado o objecto torna‐se assim num veiculador de vida  adaptando‐se a uma envolvência hostil.               Figura 14 Estratégia Urbana   

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2.2 Programa 

O Programa do objecto arquitectónico como já foi argumentado passa por três situações distintas: o  Habitar, o Trabalhar e o Viver.  

O  Viver  propõe‐se  a  explorar  as  situações,  o  programa,  na  nossa  vida  que  ultrapassa  o  habitual  movimento  pendular  diário  Casa‐Trabalho  e  que  contem  o  poder  de  se  conseguir  infiltrar  nessa  rotina, contaminando‐a, transformando‐a. Criar alternativas na Vida das pessoas, o que se passa para  lá  do  trabalho  no  nosso  dia‐a‐dia.  Não  são  procuradas  aqui  situações  de  excepção,  de  desvio  do  habitual.   

Para cada situação foi estudado um programa diversificado, tanto quanto os modos de habitar e de  trabalhar  conseguem  ser.  Esta  situação  induz  que  pessoas  à  partida  muito  diferentes  habitem  um  mesmo espaço. Dá também oportunidade ao edifício de suportar dinâmicas muito variadas , estando  a funcionar a todos as horas do dia, em simultâneo sempre com mais que uma dinâmica.  Criamos assim uma heterotopia onde dentro de um invólucro se sobrepõem simultâneas dinâmicas,  pessoas, objectos e espaços opostos entre si.    Figura 15 Programa  Foi criado um exemplo de um cronograma diário onde encaixam muitas narrativas diferentes.  

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8.00  Início do dia 

10.00 Meio da manhã 

 

12.30 Hora de almoço 

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18.00 Fim do dia de trabalho  20.00 Hora de jantar  22.00 Fim do dia     

2.3 Três Identidades 

Cada  um  dos  programas  autonomiza‐se  como  um  objecto  arquitectónico  por  si.  Não  só  a  nível  programático, como formal, estrutural e material. Criam‐se três identidades diferentes. 

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a)Programa 

O Habitar foi programado por uma lógica  de  tipos  de  vida  ao  invés  de  número  de  quartos  ou  assoalhadas.  Nos  diferentes  tempos  de  uma  vida  existem  necessidades diferentes, vive‐se de forma  diferente. Habita‐se os espaços de forma  diferente.  As  tipologias  habitacionais  pensam  os  tempos  da  vida,  a  condição  económica, educação, a cultura de quem  a habita.  

Sistematizando temos o seguinte quadro: 

Tipos / Lógica  Altura  Grande  Pequena Norma  Qt  % 

Luxo  1  1  4  Família Média  4  2  2  2  10  37  Económica  4  4  15  Pequena  5  5  19  Trabalho  1  1  2  7  Townhouse  1  1  2  7  Experimental  1  1  1  3  11  27  100 

O  quadro  apresenta  na  vertical  a  característica  predominante  na  tipologia  e  na  horizontal  a  lógica  utilizada  para  a  desenhar.  Temos  a  característica  predominante  elaborada  na  norma  e  a  partir  dai  trabalhamos o conceito numa lógica de condensação (Pequena), dispersão (grande) e altura. 

A  tipologia  de  Luxo  ocupa  três  pisos.  Exagerou‐se  o  Luxo  e  atribui‐se  a  cada  piso  uma  valência  diferente, o Privado onde estão os quartos, o público, o piso da entrada principal e o do lazer. Assim  esta tipologia é facilmente transformada numa pousada ou hostel. 

A tipologia da Família Média tida como convencional actualmente foi amplamente explorada dando  uma normalidade aos conceitos estudados nas tipologias experimentais. 

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A  tipologia  Económica  tem  a  ver  com  a  habitação  subsidiada.  Não  deve  só  servir  para  albergar  pessoas em transição mas, sendo a sua lógica a de custo, possa ser comprada a um preço razoável.  A tipologia Pequena está relacionada com o uso por tempos mais curtos (situação de idosos, recém  divorciados, casais jovens, estudantes) prestando‐se mais a situações de arrendamento.   A tipologia Trabalho tem a ver com pessoas que trabalham em casa como pequenos empresários e  profissionais liberais (arquitectos, designers, costureiras, informáticos, advogados, etc.).  A Townhouse representa um modo de viver unifamiliar com um acesso directo à rua.    

A  tipologia  Experimental  vai  desenvolver  o  argumento  a  partir,  em  grande  parte,  do  estudo  das  tipologias de Sverr Fehn. Tem a ver com um modo não convencional de estar na vida. 

b)Estrutura, Ritmo e Detalhe 

 

O edifício de habitação é construído integralmente em  madeira.  Para  o  seu  estudo  foi  feita  uma  maquete  à  escala  1:20  de  forma  a  estudar  o  melhor  sistema  de  composição da madeira. 

A  construção  em  madeira  trabalha  com  linhas  e  num  processo constante de adição de sistemas. A estrutura  principal  trabalha  com  perfis  de  80x30cm  numa  métrica  de  7.5  x  5  x  10m.  Os  10  metros  de  altura  albergam  três  pisos  com  ajuda  de  duas  vigas  intermédias. O sub‐sistema que vai ajudar a configurar  o  espaço  e  vai  construir  as  janelas  é  um  sistema  de  perfis  de  10x20cm  que  funcionam  de  2.5m  em  2.5m  na  direcção  perpendicular  à  da  parede  exterior.  Este  sub  sistema  está  desfasado  por  1.25m  da  estrutura  principal.  

O  modo  de  construir  da  madeira  presta‐se  ao  argumento  pois  os  limites  convencionais,  o  tecto,  a  parede o chão acabam por se desmotivar uma vez que se desconstroem. Por exemplo o tecto tem  variados pés direitos. O primeiro é onde o primeiro sistema começa, o segundo é outro, 80cm mais  Figura 17 Maqueta ‐ Escala 1:20 Edificio de Madeira

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acima, depois 20 cm mais acima outro e com isto o  tecto  ganha  uma  profundidade  e  uma  riqueza,  desmaterializando‐se  como  plano  e  contaminando  todo o espaço. 

As aberturas são feitas sempre retardadas em linha  com  a  estrutura  principal  de  modo  a  evitar  as  treliças  que  na  parede  exterior  correm  no  plano  que antecedo o revestimento final. 

  O  alçado  é  construído  por  ripas  verticais  que  ao  chegar  a  uma  abertura  rodam  sobre  o  seu  eixo  vertical  tornando‐se  guardas  deixando  entrever  o  que se passa atrás. Em adição a este sistema existe  um sistema genérico a todo o objecto de uma rede  metálica  perfurada  que  concebe  o  invólucro  final.  Todo  o  conjunto  vai  criar  uma  interioridade  com  várias  camadas  de  privacidade  e  diferentes  limites 

físicos.  Do  exterior  a  sensação  que  se  vai  ter  a  olhar  para  o  alçado  será  a  de  interioridades  mais  profundas  onde  a  luz  vai  esvanecendo,  interioridades  mais  abundantes  onde  se  denota  apontamentos de arbustos e natureza ou perfurações simples e pouco profundas.              Figura 18 Pormenor Maqueta ‐ Escala 1:20 Edificio de  Madeira 

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  Figura 20 Alçado Madeira _ esquema de composição           

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c)Organização das tipologias  

 

 

  

Figura 21 Organização das tipologias  As  imagens  apresentadas  explicam  como  o  motor  das  águas  é  utilizado  para  definir  a  vivência  da  tipologia.  Na  primeira  imagem  os  motores  colam‐se  aos  limites  da  tipologia  deixando  o  resto  do 

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espaço livre para ser apropriado pelos pátios verdes e pelos diferentes programas. O motor define o  espaço que confronta. 

 Na  segunda  figura  verificamos  os  motores  separados  e  no  meio  do  espaço.  Estes  contaminam  a  tipologia pelos quatro lados com que a configuram. Na última figura em vez de blocos separados de  águas  temos  todo  o  conjunto  do  programa  da  habitação  dentro  de  uma  faixa  que  organiza  toda  a  casa deixando o espaço fora da faixa livre, desprogramado.  

Tendencialmente, nas diferentes tipologias as portas e os espaços fechados vão deixando de existir,  originando apenas planos que vão transitando o grau de privacidade. 

Tendo a estrutura de madeira uma presença tão imponente dentro do espaço foi decidido descolar  as paredes limite das tipologias de estrutura principal, deixando‐a respirar e contaminar o espaço. O  modo  de  apropriação  do  objecto  arquitectónico  que  vai  alargando  foi  através  de  vários  pátios  que  ajudam a organizar a tipologia podendo estes ser de origem vegetal ou não.           

 

 

 

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II. Trabalhar 

 

a)Programa 

O  programa  do  Trabalhar  centrou‐se  em  humanizar  um  espaço  muitas  vezes  mecânico  e  genérico.  Os  diferentes  tipos  de  trabalhar que se emprestam a estes espaços  foram  tidos  em  conta  pela  forma  como  se  podem  relacionar  entre  si  nos  pisos  que  os  configuram  e  com  o  espaço  exterior.  O  primeiro  piso  de  acesso  mais  directo  ao  exterior  é  o  de  uma  livraria.  Espaço  caracterizado  pelo  Pensar  que  tem  a  possibilidade  se  estender  para  o  mobiliário  urbano  no  exterior.  De  seguida  temos  o  ComPartilhar  um  espaço  co‐work  que  se  define  por  um  conjunto  de  trabalhadores  independentes  que se juntam num espaço comum para trabalharem acompanhados incentivando redes socais e de  trabalho.  No  piso  seguinte  é  uma  incubadora  de  empresas,  espaço  onde  grupos  de  trabalho  que  queiram criar empresas se instalam e têm a oportunidade de usar recursos diponibilizados por uma  “empresa mãe” como a reprografia, o departamento jurídico,etc. Tanto este piso como o do co‐work  são servidos por espaço público com mobiliário urbano onde o Trabalhar se pode estender.No piso  seguinte  é  o  dos  serviços  que  a  empresa  mãe  disponibiliza  à  incubadora.  Os  três  pisos  onde  a  empresa  mãe  se  desenvolve  caracterizam‐se  pelo  Servir,  o  Produzir,  open‐space  com  muitos  trabalhadores onde a massa da empresa trabalha e o Gerir, espaço com gabinetes individuais e salas  de reunião de onde se tomam as decisões sobre o rumo da empresa. O Alimentar é o piso que serve  de combustível a toda a empresa e que pode ser também utilizado por pessoas externas.        Figura 22 Diagrama Programático ‐ TRABALHAR

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b)Estrutura, Ritmo e Detalhe 

O  objecto  de  betão  tem  uma  forma  que  parece  desafiar  a  gravidade.  Foram  estudados  diversos  sistemas  de  construção  desde  o  metálico  ao  betão.  O  sistema  que  se  mostrou  mais  eficaz  e  que  servia  ao  mesmo  tempo  o  argumento  de  criar  uma  identidade  própria  ao  Trabalho  foi  o  sistema  Laminar  de  betão.  Lâminas  de  40cm  de  espessura  atravessam  toda  a  forma  transversalmente  com  um  intervalo  de  7.5m  e  longitudinalmente  com  um  intervalo  de  5m.  No  entanto,  e  como  era  necessário ter mais circulação vertical, existe um núcleo de escadas que ajuda a suportar todo este  peso. 

Para  aligeirar  esta  estrutura  foram  estudadas  diferentes  tipos  de  aberturas  que  atravessam  tanto  longitudinalmente,  transversalmente  e  horizontalmente.  Criando  espaços  de  encontro  que  funcionam  nas  três  dimensões.  Esta  perfuração  foi  estudada  a  partir  da  obra  do  Gordon  Matta‐Clark  do  estádio  do  Sp.  Braga  do  Souto  Moura  e  da  obra  de  Christian Kerez.  

   

 

 

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            Figura 25 Processo ‐ Perfurar as Lâminas de Betão 2 

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            Figura 26 Axonometria ‐ lâminas perfuradas 

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Figura 27 Diagramas Finais ‐Perfuração das lâminas estruturais de betão

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  Figura 29 Fotomontagens interiores

 

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III. Viver 

O  espaço  Viver  é  o  agente  que  activa  o  edifício  e  o  programa  que  consubstancia  o  argumento.  Ele  origina‐se a partir de uma praça tectónica onde três placas se parecem levantar para deixar descobrir  uma  linha  de  água.  Essas  placas  vão  criar  a  lógica  da  contaminação  do  espaço  público  no  Objecto  arquitectónico.  

Num primeiro momento este espaço vai resolver a diferença entre as cotas das ruas que confinam o  objecto  que  entre  si  fazem  uma  diferença  de  7  metros.  Ao  desenhar  os  trajectos  públicos  de  encontro  à  praça  cria‐se  uma  bolsa  de  dois  pisos  térreos  que  ganham  programa  e  interactividade  com a praça.   Todo o edifício vai crescer por entre as duas outras identidades sempre com uma lógica de espaço  público que se movimenta por placas que rompem o espaço e que pontualmente contêm bolsas de  programa.  a)Programa 

 

O  programa  do  Viver  pode‐se  dividir  em  6  acções  principais:  Actuar,  Educar,  Comer,  Descontrair, Brincar e Praticar. 

 O  actuar  desenvolve‐se  num  espaço  de  auditório que está enterrado abaixo da cota da  praça. Esse espaço contém uma black box, um  espaço  expositivo,  e  um  café  cultural.  Actuar  não  só  de  participar  num  espectáculo  mas  também  de  Agir.  O  palco  quando  encerrado  oferece  um  auditório  a  quem  se  quiser  apropriar dele. Este espaço quer‐se de acção e  de discussão, de cultura e pensamento.  

O  Educar  refere‐se  à  cota  da  praça,  consiste  numa  Creche,  um  A.T.L.,  uma  biblioteca  e  um  centro  educativo.   

O Comer encontra‐se a meio caminho de duas cotas das ruas confinantes, é um espaço que pretende  ser de encontro à mesa com características para servir de cantina ou self service mais económico. 

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O  espaço  seguinte  quer  ser  comprimido,  calmo  e  descontraído.  Alberga  uma  sala,  um  espaço  encerrado onde se pode trabalhar, ouvir música, ler o jornal com o som da água ao nosso lado e o  cheiro das flores a circular. 

O Brincar é transversal a todo o programa do Viver mas neste piso existem condições que o facilitam,  um escorrega, uma rede elástica que contém baloiços, e diferentes planos inclinados que constroem  uma  topografia  artificial  que  se  pode  escalar,  deslizar  fazer  acrobacias,  etc.  conjuntamente  com  espaços verdes onde se pode rebolar.  

O  Praticar  refere‐se  a  um  ginásio  com  a  valência  das  máquinas  de  exercício,  de  estúdio  de  dança,  espaço Spa e encabeçado por uma piscina. Desta piscina com cobertura de vidro tem‐se uma vista  para um espaço de tensão entre os objectos do Trabalho e do Habitar. 

 

  Figura 31 Diagrama Altimétrico e Programático VIVER

 

    b)Estrutura, Ritmo e Detalhe 

Imagem

Figura 3 Híbrido Proposto 
Figura 4 Diagrama Viral. Ilustração por  Franco Purini e Sara Petrolati 
Figura 6 Edifício cortado ‐ Gordon Matta‐Clark
Figura 7 Caso de Estudo COAG ‐ Evolução Formal
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