33 0 BURACO NO TEMPO
46. FINAIS E NOVOS COMEÇOS
Pelos jornais, não muito tempo depois, Toni ficou sabendo da prisão de Borges. Metido noutro roubo de carro, resistira ao cerco policial e fora baleado. Toni temeu que ainda pudesse envolvê-lo, mas isso não aconteceu.
Mas a notícia grossa mesmo saiu quando Dino foi forçado a fornecer um listão de nomes de pessoas que compravam seus carros e caminhões
roubados. Seu Antero ganhou uma manchete com retrato e biografia. Soube-se depois que não foi preso, por ser réu primário, porém perdeu toda a sua frota, que foi devolvida, e gastou o que tinha com advogados. Por fim, desapareceu de Vila Grande, desacreditado. Quanto a Silvano, dona Amélia localizou-o num hospital e ligou para ele. Permaneceu meses engessado. Mas a ex-madrasta não lhe revelou que fora vitima duma tentativa de assassinato equivocada. Feliz como estava, e cheia de planos, não desejava vingar-se de ninguém.
Certa noite, numa danceteria, Toni estava junto à caixa para pagar sua conta quando lhe tocaram no braço.
— Como vai, Toni? — Raquel!
— Olá! Fiquei sabendo duma história horrível sobre o pai de Silvano. Comprava caminhões roubados. Meus pais se escandalizaram.
— Muita gente ganha dinheiro desonestamente. — Parecia uma pessoa tão distinta.
— Só aparências.
— Soube também, no Paradise, que se livrou daquelas acusações. Como se não ouvisse, Toni perguntou:
— E de Silvano, tem notícias?
— Silvano nada sabia dos roubos do pai. Sei em que hospital está. Por que não lhe telefona?
— Não — respondeu Raquel prontamente. — Melhor deixar pra lá. Estou aqui numa mesa com amigos. A gente está se divertindo. Venha comigo.
A esta altura da conversa, Virgínia aproximou-se. — Esta é Virgínia, minha namorada.
— Muito prazer!
Raquel mal pôde balbuciar seu “muito prazer Toni afastou-se com Virgínia.
— Pobre Silvano — disse. — Raquel nem quer saber dele! — Como se sente depois de vê-la?
— Como quem vira a última página dum livro desagradável. Vamos. Amanhã tenho uma entrevista. Acho que arranjei novo emprego.
Com o dinheiro dos investimentos e das jóias, dona Amélia abriu uma pequena butique. Virgínia, doida para livrar-se do Paradise, foi trabalhar com ela. E ajudou-a também na escolha duma casa. Morar na pensão não dava mais.
— Mas, trabalhando na butique, não vai sobrar tempo pra cuidar de mais nada — comentou dona Amélia com Toni. — Precisamos de uma empregada.
Ambos tiveram instantaneamente a mesma lembrança: — Divina!
Não foi fácil localizar Divina em Vila Grande. A residência de Antero havia sido vendida. Telefonaram para diversas famílias da cidade e nenhuma soube dar informações. Apelaram até à Prefeitura, onde, por sorte, alguém sabia da cozinheira. Trabalhava agora num hotelzinho. Três dias depois de um contato, Amélia e Toni a esperavam na rodoviária. Aquela gorducha desorientada era ela!
— Estamos aqui, Divina!
Foi uma choradeira geral, mas lágrimas de felicidade secam depressa. Divina não conhecia São Paulo nem qualquer outra cidade maior que Vila Grande. Se saía à rua, ficava tonta. Mas logo se acostumou e apaixonou-se por escadas-rolantes. Para ela, ir aos shoppings era o máximo.
Toni deu-se bem na editora, próximo da fonte dos livros, sua paixão. Escrever um, talvez as experiências de sua atribulada juventude, passou a ser sua meta e sonho. Quanto ao namoro dele com Virgínia é coisa para ser
contada em versos, longos poemas, material para letra de músicas. Em prosa não dá para expressar um amor tão curtido e bonito.
Ia tudo muito bem quando ficou ainda melhor. Certa manhã tocaram a campainha da casa. Divina foi atender e não soube dizer quem era. Toni foi à porta e levou aquele susto. Não era possível!
— Esqueceram a porta da gaiola aberta — disse o desconhecido.
Que desconhecido que nada! Era Waldo. Já cumprira a pena e fora posto em liberdade.
— Não acredito no que estou vendo! — exclamou Toni. — Acredite depressa e me sirva um café.
— Café? Você vai ser nosso hóspede permanente, seu velho malandro. Mas diga como foi que nos encontrou.
— Encontrei o tal Borges na cadeia. Ele disse que você trabalhava numa livraria. Fui lá, não o encontrei, mas me deram a dica. Agora quero abraçar a cunhada.
Dona Amélia chorou ao rever Waldo, a quem passara a estimar muito depois de ouvir de Toni as aventuras que haviam vivido. Virgínia logo declarou
que ele era o velhote mais simpático e amalucado que conhecera na vida. Quanto à Divina, adorou-o.
Waldo instalou-se no quarto de Toni, mas logo se cansou de não fazer nada. Foi trabalhar na butique, onde se revelou hábil fazedor de pacotes e jeitoso com a freguesia. Às vezes ia com Toni a algum salão de sinuca. Continuava bom de taco.
Toni, dona Amélia e Virgínia geralmente lembravam os lances dramáticos que ele vivera.
— Há uma coisa que sempre me intrigou — disse o rapaz, uma vez. — Aquela grande coincidência. É verdade que a vida está cheia delas, mas quando acontece com a gente...
— Está falando de quê, Toni?
— Do fato de Borges ter me levado justamente à oficina onde Antero comprava os caminhões. Na ocasião ele era o único que negociava com caminhões, na região, mas mesmo assim...
— Parece uma história inventada — comentou Virgínia. Dona Amélia iniciou um sorriso, que tomou a forma de uma pergunta:
— E quem pode negar que Deus também inventa suas histórias? Imaginação Ele já provou que tem...