• Nenhum resultado encontrado

VOLTA A VILA GRANDE

No documento Na Rota Do Perigo - Marcos Rey (páginas 58-61)

33 0 BURACO NO TEMPO

38. VOLTA A VILA GRANDE

Ramiro deixou Toni e Borges na rodoviária de Campinas. Tinha uma séria recomendação a fazer:

— Vocês conhecem o Dino — disse. — Se um dia forem apanhados e abrirem a boca... já aconteceu a outros, devem saber.

— Não é preciso ameaçar — respondeu Borges. — Não conheço Dino algum a não ser um guarda do reformatório.

— Assim está ótimo, maninho. E boa viagem. Borges encaminhou-se ao guichê de passagens. — Compre uma só — disse Toni.

— Não vai para São Paulo? — Não.

— Vai pra onde?

— Visitar parentes a uns cem quilômetros daqui.

Borges comprou a passagem. Um ônibus estava de saida. — Até outro dia — disse.

— Isso a gente resolve depois, boy. Toni encrespou:

— Se me procurar outra vez, eu o denuncio à polícia. — Bancando o valente?

— Estou prevenindo, Borges. O que tem a fazer é me esquecer. Saia do meu caminho.

Borges sorriu, mas era o sorriso dos derrotados.

— Você não é o único que dirige caminhões. Juliano saberá que ganhou nota 10 de comportamento.

Assim que Borges entrou no ônibus, Toni foi ao guichê e comprou uma passagem para Vila Grande.

39. O REENCONTRO

Toni chegou a Vila Grande muito cedo. A pequena cidade estava envolta numa névoa gostosa. Àquela hora da manhã dona Amélia ainda estaria

dormindo. Entrou numa leiteria para um copo de leite e pão com manteiga. Há tempos que não sentia sabores tão puros. Saiu da leiteria, passou pelos

colégios onde estudara, reviu a casa de Raquel e parou diante daquela,

modesta, onde vivera quando seu pai estava vivo. Nem soube quanto tempo fi- cou a olhar para ela.

Chegou à quase-mansão do senhor Antero. Tocou a campainha do portão. Divina veio de dentro da casa e ao vê-lo se pôs a chorar sem abrir o portão.

— Toni... É o Toni! — exclamava como se quisesse convencer-se da realidade.

— Abra logo esse portão, Divina! Não quer me dar um abraço?

Divina abriu o portão com dificuldade e depois lhe estirou os braços. Desta vez, sentindo-a, Toni, sem esperar, deixou escapar uma lágrima, ele que não era chorão. Não imaginava que gostasse tanto daquela gorducha cheia de afeto.

— Você não avisou sua mãe?

— Surpresa não é melhor? Ela já levantou? — Está na copa. Vamos.

Toni e Divina entraram na casa. — Dona Amélia, veja quem chegou!

A mãe de Toni apareceu precipitadamente no corredor e voou em direção ao filho:

— Toni! Oh, Toni...

Não pode haver prazer maior que o de voltar para casa, pensou o rapaz ao abraçar a mãe, sob os olhares comovidos de Divina. Para prolongar aquela delícia juntou as duas num só abraço e beijou-as. Assim dava tempo para dona Amélia, refazendo-se da surpresa, poder dizer alguma coisa além de “Toni! Toni!” Foi uma festa a três toda feita de sorrisos e lágrimas.

— Você voltou para sempre? — perguntou Divina. — Eu e mamãe vamos conversar sobre isso.

Divina enxugou as lágrimas na manga do vestido e disse: — Vou fazer um belo almoço pra você. Conversem à vontade.

Dona Amélia conduziu o filho até um banco de pedra diante da piscina. Sentaram-se de mãos dadas.

— Ainda nem acredito que você voltou. Foram tempos difíceis pra mim. — Minha vida também não foi nenhum mar de rosas. Mas vai melhorar. Seu Antero está viajando?

— Divina lhe contou? — Supus, mãe.

— Viajou ontem, não sei pra onde. Nunca diz. Toni, está disposto a ficar aqui? Decidiu voltar mesmo?

Toni apertou mais a mão de dona Amélia. — Não, mãe. Voltei apenas pra uma visita.

Dona Amélia também tinha algo importante a dizer: — Se for embora, iremos juntos.

— Mãe, deixar esta mansão, este conforto todo, por minha causa?

— Não é uma decisão momentânea. Ela já está tomada. Pedirei divórcio. Apesar da voz firme e resoluta que ouviu, Toni ponderou:

— A vida na capital é muito cara. Não temos dinheiro pra dois.

— Eu trabalhava antes de casar com seu pai e trabalhei depois que ele morreu. Além disso, fiz economias, empreguei dinheiro e tenho algumas jóias de valor.

— Coragem você tem.

— Só mudaria minha decisão se Antero também mudasse em relação a você. O que não me parece possível. — E preferindo trocar de assunto,

perguntou: — Ainda tem sofrido por causa de Raquel?

— Raquel? Nem lembro que existe. Estou namorando uma moça muito melhor que ela. Chama-se Virgínia. Uma estudante que trabalha pra pagar os estudos. Mãe, estou apaixonado!

Dona Amélia gostou da novidade.

— É por isso que está com um aspecto tão bom!

— Será que estou? Com esse sono? Mamãe, queria dormir um pouco. Ainda tem um quarto pra mim?

— Claro! O seu quarto está como quando o deixou. Vamos. Foram até o quarto. Toni emocionou-se ao entrar.

— Meus livros! Vou dar uma olhada neles.

Subitamente dona Amélia mostrou certa preocupação. Meu receio é de que o Antero o trate mal.

— Ele não tratará.

— Tem tanta certeza disso? — Tenho.

— Faria as pazes com ele? — Não.

— Meu filho, está me escondendo alguma coisa? — Agora quero dormir, mãe!

Dona Amélia saiu e Toni olhou palmo a palmo aquele quarto tão

confortável e comparou-o à quitinete de tio Waldo, ao escritório do Paradise e aos quartos de hotéis onde passara as noites. Jogou-se na cama como estava, vestido, e bastou fechar os olhos para dormir.

Apenas horas mais tarde Toni acordou. Precisou de alguns instantes para lembrar-se onde estava após a viagem. Mas não quis rememorar episódio algum. Lá estavam os livros de seu pai. Pegou carinhosamente um deles.

Robinson Crusoé. Quantos prazeres da infância Toni devia àquelas páginas!

Despertou, porém. Os momentos eram de decisão, estava vivendo o hoje. Levantou-se.

não levou susto algum. Seguro de si. Silvano:

— Ah... está de volta?

— Vim visitar minha mãe. Soube que andou à minha procura em São Paulo.

— Andei, sim. Soubemos daquele caso do seu tio e depois o do tal Juliano, o puxador de carros. Meu pai ficou com receio de que acabasse nos comprometendo.

— Ora, por quê? O nome de seu pai está acima de qualquer suspeita. O honesto seu Antero!

— Pensamos também que pudesse estar necessitando de ajuda. — Muito generoso, Silvano. Mas não precisei.

— A polícia está à sua procura?

— No momento anda muito ocupada com ladrões de caminhões.

Sem novas perguntas, Silvano afastou-se. Evidentemente não gostara do encontro. O que se passava com Toni?

O almoço, como Divina prometera, foi preparado no capricho, suculento. Seu Antero não voltou da viagem e Silvano não apareceu. Foi um almoço feliz, em que Toni falou de seu emprego na livraria, no plano de trabalhar numa editora e... do namoro com Virgínia. Apenas referiu-se com tristeza, saudoso, ao tio Waldo, preso em São Paulo.

— É um malandro, sem dúvida, mas não o esqueço. Gostaria de poder fazer alguma coisa por ele.

— Acha que vai continuar na cadeia por muito tempo?

— Penso que não. Ele não cometeu nenhuma falta grave. Perto do que se pratica hoje é um santo. O problema dele era sobreviver. Pobre tio Waldo!

No documento Na Rota Do Perigo - Marcos Rey (páginas 58-61)

Documentos relacionados