CAPÍTULO IV: A CIDADE SOB O SIGNO DA PRISÃO
4.6 Final de quermesse
Ao sair do velório, a sensação de pânico e desconforto do Desconhecido aumenta porque surge um comentário de que uma mulher fora morta com muitas facadas logo ao cair da noite. Como seu colarinho está manchado de sangue – da sua orelha ferida –, e o
mestre o pressiona cada vez mais em busca de uma verdade que ele nem sabe qual é, sua angústia e o medo de se descobrir um assassino são, dessa maneira, paulatinamente aumentados.
Os três seguem então sua caminhada e, depois de algum tempo, se deparam com algo cuja caracterização, momentaneamente, parece extrapolar os limites do sombrio e degradado clima que perpassa as páginas de Noite em direção à luz, à alegria, que é o efervescente movimento e ruído de pessoas que se divertem nessa noite hedionda:
Andaram mais uma quadra e chegaram a um largo iluminado, cheio de gente e música.
– Uma quermesse! – exclamou o anão. (...)
O olhar do Desconhecido estava fito na igreja, cuja fachada recoberta de lâmpadas de várias cores, num pisca-pisca incessante, tinha um irisado fulgor de jóia. No centro do largo erguia-se um carrossel e, sob o pára-sol cônico de lona, com gomos amarelos, azuis e encarnados, girava a plataforma circular sobre a qual se alternavam bancos para duas pessoas e cavalinhos de pau, quase todos ocupados. (p. 49).
Nesse espaço a presença de luz é aparente, gritante, bem como se constata que não há menção a pessoas tristes, hostis, e sim a seres alegres, que ocupam quase totalmente o carrossel colorido. A música embala a felicidade que parece reinar nesse ambiente e a igreja, também iluminada por lâmpadas multicores e brilhantes, chama a atenção do Desconhecido, essa alma desgarrada de si em busca de socorro.
Mais adiante, entretanto, tem-se a exata noção desse ambiente, cuja caracterização, a princípio sugestiva de claridade e divertimento, sucumbe ante a presença onipotente e onipresente da calorenta noite que a todos – inclusive à quermesse – faz agonizar:
Era uma quermesse suburbana, pobre e evidentemente já nos seus últimos dias, talvez nas últimas horas. As tendas espalhavam-se em torno do carrossel, exibindo seus sortimentos um tanto desfalcados – estatuetas de gesso, panelas de alumínio, vasos, perfumes baratos, jóias de fantasia, bonecos, latas de conserva, garrafas de licor – cada qual com seu jogo: pescaria, jaburu, lançamento de argola ou de dados, tiro ao alvo... Por entre elas passeavam homens e mulheres, principalmente soldados e marinheiros, de braços dados com criadinhas. Poucos, porém, eram os que se interessavam em experimentar a sorte, pois parecia que o calor abafado os deprimia, fazendo-os arrastarem-se com uma viscosa lentidão de lesma. (p. 49-50).
Tem-se, novamente, a configuração de um cenário de pobreza e também de finitude, tal como o sugerido pelo calendário no velório. As pessoas que transitam pela quermesse, até então não definidas socialmente, são designadas como “principalmente soldados e marinheiros, de braços dados com criadinhas”, ou seja, pessoas sem paradeiro certo – marinheiros –, sem profissão efetiva, fornecedora de estabilidade sócio-econômica – soldados –, e até um certo tom pejorativo com relação às mulheres que os acompanham, simplesmente “criadinhas”. Personagens sem relevo social num local suburbano. O lado marginalizado da sociedade.
A tudo isso se acrescente o “calor abafado”, que não só ao Desconhecido oprime e sufoca, mas que a todos incomoda, sendo o fluxo de pessoas na quermesse definido, em virtude do exacerbado calor, mediante essa significativa aliteração: “viscosa lentidão de lesma”. As consoantes do vocábulo “lesma” repetem-se no período, enfatizando o mole e lânguido arrastar-se das pessoas por uma quermesse decrépita.
Se o calor e o abafamento remetem ao cenário do café-restaurante, em que a temperatura fazia suar e sufocava, também o cheiro que se espalha pelas barracas da quermesse de periferia é o mesmo verificado no referido café, uma vez que em ambos o cheiro de frituras toma conta do ar, exalando-se aos quatro ventos na quermesse e
propagando-se, oriundo da cozinha, e impregnando-se em forma de sebo nos móveis, teto, no rosto dos garçons e do proprietário do café-restaurante:
Andava no ar um cheiro de frituras que vinha das tendas onde se faziam pastéis, churros e pipocas. E aqui e ali, montando guarda a seus tabuleiros de cocadas, quindins e bons-bocados, negras velhas, de saias rodadas e turbantes coloridos, cochilavam, enquanto ao pé delas morriam aos poucos as chamas de suas lâmpadas de querosene. (p. 50).
Aos poucos o sombrio vai tomando conta do lugar, e se percebe a obscuridade ou até mesmo a escuridão próxima pelas chamas das lamparinas de querosene das doceiras, que se apagam lentamente, convergindo nesse sentido com a esperança do Desconhecido, que cada vez mais sente-se oprimido e desolado.
De repente ele avista um padre e corre até ele, clamando por socorro. O mestre, contudo, intervém e diz ao sacerdote que o amigo não está no seu juízo perfeito, ao que o padre aconselha a não deixá-lo andar sozinho.
Quando os três abandonam a quermesse, esse é o panorama que deixam para trás: “De novo começou a girar o carrossel. Uma valsa inundou suavemente o ar. O cavalo baio galopava solitário”. (p. 55).
Se a imagem inicial é a de muita luz e aparente felicidade, o prosseguimento da narrativa demonstra que nem tão alegres assim são a quermesse e as pessoas que nela transitam. A quermesse agoniza em seu final, as barracas em torno do carrossel estão com seu sortimento de objetos baratos desfalcado e todos vergam ao peso opressivo da noite calorenta. Paira, sobre o ambiente, uma atmosfera de abafamento e de exaustão. E, ao olhar de basbaque encantado que o Desconhecido deita na igreja recoberta de lâmpadas,
substitui-se a sua posição desencantada perante todas as coisas e a resignação com que segue o corcunda e o mestre.
A sensação de alegria e claridade advinda da igreja iluminada é tão ilusória quanto a idéia de salvação e livramento das garras dos seus dois sórdidos companheiros por meio do auxílio do padre. Todas as portas, tal como a do acesso à sua memória, fecham-se- lhe. E num espaço cada vez mais obscuro, cada vez mais exíguo.