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CAPÍTULO 5 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DE DADOS

5.1. Análise de dados e definição de categorias

5.1.3. Finalidades do ensino de literatura: as concepções dos professores

5.1.3.3. Finalidades do ensino de literatura: a perspectiva do Prof 3

Nos discursos desse professor, durante a entrevista, pode-se observar que ele atribui ao ensino de literatura três finalidades, nomeadamente: o reforço de questões de identidade, educação moral e análise gramatical.

“Quando trabalho com a literatura nas minhas aulas, o objectivo é fazer o aluno conhecer a função que a literatura tem, primeiro na manifestação da identidade da nação moçambicana, das tradições. Para além disso, pretendo fazer o aluno conhecer a gramática da língua. Sabemos que a literatura tem alguma parte que fala do domínio da língua portuguesa. Não esquecendo a crítica. Sabemos que o mundo está infectado por vícios nefastos e, por que eu trabalho com alunos em fase de crescimento, 18 a 19 anos, essa geração tem que conhecer os males que o mundo pode causar. Com a literatura também faço um cruzamento transversal: identidade e educação moral, para construir um homem do futuro com uma certa identidade e também uma certa formação cívica”.

A concepção do professor de que a literatura é um meio para o tratamento das manifestações da identidade e das tradições coincide com aquela que vem expressa no Plano Curricular do Ensino Secundário Geral (PCESG). É também desse documento oficial a ideia do texto literário enquanto pretexto para o ensino de gramática, também referida pelo professor. Tal perspectiva é dominante nos documentos orientadores que, por sua vez,

fundamentam os livros didácticos e é reproduzida nas práticas de ensino de literatura nas escolas em Moçambique.

A presença e preeminência dessa perspectiva nos currículos nacionais está, em parte, associada66 ao processo de construção da sociedade moçambicana. O projecto de estado-nação que se procurou viabilizar após o período colonial, e que implicou a construção e reprodução de valores e traços de uma pretendida moçambicanidade, teve como seu principal suporte o sistema de educação nacional, tanto por meio dos seus currículos quanto pelos programas de ensino. Nos programas de português, desde o primeiro elaborado para o ensino secundário em 1985, a tarefa de ressaltar os valores da pretendida moçambicanidade ficou reservada aos textos literários. Tal se evidencia nos textos e autores seleccionados e no tratamento dado. Se é verdade que o projecto educacional moçambicano vem sendo revisto e, em função disso, também os seus programas no que diz respeito ao ensino de literatura, não parece que haja alterações significativas que afectem as finalidades, os conteúdos e os procedimentos didácticos. Portanto, a semelhança entre as concepções do professor e aquelas subjacentes aos documentos orientadores não é uma simples coincidência. Reflecte, não só uma apropriação (com alguma ausência de criticidade) das concepções dos documentos oficiais, mas, também, o modelo de educação literária predominante no contexto moçambicano, no qual o próprio professor se formou.

A questão do “conhecimento da gramática da língua” que o professor ressalta no seu discurso constitui, também, uma concepção muito presente no contexto escolar de Moçambique. Essa concepção corresponde à perspectiva de ensino de língua dominante no país. O ensino de Português em Moçambique é bastante normativo e está centrado no estudo de aspectos da gramática tradicional. O texto literário é, nesse contexto, encarado como modelo de correcção gramatical e linguística e, por isso, é tomado como recurso para exercícios de análise gramatical.

“[...] a literatura é uma forma de transmissão de saberes, da cultura do nosso país, dos seus valores culturais. Essa transmissão tem que estar aliada a aspectos linguísticos. Nós temos que aproveitar o texto para servir de pretexto de trabalho de aspectos gramaticais que são muito importantes para o domínio de língua. Sabemos que a literatura é rica em aspectos gramaticais, função da linguagem, figuras de estilo, estruturas gramaticais, construção de versos. Temos que trabalhar esses aspectos. As classes de palavras, por exemplo, utilizadas de forma estilística, fazem ver o aluno que são definidas pela gramática, mas não são estanques, podem ser usadas de

forma mais criativa. Em suma, dou prioridade à parte do ensinamento e à parte gramatical”.

A concretização dessa perspectiva de ensino verifica-se muito bem na forma de organização dos conteúdos e no padrão de actividades sugeridas nos programas de ensino e nos livros didácticos nacionais. Geralmente, as unidades temáticas apresentam três secções: leitura e interpretação de texto, funcionamento de língua e questionário. Na secção de funcionamento de língua e no questionário, as estrututuras de frase para análise e os exemplos para confirmação das regras gramaticais são retirados do texto fornecido na secção de leitura e interpretação. Esta concepção da função do texto literário, apesar de equivocada, é, sem crítica, reproduzida pelos professores nas suas práticas e discursos. Tomar o texto literário como recurso para o ensino de gramática não só empobrece o próprio texto, até do ponto de vista da forma como se serve da língua, como também revela uma concepção de língua e seu ensino bastante restrita e problemática. Bons textos literários devem, em parte, a sua originalidade à capacidade de utilizar a língua, para além dos usos ordinários, normatizados, e, assim, ampliar as capacidades de representação da própria língua revelando a artificilidade das regras gramaticais. Além disso, tem-se, nesse ensino, como gramática, apenas a gramática normativa, baseada no registo da língua escrita, tomada como ideal e padrão de linguagem.

Quanto à terceira finalidade que o professor atribui ao ensino de literatura, reparei que tomava como sinónimos os termos crítica, ensinamento, formação cívica e educação moral. Retomo as suas afirmações:

“[...] Não esquecendo a crítica. Sabemos que o mundo está infectado por vícios nefastos e, por que eu trabalho com alunos em fase de crescimento, 18 a 19 anos, essa geração tem que conhecer os males que o mundo pode causar”.

“[...] Com a literatura, também faço um cruzamento transversal: identidade e

educação moral, para construir um homem do futuro com uma certa

identidade e também uma certa formação cívica”.

“[...] Em suma, dou prioridade à parte do ensinamento e à parte gramatical”.

O ensino de literatura seria, portanto, na perspectiva do professor, conforme se pode inferir dos discursos acima, pretexto para a regulação dos comportamentos dos alunos a uma determinada moral e actuação cívica, como já criticado aqui anteriormente.