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CAPÍTULO 5 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DE DADOS

5.1. Análise de dados e definição de categorias

5.1.3. Finalidades do ensino de literatura: as concepções dos professores

5.1.3.1. Finalidades do ensino de literatura: a perspectiva do Prof 1

Este professor revelou ideiais muito próprias sobre a educação e o ensino, especialmente, o de português e literatura. Para além da preocupação que verifiquei nas suas práticas em experimentar abordagens de ensino diferentes das propostas no livro didáctico, ele demonstrava, durante a entrevista, uma postura bastante crítica em relação às políticas educacionais, ao funcionamento do sistema de educação, aos mecanismos de formulação dos programas, os objectivos de ensino e os livros. Em relação ao ensino de literatura, na sua percepção, os programas e os livros didácticos, ao dar mais ênfase ao tratamento dos textos literários na sua dimensão estética e formal, apresentam a literatura como um conhecimento distante da vida dos alunos.

“[...] da forma como os objectivos estão preconizados, só se explora o estilo e a forma [...]. É preciso ensinar literatura e mostrar ao alunos que o texto literário é rico. Não só exploramos palavras e deciframos frases como tal, aí há uma mensagem que se pode transmitir, que está reclacionada com o que o aluno vivencia lá na sua comunidade. [...] Quando os alunos terminam a 10ª classe desaparecem do sistema. O texto literário traduz uma mensagem que pode ser explorada ao nível da comunidade. Por exemplo, no texto “Meu herói”, da obra Baladas de Amor ao vento, a escritora Paulina Chiziane apresenta situações relacionadas com a realidade africana, no caso, os ritos de iniciação; ou na obra Niketche, onde se aborda questões de poligamia, o aluno tem que perceber que o texto tem informação que ele vivencia no seu dia a dia”.

Depreende-se do discurso do professor um desacordo em relação aos objetivos do ensino de literatura prescritos pelos programas de ensino de Moçcambique. Para Prof. 1, o ensino de literatura deve estar orientado sobretudo para que o aluno aprofunde o conhecimento da sua realidade:

“Tendo em conta a dimensão do texto literário, é de extrema importância levar o aluno chegar à mensagem. Porque o texto literário é plurissignificativo, tem uma mensagem muito forte em relação à vivência do aluno, ao seu quotidiano. Então, o nosso objectivo ao levarmos o texto literário à sala de aula é para que os alunos aprendam com a mensagem do texto. Sem descurar a possibilidade de explorar a parte gramatical, uma vez que a gramática está associada ou está ao serviço do texto, pelo que é preciso dar essa informação ao aluno.

[...] Primeiro a realidade do aluno, a sua realidade mais próxima, e depois traçar-se objectivos de tal forma que os alunos possam conhecer a sua realidade e considerar o texto literário como um texto lúdico no qual aprende a ler, escrever, saber ser e estar”.

Como ainda se pode entender no discurso acima, à essa vocação do ensino de literatura ao conhecimento da realidade deve-se, na perspectiva do professor, acrescentar a exploração de aspectos gramaticais, o ensino de leitura, escrita e o “saber ser e estar”. O conhecimento da realidade é, então, o eixo norteador do ensino e em torno do qual as outras dimensões devem estar.

Uma questão que me pareceu importante análisar foi o significado que o professor atribuía às expressões chegar à mensagem, conhecer a realidade, que eram recorrentes no seu discurso, e como é que elas se concretizavam nas práticas de ensino. A observação de aulas foi determinante nas inferências que fiz em relação a essas questões. Na aula observada no dia 12/04/2018, em que se abordava os textos narrativos e na qual se trabalhou com o texto O meu herói, depois da realização de uma leitura que se pretendia expressiva, o professor quis saber se os alunos tinham gostado ou não do texto e, na sequência, fez um comentário crítico sobre o comportamento da personagem protagonista do romance, tentado dizer aos alunos que era reprovável aquele comportamento no contexto dos “valores da sociedade moçambicana”. Dirigindo-se particularmente às meninas, disse por fim: “vocês meninas, vejam bem as escolhas que fazem. Não querem terminar sozinhas e desgraçadas, lamentando como a velha Sarnau”. Para mim, esse momento foi bastante revelador quanto à perspectiva do professor sobre as finalidades do ensino de literatura e o significado das expressões chegar à mensagem, conhecer a realidade. Chegar à mensagem parece significar chegar a uma moral supostamente preexistente no texto. Aprofundar o conhecimento da realidade equivale então, na perspectiva do professor, a utilizar o texto para endossar valores e características pretensamente moçambicanas.

É interessante notar que sobre o romance Balada de Amor ao vento (1990), de onde foi retirado o excerto comentado pelo professor nessa aula, é possível justamente colocar em discussão esses pretensos valores da tradição moçambicana. A narrativa é apresentada na voz de uma mulher (Sarnau), cuja atitude de abandonar um marido polígamo, expressar seus desejos sexuais e questionar a existência do amor podem ser entendidas como sugestões de discussão em torno dos valores em que se funda a sociedade tradicional moçambicana, responsáveis pela subalternização da mulher. Ao rememorar as vicissitudes da vida amorosa

de Sarnau, o romance problematiza e denuncia a condição da mulher numa sociedade patriarcal, questionando a concepção de amor, de casamento e os discursos legitimadores de poligamia e adultério, reproduzidos, muitas vezes, pelas próprias mulheres, sobretudo as mais velhas a quem se reconhece autoridade em matérias de educação familiar e conjugal.

Atribuir à leitura de textos literários uma função moralizadora é uma prática comum no ensino de literatura, não só em Moçambique. Pinheiro (2006), que analisou práticas de leitura de textos literários numa escola pública brasileira, constatou que existe uma tradição de conferir aos textos literários uma missão moralizante. Segundo a autora, a “literatura é reduzida a um dispositivo que tem como objectivo orientar os indivíduos a se comportarem de determinada maneira na escola e na sociedade. O texto literário é interpretado como uma reprodução do mundo real. Os personagens e situações costumam servir de comportamento para os alunos” (PINHEIRO, 2006, p. 277). Através dos textos literários, os professores referendam, e, por isso, reproduzem, valores julgados correctos na sociedade, sem os colocar à discussão.