4.7 Termo de Ajustamento de Conduta
4.7.2 Finalidades do termo de ajustamento
O termo de ajustamento de conduta versa sobre a possibilidade da reparação ou da prevenção de um determinado dano a um direito transindividual por uma conduta ou por uma omissão específica. Trata-se de um instrumento destinado a compelir os infratores a restaurar e recompor o meio ambiente lesado por práticas ilegais, impondo-lhes a conduta às exigências legais, mediante cominações, com eficácia de título executivo extrajudicial. Está voltado, portanto, para a composição extrajudicial de direitos transindividuais
O ajustamento é celebrado entre o MP ou demais órgãos públicos legitimados, compromitente, e o autor da ameaça ou do dano ao direito transindividual, o compromissário ou obrigado. Nesta negociação, a legitimidade para firmar o ajuste e a titularidade do direito não coincide, uma vez que os direitos transindividuais não pertencem aqueles que podem celebrá-lo. O meio ambiente, como bem de uso comum do povo, é um direito indisponível em relação ao qual é impossível transigir. Portanto, o acordo não permite renúncia nem concessão recíproca entre as partes.
Com a celebração do termo, o compromissário aceita que deve adotar um determinado comportamento para que sua ação atenda as exigências legais. Ao assumir o cumprimento de obrigações que permitam evitar um dano ou repará-lo integralmente, o obrigado afasta a incidência da responsabilidade civil. “O compromisso de ajustamento de conduta não versa sobre a responsabilidade penal nem administrativa, razão pela qual não tem como efeito próprio a aplicação de sanções penais ou administrativas” (RODRIGUES 2002, p.175-176).
A busca de novos mecanismos de composição de conflitos envolvendo direitos transindividuais importou numa ruptura com o formalismo processual na medida que o legislador além de estender os benefícios da solução negociada, anteriormente limitados aos direitos disponíveis, também para os direitos indisponíveis, conferiu a legitimidade da negociação a quem, não sendo titular dos mesmos, dele não podem dispor.
da conciliação, o termo de ajustamento habilita-se ao propósito primordial de ampliar o acesso à justiça. A esse respeito, a manifestação de Fiorillo (2000, p. 258):
trata-se o instituto de meio de efetivação do pleno acesso à justiça, porquanto se mostra como instrumento de satisfação da tutela dos direitos coletivos, à medida que evita o ingresso em juízo, repelindo os reveses que isso pode significar à efetivação do direito material. O termo de ajustamento é um instrumento que depende da expressa manifestação de vontade do infrator.Por isso que tendo os órgãos responsáveis pela gestão ambiental constatado a infração, devem buscar a rápida recomposição do meio ambiente lesado, diligenciando junto ao infrator o ajustamento de sua conduta às normas legais, mediante formalização do respectivo termo. Esse procedimento evidencia que o acordo está fundamentado e foi concebido para propiciar a prevenção, um dos princípios do próprio direito ambiental. O fato do dano já ter ocorrido não retira do termo essa função. Além de prever a reparação do mesmo, sempre que possível de forma integral, o ajuste atua preventivamente ao estipular ações variadas que vão impedir a ocorrência de novos ilícitos e suas conseqüências. O aspecto principal do ajustamento de conduta, em relação à prevenção, está na possibilidade, que tem esse instrumento, de evitar a prática de atos ilícitos, ou a continuidade de sua ocorrência, havendo ou não um dano configurado ao direito transindividual.
Desde que configurada como possível a ocorrência do ilícito, com ou sem a probabilidade de danos imediatos, os legitimados ao acordo deveriam agir para alcançar sua celebração. Exatamente por ter essa função preventiva é que, quando da formulação do acordo, não se deve afastar o controle abstrato e prévio, mediante cláusulas presentes que promovam o dever-ser da futura conduta do obrigado.
Assim, deve o termo de ajustamento através de obrigações certas e determinadas, atuar prioritariamente para afastar o risco de dano. Não sendo possível, deve permitir a reparação integral do mesmo, recuperando a situação anterior à sua ocorrência. E só em último caso ensejar que o ajuste tenha medidas apenas de ressarcimento.
Sendo uma atividade extrajudicial, o compromisso de ajustamento não pode se resumir a um mero desdobramento lógico formal das normas legislativas e procedimentais já existentes. Não se trata de criar novas normas jurídicas, mas criar um ambiente propício à aplicação negociada das mesmas. O desprendimento e
desapego daquelas normas de solução de conflitos não condizentes com a complexidade da matéria, introduzida no âmbito do compromisso de ajustamento, é condição essencial para que esse mecanismo não venha a frustrar as expectativas dos verdadeiros titulares do direito tutelado (RODRIGUES, 2002).
Diante da conflituosidade inata dos direitos transindividuais, o julgador se expõe como ator político, dado que o resultado da negociação vai implicar, freqüentemente, em realizações de escolhas políticas. Pode-se argumentar que a formação do ajuste não admite deliberações políticas que não estejam de alguma forma previstas em lei. No entanto, a concretização das deliberações políticas do legislador não significa, simplesmente, aplicar as normas. Além do mais, trata-se de interesses cuja titularidade é de todos, e que estão sendo tutelados por poucos órgãos públicos.
Daí depreende-se outro objetivo a ser perseguido pelo compromisso de ajustamento: garantir que a formação da decisão do órgão legitimado na celebração do compromisso seja justa e democrática. Isso implica tornar o processo deliberativo o mais participativo e transparente possível, com ampla divulgação das obrigações avençadas, para que a sociedade possa exercer o devido controle.