4.8 Termo de Compromisso Ambiental – Órgãos do SISNAMA
4.8.1 Requisitos para a celebração do termo de compromisso
O objetivo do termo de compromisso é permitir que as pessoas físicas ou jurídicas promovam as necessárias correções de suas atividades, determinadas pelo órgão público responsável de acordo com as exigências técnicas legalmente estabelecidas. Prioritariamente, o termo deve buscar a cessação da conduta transgressora e a posterior recomposição do dano.
Os órgãos capazes de celebrá-lo são todos os órgãos ambientais, das várias esferas do governo, integrantes do SISNAMA, incluídas as sociedades de economia mista e as empresas públicas, quando tiverem como escopo à prestação de serviço público, bem como as fundações e autarquias desde que voltadas à execução de programas, projetos, controle e fiscalização dos estabelecimentos e atividades suscetíveis de degradarem a qualidade ambiental.
Enquanto, que para a maioria dos termos de compromisso não existem regras legais expressas sobre sua forma, os ajustes firmados pelos órgãos do SISNAMA são disciplinados pelo Artigo 79 – A, embora a celebração do mesmo seja um ato bastante informal.
São requisitos para a celebração do termo de compromisso, a identificação e o endereço das partes compromissadas (compromitente e compromissário) e respectivos representantes legais e, em especial, deve ficar evidente a qualificação do obrigado, para o caso de ser necessário promover a execução judicial do título.
No termo, o interessado reconhece sua conduta ofensiva aos interesses difusos, assumindo o compromisso de adequar seu comportamento à lei, embora isso não seja necessariamente obrigatório dado que, por vezes, a confissão aberta de culpa pode comprometer o ambiente propício à negociação. No acordo, o órgão público legitimado e o compromissário estabelecem um consenso sobre as medidas necessárias ao ajuste. Daí que não se pode impor ao compromissário a celebração do mesmo, devendo sua vontade ser manifesta e livre.
Imprescindível que o ato administrativo seja fundamentado através de uma exposição das razões que determinaram sua celebração. O termo deve ser precedido de uma investigação mínima que será formulada no procedimento administrativo ficando claro para os envolvidos as causas invocadas pelos legitimados para tomar o compromisso, a dimensão do dano a ser reparado e a adequação da sua celebração.
Além disso, os ajustes celebrados pelos órgãos do SISNAMA devem conter “o prazo de vigência do compromisso, que em função da complexidade das obrigações nele fixadas, poderá variar entre o mínimo de noventa dias e o máximo de três anos, com possibilidade de prorrogação por igual período”. Caso haja um prazo determinado para que as obrigações sejam cumpridas, entende-se que o prazo de vigência do termo seja o mesmo determinado para o cumprimento das mesmas.
De qualquer forma, o prazo a ser concedido para o cumprimento das obrigações estará fortemente condicionado pela capacidade econômica do infrator, mas nem por isso deve o compromitente deixar que fique ao livre arbítrio do compromissário o momento do cumprimento da obrigação, sob pena da situação lesiva persistir indefinidamente.
Também, prevê o Artigo 79-A, item III, “a descrição detalhada de seu objeto, o valor do investimento previsto e o cronograma físico de execução e de implantação das obras e serviços exigidos, com metas trimestrais a serem atingidas”. Esta cláusula, a principal do acordo, deverá prever todas as obrigações a cargo do infrator bem como todas as condições de seu cumprimento. Ressalte-se que as obrigações estabelecidas devem ser lícitas, capazes de serem realizadas material e juridicamente.
O item IV prevê a obrigatoriedade de constar no compromisso “as multas que podem ser aplicadas à pessoa física ou jurídica compromissada e os casos de rescisão, em decorrência do não cumprimento das obrigações nele pactuadas”. Para imposição e gradação da penalidade, a autoridade competente observará:
I – a gravidade do fato, tendo em vista os motivos da infração e suas conseqüências para a saúde pública e para o meio ambiente; II – os antecedentes do infrator quanto ao cumprimento da legislação de interesse ambiental; III – a situação econômica do infrator, no caso de multa. ( Artigo 6o, Lei 9.605/98)
o valor das multas “não poderá ser superior ao valor do investimento previsto” pelo compromissário para ajustar sua conduta. A previsão de multa cominatória, para o caso de descumprimento da obrigação, tornará mais efetiva a tutela específica, ou seja, o cumprimento das ações e o resultado prático alcançado com as mesmas.
Deve-se ressaltar que existe a possibilidade de rescisão voluntária do compromisso quando se demonstrar à impossibilidade de seu cumprimento por motivo de força maior. Também pode ensejar uma nova negociação que substitua o compromisso anterior, ou uma revisão, quando as medidas pactuadas se tornem excessivamente onerosas para o compromissário, e possam ser substituídas por outras que garantam, da mesma forma, o direito da coletividade.
O conteúdo do compromisso deve, em regra, recuperar a situação anterior à prática do ilícito ou do dano ao direito transindividual. Resta evidente que ao ter suas composições física e biológica alteradas acima da sua capacidade de suporte, a natureza não pode ser verdadeiramente restabelecida, do ponto de vista ecológico.
A reparação do meio ambiente, mesmo na forma de recuperação, e substituição do bem ambiental lesado é um sucedâneo, equipara-se a um meio de compensar o prejuízo. Contudo, a quase inviabilidade de recomposição do dano ambiental, não redunda na irreparabilidade do mesmo (LEITE, 2003).
As multas estipuladas a título de recomposição do dano e as eventuais multas cominatórias, deverão ser destinadas aos respectivos fundos ambientais federal, estadual ou municipal. De acordo com o Artigo 73, Lei 9.605/98, os valores arrecadados em pagamentos de multa por infração serão revertidos ao Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA), ao Fundo Naval, criado pelo Decreto 20.923/32, aos fundos estaduais ou municipais do meio ambiente, ou correlatos, conforme dispuser o órgão arrecadador.
Por sua vez, o decreto que regulamentou a LCA estabeleceu que, do total arrecadado, em decorrência de multas administrativas aplicadas pelo IBAMA, 90% reverteriam a este órgão e 10% ao FNMA.
Deve o termo prever ainda cláusula de rescisão no caso de não cumprimento das obrigações pactuadas e afirmar, expressamente, que o acordo não representa a admissão de condutas ilícitas e contra as normas regulamentares.
Finalmente, sob pena de ineficácia, os termos de compromisso deverão ser publicados no órgão oficial competente, mediante extrato. Na medida que os
órgãos legitimados à sua celebração não são os titulares do direito, devem informar à coletividade, os verdadeiros titulares, que os limites de sua atuação estão sendo respeitados. Dar publicidade aos termos firmados é um requisito de fundamental importância para que, especialmente as pessoas que tem sua esfera jurídica atingida pela celebração do mesmo, possam exercer o controle sobre a adequação do acordo.
No âmbito dos órgãos ambientais, integrantes do SISNAMA, o agente público com competência para firmar o termo não está sujeito a nenhum tipo de controle ou supervisão específica uma vez que o acordo firmado será sempre do interesse do órgão público. Isso não impede que várias instâncias de um mesmo ente legitimado participem da elaboração do termo e se pronunciem sobre as medidas mais adequadas para prevenir determinado dano ambiental.
Analogamente, os termos de compromisso celebrados também não estão sujeitos ao controle do CONAMA; a este Conselho cabe apreciar acordos estritamente administrativos sobre matéria ambiental. Muito embora não haja a obrigatoriedade desse controle social nada impede que as partes decidam submeter o conteúdo do termo à sua apreciação.
Com respeito ao MP, sua intervenção é tida como obrigatória mesmo na ausência de norma expressa em qualquer tipo de demanda sobre direito transindividual, devido ao interesse social contido neste tipo de litígio.
A interpretação doutrinária, mais condizente com os princípios e valores da tutela dos direitos transindividuais, é aquela que reconhece no MP o papel de protagonista na defesa desses direitos. Quando este não for o titular da iniciativa de tutela do direito deverá fiscalizar a atuação dos demais co-legitimados.
Portanto, os acordos celebrados pelos órgãos integrantes do SISNAMA devem ser comunicados e apreciados pelo MP. Antes de se constituir em uma maior burocratização da celebração do acordo, essa prática tem-se mostrado acertada, pois confere maior estabilidade para o próprio compromissário (RODRIGUES, 2002, p.195).