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.1 Finalidades e objectivos

No documento IDNCadernos IIISerie N01 (páginas 55-57)

Os objectivos do terrorismo variam muito,99 não só em função dos diferentes tipos

de terrorismo, que já procurámos distinguir e classiicar, como também em função dos diferentes propósitos e motivações que cada um desses tipos pode englobar. Neste capítulo iremos focar a nossa atenção nos objectivos dos terrorismos “privados” nas suas duas modalidades principais, as que designámos como “terrorismo guerrilheiro” e como “terrorismo autónomo”.

Todos esses objectivos se inscrevem em dois níveis: os objectivos imediatos, que se pretendem obter directamente do acto terrorista, e que se podem considerar tácticos, e os mediatos ou intermédios, assim como os ins, inalidades ou objectivos longínquos, que se situam, uns e outros, já no âmbito estratégico.

A intenção imanente de todo o acto terrorista é, por deinição, causar o terror. Através da pressão psicológica100 decorrente desse terror, e dos efeitos materiais do

próprio acto, os terroristas podem visar a efectivação de vinganças ou castigos, a eliminação de inimigos ou de personalidades importantes, a libertação de militantes presos ou resgates em dinheiro por troca com cidadãos sequestrados, o roubo de

99 FÉLIX, Carla Soia, 2004, p. 160; «O objectivo maior da causa terrorista será, talvez, a aniquilação dos valores da sociedade democrática. Contudo, muitas podem ser as causas que motivam os actos terroristas: expulsão de estrangeiros, mudanças políticas, acção de retaliação e vingança, obtenção de projecção local ou global, construção de uma imagem de poder, preservação do território, motivos religiosos. (...) Os ataques aos países muçulmanos que começaram o processo de democratização, como a Turquia e a Indonésia, demonstram a incompatibilidade entre os grupos radicais que recorrem a acções terroristas, e o regime de liberdade e respeito pelos direitos humanos».

100 MORRIS, Eric, e HOE, Alan, 1987, pp. 43 a 45: «Terrorism is about undermining the conidence a population has in the ability of the government of the day to provide a safe environment in which people can live a comfortable existence without fearing for their lives or livelihood. Thus terrorism is about conidence; it is an attack on the morale of a population and operates at a very basic human level. (…) based on the very concept of producing maximum emotional impact, sorrow and pity for the victims and anger against the authorities for allowing the terrorists to operate. The key to producing this emotional effect is, of course, the media impact value of the terrorist act. (…). Whatever their motivation, terrorists will choose as the target one speciic group for the threat of violence, usually on geographical grounds, such as individuals in an enclosed space – a theatre, shopping precinct or aircraft. These are the secondary victims. The primary victims, namely the entire population, are targeted via the media for effect.»

 ACerCA De “TerrorIsMo” e De “TerrorIsMos”

armas ou de valores, ataques contra determinados grupos sociais ou políticos ou ins‑ tituições, atentados esses que, na maior parte dos casos, são indiscriminados em termos de vítimas individuais sendo, no entanto, dirigidos em termos de vítimas colectivas. Em todos os actos terroristas está presente o objectivo da proclamação da existência e da determinação dos grupos terroristas que os praticam. Algumas vezes, os actos terroristas têm mesmo como único objectivo imediato essa acção de propaganda.101

Enquanto os objectivos imediatos se procuram através dos efeitos psicológicos e físicos directamente decorrentes de cada acção, a prossecução tanto dos objectivos intermédios como dos inais implica o encadeamento, mais ou menos prolongado, de múltiplas acções.

Quanto aos objectivos inais, o terrorismo pode ser o único ou o principal, quase único, instrumento (terrorismo “privado autónomo”) ou um dos vários instrumentos, não necessariamente o principal (terrorismo “privado guerrilheiro” e terrorismos de Estado) de uma estratégia, cujos ins políticos sejam a separação e autonomia ou independência de uma etnia ou nação, ou a expulsão de um invasor, ou a subversão de uma sociedade e derrube do respectivo governo, ou a imposição de uma nova “ordem mundial” religiosa ou laica, ou a imposição da ordem pública numa colónia, num território ocupado, no próprio país, ou o resultado inal de uma guerra, convencional ou menor.

No que diz respeito aos objectivos intermédios, o terrorismo “privado” procura cumprir aquilo que é comummente designado por “ciclo do terrorismo” (provocação – repressão – desestabilização – revolução), tentando mostrar a incapacidade do go‑ verno que combate para proteger e dar segurança à respectiva população, bem como provocar uma repressão que “dê razão” às acusações contra esse governo e, assim, de uma forma ou de outra, aumentar o descontentamento da respectiva população, espe‑ rando desse modo desencadear, inalmente, uma revolução que mobilize a seu favor as massas populares.102

101 WOLFF, Alexander, 2002, analisando o episódio sangrento do rapto e assassinato de 11 atletas israelitas, nos Jogos Olímpicos de Munique em 1972, por 8 terroristas palestinianos da organização “Setembro Negro”, a p. 34 escreve: «Os terroristas adiaram mais duas vezes o seu prazo limite, para as 3 p.m., e depois para as 5, sabendo que cada adiamento redobraria a audiência na TV. “A exigência de libertação dos nossos irmãos presos tinha apenas valor simbólico” disse mais tarde Al‑Gashey. “O único objectivo da acção era amedrontar o público mundial durante os seus “felizes Jogos Olímpicos” e fazer com que tomasse consciência da situação dos palestinianos”».

102 WILKINSON, Paul, 1979, escreve a p. 111: «Perhaps most dangerous of all the possible political uses of terrorism are those designed to provoke and exploit a vicious spiral of violence and counter violence. It can be used, for instance, in an attempt to polarize intercommunal relations and to destroy the moderates and compromisers of the political centre. (…) If the government can be trapped into ordering its security forces into general repression and harassment of the civilian population and the suspension of civil rights, the terrorists (…) will try to get the people to blame the violence and disruption on the government and the security forces and proffer themselves as the party of social justice and the defenders of civil rights.». Por sua vez, PINHEIRO, Joaquim A. Franco, 1982, a p. 56 airma que: «O Governo (...) encontra‑se num dilema: ou se mostra incapaz de reagir eicazmente, e o seu descrédito favorece o terrorismo; ou, então, entra a fundo na repressão, com riscos de erros e exageros que aumentam o

No documento IDNCadernos IIISerie N01 (páginas 55-57)