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Fontes e Causas

No documento IDNCadernos IIISerie N01 (páginas 37-40)

.1. As causas

A palavra “causa”, como razão de ser de um determinado comportamento ou de uma actividade, assume um duplo signiicado. Por um lado, refere o objectivo último, ou inalidade a atingir, que motiva comportamentos e actividades, por outro, designa o antecedente factual, material e, ou, psicológico, que contextualiza um acto de vontade originador desse comportamento ou dessa actividade.

Na primeira acepção, como inalidade motivadora, as “causas” do terrorismo “privado autónomo” são, como sabemos, por deinição, de natureza política, embora, conforme vimos ao ensaiar uma tipologia deste tipo de terrorismo, essas “causas” se liguem inti‑ mamente a aspirações, interesses ou convicções de diversa natureza que “grosso modo” se agrupam, conforme a classiicação que então propus, segundo:

(1) ideologias políticas baseadas em argumentos e perspectivas socioeconómicas (terrorismos ideológicos como os das “Brigadas Vermelhas” italianas ou do grupo “Baden‑Meinhoff ” e da “Facção do Exército Vermelho” – RAF – alemães); (2) segundo convicções religiosas, ligadas a aspirações políticas pretendendo a

substituição de determinados regimes laicos, considerados corruptos e ímpios, por outros teocráticos ou claramente sujeitos ao domínio das regras religiosas, em que a pureza desejada para a aplicação destas se sobrepõe, condicionando as aspirações políticas (terrorismos religiosos, como os do islamismo sunita orientados pela Al‑Qaeda ou os do islamismo xiita orientados pelo Irão); (3) segundo reivindicações autonomistas ou independentistas que, muitas vezes, estão

ligadas a determinadas ideologias políticas (terrorismos nacionalistas como o da ETA basca), mas podem também assentar em identidades religiosas propondo projectos políticos laicos (terrorismos nacionalistas como o do IRA irlandês ou o da Al‑Fatah palestiniana) ou propondo projectos políticos religiosos ou teocráticos em que no entanto predominam as reivindicações independentistas (terrorismos nacionalistas como o do Hamas palestiniano).

Mas, dada a natureza dos meios e métodos usados pelos terroristas, as “causas” que airmam defender terão de possuir uma muito grande importância e serem claramente deinidas para, sendo então aceites por parcelas signiicativas de uma dada população, conseguirem atingir a dignidade de uma verdadeira causa política, pois, conforme nos recorda Raymond Aron “um terrorista sem causa”, isto é, sem uma causa claramente

 ACerCA De “TerrorIsMo” e De “TerrorIsMos”

merecedora de que se lute por ela, “parece‑se com um bandido de estrada”63. Ora o

que acontece é que, na maior parte dos casos, as causas políticas proclamadas pelos grupos terroristas autónomos são incipiente ou equivocamente deinidas e, em muitos casos, sobretudo tratando‑se dos terrorismos autónomos ideológicos, são utópicas e, ou, carecem de suiciente importância aos olhos da esmagadora maioria das pessoas involuntariamente envolvidas.

Na segunda acepção da palavra “causa”, a de designar o facto que desencadeia o comportamento, põe‑se com nitidez o papel determinante da vontade e das escolhas na caracterização da acção. Conforme vimos, o terrorismo é uma forma particular de utilização da violência num conlito, uma forma perversa, já que não só ignora, mas, pior ainda, deliberadamente contraria a moral e os mais elementares princípios de hu‑ manidade. A sistemática violação das normas, morais e legais, o desprezo pelas mais elementares regras humanitárias, a ausência de piedade, a não proporcionalidade da violência, a indiferença pelos inocentes e neutros, coniguram a especial perversidade desta forma de violência.64

A pergunta que se impõe, então, não é “o que é que os leva a utilizar a violência” mas sim “o que é que os leva a optar por esta sua forma perversa”. Se as condições da conjuntura podem por vezes exigir o recurso à violência na defesa de uma inalidade política, se a origem dos conlitos e a utilização neles da violência podem ter como causas, factores ligados à estrutura e ao funcionamento das sociedades e das suas insti‑ tuições, a verdade é que a violência, mesmo quando, eventualmente, inevitável, pode e deve, revestir outras formas menos desumanas, como as da guerra ou as da guerrilha, as quais, assim como a preservação da ordem pública, não incluem normalmente, e muito menos necessariamente, acções terroristas. Tanto a guerra como a guerrilha conduzem algumas vezes à violação das normas, mas não por sistema, de forma intencional, de‑ liberada, permanente, como acontece com o terrorismo.

63 ARON, Raymond, 1976, pág. 210 «A moda dos anos 70 arrasta para a anarquia do terrorismo “racio‑ nalizado” de guerra revolucionária (...). Votados à Fé e ao Crime, jesuítas da revolução, exaltados pelos teóricos da violência, condenados pelos comunistas e pelos liberais, os “partisans” na sua última encar‑ nação exprimem a recusa do mundo matando alguns dos seus semelhantes (...) Mesmo sendo irrisório o resultado físico da sua acção, acreditam na ressonância política da sua revolta, no valor moral do seu testemunho. Esquecem que um terrorista sem causa se parece com um bandido da estrada».

64 Esta é uma opinião partilhada, aliás, por muitos autores, como WILKINSON, Paul, 1979, que nos recorda o célebre “Catecismo do revolucionário” (terrorista anarquista) escrito no século XIX por Nechaiev, bastante revelador da especial perversidade da violência terrorista. A citação (Sergei Nechayev, “Catechism of the Revolutionist” (1869), reimprimida in Daughter of a Revolutionary, ed. Michael Conino (London, 1974), pp. 221‑230) vem a p. 103 «The revolutionary (terrorist) despises all dogmas and all sciences, (…). He knows only one science — the science of destruction... the object is perpetually the same: the quickest and surest way of destroying this whole ilthy order.... For him, there exists only one pleasure, one consolation, one reward, one satisfaction, the success of the terror. Night and day he must have but one thought, one aim, merciless destruction»; O mesmo autor retoma esta ideia da especial perversidade da violência terrorista, que deve ser distinguida das outras formas de violência, em outros trabalhos seus como em 1990, a pp. 5‑6.

Devem pois existir causas particulares para a preferência por este. E se algumas dessas causas poderão ser, até certo ponto e em certos casos, objectivas, as principais deverão ser de natureza subjectiva já que se trata de uma escolha que a necessidade verdadeiramente nunca impõe. De facto, a reacção a situações de injustiça social e, ou, política, pode fazer‑se sempre por meios não violentos, muitas vezes até mais eicazes ou, na falha destes, como acabei de referir, mesmo que suposta ou realmente se im‑ ponha o recurso à violência, esta poderá sempre revestir outras formas, que procurem respeitar os princípios mais elementares de humanitarismo e de justiça, designadamente, e sobretudo, a salvaguarda dos não combatentes.

Assim sendo, a opção pelo terrorismo como forma privilegiada de violência política derivará, antes de mais, do próprio indivíduo, da sua atitude perante a sociedade e os outros. As verdadeiras raízes da sua ocorrência estarão no interior dos indivíduos que o praticam. Deveremos portanto distinguir as motivações das escolhas dos compor‑ tamentos que radicam sobretudo na natureza humana, das circunstâncias sociais, que podem fornecer pretextos e favorecer a ocorrência do terrorismo.

O ambiente social pode efectivamente desempenhar papel importante como pretexto ou como condição na ocorrência de lutas violentas, as quais podem in‑ cluir os terrorismos. Injustiças sociais, opressão política, conlitos étnicos e naciona‑ listas podem provocar e justiicar sentimentos de revolta que podem ser potenciados por ideologias políticas ou religiosas. A opinião pública, simpatizando ou simples‑ mente não condenando com suiciente indignação, pode gerar ambiente favorável à prática da violência em geral e, por conseguinte, também desta sua forma em parti‑ cular. A permissividade ou brandura do sistema judicial pode incutir sentimentos de impunidade e de coniança entre os que estão dispostos a violar as leis. Os apoios de alguns governos ou organizações, tirando partido em proveito próprio do baixo cus‑ to, reduzido risco e boas probabilidades de êxitos tácticos das actividades terroristas, podem favorecer a emergência e a persistência dos grupos terroristas. E a existência de determinadas condições materiais como o acesso fácil a recursos e alvos que a crescente urbanização e complexidade das comunidades contemporâneas multiplica, a disponibilidade dos meios, armamentos, explosivos, telemóveis, computadores, eicazes e acessíveis, as possibilidades de fuga, aumentadas pela actual multiplicação dos meios de transporte, pelo crescimento das massas humanas em movimento no turismo e nas migrações, pela abolição de algumas fronteiras e alívio dos controles em outras, o amplo alcance dos meios de comunicação social, particularmente da televisão, o secretismo das operações inanceiras, facilitando a lavagem dos dinheiros de origem criminosa e as transferências que possibilitam aquisições, movimentos e esconderijos, podem facilitar e têm de facto vindo a facilitar as actividades terroristas.65

65 A referência aos factores do ambiente social e das condições materiais que explicam ou favorecem o desenvolvimento do terrorismo é muito comum, mas a forma como é abordada a sua importância re‑ lativa e a sua inluência no fenómeno, é diversiicada. Entre os trabalhos que utilizei como inspiradores

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Temos, pois, três “campos” que se sobrepõem e interpenetram na condução ao fenómeno terrorismo: o do indivíduo, que se predispõe para a luta violenta e escolhe ou aceita fazê‑lo através de acções terroristas; o da sociedade, que fornece razões ou pretextos, justiicando a sua acção (ainda que, por vezes, só aos olhos dele próprio e dos seus cúmplices) e podendo, ou não, facilitá‑la; e o dos meios materiais que favorecem e potenciam a sua actividade. Na conluência destes três “campos” encontra‑se o grupo terrorista, que atrai e enquadra o indivíduo, que explora as oportunidades sociais assim como os meios materiais, e onde se deine e airma a causa política e se gera, por im, a acção terrorista.

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