• Nenhum resultado encontrado

A EXPANSÃO DO SETOR SUCROENERGÉTICO E AS DINÂMICAS DA AGRICULTURA FAMILIAR

_________________________________________________________________________________ 6 Flávio de Arruda Saron 31 ; Antonio Nivaldo Hespanhol

INTRODUÇÃO

Na primeira década do século XXI, o governo brasileiro apoiou fortemente o setor sucroenergético, o que, somado aos investimentos feitos por grandes grupos econômicos nacionais e estrangeiros, possibilitou a sua reestruturação, resultando na implantação de dezenas de usinas.

O setor sucroenergético, atualmente o principal segmento do agronegócio paulista, abrange atividades agrícolas e industriais de processamento de cana-de-açúcar para a produção de açúcar e etanol bem como a cogeração de energia elétrica a partir da queima do bagaço da cana. A expansão canavieira tornou-se um fenômeno marcante nos últimos vinte anos e fez com que temas como redução na produção de alimentos, deslocamento das pastagens para áreas da Amazônia e aumento do desmatamento se tornassem frequentes na literatura, especialmente em língua inglesa (BORRAS et al., 2011; FAO, 2008; MAGDOFF; TOKAR, 2010;).

A substituição de cultivos e das atividades da agricultura familiar por canaviais destinados ao abastecimento de unidades sucroenergéticas no extremo Noroeste Paulista orientou a execução da pesquisa de doutorado desenvolvida entre 2014 e 2018 pelo primeiro

30Este texto resulta de nossa tese de doutorado defendida Programa de Pós-Graduação em Geografia da

Faculdade de Ciências e Tecnologia da UNESP, campus de Presidente Prudente/SP. A pesquisa foi orientada pelo Prof. Dr. Antonio Nivaldo Hespanhol e contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo número 2014/04431-9. No âmbito da pesquisa, a FAPESP também financiou o estágio de pesquisa na University of Kansas (KU) (processo número 2016/22113-0), quando foi estudada a produção de agrocombustíveis no oeste do Kansas, sob a supervisão do Prof. Dr. John Cristopher Brown. Para mais detalhes, ver Saron (2018).

31Doutor em Geografia pela Faculdade de Ciências e Tecnologia/Universidade Estadual Paulista (FCT/UNESP), campus de

Presidente Prudente/SP. E-mail: [email protected]

32Professor dos Cursos de Graduação e de Pós-Graduação em Geografia da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UNESP,

autor deste texto, sob a orientação do segundo33. Partimos da hipótese de que a implantação de canaviais no extremo Noroeste Paulista foi um dos principais motivos que contribuíram para o declínio da agricultura familiar na região.

Estruturamos o texto em duas partes, além da introdução e das considerações finais. Na primeira, tratamos da expansão do setor sucroenergético no Brasil e das políticas a ele relacionadas; na segunda, abordamos as novas dinâmicas na agricultura do extremo Noroeste Paulista, geradas pela implantação de unidades sucroenergéticas, e analisamos os impactos da expansão dos canaviais sobre a agricultura familiar.

O desenvolvimento da pesquisa contou com amplo levantamento bibliográfico e documental sobre a expansão do agronegócio e, particularmente, do setor sucroenergético no Brasil, no estado de São Paulo e no extremo Noroeste Paulista. Utilizamos dados e informações do projeto CANASAT (2003-2013)34 disponibilizados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), assim como do Anuário da Cana e de outras mídias especializadas.

A pesquisa empírica foi realizada por meio de investigações de campo, de entrevistas com autoridades (prefeitos, vereadores), representantes de órgãos oficiais de assistência técnica e extensão rural, de sindicatos de trabalhadores rurais, de cooperativas e associações de agricultores em diferentes municípios da região. Também foram aplicados formulários a 30 agricultores, dos quais 16 concedem terra em arrendamento para o cultivo de cana-de-açúcar e 14 exploram diretamente suas terras, não as concedendo em arrendamento.

A expansão do setor sucroenergético

Em meados do século XX, o estado de São Paulo assumiu a liderança na produção de cana-de-açúcar, suplantando os estados da Região Nordeste do país. Isso foi possível graças ao deslocamento de capitais da cafeicultura e de outras atividades para o

34O CANASAT é um projeto de monitoramento anual da cana-de-açúcar na Região Centro-Sul do país, via

imagens de satélite (Landsat), coordenado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O projeto CANASAT forneceu dados sobre cultivo e colheita da gramínea entre 2003 e 2013. Para mais detalhes sobre os procedimentos, técnicas de sensoriamento remoto e mapeamento adotados no âmbito do projeto, ver: Rudorff, B. F.T et al. (2010).

setor canavieiro. Andrade (1994) e Bray et al. (2000) destacam que, diferentemente do ocorrido no Nordeste, as usinas canavieiras no estado de São Paulo surgiram grandes e verticalizadas, reunindo capitais de vários setores, com perfil eminentemente capitalista.

No início da década de 1970, porém, a agroindústria canavieira sofria com o baixo preço do açúcar no mercado internacional. À mesma época, precisamente em 1973, sobreveio o primeiro choque do petróleo, quando o preço do barril passou de US$ 3 a US$ 12, o que provocou grande déficit na balança comercial brasileira, dada a forte dependência do país em relação ao petróleo importado.

Nesse contexto, a produção de etanol emergiu como alternativa para substituir parcialmente o petróleo importado. O governo brasileiro lançou, então, o Programa Nacional do Álcool (PROÁLCOOL). Em face dos baixos preços do açúcar no mercado internacional no primeiro quinquênio dos anos 1970, o Programa favoreceu o setor, representando uma iniciativa importante para absorver a cana-de-açúcar excedente. Com a implantação do PROÁLCOOL, que vigorou entre 1975 e 1990, o governo passou a conceder financiamentos a juros inferiores às taxas de inflação, tendo como consequência a implantação de destilarias autônomas e a readequação técnica de várias usinas de açúcar para a produção de etanol.

Além disso, o Estado brasileiro fomentou a criação de mercado cativo para o produto, por meio de estímulos aos consumidores para adquirirem veículos movidos a álcool hidratado, tais como: a) redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI); b) desconto de 50% na alíquota do Imposto Sobre Veículos Automotores (IPVA) para os movidos a álcool; c) isenção total do IPI aos veículos movidos a álcool adquiridos por taxistas; d) estabelecimento do preço do álcool à base de 65% do preço da gasolina. Tais medidas, em conjunto, resultaram na expressiva ampliação da frota de veículos movidos a etanol nos anos 1980 (THOMAZ JUNIOR, 2002).

A seletividade dos projetos apoiados, os estímulos à concentração de capital no setor sucroalcooleiro, os altos custos para os cofres públicos e a ausência de critérios técnicos para concessão de financiamentos pelo PROÁLCOOL fizeram com que o Programa passasse a ser objeto de duras e contundentes críticas (BRAY et al., 2000; RAMOS, 1999; THOMAZ JUNIOR, 2002). Ainda assim, ele é um marco da expansão canavieira no estado de São Paulo e na configuração do setor. A crise fiscal do Estado brasileiro, porém, especialmente na segunda metade dos anos 1980, comprometeu a continuidade do PROÁLCOOL, que acabou sendo extinto no ano de 1991.

Consequentemente, enquanto muitas usinas e destilarias autônomas com baixa eficiência técnica foram desativadas, as que se mantiveram ativas, entretanto, quase dobraram sua capacidade média de produção. A redução da intervenção estatal nos anos 1990 ensejou inovações tecnológicas que se consolidaram na década seguinte, como, entre outras: a) disseminação da fertirrigação; b) automação industrial; c) ampliação da capacidade industrial; d) adoção do plantio mecanizado; e) diversificação e melhor aproveitamento de subprodutos; f) cogeração de energia elétrica a partir da queima do bagaço; g) produção de torta de filtro; h) utilização da vinhaça como fertilizante (ALVES, 2007; BACCARIN et al., 2013)35.

A ampliação da eficiência técnica e da produtividade, contudo, não impediu que uma forte crise atingisse o setor. Os preços do açúcar próximos a US$ 300/tonelada até o ano de 1997, que sustentaram as atividades do setor, decaíram para US$ 150,00 no final da década de 1990. Além disso, a demanda por etanol para uso automotivo declinou junto com a queda na venda de veículos leves movidos a álcool anidro que, em 1999, não chegou a 1% do total (BACCARIN et al., 2013).

Na primeira década do século XXI, no entanto, a conjuntura internacional se alterou e foi bastante favorável ao setor sucroenergético, especialmente em razão do incremento dos preços do petróleo e do açúcar no mercado internacional. Em 1999, o barril de petróleo era comercializado a cerca de US$ 18,00 e, em 2006, ultrapassou o valor de US$ 65,00, o que estimulou a produção de etanol. O açúcar, por sua vez, que em 2005 atingira o preço de US$ 200 a tonelada, em 2006 superou os US$ 300. Paralelamente, a abertura de capitais das empresas do setor na Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuro de São Paulo (BM&F Bovespa) permitiu que capitais ociosos pertencentes a diversos fundos de pensão fossem aplicados no setor sucroenergético, na forma de aquisição de derivativos dos grupos e empresas, aumentando, assim, a disponibilidade de capital.

35É preciso esclarecer as razões que justificam a adoção de termos como agroindústria canavieira, setor sucroalcooleiro e setor sucroenergético. Antes dos anos 1970, a produção de açúcar já se assentava em bases

agroindustriais, motivo que permite a referência à agroindústria canavieira, mas somente a partir de 1975, com o PROÁLCOOL e os esforços para a ampliação da produção de etanol, o termo sucroalcooleiro passou a ser utilizado. A partir da década de 1990, e principalmente nos anos 2000, devido à ampliação da cogeração de energia elétrica com a queima de bagaço e de palha da cana-de-açúcar, passou-se a utilizar o termo

sucroenergético, que destaca também a importância desse setor na matriz energética nacional. Todos

os termos são utilizados na literatura. Para maior aprofundamento, o leitor pode consultar a coletânea organizada por Bernardes et al. (2013).

A articulação aos circuitos do capitalismo globalizado sob o comando do capital financeiro também ocorreu com a ampliação da participação de capital estrangeiro no setor, por meio de aquisições, fusões e associações. A Raízen Energia, atualmente a maior empresa do setor sucroenergético no Brasil, por exemplo, resultou da joint venture constituída entre as empresas Cosan e Shell. Várias tradings do agronegócio, tais como a Adecoagro, Bunge, Cargill, Luis Dreyfus Commodities (LDC), Noble, Renuka, Sojitz, Tereos, Comanche, Infinity Bioenergy e Clean Energy, também passaram a atuar no setor sucroenergético no país (OLIVEIRA, 2014).

No plano nacional, o advento da tecnologia flex fuel levou as montadoras a fabricar veículos preparados para utilizar etanol, gasolina e ambos os combustíveis misturados em qualquer proporção, restabelecendo, assim, a competitividade do etanol. Desde 2007, os carros flex representam em torno de 90% do total das vendasde automóveis, segundo dados da Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA). Além disso, países desenvolvidos aumentaram a demanda por álcool anidro para ser adicionado à gasolina, visando, em cumprimento ao Protocolo de Kyoto, à redução da emissão de gás carbônico (PITTA et. al., 2014).

O Estado brasileiro, à semelhança do que fez durante a vigência do PROÁLCOOL, estimulou fortemente o setor por meio da oferta de linhas de crédito especiais e de programas financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), dentre os quais se destacam: a) o Programa BNDES de Apoio ao Setor Sucroalcooleiro (BNDES-PASS); b) o Plano de Apoio à Inovação Tecnológica Industrial dos Setores Sucroenergético e Sucroquímico (PAISS); c) o Programa de Apoio à Renovação e Implantação de Novos Canaviais (PRORENOVA).

Entre os anos 2003 e 2013, o BNDES concedeu R$ 39,2 bilhões em financiamentos para o plantio de cana-de-açúcar, produção de açúcar e álcool e cogeração de energia elétrica (BNDES, 2013). Disponibilizou também recursos para a realização de investimentos em projetos de infraestrutura, logística (etanolduto) e pesquisas, especialmente para desenvolver tecnologias que propiciem a utilização de bagaço de cana-de-açúcar na produção de álcool, o chamado etanol de segunda geração.

A combinação de conjuntura internacional favorável, estímulos governamentais, investimentos estrangeiros, inserção de grandes grupos e tradings na produção de açúcar, etanol e energia elétrica resultou em forte crescimento do setor sucroenergético,

demonstrado pela instalação de dezenas de usinas em vários estados brasileiros, com destaque para Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná e, principalmente, São Paulo.

A implantação de novos projetos do setor sucroenergético redundou numa expansão significativa das áreas de cultivo de cana-de-açúcar em todo o estado de São Paulo, em especial, na sua porção oeste36, conforme se observa no mosaico de mapas apresentado na Figura 1, que mostra as áreas cultivadas em 2003, 2008 e 2013.

Figura 1 - Expansão das áreas canavieiras no estado de São Paulo nos anos de 2003, 2008 e 2013.

No entanto, a crise financeira mundial de 2008 comprometeu seriamente as usinas, provocando muitas falências e elevação do endividamento de muitos grupos, de modo que mais uma vez foi necessário mobilizar os recursos públicos para socorrer o setor (RAMOS, 2011).

36Considera-se Oeste Paulista a área de abrangência do “Plano de Desenvolvimento do Oeste do Estado de

São Paulo” (PRÓ-OESTE) que, lançado pelo governo do Estado de São Paulo nos anos 1980, visava estimular a implantação de unidades sucroalcooleiras no oeste do estado, especialmente nas regiões administrativas de Presidente Prudente, Araçatuba e São José do Rio Preto.

No ano de 2013 havia, no estado de São Paulo, 158 usinas sucroenergéticas. Destas, 50 foram implantadas antes de 1975 (início do PROÁLCOOL); 54, entre 1975 e 1990, durante a vigência do PROÁLCOOL; quatro, entre 1991 e 1999; 41 foram implantadas ou ampliadas entre 2000 e 2010, conforme mostrado na Tabela 1.

Tabela 1 Unidades sucroenergéticas implantadas no Oeste Paulista e Estado de São Paulo ao longo do tempo

Períodos Oeste Paulista Estado de São Paulo

Antes de 1975 4 50 1975-1990 (PROÁLCOOL) 34 54 1991-1999 1 4 2000-2010 21 41 Sem informações 1 9 Total 61 158

Fonte: Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), 2013.

No período de vigência do PROÁLCOOL (1975-1990) e na primeira década do século XXI, mais da metade das novas usinas paulistas foram implantadas na porção oeste do estado bandeirante. No caso do extremo Noroeste Paulista, as primeiras foram instaladas somente após o ano 2000, o que resultou em forte expansão do cultivo de cana-de-açúcar em alguns municípios, com impactos significativos na agricultura familiar.

Após a crise de 2008, houve um recrudescimento da expansão do setor sucroenergético, porém, no decorrer da segunda década do século XXI, o setor foi duramente atingido pelas medidas do governo federal que, com o intuito de controlar a inflação, manteve baixos os preços da gasolina, comprometendo a competividade do etanol, com reflexos negativos no setor sucroenergético.

A implantação de unidades sucroenergéticas no extremo Noroeste Paulista e o declínio da agricultura familiar

O extremo Noroeste Paulista é constituído pelos 22 municípios que integram o Escritório de Desenvolvimento Rural (EDR)37 de Jales, conforme se verifica na Figura 2.

37O EDR é uma regionalização da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável (CDRS), instituição

A maioria dos municípios da região apresenta perfil eminentemente rural. Apenas Jales, com 47.012 habitantes (94,10% de população urbana 5,90% de população rural) e Santa Fé do Sul, com 29.239 (96,06% de população urbana e 3,94% de população rural), possuem população superior a 10 mil habitantes e exercem alguma centralidade no contexto regional, sediando, principalmente, estabelecimentos comerciais, consultórios médicos e órgãos da administração pública federal e estadual. Juntos, os dois municípios concentram mais da metade da população do extremo Noroeste Paulista, de acordo com os dados do Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010, possuía 144.974 habitantes, dos quais 126.661 residiam na área urbana (87,37%) e 18.313 na área rural (12,63%). A estrutura fundiária baseada em pequenas propriedades e a predominância de trabalho e gestão familiar são elementos singulares do extremo Noroeste Paulista, ressaltados por vasta e diversificada literatura, destacando-se Monbeig (1984), Carvalho e Kuhn (1999), Locatel (2004) e Nardoque (2007).

O processo de ocupação do extremo Noroeste Paulista ocorreu, efetivamente, após a Segunda Guerra Mundial (1945). A partir dos anos 1940, foram loteadas glebas em pequenas e médias propriedades rurais destinadas a famílias de trabalhadores (sobretudo, no regime de colonato) provenientes de áreas de ocupação mais antigas do estado de São Paulo (MONBEIG, 1984). Cada empreendimento imobiliário normalmente contava com um escritório para a venda de terras, máquinas de beneficiamento de grãos e pequenos estabelecimentos comerciais que supriam as necessidades básicas da população rural e a comercialização de produtos agrícolas (NARDOQUE, 2007).

Grande contingente de famílias foi atraída para a região em razão das facilidades de adquirir terra própria a preços mais baixos, com pagamento parcelado. A conclusão da Estrada de Ferro Araraquarense (EFA), em 1952, favoreceu o escoamento dos produtos agrícolas e a ligação entre o extremo Noroeste Paulista e outras regiões. Entre as décadas de 1940 e 1970, nas pequenas e médias propriedades rurais, milhares de famílias dedicaram-se ao cultivo comercial de café e de outras lavouras (arroz, feijão, milho, amendoim e algodão), além de explorarem a pecuária leiteira e de corte (PERINELLI NETO et al., 2010).

A grande geada de 1975 arrasou os cafezais do Oeste Paulista, levando à sua decadência. No decorrer das décadas de 1980 e 1990, as demais lavouras e os cultivos comerciais de algodão e milho também entraram em declínio, instaurando-se a crise na agricultura regional baseada em lavouras tradicionais. Em face da inviabilidade econômica

dos principais produtos da região, o cultivo de frutas, especialmente de uva de mesa e, em menor grau, de laranja, passou a se expandir nessa mesma época, e o extremo Noroeste Paulista tornou-se um importante polo de produção de frutas.

A fruticultura alterou o perfil da agricultura regional em decorrência das exigências em termos de manejo e de utilização de técnicas agronômicas mais aprimoradas. Todavia, a estrutura fundiária permaneceu baseada em pequenas e médias propriedades rurais policultoras, com predomínio de gestão e trabalho familiar. E a tendência de redução da população rural, verificada desde meados da década de 1970, também se manteve, ainda que em intensidade inferior quando comparada a outras regiões do Oeste Paulista (LOCATEL, 2004). Ao longo dos anos 1990 e 2000, porém, o surgimento de novos importantes polos de produção de frutas irrigadas, especialmente na Região Nordeste, refletiu negativamente na fruticultura do extremo Noroeste Paulista.

Desse modo, é num cenário de declínio da agricultura familiar regional caracterizada por envelhecimento da população rural, descapitalização dos agricultores e falta de apoio oficial, que a Usina Colombo S/A, unidade de Santa Albertina, iniciou suas operações no ano de 2009. Várias unidades sucroenergéticas foram instaladas em municípios próximos ao extremo Noroeste Paulista nos últimos vinte anos, tais como a Bunge, em Ouroeste; Usina Noroeste Paulista (UNP), em Meridiano; Usina Santa Adélia, em Sud Menuci; e, a Generalcol, em General Salgado38, conforme se observa na Figura 3.

A Colombo Agroindústria S/A opera no setor canavieiro desde os anos 1940, com a produção de aguardente. No final da década de 1970 e no decorrer dos anos 1980, o grupo investiu na reestruturação da planta industrial para produzir etanol, sob os estímulos do PROÁLCOOL. Em 1979, foi criada a Companhia Agrícola Colombo, empresa subsidiária responsável pelo arrendamento de terras para o cultivo da cana-de-açúcar processada nas unidades sucroenergéticas do grupo. Considerado de médio porte, possui três usinas no interior do estado de São Paulo: além da unidade de Santa Albertina, as instaladas nos municípios de Ariranha e Palestina. Mantém duas marcas próprias de açúcar: Colombo e Caravelas. Mais da metade da área canavieira no ano de 2013, ou seja, 23,14 mil dos 44,53 mil hectares ocupados por lavouras de cana-de-açúcar no extremo Noroeste Paulista, produzia matéria-prima para o abastecimento da Usina Colombo S/A, unidade de Santa Albertina (dados do Anuário da Cana e projeto CANASAT de 2013).

A implantação de unidades sucroenergéticas tem alterado o perfil da agricultura regional, com a ampliação da especialização produtiva atrelada à monocultura de cana-de-açúcar, o emprego de grande contingente de trabalhadores assalariados e a elevada concentração de capital.

A expansão canavieira no extremo Noroeste Paulista pode ser verificada no mosaico de mapas apresentado na Figura 4, que mostra o crescimento do cultivo de cana-de-açúcar na região em 2003, 2008 e 2013. Nota-se que em 2008 havia poucos canaviais, no entanto, nos anos seguintes, a área canavieira foi substancialmente ampliada, o que coincide com o início das operações da Usina Colombo S/A e de outras instaladas em municípios situados nas proximidades da região. Mas, a ampliação da área canavieira no extremo Noroeste Paulista não ocorreu homogeneamente. Dos 22 municípios, apenas sete (Mesópolis, Jales, Pontalinda, Santa Rita D'Oeste, Paranapuã, Santa Albertina e Rubinéia) concentravam quase 70% da área cultivada com cana-de-açúcar no ano de 2013, de acordo com dados do projeto CANASAT.

Figura 4 - Expansão canavieira no Extremo Noroeste Paulista: área canavieira em 2003, 2008 e 2013.

O quadro da expansão canavieira no extremo Noroeste Paulista é bastante distinto do de outras regiões do Oeste Paulista, onde os canaviais foram implantados predominantemente em áreas de grandes fazendas de gado. Verificamos que, grande parte dos canaviais que passaram a integrar a paisagem rural na região foram implantados em propriedades rurais com área inferior a 100 hectares. Entretanto, a maioria dos proprietários rurais que concedem terras em arrendamento para o cultivo de cana-de-açúcar não se enquadra na categoria de agricultor familiar, uma vez que eles não residem na região, nem são agricultores. Muitos são absenteístas, residem e exercem outras atividades nas