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NO AGRO-HIDRONEGÓCIO CANAVIEIRO NA REGIÃO ADMINISTRATIVA DE PRESIDENTE PRUDENTE/SP

____________________________________________________________________________________ 7 Fredi dos Santos Bento 39 ; Antonio Thomaz Junior

INTRODUÇÃO

Nesses primeiros anos do século XXI, têm se ampliado as discussões a respeito das mudanças e desafios presentes no campo brasileiro, com destaque para a trajetória da agricultura do país. Nesse ínterim, é interessante nos situarmos no diálogo que se tem feito a respeito ao desenvolvimento da agricultura brasileira nas últimas décadas, principalmente com o advento de um modelo agroexportador que tem se destacado nesses primeiros anos do século.

No entanto, para efetuarmos tal discussão é preciso termos em consideração a construção de um projeto modernizante em torno da agricultura brasileira, com a disponibilização de recursos, investimentos em pesquisa e assistência técnica, além do estabelecimento de um sistema de crédito rural com o objetivo de se realizar a integração da agricultura ao setor industrial. Tal perspectiva leva em conta a necessidade de não se manter a agricultura enquanto fator de atraso para as metas de desenvolvimento traçadas para o país, e rebate na gestação/construção em um modelo de desenvolvimento pautado pelo agro-hidronegócio canavieiro (GONÇALVES NETO, 1997).

A importância do agro-hidronegócio canavieiro diz respeito à cana dar origem ao açúcar, assim como a uma série de outros produtos, a exemplo dos destinados à ração animal, aguardente, cogeração de energia elétrica, adubo, fertirrigação (vinhaça), etanol para fins carburantes em substituição aos combustíveis fósseis, tendo assumido ao longo dos últimos séculos, se considerarmos sua importância no período colonial, um papel de destaque na trajetória da agricultura brasileira (SHIKIDA, 2014).

39Professor Licenciado, Bacharel e Mestre em Geografia pela Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT/UNESP), campus

de Presidente Prudente/SP. Doutorando em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia pela FCT/UNESP, é membro do Centro de Estudos de Geografia doTrabalho (CEGeT). E-mail: [email protected]

40Professor Doutor e Livre Docente pelo Departamento de Geografia da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT/UNESP),

Assim considerando, chama-nos a atenção seu desenvolvimento na Região Administrativa de Presidente Prudente/SP, tendo em vista que, além de palco da ampliação dos investimentos no setor canavieiro nestas primeiras décadas do século XXI, também é permeado por uma série de conflitos relacionados à posse da terra, o que nos possibilita entender a respeito dos efeitos da opção pelo modelo agroexportador na trajetória da agricultura da região, além dos impactos para o trabalho, presentes quando pensamos na existência de uma dinâmica migratória do trabalho para o capital nos canaviais da região. Essa lógica perversa torna possível a expansão do capital agroindustrial canavieiro e nos força a entender os significados do processo de desenvolvimento destrutivo das forças produtivas no agro-hidronegócio canavieiro, buscando atrelar trabalho e saúde, tendo em vista que os significados atuais da degradação que recobre as relações sociais de trabalho e de produção rebatem também para o ambiente e para a saúde ambiental.

Nessa perspectiva, para efetuarmos tais aproximações, temos desenvolvido trabalhos de campo, com a finalidade de realizarmos entrevistas semiestruturadas e relatos orais com os trabalhadores, suas instâncias de representação e com representantes do capital agroindustrial canavieiro.

Dessa forma, o texto objetiva debater a respeito do desenvolvimento das migrações do trabalho para o capital em meio à transição técnico-ocupacional no plantio e colheita da cana-de-açúcar na Região Administrativa de Presidente Prudente/SP, e está dividido em duas seções, sendo a primeira referente ao desenvolvimento do agro-hidronegócio canavieiro nessa região, e na segunda seção busca pontuar dentre os impactos deste para o trabalho em seu desenvolvimento neste início do século, a existência de uma dinâmica migratória do trabalho para o capital nos canaviais desta região.

O Agro-hidronegócio canavieiro na região administrativa de Presidente Prudente/SP Ao questionarmos a gestação do agro-hidronegócio canavieiro não podemos deixar de recordar que o mesmo não foi realizado do dia para a noite, sendo importante demarcar a proletarização do trabalho no campo dada a capitalização dos processos de trabalho no campo como advogam Goodman, Sorj e Wilkinson (1985); Silva e Kageyama (1996), tendo em consideração que desde o desenvolvimento dos CAIs (complexos agroindustriais) no país, na década de 1970, houve a integração técnica dos setores que produziam para a agricultura, a agricultura e as agroindústrias processadoras.

Todavia, esse processo se amplificou nas últimas décadas com o desenvolvimento de empresas agropecuárias, fornecedores de insumos químicos e implementos mecânicos, laboratórios de pesquisa, prestadores de serviços agropecuários especializados, agroindústrias, cadeias de supermercados, além do crescimento de áreas urbanas, integrando agronegócio e o circuito da economia urbana e que fazem parte do desenvolvimento do mesmo (ELIAS, 2008).

O incentivo para com a industrialização e tecnificação da agricultura aliado ao aumento da concentração da propriedade da terra, além da proletarização do trabalho no meio rural, permitiram que se conhecesse esse processo enquanto “modernização conservadora”, e sua ambição de tornar as grandes propriedades latifundiárias em verdadeiras empresas agrícolas. Ademais, a modernização pode ser entendida também como alternativa (cruel) à realização de uma ampla e irrestrita reforma agrária no país (BENTO, 2015, 2019; GOODMAN; SORJ; RAMOS, 2008; SHIKIDA; AZEVEDO; VIAN, 2011; WILKINSON, 1985).

Porém, é importante recordarmos que durante a década de 1990 o agro-hidronegócio canavieiro passou por uma fase de desregulamentação, fazendo parte de uma configuração mais ampla, com o afastamento do Estado desse ramo de atividade, as privatizações e a liberação do mercado que o acompanham.

Assim, o período foi marcado por conflitos no setor canavieiro, em que de um lado havia aqueles que pediam o retorno da regulação estatal e de outro (grupos mais tecnificados/estruturados) desejavam a atuação do livre mercado, passando o setor por três processos: concentração econômica, mundialização e concentração territorial, situação diferente da atual com a oferta de crédito abundante para empresas do agro-hidronegócio (BELIK; VIAN, 2002; BENTO, 2015, 2019; OLIVEIRA, 2009, 2015).

Em meados de 2003, o setor canavieiro vivenciou um novo boom no que tange à expansão dos investimentos e atenções do Estado para o setor em detrimento da estagnação da década de 1990, devido ao desenvolvimento da tecnologia flex fuel para automóveis de passeio, que permitiu a utilização de etanol e/ou gasolina. A partir de 2006, a frota com esta tecnologia passou de 2,6 milhões, para 25.772.995 de veículos em 2015, permitindo assim que o setor fosse visto enquanto uma das engrenagens vitais da estratégia de desenvolvimento nacional a partir do modelo agroexportador (ANFAVEA; UNICA, 2015; BACCARIN, 2015; MACÊDO, 2011; NOVAES, 2009).

Tal promessa de desenvolvimento encimada na vocação agroexportadora, ao contrário do apregoado, tem revelado o verdadeiro caráter destrutivo do modelo de desenvolvimento pautado pelo agro-hidronegócio, com a atuação voltada para a produção de commodities agrícolas. Isto porque se mostra muito distante do modelo que seja realmente equânime ao considerarmos a utilização intensiva de recursos hídricos, terras férteis, logística de transporte adequada, integração ao capital financeiro-especulativo, etc. (OLIVEIRA, 2015; PERPETUA, 2016).

Novaes et al. (2007) e Bento (2015; 2019) postulam que esta expansão se deve a novas perspectivas do comércio interno e externo, elevação dos preços internacionais do petróleo, crescimento da demanda interna por álcool hidratado, em consequência do sucesso dos novos modelos flex fuel, “movidos a etanol e gasolina” e os efeitos do Protocolo de Kyoto, que impõe a redução, por parte dos países signatários, das emissões de CO2.

Saron e Hespanhol (2014) asseveram que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é o grande financiador do setor canavieiro neste início do século, dado que durante o governo Lula (2003-2010) o banco concedeu cerca de R$ 28,2 bilhões em financiamentos para o plantio da gramínea, produção de açúcar e etanol e geração de bioenergia.

Em 2019, a produção de cana-de-açúcar estimada para a safra 2019/2020 foi de 615,98 milhões de toneladas, apresentando uma redução de 0,7% em relação à safra anterior. Porém, destes, 323.416,4 mil toneladas seriam produzidas apenas pelo Estado de São Paulo, maior produtor nacional da gramínea, e em consideração à área colhida, a mesma estaria estimada em 8,38 milhões de hectares, com retração de 2,4% em relação à última safra. Em contrapartida, a produção de açúcar deverá atingir 31,8 milhões de toneladas, com crescimento de 9,5% em comparação à safra anterior, em oposição ao etanol, com a estimativa de 30,4 bilhões de litros a serem produzidos, apresentando, assim, retração de 8,6% em relação à safra anterior (COMPANHIA NACIONAL DE ABASTECIMENTO – CONAB, 2020).

Entretanto, neste início do século XXI, em decorrência da opção pela estratégia do agronegócio como descrita por Delgado (2012), a questão da terra ganha ainda mais relevância e no agro-hidronegócio canavieiro a mesma ganha ares de fator estratégico no intuito de valorizar e proteger os empreendimentos da desvalorização, cimentado em um modelo agrícola favorecido por uma estratégia de desenvolvimento do campo marcada por inúmeras contradições, como tem sido bastante debatida por diversos estudiosos do tema no país (SARON; HESPANHOL, 2014).

Assim sendo, tal opção de desenvolvimento pautada por um modelo agroexportador é a que se verifica na Região Administrativa de Presidente Prudente (SP), no que concerne à promessa de desenvolvimento regional a partir do setor canavieiro, bem como as contradições que perpassam tal proposição em uma região marcada pelo conflito.

Por esse viés, se quisermos empreender uma reflexão que tenha por base os entendimentos dos direcionamentos das políticas públicas, bem como os mais distintos investimentos e projetos engendrados ao longo do desenvolvimento do agro-hidronegócio canavieiro, é preciso sinalizar não apenas para um setor em específico, mas também analisar o desenvolvimento do mesmo no território brasileiro, e nesse sentido é que ganha destaque a Região Administrativa de Presidente Prudente/SP.

Ao colocarmos em debate a Região Administrativa de Presidente Prudente/SP (Mapa 1) é primordial entender que a mesma é constituída por 53 municípios41, 3 regiões de governo, 3 escritórios de desenvolvimento regional (Presidente Prudente, Presidente Venceslau e Dracena), possuindo ainda uma área em torno de 24 mil quilômetros quadrados e uma densidade populacional de 35,58 (habitantes/km2).

41Os municípios que fazem parte da Região Administrativa de Presidente Prudente/SP são: Adamantina,

Alfredo Marcondes, Álvares Machado, Anhumas, Caiabu, Caiuá, Dracena, Emilianópolis, Estrela do Norte, Euclides da Cunha Paulista, Flora Rica, Iepê, Indiana, João Ramalho, Junqueirópolis, Lucélia, Marabá Paulista, Martinópolis, Mirante do Paranapanema, Monte Castelo, Nantes, Narandiba, Nova Guataporanga, Ouro Verde, Panorama, Pauliceia, Piquerobi, Pirapozinho, Presidente Bernardes, Presidente Epitácio, Presidente Venceslau, Rancharia, Regente Feijó, Ribeirão dos Índios, Rosana, Sandovalina, Santa Mercedes, Santo Anastácio, Santo Expedito, São João do Pau-d’alho, Tupi Paulista, Taciba, Tarabaí e Teodoro Sampaio.

Mapa 1 – Região Administrativa de Presidente Prudente/SP

Fonte: Pesquisa de Campo (2018-2020). Organização: Autores (2020).

A territorialização do agro-hidronegócio canavieiro na Região Administrativa de Presidente Prudente/SP manifesta conteúdo de contradições que pontuam a gestão territorial empreendida pelo setor, dadas as ações e maneiras que esse capital tem buscado de monopolizar o território, seja através da aliança capital/Estado ou pela via do embate direto com os camponeses, trabalhadores e trabalhadoras que vendem sua força de trabalho nos canaviais, etc. (BENTO, 2019).

Bento (2015; 2019) destaca que a Região Administrativa de Presidente Prudente também tem sido alvo do processo que envolve o Estado de São Paulo, que advém da transição técnico-ocupacional do plantio e colheita da cana-de-açúcar42 pela qual tem passado a região, que, diferente de outras partes do Estado cujo processo iniciou há algumas décadas, toma maior contraste neste início de século.

42Ao tratarmos da transição técnico-ocupacional, estamos entendendo a expressão da reestruturação

produtiva no agrohidronegócio canavieiro nestas primeiras décadas do século XXI, com a passagem do corte e plantio manual para o mecanizado nos canaviais brasileiros, além de fazermos menção a uma série de mudanças no que diz respeito às relações de trabalho e qualificação de trabalhadores e trabalhadoras dentro e fora dos canaviais (BENTO, 2015).

Isso se advoga a partir da ampliação da mecanização do corte da cana também na região, tendo em vista que o índice de mecanização na mesma, de acordo com o Instituto de Economia Agrícola (IEA), ultrapassou a marca de 90% (Gráfico 1), o que resulta na diminuição do corte manual, que tem registrado apenas cerca de 3.592 trabalhadores, sendo 2.020 pertencentes ao EDR de Presidente Prudente, 1.357 ao EDR de Dracena e 215 trabalhadores ao EDR de Presidente Venceslau. Por outro lado, a produção de cana mecanizada na safra 2016/2017 alcançou a marca de 35.109.093 milhões de toneladas, enquanto a produção manual na região ficou em torno de 3.997.776 milhões de toneladas (BENTO, 2019; IEA, 2017).

Gráfico 1 – Índice de mecanização por EDR e Região Administrativa safra 2016/2017

Fonte: IEA (2017).

Em contrapartida, é preciso sinalizar para os pequenos municípios da região, que têm presente em seu cotidiano as disputas por território realizadas pelo capital agroindustrial, a exemplo do agro-hidronegócio canavieiro, e que nos leva a questionar o mesmo em sua gênese, pois as promessas de desenvolvimento, superação da pobreza e ampliação da qualidade de vida não se tem efetivado, pelo contrário, têm ampliado as contradições e desigualdades existentes (HESPANHOL, 2008).

Esse entendimento é reforçado por Teixeira (2005) e Hespanhol (2010), que apontam para outro fator importante que diz respeito à concentração da propriedade da terra alinhado à presença de relações de trabalho que remontam a outro tempo histórico, daí o qualificativo de “arcaicas” no campo e que nos estimulam a pensar a questão no recorte territorial apresentado neste texto.

83,6 88,5 98,6 90,2 75 80 85 90 95 100

EDR Dracena EDR Presidente Prudente

EDR Presidente Venceslau

Região Administrativa de Presidente Prudente

Desse modo, a implantação e expansão do agro-hidronegócio canavieiro por um viés pautado na economia política do agronegócio pode ser considerado um entrave para os pequenos produtores rurais dada a disputa por terras, levando em consideração que, para que se efetive a expansão do setor, é preciso que se amplie a disponibilidade de terras para o plantio e o cultivo da gramínea, contracenando diretamente com a consequente diminuição da produção de alimentos (LELIS; HESPANHOL, 2015).

Sob esta perspectiva, se por um lado a implantação de agroindústrias canavieiras possibilita a geração de empregos, como evidencia Segatti (2009) em seu estudo sobre a expansão da agroindústria sucroalcooleira na microrregião de Dracena/SP, ao mesmo tempo também traz prejuízos quando se põe em conta o quadro de conflitos existentes na Região Administrativa de Presidente Prudente/SP, chamando atenção para as relações capital x trabalho, bem como para os impactos para o meio ambiente, principalmente com relação à utilização de agrotóxicos e biocidas nas lavouras de cana.

Esses questionamentos são cruciais tendo em consideração os eixos fundantes do agro-hidronegócio em escala global, dado o caráter exportador que o caracteriza, estando submetido aos comandos de processos internalizados da reestruturação produtiva do capital, que, ao mesmo tempo que subordina o circuito agroindustrial na circulação, produção, distribuição e consumo de mercadorias agrícolas, exemplifica as escalas de dependência e de dominação pelas quais se sustentam este modelo, apoiando-se assim em conglomerados empresariais dotados da mais alta tecnologia e importância econômica e financeiro-tecnológica em nível internacional (BENTO, 2019; THOMAZ JUNIOR, 2017, 2019). Em síntese, em torno disso se soldam os interesses econômicos que se somam à disponibilidade desses meios de produção e às condições satisfatórias para a mecanização das operações agrícolas, tais como relevo predominantemente plano, logística favorável e terras baratas, condições essas cada vez mais almejadas em um cenário de intensa realização de fusões, aquisições e associações dos grupos usineiros nos últimos anos e que também caracterizam o avanço do setor na região (BELLENTANI, 2015; BENTO, 2019; THOMAZ JUNIOR, 2014).

O que temos descrito aqui até o presente momento em relação à Região Administrativa de Presidente Prudente nos qualifica apontar para um quadro de contradições que se desenham neste período de transição técnico-ocupacional nos canaviais da região. Por essa perspectiva, merece destaque uma das engrenagens que tem servido de motor para a fúria expansionista e ânsia por acumulação do capital agroindustrial canavieiro, que é a presença de trabalhadores migrantes para o corte

manual da cana, que mesmo em um período de ampliação da tecnificação, sua força de trabalho continua a ser explorada, em condições de extrema precariedade, como temos diagnosticado em nossas pesquisas (BENTO, 2015, 2019).

Migrações do trabalho para o capital em meio à transição técnico-ocupacional nos canaviais da região administrativa de Presidente Prudente/SP

Desde meados da década de 1930 já se registrava, de acordo com Mello (1976) e Bento (2019), a presença de trabalhadores migrantes sazonais na Região Administrativa de Presidente Prudente/SP para trabalhar na terra sob a condição de parceiros ou mesmo trabalhadores volantes boias-frias.

Então, podemos identificar que a mão de obra migrante já era utilizada em grande quantidade, mas queremos chamar a atenção para a ampliação da utilização da mesma nessas primeiras décadas do século XXI, dadas as recentes mudanças nos corredores migratórios pelo país, gestadas pelo ordenamento territorial realizado pelas mais diversas frações do capital, com atenção para o agro-hidronegócio canavieiro como já debatido na seção anterior.

Ao tratarmos a compreensão das migrações do trabalho para o capital neste início do século XXI, é preciso considerar que as principais teorias que circundam as migrações têm um viés macroeconômico e que não conseguem oferecer resposta a uma série de questões que o fenômeno migratório tem possibilitado neste início do século.

Dessa forma é que Saquet e Mondardo (2008, p. 118) tencionam as migrações enquanto produto e produtor de uma “complexa trama territorial entre os territórios de origem e destino” dos trabalhadores e trabalhadoras migrantes.

Herrera (2003) e Bento (2019) pontuam que o tema das migrações não é novo e estudos envolvendo as relações de deslocamento populacional já são realizados há décadas, com destaque para uma perspectiva dita “modernizadora” das migrações, alusiva aos fatores de expulsão e atração, conectados a variáveis econômicas, havendo uma dicotomia entre lugares de origem e de destino, sendo estes considerados “unidades sociais autônomas”.

Por essa perspectiva, estamos chamando a atenção para as migrações do trabalho para o capital enquanto migrações forçadas. Tal visão não deve impedir a consideração da existência de outros fatores que se somam ao caráter perverso assumido nas migrações do trabalho, dado o exposto por Martins (1986, p. 45) ao considerar que os trabalhadores e trabalhadoras migrantes sejam duas pessoas ao mesmo tempo, “cada uma delas constituída por relações sociais historicamente definidas”.

Ao colocarmos em debate os trabalhadores e as trabalhadoras migrantes sazonais temos que entender que os mesmos passam boa parte do ano a percorrer as rotas (corredores) migratórias, desempenhando o papel de mão de obra barata para os mais diversos tipos de negócio em âmbito nacional, com destaque no agro-hidronegócio canavieiro, que é base de nossas investigações (BENTO, 2019).

Por outro lado, podemos enxergar os camponeses brasileiros, enquanto trabalhadores e trabalhadoras migrantes, tendo em conta que sua expropriação não representa uma perda total dos vínculos com a terra, nos permitindo considerar questões que vão para além da esfera econômica, e que nos oportunizam penetrar na dimensão da subjetividade dos mesmos (BENTO, 2015, 2019).

Martins (1986) e Bento (2019) enfatizam a existência de três modalidades de migrações temporárias: as chamadas migrações cíclicas, com período de saída e retorno definidos, migrações denominadas ritmadas pelo tempo cíclico das estações do ano, e migrações relacionadas ao ritmo irregular das grandes obras, que não obedecem a ciclos, ao mesmo tempo em que consideram a existência de vários tipos de migrantes temporários43.

Silva e Menezes (2006, p. 4) nos permitem ler o processo migratório enquanto processo social e os trabalhadores e trabalhadoras migrantes como agentes desse processo. Mas é importante considerar as migrações como um acontecimento histórico, que abrange os que partem e aqueles que ficam, e deste modo também são constituídas por “elementos objetivos, estruturais, ideológicos, culturais e subjetivos, vis-à-vis as organizações sociais de classe, gênero e raça/etnia” (2006, p. 4).

Para as autoras, as migrações enquanto processo respondem às “necessidades materiais de sobrevivência (comida, roupa, remédios) e também as necessidades de sustentar vivas as ilusões (de melhoria, de ascensão social, de projetos de vida)” (2006, p. 5). As migrações de retorno teriam assim um ponto de origem e outro de destino (retorno), ao mesmo tempo em que os trabalhadores e trabalhadoras migrantes não vislumbram sua volta enquanto retorno, sendo as migrações um “ponto de contato permanente entre