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FLAGRANTE FORJADO E FLAGRANTE PREPARADO

Flagrante Forjado: entende-se por flagrante forjado aquele em que é tramado, criado para incriminar outrem, ou seja, o infrator é o agente que forja o crime e não o preso em flagrância. É uma modalidade ilícita do flagrante, pois o incriminado não foi autor de quaisquer fatos.

Esta espécie do flagrante ocorre com muita frequência nas prisões relacionadas ao tráfico de entorpecentes, pelo fato desta estar ligada diretamente a um objeto ilícito portátil, ou seja, é facilmente forjado.

Para visualizarmos uma situação na qual se caracteriza esta modalidade, configura-se flagrante forjado aquele em que um agente armazena droga em determinado veículo para que posteriormente esta seja apreendida na posse do condutor, recaindo sobre este a autoria do crime de tráfico.

Trata-se de fato atípico, pois para efetuar a prisão foram criadas provas de um crime inexistente, sendo o réu preso inocentemente.

Para Nucci (2012. p. 637.), o flagrante forjado:

Trata-se de um flagrante totalmente artificial, pois integralmente composto por terceiro. É fato atípico, tendo em vista que a pessoa presa jamais pensou ou agiu para compor qualquer trecho da infração penal. Imagine-se a hipótese de alguém colocar no veículo de outrem certa porção de entorpecente, para, abordando-o depois, dar-lhe voz de prisão em flagrante por transportar ou trazer consigo a droga

No mesmo entendimento, discorre Pacelli (2012. p. 531) acerca do tema: ―não existe qualquer situação de flagrante nem a prática de qualquer infração, ao menos no momento em que se pretende vê-lo realizado.‖.

Assim, de curto modo, pode-se concluir que este suposto flagrante tem por objetivo incriminar uma pessoa inocente, pelo menos desse crime, escolhida anteriormente pelo agente que neste caso torna-se o verdadeiro infrator, visto que planejou e executou ações capazes de imputar autoria a outra pessoa de uma prática delituosa que este não cometeu. Esta modalidade de flagrante sim, deveria ser considerada uma trama, um teatro dirigido e criado com o único intuito de prejudicar outrem.

Vale ressaltar, que há consequências penais cabíveis em face do agente infrator, ou melhor dizendo, para aquele quem forjou o flagrante, caso fique nitidamente provado o dolo em sua conduta, seja ele autoridade policial ou não, cada qual com suas peculiaridades quanto a punição.

Flagrante Preparado: chegamos a modalidade do flagrante que por sua vez é o tema principal do presente estudo, no qual será abordada de forma mais ampla e aprofundada em relação às demais espécies por nós vistas anteriormente. É também, ainda, objeto de discussão e repartição entre as correntes, devido a sua complexidade e semelhança com o flagrante esperado, modalidade aceita no ordenamento.

O flagrante preparado ainda é motivo de divergência doutrinária mesmo tendo entendimento firmado pela súmula vinculante 145 do Supremo Tribunal Federal acerca do tema, que diz: ―Não há crime, quando a preparação do flagrante pela polícia torna impossível a sua consumação.‖ (STF, Súmula 145. Sessão Plenária de 06/12/1963 Disponível em:

<https://bit.ly/2Hl0H4s>. Acesso: 08/09/2018).

Tem-se por flagrante preparado aquele onde ocorre indução ou instigação do agente por terceiro, para que este pratique o crime e seja efetuada sua prisão em flagrante pelas autoridades que ali o esperam. Não resta dúvidas de que nesta hipótese de flagrante há um planejamento anterior à consumação do crime, um objetivo prévio, sem que o agente infrator saiba sobre esta instigação.

Segundo o entendimento do Professor Nucci (2014, p. 607), defensor da corrente que apoia o reconhecimento do flagrante preparado como crime impossível, invalidando-o juridicamente: ―Trata-se de um arremedo de flagrante, ocorrendo quando um agente provocador induz ou instiga alguém a cometer uma infração penal, somente para assim poder prendê-lo.‖.

No mesmo entendimento, de que o flagrante preparado nada mais é do que uma trama, uma armadilha elaborada pelo agente indutor a fim de incriminar outrem, discorre de igual maneira Nelson Hungria (1958, p. 107):

Somente na aparência é que ocorre um crime exteriormente perfeito. Na realidade, o seu autor é apenas protagonista inconsciente de uma comédia. O elemento subjetivo do crime existe, é certo, em toda a sua plenitude; mas sob o aspecto objetivo, não há violação da lei penal, sendo uma insciente cooperação para a ardilosa averiguação da autoria de crimes anteriores, ou uma simulação, embora ignorada do agente, da exterioridade de um crime. O desprevenido sujeito ativo opera dentro de uma pura ilusão, pois, ab initio, a vigilância da autoridade policial ou do suposto paciente torna impraticável a real consumação do crime

Aqui, anteriormente, é elaborado um cenário propício ao cometimento de determinado delito, uma situação instigadora, sedutora, pelo menos para alguns, na qual haja uma oportunidade aparente de o agente beneficiar-se em razão do crime, mas que na verdade era uma estratégia para flagra-lo.

Ainda sobre a ótica de Hungria citada acima, observemos que ele usa o termo

―insciente cooperação para a ardilosa averiguação da autoria de crimes anteriores‖, em outras palavras, uma espécie de emboscada, uma armadilha para a constatação de uma atividade habitual. Mas, a meu entendimento, se há uma forma de provar a ocorrência e chegar a autoria

de crimes praticados anteriormente sem que tenham sido penalizados legalmente, esta deveria ser permitida.

Visualizemos um exemplo: é de conhecimento de certo policial que determinada pessoa tem o caráter voltado para atividades delituosas, sendo assim, este deixa um objeto de valor em lugar estratégico de forma que este seria facilmente furtado, esperando que o agente ao ver esta oportunidade cometa o crime de roubo, o que por sua vez acontece e o policial o prende em flagrante.

Nucci (2016. p. 353) exemplifica:

Policial disfarçado, com inúmeros outros igualmente camuflados, exibe relógio de alto valor na via pública, aguardando alguém para assaltá-lo. Apontada a arma para a pessoa atuando como isca, os demais policiais prendem o agente.)

Observamos então, que de fato há um cenário montado pela autoridade policial ou até mesmo por terceiros com o mesmo intuito, onde estes criam uma oportunidade para que o agente cometa o crime, deixando a situação naquele momento propícia para que seu caráter criminoso se aflore e não resista a tentação ao deparar-se com uma ocasião na qual fácil seria a prática do delito em questão.

Sendo assim, o que estudaremos é o dolo do agente na conduta, a forma como este age diante desta encenação elaborada, pois fato é que este não foi obrigado a consumar o crime, ou seja, mesmo que haja um cenário montado com o objetivo de flagra-lo, este agiu por vontade própria, deixando claro que pode cometer outros crimes quando lhe surgirem novas oportunidades.