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4. O CONTINUUM INTERIOR-EXTERIOR E O CORPO COMO TERRITÓRIO

4.3 TEORIA DO ESFORÇO

4.3.1 Atitudes e impulsos: continuum interior-exterior

4.3.2.4 O que flui? Como flui?

O fator fluxo é, para mim, o mais complexo e enigmático dos fatores de movimento. Em uma primeira apreensão, está diretamente relacionado ao modo como o movimento visível flui ou é contido, ao modo como é “controlado”, levando à liberação ou interrupção do fluxo. Porém, seguindo todas as reflexões realizadas até aqui, gostaria de apostar na complexificação da leitura do fator fluxo.

Na compreensão simplificada, poderíamos apenas dizer que o fluxo tem a ver com o quão facilmente interrompido um movimento poderia ser: quanto mais livre o fluxo, mais dificilmente um movimento poderá ser interrompido; quanto mais contido o fluxo, mais facilmente esse movimento poderá ser interrompido. Inevitavelmente, atrela-se ao fator fluxo a ideia de impulso como uma força muscular aplicada que dispara o movimento e o faz fluir. Um “impulso” para girar ou para correr seria mais difícil de ser interrompido e, portanto, caracterizaria a ação de correr e de girar como tendo um fluxo mais livre, a depender da potência do impulso dado ao movimento.

Contudo, a partir dessa leitura simplificada, esbarramos em um problema: estaria o fluxo livre sempre atrelado a um tempo mais urgente ou mesmo a um peso mais firme? Ou seja, estaria o fluxo livre sempre dependente de um “impulso” físico que faz surgir o movimento como um rompante no espaço externo? Acredito que não. Conforme Laban explica em The Mastery of Movement, “O fluxo e o tempo devem ser observados separadamente, porque um movimento lento e um movimento rápido podem ter tanto fluxo livre como contido.” (2011b, p. 172-173)63 Do mesmo modo, o fluxo e o peso deveriam ser pensados separadamente.

Mas como desatrelar os fatores de movimento uns dos outros nesse caso, se a própria definição de fluxo contido e livre parece sempre tocar nas ideias de controle do tônus muscular (peso) e de impulso no sentido já previamente apontado de força muscular aplicada (peso e tempo)?

Começo por apontar que, especialmente nas investigações práticas realizadas na criação de Reversa, percebi que também é possível estar mais consciente de sensações e atitudes

63 No original: “Flow and time should be observed apart from one another because a slow movement as well as a

internas relacionadas ao fator fluxo. Laban fala de uma “sensação de fluir” (2011b, p. 76), que estaria relacionada à sensação de continuação do movimento, bem como fala de uma sensação de pausa. Mesmo quando há uma pausa completa, pode haver uma sensação de fluência, o que seria uma espécie de “continuação contida” do movimento, como diz o autor. Laban prossegue em sua reflexão, observando que essa concepção de fluxo pode ser difícil e que seria útil “[...] percebermos que a sensação de fluência, a sensação de ser levado, não cessa quando pausamos, mas é controlada ao máximo.” (2001b, p.76)64

Em minha leitura, isso tem a ver com a construção do fluxo, seja ele livre ou contido, no próprio aparato perceptivo e na relação que se estabelece entre esse movimento interno de fluxo e o movimento externalizado. Isso me faz indagar, primeiramente, sobre como se daria essa construção de atitudes internas de fluxo. O que flui? Como flui?

Aqui, torna-se inevitável pensar em sensação e em imaginação, pensar nos modos como cada um pode construir para si atitudes internas de fluxo. Para mim, fluxo tem a ver com o que corre, com o que circula. Comumente, quando entramos em movimento no espaço externo com um fluxo mais livre por um tempo, a sensação do movimento permanece no corpo quando paramos de nos mover. É como se algo continuasse a agir, a mover no corpo, embora o corpo esteja aparentemente parado. Penso aqui também na vibração que sinto durante minhas práticas respiratórias e mesmo durante a performance de Reversa: para o yoga, uma vibração que anuncia um movimento energético, prânico; para Laban, um contrabalanço relativo à sustentação do tempo do movimento (ver tópico anterior). No caso de minhas próprias práticas, permitir uma atitude interna de fluxo mais livre inclui relaxar o tônus muscular para permitir esse fluxo interior – na imaginação e nas sensações concretas – de modo que “liberar o fluxo do movimento” nada tenha a ver com dar um impulso muscular para disparar o movimento. Acontece que, com o cultivo desse movimento interno, posso sentir o fluxo livre mesmo com o tempo mais sustentado e o peso mais leve (com menos resistência muscular).

Desse modo, se é possível a atitude interna de urgência e de sustentação em relação ao tempo, também é possível a atitude interna de contenção ou liberação em relação ao fluxo. Conter ou liberar o fluxo do movimento internamente pode ter relação, então, mais com as sensações internas de movimento, que podem incluir um exercício imaginativo (imaginar o sangue circular, o prana mover, ou mesmo o movimento de uma parte específica do corpo) ou

64 No original: “[…] if we realise that the sensation of fluency, the feel of being carried on, does not cease when

podem surgir a partir de uma prática específica, como fiz com os pranayamas, com o Sudarshan Kriya Yoga® ou com a vibração-contenção-fluxo junto à Carla Normagna e ao Litura Grupo de Pesquisa e Criação nas Artes da Cena (UFMG). Tais práticas me ajudaram a construir uma outra noção de fluxo, que não necessariamente estaria atrelada ao grau de controle do movimento externalizado, mas à percepção desse movimento interno que ora se expande, se contrai, se direciona para uma região específica do corpo ou é bloqueada, voluntária ou involuntariamente.