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I V 1 1 Antropologia visual

IV. 1.3. Focus groups

Esta metodologia, que traduziremos por "grupos de discussão", consiste num debate organizado com um conjunto de pessoas seleccionadas; o objectivo é o de recolher informação sobre os seus pontos de vista e experiências pessoais e subjectivas acerca do tópico em discussão (Gibbs, 1997). Trata-se de uma espécie de entrevista de grupo, mas focalizada na interacção entre os participantes e não numa sequência de perguntas e respostas entre o entrevistador e os entrevistados (op. cit.). É uma técnica muito vulgar no marketing, onde é usada, por exemplo, em estudos de mercado que pretendem avaliar a receptividade a um novo produto, e tem sido recentemente aplicada nas áreas da saúde, educação e investigação social, com resultados satisfatórios. De uma maneira geral, é uma forma de ver como as pessoas reagem a ideias; solicitar a criação de novos conceitos está para além das expectativas razoáveis desta metodologia (Greenbaum,

1998b). Com o focus group é possível abrir perspectivas sobre o tema em análise e obter mais e melhor informação em menos tempo do que com outros métodos. Permite aceder às concepções partilhadas pelas pessoas no quotidiano e à forma como os indivíduos se influenciam mutuamente em situações de grupo (Gibbs, 1997). Com este método, a distância entre o que as pessoas dizem e o que fazem pode compreender-se melhor (Lankshear, 1993 in op. cit.), embora só se possa ter acesso efectivo àquilo que as pessoas dizem que fazem (Nielsen, 1997). Pretende-se aceder a atitudes, sentimentos, convicções, experiências e reacções dos participantes, de uma forma que não seria possível com outros métodos, como observação, entrevistas individuais ou questionários, já que a interacção de grupo promove este tipo de manifestação (Gibbs, 1997). No

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entanto, o facto de os membros do grupo estarem numa situação provocada, que não dominam, e de se encontrarem mais expostos do que, por exemplo, numa entrevista individual, pode condicionar as suas intervenções, racionalizadas em função do contexto e não "espontâneas". O moderador deve por isso ser bom ouvinte e observador atento, e ter a sensibilidade para apreender aspectos de comunicação implícita, expressões faciais, gestos e linguagem corporal (que podem contradizer o discurso).

O focus group pode ser usado em diferentes estádios da investigação (como um estudo exploratório ou para avaliação de impactos, por exemplo), quer como um método isolado, quer como complemento ou validação de outros métodos (Morgan, 1988 in op.

cit.).

Para os participantes, a sessão deve parecer espontânea e relativamente desorganizada (Nielsen, 1997). No entanto, cada sessão resulta de um planeamento cuidadoso, nomeadamente quanto aos parâmetros de selecção de participantes (Greenbaum, 1998a). Os indivíduos seleccionados devem pertencer ao mesmo grupo de idade, possuir um estatuto semelhante, ser participativos, reflexivos e preferencialmente desconhecidos entre si (McNamara, 1999). O grupo não deve ser demasiado heterogéneo nem demasiado homogéneo (Gibbs, 1997), de forma a não ocultar contribuições importantes por serem excessivamente diversas ou implicitamente partilhadas.

De acordo com os objectivos e o programa da investigação, o número recomendado de participantes por grupo é muito variável (de 4 a 15), tal como o número de sessões (uma por grupo ou várias com o mesmo grupo), tendo geralmente cada reunião de trabalho a duração de uma a duas horas (op. cit.). Neste período de tempo é possível discutir cinco ou seis tópicos (McNamara, 1999). O grupo deve estar distribuído de forma a que haja contacto visual entre todos os membros e é recomendável que a sessão seja gravada em áudio ou vídeo (op. cit.). É útil a presença de um assistente para tomar notas e verificar o equipamento (Gibbs, 1997; McNamara, 1999). De acordo com Carter McNamara (1999), a sessão deve obedecer às seguintes fases: boas-vindas (apresentação do moderador e explicação dos procedimentos de gravação), enunciação da ordem de trabalhos, recapitulação de objectivos, definição de normas de funcionamento, introdução, interacção entre os membros e encerramento (agradecimentos e eventual marcação de nova reunião).

Para que se gere informação útil, é importante que a sessão seja dinâmica e que os participantes se sintam livres para intervir e discutir, havendo espaço para desacordo. As perguntas ou propostas de discussão devem ser simples e individualizadas (não necessariamente directas, de forma a estimular o debate e evitar respostas fáceis, omissões ou distorções resultantes do efeito de grupo) e não devem induzir as respostas ou avaliá-las. A discussão de cada tópico inclui uma primeira contribuição de cada um dos membros. Depois de todos falarem individualmente, segue-se um momento de discussão aberta, com interacção livre, mas organizada, no sentido de elaborar

conclusões (op. cit.). Conversas paralelas e outros motivos de distracção devem ser evitados, para que a concentração no tema em análise seja maximizada.

O moderador tem por função promover o debate (mantendo a discussão no seu caminho, sem inibir a livre manifestação de ideias e comentários) e assegurar a equilibrada participação de todos, evitando monopólios ou lideranças (Nielsen, 1997; Greenbaum, 1998b). Para isso, é aconselhável proceder a uma divisão equilibrada do tempo de intervenção individual e alternar a ordem de participação, já que a primeira resposta pode induzir as restantes e definir o rumo da discussão.

O moderador possui um papel activo na investigação, não aguardando a natural sucessão dos acontecimentos. O seu desempenho é essencial para a realização de uma boa sessão de trabalho. Deve ter competências interpessoais e capacidade de liderança, promovendo a confiança dos participantes, potenciando a sua participação e enriquecendo o debate (Gibbs, 1997). Assim, o moderador é responsável por: expor claramente o objectivo da reunião e os princípios de funcionamento; criar uma atmosfera informal propícia à interacção e garantir a participação de todos; conduzir a discussão (não uma entrevista em série), lidando com diferentes tipos de pessoas e de comportamentos, de forma a garantir que o grupo seja produtivo; animar a discussão, sobretudo se esta não atinge o grau de profundidade pretendido; verificar as afirmações dos participantes, assegurando a sua autenticidade (estando atento às suas ambiguidades e contradições); adaptar o guião às circunstâncias, de forma a não perder informação relevante não prevista à partida; evitar apresentar a sua própria opinião ou manifestar simpatia ou reprovação perante uma particular tomada de posição, de forma a não favorecer pontos de vista, induzir respostas ou influenciar o decurso da interacção (Gibbs, 1997; Silverman, 2003). É importante também ter a capacidade de síntese e de identificação do essencial e, ao mesmo tempo, a habilidade analítica para apreciar as subtilezas (verbais ou não verbais) surgidas ao longo da sessão (Silverman, 2003).

Algumas das limitações do método (Gibbs, 1997) prendem-se com dificuldades práticas em reunir as pessoas indicadas; com a impossibilidade de distinguir claramente as posições individuais das afirmações feitas num contexto de grupo; e com a imprevisibilidade dos dados produzidos, já que o moderador possui um domínio relativo sobre o decorrer da interacção. As intervenções dos participantes devem ser livres, desde que não se afastem do tópico em discussão e respeitem as regras estabelecidas, como a divisão equitativa de tempo.

Os benefícios para os participantes nos focus groups não devem ser subestimados. A oportunidade de tomar parte em processos de tomada de decisão (Race et ai., 1994 in

op. cit.), de ser ouvido e valorizado enquanto especialista, e de trabalhar

colaborativamente com investigadores (Goss e Leinbach, 1996 In Gibbs, 1997) pode ser gratificante e contribuir para a auto-estima e realização pessoal ou profissional dos intervenientes. Maior empenho e motivação dos participantes na discussão podem ser obtidos se o tema em análise for aliciante e lhes permitir comparar experiências com

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pessoas com interesses análogos, aprendendo mutuamente (Silverman, 1994; Morgan, 1988 in Gibbs, 1997). No entanto, não é certo que todos os participantes beneficiem com a experiência, podendo mesmo sentir-se intimidados (Gibbs, 1997). Este risco pode ser diminuído através de uma moderação estimulante e de uma escolha cuidada dos temas em discussão, de acordo com os interesses dos participantes.

Este método requer, obviamente, investigação a descoberto e, tal como nas situações de entrevista, os objectivos da pesquisa e a utilização que será feita das contribuições dos membros dos grupos devem ser-lhes fornecidos previamente (op. cit.).

A escolha desta metodologia na presente investigação prendeu-se com diversos factores: rapidez da técnica; previsível aumento da quantidade e da profundidade da informação recolhida, resultante do jogo de associação de ideias; e à-vontade dos intervenientes em situações de reunião formal, fruto da sua formação académica e experiência profissional (ver Capítulo V, Ponto V.3). A aplicação deste método a uma população rural, como a que foi entrevistada neste projecto, traria dificuldades decorrentes da artificialidade e da formalidade da situação, provocando inibição dos informantes e condicionando os resultados. O domínio da linguagem como ferramenta de trabalho é essencial para o sucesso de um focus group.

Por outro lado, este método está de acordo com os objectivos da pesquisa: não é relevante conhecer posições individuais, mas identificar concepções partilhadas e perceber a dinâmica das comunidades de saber nas suas relações com outros grupos, bem como promover a criação de propostas de intervenção educativa, para as quais o debate de grupo se apresenta favorável. A grande implicação dos participantes com o tema em análise é também adequada a este método.