Entrevistas informadores-
Capítulo 1: Procedimentos da Fase Qualitativa
1.1 Focus Groups com os Jovens e Entrevistas Individuais com os
Profissionais.
Através dos focus groups com jovens com idades compreendidas entre os 14 e os 24 anos de três organizações de base comunitária (em conformidade com a Tabela 1) e das entrevistas aos profissionais que trabalham com os referidos jovens dentro das respetivas organizações (QUAL+QUAL), procurou-se compreender que perceções estes dois grupos têm sobre si próprios e os outros, explorar como poderiam envolver-se em parcerias e indagar quais as características necessárias para este fim.
As perguntas do guião de entrevista, com um conjunto de 11 perguntas (Anexo II), foram desenvolvidas a partir da literatura existente referente à participação de jovens em organizações de base comunitária, às parcerias jovens-adultos e ao desenvolvimento positivo dos jovens. Os temas identificados na análise foram coerentes com a literatura e dividiram-se em quatro temas principais: o Individual, o Comunitário, o Organizacional e o tema das Parcerias entre os jovens e os adultos. O tema Individual inclui o papel que os jovens e os adultos desempenham e as capacidades que precisam de ter para o desempenhar, bem como os impactos individuais nos jovens e nos adultos. O tema Organizacional abrange o funcionamento da organização com as suas estruturas, regras e valores, assim como a relação entre a organização e os jovens, e a relação entre a organização e os adultos. O tema Comunitário abarca a comparação entre a organização e a comunidade, e as perspetivas de integração comunitária. O tema das Parcerias entre Jovens e Adultos, por sua vez, aborda a relação entre os jovens e os adultos na organização, a relação entre os jovens e os adultos na comunidade e as características que definem uma relação positiva entre jovens e adultos.
A maioria das perguntas abrange mais do que um tema e o guião consiste em questões abertas de forma a estimular a expressão livre dos participantes, assim como a exteriorização de pontos de vista e opiniões próprias sobre uma diversidade de assuntos
(Tabela 2). As perguntas são intercorrentes: procuram obter uma perspetiva quanto mais abrangente sobre um grupo sobre si próprio e dum grupo sobre o outro (ver Anexo II).
Tabela 2. Tópicos do Guião de Entrevista
Jovens Adultos
Perspetivas Papéis Capacidades
Características para a participação Impactos da participação
Relações jovens/adultos Imagem
Características da organização
A recolha dos dados nesta fase qualitativa do estudo foi feita em conjunto com uma equipa de quatro elementos (um docente, dois estudantes de mestrado e a investigadora) estando presentes dois ou três em cada uma das sessões de focus groups, desempenhando papéis de facilitador(a) ou anotador(a).
Os participantes deste estudo foram recrutados entre diferentes organizações juvenis na área metropolitana de Lisboa. Foram realizados contatos interinstitucionais com coordenadores das instituições, por telefone e por e-mail, tendo as três organizações apresentadas na Tabela 1 respondido positivamente.
Em cada organização foi realizada uma reunião prévia de apresentação dos objetivos e procedimentos previstos e dos procedimentos de consentimento informado, segundo o
protocolo proposto por Marshall e Rossman (2006), enfatizando a relevância destes procedimentos formais para obter autorizações e garantir o acesso e a participação ativa dos(as) participantes do estudo.
Estas organizações são sem fins lucrativos e dirigidas prioritariamente para os jovens, fornecendo vários serviços para os mesmos e a comunidade através de diferentes projetos e programas específicos, os quais vão ser descritos de forma mais detalhada no Anexo I.
Os participantes foram jovens envolvidos nestas organizações juvenis portuguesas e os respetivos adultos profissionais que trabalham com eles. Foram organizados focus groups em quatro organizações distintas: no Instituto de Apoio à Criança (IAC); na TESE – Associação para o Desenvolvimento; no Centro Cultural e Social de Santo António dos Cavaleiros (CECSSAC); e no Corpo Nacional De Escutas (CNE). Entretanto, os dados recolhidos no CNE não foram incluídos nas análises qualitativas porque não foi possível a comparação das respostas dos jovens com as dos adultos; contudo, foi avaliada a total pertinência do funcionamento do Movimento dos escuteiros, tendo-se tornado o CNE o maior foco do estudo quantitativo.
A recolha de dados no IAC foi realizada com duas equipas sediadas em locais diferentes, uma no centro de Lisboa (Av. Almirante Reis) e outra em Marvila. Também a recolha de dados na TESE foi realizada com duas equipas: uma situada na sede do bairro da Torre em Cascais e a outra na sede de São Domingos de Rana. No caso da recolha de dados no CECSSAC, esta realizou-se junto da única equipa sediada na freguesia de Santo António dos Cavaleiros, no concelho de Loures.
Na primeira fase foi realizada a transcrição dos focus groups com os jovens e das entrevistas com os adultos (profissionais das organizações que trabalham em contacto direto com os jovens). Nos casos em que os anotadores foram mais do que um, realizaram- se reuniões para confrontar as versões escritas por cada um, complementar as transcrições e alcançar uma versão final que satisfizesse todos.
A versão completa e consensualizada das transcrições foi impressa em papéis A0 (o formato eletrónico encontra-se em anexo no CD). Houve uma primeira leitura e sucessivas releituras dos dados, acompanhadas por anotações das observações quanto à sua pertinência face aos objetivos do estudo.
A segunda fase consistiu na geração de códigos iniciais. Esta fase envolveu, então, a produção de códigos iniciais a partir dos dados: os códigos identificam uma característica dos dados que se destaca, correspondendo os mesmos, segundo Boyatzis (1998), a
segmentos básicos dos dados em bruto ou a informações significativas em relação ao fenómeno. Para este fim, utilizaram-se marcadores coloridos para indicar potenciais padrões. Na terceira fase procuraram-se temas, concentrando-se a análise no nível mais abrangente dos mesmos. Os diferentes códigos devem ser classificados por potenciais temas, devendo ainda ser reunidos todos os extratos pertinentes dentro dos temas identificados. É neste momento que se começa a analisar os códigos e a considerar como códigos diferentes podem combinar-se para formar um tema abrangente (Braun & Clarke, 2006). Reuniram-se todos os extratos pertinentes, transcrevendo-os em relatórios separados por temas (ver Anexo III).
Na quarta fase reveem-se e refinam-se os temas. Primeiro, é necessária uma revisão ao nível dos extratos dos dados codificados: leem-se todos os extratos reunidos para cada tema e considera-se se parecem formar um padrão coerente. Se sim, realiza-se um processo semelhante, mas em relação a todo o conjunto de dados: considera-se a validade dos temas individuais em relação ao conjunto total dos dados. Utilizaram-se representações visuais (mapas temáticos) para ajudar a classificar os diferentes códigos em temas (os mapas temáticos preliminares estão em anexo no CD da tese).
Na quinta fase definem-se e refinam-se os temas, identificando-se “a essência” de cada tema e determinando que característica dos dados é capturada por cada tema. É também necessário ver se o mapa temático reflete com precisão os significados evidentes no conjunto de dados (Braun & Clarke, 2006). Para fazer isso é preciso voltar para os extratos dos dados recolhidos por cada tema e organizá-los num conjunto coerente e internamente consistente com a narrativa que o acompanha (Braun & Clarke, 2006). Para cada tema individual é preciso realizar e escrever uma análise detalhada. É importante identificar a "história" que cada tema conta e também considerar como esta se encaixa na "história" global mais ampla que se pretende contar dos dados obtidos, conquanto não haja muita sobreposição entre temas. Por isso, é necessário considerar os temas em si e cada tema em relação aos restantes. Como parte do processo de refinamento, é preciso identificar se um tema contém qualquer subtema (os subtemas são essencialmente temas dentro de temas). Podem ser úteis para a estruturação de um tema particularmente grande e complexo, e também para demonstrar a hierarquia de sentido dentro dos dados.
Quanto à análise final e escrita do relatório: a escrita tem que fornecer evidências suficientes dos temas dentro dos dados (como por exemplo, o número suficiente de extratos para demonstrar a prevalência do tema). Na elaboração do relatório é preferível escolher
exemplos particularmente vívidos ou extratos que captem a essência do ponto que se quer demonstrar (ver os resultados na secção III da presente tese).
Para completar estes procedimentos foram organizados mapas de análise temática de acordo com os temas individuais, organizacionais, comunitários e das parcerias jovens- adultos, que serão descritos em detalhe na secção de análise dos resultados e que se encontram no Anexo IV.