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3 PASSANDO FOME APESAR DO “DESENVOLVIMENTO”

3.1 Fome e desperdício no Brasil, visão simple ou complexa?

No dia 13 de novembro do 2017 foi realizado um seminário online promovido pela FAO

67

no

Brasil. Esta instituição apoiou, a partir de setembro de 2016, a criação do Comitê Técnico da

Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional (CAISAN). O objetivo do

organismo foi desenvolver uma estratégia comum para enfrentar o problema do desperdício.

66 Cf. site, disponível em: http://www.fao.org/docrep/016/i2697s/i2697s00.htm Acesso em: 13 mai. 2018.

67 Cf. site, disponível em:

O seminário apontava a importância da luta contra o desperdício ao considerar a meta nº 3 do

Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) nº 12, que prevê a redução pela metade do

desperdício per capita mundial até 2030. De acordo com a fala do Instituto Brasileiro de

Geografia e Estatística (IBGE) presente no evento, ainda não existe clareza sobre a

quantidade do desperdício. O representante do IBGE sinalizou:

vamos reunir os especialistas brasileiros para começar a pensar uma proposta e apoiar o IBGE na quantificação das perdas e desperdício de alimentos no país. Primeiro temos que saber o quanto é perdido e desperdiçado para depois

conseguirmos dizer se nós alcançaremos esse objetivo até 203068.

Ao pensar no Brasil, nosso interesse é perceber a partir de uma visão complexa como se

entrelaçam políticas, comunicação e as leis do mercado. Procurando vislumbrar especialmente

o processo político-comunicativo, que permitiu levar a fome para a agenda política, e como

este processo comunicativo tem influído na população geral e não somente nos setores

ativistas, militantes e de controle social. Visitaremos a evolução do conceito de segurança

alimentar estabelecido no Artículo 9º da Lei Orgânica de SAN (LOSAN) 11.346/2006 que é

considerado uma conquista de mobilização social.

Segurança Alimentar e Nutricional “Consiste na realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde, que respeitem a diversidade cultural e que sejam: ambiental, cultural, econômica e socialmente sustentáveis”.

Francisco Sierra (2006, p. 27) sintetiza os enfoques alternativos das práxis comunicativas da

América Latina e a ampla e fecunda comunidade, que desde meados do século XX tem

pensado a comunicação na sua definição de Comunicação para o Desenvolvimento. Para o

autor, esta consiste na

investigação aplicada que tem por objeto o estudo, análise e planejamento das políticas e modelos de comunicação para a mudança social, a partir da integração dos sistemas de informação e comunicação públicos, assim como os recursos tecnológicos e as culturas populares, na ação e a gestão comunitária local, socializando os recursos de expressão e identificação grupais e coletivos das redes sociais. (apud MARÍ, 2011, p. 8)

De acordo com Sierra Caballero ainda, se ao pensar e planejar a comunicação do espaço

público e solidário, se faz a partir da lógica de gabinete de comunicação ou a partir de uma

visão marqueteira da comunicação, nos deparamos com uma visão reducionista da

comunicação como transmissão de informações aplicando estratégias que copiam estratégias

empresariais e comerciais orientadas a “vender a organização” o serviços que esta presta,

descuidando de elementos fundamentais como os da comunicação orientada a dinamizar

processos sociais de mudança de largo alcance ou a comunicação enfocada a fomentar a

participação social (apud MARÍ, 2011, p. 9).

Se o conceito de Segurança Alimentar e Nutricional é considerado uma conquista dos

movimentos sociais, seria esta conquista compartilhada pelo resto da população que não é

militante? No dia 16 de outubro do 2017, data em que se comemora a criação da Organização

das Nações Unidas para a Alimentação (FAO), e que tem sido decretada como dia mundial da

alimentação, um fato gerava grande mobilização nas redes físicas e virtuais daqueles

engajados na realização do Direito Humano à Alimentação Saudável: o lançamento, uma

semana antes, de um produto ultraprocessado chamado “farinata”.

O produto foi apresentado como projeto de lei 550/2016, sancionado pelo então prefeito de

São Paulo, João Dória Junior. O dito programa estabelecia diretrizes para a Política Municipal

de Erradicação da Fome. Segundo o artigo 9º da dita lei, empresas doadoras de insumos

poderiam receber da prefeitura isenção de impostos e outros incentivos fiscais. Doria afirmou

na ocasião que

o produto passará a ser distribuído a entidades como igrejas e templos ainda no mês de outubro, além da prefeitura. Cerca de 50 toneladas do produto já estão em estoque e devem ser incluídas nas cestas básicas distribuídas pelos Centros de Referência de Assistência (Cras) para famílias em situação de risco e

vulnerabilidade social, segundo o comunicado da prefeitura69.

A “farinata” é uma farinha feita com alimentos perto da data de validade vencida, que seriam

descartados por produtores ou revendedores. O produto serve de base para o granulado

alimentar, na ocasião divulgado diretamente pelo prefeito. O lançamento do produto foi feito

com grande alvoroço, e contou com uma enorme divulgação na mídia que apresentava o

prefeito orgulhoso com o produto. Esta grande difusão permitiu ao Conselho de Segurança

69 Cf. site, disponível em: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/alimento-para-pobres-elogiado-por-doria-nao-e-completo-em-nutrientes/ Acesso em: 09 fev.2018.

Alimentar (CONSEA), Conselho Regional de Nutricionistas (CRN) e outros organismos de

controle social terem conhecimento do produto e dos planos de implementar o dito projeto

como uma política pública, inicialmente na cidade de São Paulo e depois no pais.

Figura 2: Prefeito João Dória promovendo a farinata

Fonte: Internet70

Figura 3: O granulado farinata

Fonte: Internet71

70 Disponível em:

http://bemblogado.com.br/site/nem-completo-nem-nutritivo-especialistas-rejeitam-comida-para-pobres-de-doria/. Acesso em: 09 fev.2019.

71 Disponível em:

O que não aconteceu nos anos prévios ao grande lançamento, o projeto foi apresentado

inicialmente na Câmara dos Deputados no dia 3 de dezembro de 2013, pelo deputado federal

Arnaldo Jardim (PPS-SP). Nessa ocasião, o deputado apresentou o projeto de lei nº 6867, de

2013, que institui e estabelece diretrizes para a Política Nacional de Erradicação da Fome e

Promoção da Função Social dos Alimentos, fundamentada em uma sociedade fraterna, justa e

solidária, que tem como meta ainda o combate ao desperdício.

Estes quase quatro anos do projeto de lei sendo discutido em diferentes instâncias nos levam a

pensar no processo comunicativo com relação à fome. Especialmente neste momento, que

depois de anos de luta e resultados visíveis, ressaltados a nível mundial graças a políticas

públicas dentro do marco do programa Fome Zero, permitiram a saída do Brasil do mapa da

fome. Momento em que entidades da sociedade civil têm alertado a ONU as possibilidades do

país entrar de novo no mapa da fome

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. Outro fato muito expressivo foi a campanha de

arrecadação de alimentos feita pela Ação da Cidadania no mês de dezembro de 2017, sendo

que a última ação desse tipo realizada pela organização tinha ocorrido no ano de 2005.

Para falar sobre o histórico do conceito de segurança alimentar nutricional (SAN) do ponto de

vista comunicativo, começaremos justamente falando da Ação da Cidadania, movimento

lançado oficialmente em 8 de março de 1993, que tinha como objetivo "Mobilizar, e acima de

tudo sensibilizar a sociedade para a necessidade de mudanças fundamentais e urgentes

capazes de transformar a realidade econômica, política e social do país que leva à exclusão, à

fome e à miséria" (CONSEA, 1995, p. 12 apud VASCONCELOS, 2004).