2 COLONIALIDADE DO SISTEMA ALIMENTAR: A LEI DO MERCADO E A LEI
2.1 Estado Plurinacional e epistemologias do Sul
2.1.1 Sociologia das emergências, comida como bem
O alimento tem evoluído como uma commodity no mercado global de consumo de massa.
Durante séculos foi cultivado em comum e considerado um elemento mitológico ou sagrado.
Foi durante os séculos XIX e XX que evoluiu de um recurso comum local a uma commodity
transnacional (CHIFFOLEAU, 2013). Mecanismos de privatização de bens comuns através de
legislação têm limitado o acesso à comida, desconhecendo suas múltiplas dimensões e sua
característica de bem comum, negando assim seus atributos não econômicos.
A industrialização e commoditificação
39da comida incrementaram enormemente o acesso à
comida para milhões de pessoas, porém também têm sido promotores de mais desigualdade,
ineficiência e insustentabilidade. As corporações transnacionais que dominam o sistema
alimentar têm sido consideradas as maiores responsáveis pela má nutrição e degradação
ambiental, pelo fato de basearem suas operações em calorias de baixo teor nutricional e
maximização de lucro das empresas, ao invés de nutrição e dos benefícios da saúde para todos
(CAMPOS 2014; CHIFFOLEAU 2016; MONTEIRO 2011 et al., apud VIVERO-POL, 2015,
p. 7).
Comida, ar e água são essenciais para a vida. O ar é considerado um bem comum. A água tem
sido capturada pelo sistema do capital, passando de bem público a privado, não sem gerar
fortes contestações durante este processo, revertendo esta privatização em alguns países (ver
“guerra da água”
40). O alimento, ao contrário, é considerado maioritariamente como um bem
privado.
O pesquisador e ativista contra a fome José Luís Vivero-Pol (1972-) propõe que o alimento
seja “re-comonitificado”, ou seja, reconhecido novamente como bem comum. O ativista
39 Alimentos considerados commodities.
sinaliza que existem diferentes aproximações e concepções do que é um bem comum. A
definição política considera a diversidade dos arranjos sociais; a histórica descreve uma
diversidade institucional. Há também as definições legal e econômica, entendidas como
reducionistas pelo pesquisador. Do mesmo modo uma definição ativista, na qual se juntam a
teoria e a prática, chegando a uma visão contra-hegemônica e alternativa ao capitalismo.
Aprofundando na definição econômica, o bem comum representa um bem público. Esta
definição se encontra ancorada nas características de rivalidade e de exclusão. A
não-rivalidade se entende como o fato de que o uso de um recurso, por parte de alguma pessoa,
não reduz sua disponibilidade para outros.
A característica de não exclusão implica que ninguém pode ser excluído do seu uso
(SAMUELSON, 1954; VER EECKE, 1999, apud VIVERO-POL, 2014, p. 6). Os bens
públicos globais devem ser governados de maneira comum porque eles beneficiam toda a
humanidade (KAUL, 2010; KAUL E MENDONZA, 2003 apud VIVERO-POL, 2014, p. 1).
O grau de exclusão e rivalidade depende de natureza do bem, para o qual direitos de
propriedade, regulações e sanções são utilizados para proscrever o uso do bem.
Vivero-Pol pontua que o alimento não deveria ser considerado rival nem excludente. Justifica
a não rivalidade a partir do exemplo de uma cereja que foi consumida por alguém: mesmo que
essa cereja não esteja mais disponível para outra pessoa, as cerejas continuam a ser
produzidas pela natureza. Ou, se cultivadas através de produção sustentável e contínua, a
cereja poderia ser considerada um recurso ilimitado e renovável. Sobre a característica de não
exclusão, o pesquisador ressalta que alguém que é excluído de comer pode morrer em menos
de 40 dias (2014, p. 6). Desta forma, o ato de comer torna-se para o ser humano a realização
da sua autopreservação.
Notemos que, de acordo com o exemplo de Vivero-Pol, para que as cerejas cumpram a
característica da não rivalidade, a produção sustentável é um requisito primordial. Para
constituir a vida, todos os seres viventes metabolizam e transformam o que está em seu
entorno, modificam-no, e isso faz parte do viver. Porém, as modificações causadas pelo
humano, embora algumas vezes tenham causado colapso em determinadas sociedades, não
tiveram uma extensão global, tendo sido assim durante os poucos milhões da presença do ser
humano sobre a terra. No entanto, o impacto de suas intervenções foi discreto, comparado às
forças da natureza, e apenas referenciadas ao último século.
Já a partir do século XX as transformações realizadas na Terra foram ciclópicas,
proporcionadas pela intervenção da tecnologia respaldada pela ciência, e acopladas à presença
de um extraordinário número de pessoas, que transformaram a escala do nosso impacto, de
localizado e regional para global. Com esta transformação, passamos a mexer nos sistemas
fundamentais que sustentam a vida (COLBORN, 1996, p. 269).
Estamos falando da ciência e tecnologia respaldadas pelo saber cientifico dominante, que
valida somente a epistemologia ocidental, o que nos leva a refletir sobre o que Morin
apresenta como “patologia do saber” ou “inteligência cega”. De acordo com o
socioantropólogo, estas categorias são o resultado do paradigma da simplificação, que surge
com a proposta de Descartes da separação entre ciência e filosofia. A partir dessa disjunção, o
conhecimento cientifico e a reflexão filosófica são raramente encontrados juntos, impedindo à
ciência a possibilidade de se conhecer a si própria.
Morin sinaliza ainda que “a ciência tornou-se cega em sua incapacidade de controlar, prever,
e até mesmo conceber o seu papel social” (2005, p. 51). Trata-se de todo um corpo de
princípios que rejeita com violência e despreza como “não científico” tudo o que não
corresponde ao modelo. O autor ressalta também que o fracasso deste modelo enquanto
sistema de compressão é mascarado por seu sucesso, correlativo, enquanto sistema de
manipulação (Ibidem, p. 52).
O socioantropólogo pontua que desta forma estamos nos aproximando de uma mutação
inaudita no conhecimento, o qual é cada vez menos feito para ser refletido e discutido pelas
mentes humanas, e cada vez mais feito para ser registrado em memórias informacionais
manipuladas por forças anônimas, em primeiro lugar os Estados.
Observemos que foi dentro do contexto do conhecimento cego e fragmentador, exposto por
Morin, que aconteceu a maior transformação no modo de cultivar, do tradicional para a
grande escala. Esta mudança levou os economistas de Harvard, Ray Goldberg e John Davis, a
proporem a substituição do termo agricultura pelo de “agronegócio” (ROBERTS, 2009, p.
20).
Culturas, como o milho e a soja, foram selecionadas pela sua alta produtividade e absorção de
energia do sol como commodities. O conceito quase místico da fertilidade do solo, com a
vasta complexidade biológica do húmus passou a ser representado por NPK (Nitrogênio,
Fósforo, Potássio), o que corresponde ao método cientifico reducionista ao máximo.
Complexas qualidades de vida são reduzidas a simples quantidades (POLLAN, 2006, p.
146-7). Tudo em nome da produtividade.
Perseguindo ganhos de produtividade, algumas regiões e culturas têm sido privilegiadas. O
incremento da produção de cereais tem tido como consequência o incremento em produção de
carnes, especialmente frango e porco, mudando os hábitos alimentares para um maior
consumo de carnes e regimes alimentares menos diversos, e afetando negativamente os
ecossistemas (LAPPÉ, 1991; POLLAN, 2006; ROBERTS, 2009).
Devemos atentar ao fato de que a capacidade de melhoramento e incremento dos cultivos tem
alcançado o nível máximo de produtividade em algumas das áreas mais produtivas do mundo
(CASSMAN et al., 2010; LOBELL et al., 2009 apud VIVERO-POL, 2014).
Jonas (2006) alerta como, na era tecnológica, as ações humanas podem ameaçar a vida futura
da terra. De acordo com o filósofo, o ser humano é a obra finalista da natureza que pode
continuar ou destruir a sua obra, entendendo esta obra como o complexo ecossistema da
natureza interconectado. Assim, o autor sinaliza que "a simples autopreservação de cada ser,
como impõe a natureza, representa uma intervenção constante no equilíbrio constante da
vida" (JONAS, 2006, p. 230). Lembremos que na ética da responsabilidade do filósofo o
imperativo é o sim à vida.
A contradição do sim à vida se apresenta cada dia, como sinaliza o sociólogo suíço Jean
Ziegler (1934-), ex-relator Especial da ONU para o direito humano à alimentação:
Hoje não existe falta de alimentos, o que existe é falta de acesso. As cifras são as seguintes: a cada 5 segundos, uma criança de menos de 10 anos morre de fome. No mundo, 56 mil pessoas morrem de fome por dia. E 1 bilhão de pessoas são permanentemente subalimentadas. O relatório da FAO mostra que o número de vítimas cresce, mas que a agricultura mundial poderia alimentar normalmente, com uma dieta de 2,2 mil calorias por dia, 12 bilhões de pessoas. Então, uma criança que morre de fome hoje é assassinada. Fome não é mais morte natural. É massacre criminoso, organizado. O número de mortes no mundo, por ano, corresponde a 1%
da população do planeta. Isso significa que no ano passado 70 milhões de pessoas morreram. Desses 70 milhões, 18,2 milhões morreram de fome ou de suas consequências imediatas. A fome é de longe a causa de mortalidade mais importante e o mundo transborda de riquezas (ZIEGLER, 2013, p. 336).
Tudo isto acontece no mundo que o sistema alimentar hegemônico prega ser a solução contra
a fome. O mais preocupante, ao pensarmos em produção sustentável, é que podemos inferir
que não são só as pessoas que não têm os meios para comprar ou produzir alimentos que estão
em risco: o modelo promovido pelo agronegócio pode estar minando as possibilidades das
gerações futuras.
O sistema alimentar é responsável por 48% do uso da terra, 70% do uso da água e 33% das
emissões de efeito estufa (IVANOVA et al., 2015; CLAPP, 2012 apud VIVERO-POL, 2014).
Este sistema dominado pelo agronegócio é responsável por efeitos negativos como a erosão
do solo, o desmatamento das florestas, a sobrepesca, a diminuição da biodiversidade, a
contaminação da água. O setor agroalimentar é responsável por 54% dos contaminantes
orgânicos da água
41, repercutindo nas mudanças climáticas.
Alguns procedimentos necessários para a monocultura, como o uso de agrotóxicos, tem a
produtividade como justificativa. No entanto, esse motivo refere-se mormente ao volume, ou
quantidade por área, não se importando com a qualidade e com as perspectivas futuras: o
desequilíbrio químico do solo com o uso de agrotóxicos resulta em uma produção marginal
decrescente. A "eficiência" nesses moldes é enganosa. A química do solo tem uma história de
tempo profundo. O fato é que já se observa sua degradação. Num primeiro momento foi
extraordinário, a "Revolução Verde". Agora, porém, tal produtividade, mesmo em sentido
limitado, é decrescente (ROBERTS, 2009, p. 213). De fato, a capacidade de melhoramento e
incremento dos cultivos tem alcançado o nível máximo de produtividade em algumas das
áreas mais produtivas do mundo (CASSMAN e al., 2010; LOBELL et al., 2009 apud
VIVERO-POL, 2014).
Vale a pena ressaltar que o modelo do agronegócio também traz enormes consequências
sociais, tirando de cena os agricultores familiares e produtores de pequena escala, os quais
foram e continuam sendo deslocados de suas terras por governos e empresas em busca de
41 Cf. site, disponível em: https://www.oxfam.org/sites/www.oxfam.org/files/file_attachments/bp166-behind-the-brands-260213-pt_2.pdf . Acesso em: set. 2016.