Os dados da tabela 4 indicam que nas universidades as áreas de Ciências Biológicas e Profissionais da Saúde e de Ciências Exatas e Tecnológicas concorriam com 43% das matrículas ao passo que nos estabelecimentos e escolas elas correspondiam a 27%,
Jã as Ciências Humanas, Letras e Artes incorporaram 51%
do alunado nas universidades e mais de 70% nos estabelecimentos isolados.
No que se refere ao corpo docente, registrou-se um crescimento quantitativo para o atendimento daquela demanda, porém pouco foi obtido quanto ao seu nível de qualificação, como reflexo daquele padrão de expansão. Em 1975, dos 83.386 cargos docentes somente 27% possuíam especialização ou aperfeiçoamento, 11% mestrado e 13% doutorado ou título
equivalente. Do total» 80% se encontravam em regime de trabalho de tempo parcial principalmente devido ao elevado contingente da rede particular que quase não usa o regime de tempo integral.
Este quadro geral de crescimento implicou em diversas conseqüências, levantadas nos estudos a respeito da expansão, dentre as quais cabe ressaltar a heterogeneidade da qualidade do ensino, as possibilidades limitadas do crescimento e do aperfeiçoamento das instituições isoladas, os efeitos sociais de tais escolas e a desarticulação entre os rumos assumidos e os interesses do processo de desenvolvimento do País.
Há uma outra condição caracterizada, que é o funcionamento de período noturno em grande parte dos estabelecimentos isolados, e que está ainda por merecer estudos mais aprofundados no âmbito global do sistema, não só pelos aspectos organizacionais que demandam a oferta nesse turno e as características do atendimento dessa demanda (que parece ser predominante), como nos procedimentos de ordem acadêmica (desenvolvimento do currículo e programas adaptados para uma clientela que, em tese, não dispõe de muitas horas para o estudo individual).
Resumindo as características assumidas pelo sistema de ensino superior nesta primeira fase, período 1960 a 1975, em seu processo evolutivo temos:
- a persistência de uma tendência expansionists esboçada já no início dos anos 60 e que se manteve;
- a predominância de estabelecimentos isolados sobre as universidades; de maior número das matrículas na
expansão de cursos em regime noturno, apesar do disposto na Reforma Universitária de 68 e após ela.
Acrescenta-se, ainda, o ritmo veloz com que ocorreram estas mudanças no perfil do sistema e o seu impacto, o qual provocou as mais diferentes reações.
Nesse sentido tomam forma as críticas quanto à queda da qualidade que estaria ocorrendo face à autorização de cursos superiores em instituições sem as devidas condições para funcionamento. Denunciam-se as condições mais freqüentes em que se instalaram os novos cursos: professores sem qualificação necessária, ausência de bibliotecas e laboratórios inadequados.
Deste modo os objetivos da Reforma Universitária de 68 (modernização administrativa, renovação do conceito de ensino superior, integração da Universidade com o desenvolvimento da sociedade e redefinição do próprio papel do Estado com relação à Universidade), ainda que afeitos mais a um modelo de reforma técnica do que de reforma institucional, não foram exatamente materializados.
A promessa de uma reforma concebida em suas "múltiplas dimensões", onde a Universidade representasse o produto das próprias transformações sócio-culturais do País e alcançasse uma consciência crítica de si mesma, reformulando seus objetivos, repensando seus métodos de ação e dinamizando suas estruturas para ajustar-se ao processo social em curso, não
ultrapassou as Intenções expostas no Relatório do Grupo de Trabalho da Reforma Universitária.
As atividades de pesquisa e extensão previstas como essência da produção de conhecimento que revigoraria os cursos superiores não existiam nas escolas isoladas, contribuindo, pela sua ausência, a um ensino deficiente.
O quadro construído pela expansão passa a ser visto mais pelo aspecto das suas distorções.
A prevalência da escola isolada, que representava run
"exceção" ao modelo preconizado pela "Reforma Universitária", reforçava a concentração da atividade de ensino, dissociada da pesquisa e da extensão (via de regra) objetivando a formação profissional ou aquisição do diploma em áreas do conhecimento cujos cursos demandavam menor investimento e mais baixos custos de manutenção.
Ao periodo de grande expansão acima caracterizado, seguiu-se uma nova fase onde as motivações de contenção do crescimento do sistema de ensino superior tomam forma normat iva.
0 marco inicial desta fase incide sobre o Aviso Ministerial de n° 1.033, de 18 de novembro de 1974, enviado ao Conselho Federal de Educação pelo Ministro da Educação e Cultura, no qual este solicita a suspensão "por algum tempo”
do exame de pedidos para novos cursos e escolas face à necessidade de estudos para implantação dos "Distritos Geo- Educacionais" que contribuiram para disciplinar a expansão nas diferentes regiões do Pais.
Manifestando sua preocupação com o futuro, mais
acentuadamente em função do mercado de trabalho, aquele Aviso Ministerial se justificava pela
(...) expansão, ráo tão iioderada quanto desordenada do ensino superior, sultipUcando por vezes inutiliente escolas es detersinadas áreas do saber coi nercado de trabalho já saturado, acaba prejudicando os próprio foriandos, já qae se tornas depois, suitas vezes verdadeiros "excedentes diplonados.
As ações do Governo Federal, a partir de então, voltar- se-iam a programas que procuravam ordenar o sistema sem contudo lograrem grandes êxitos, além da não expansão.
Face a tal contigência, sucessivos atos do Poder Executivo Federal são promulgados (conforme quadro 1), visando sustar o surgimento de novos cursos e estabelecimentos. Os motivos dados como justificativa para essas suspensões prendiam-se sempre à necessidade de melhorar a qualidade do ensino supostamente deteriorada em virtude do acelerado crescimento das matrículas e instituições. Todavia, aquelas proibições não eram amplas e irrestritas. Na medida em que certas condições, como por exemplo, de natureza pedagógica, social e financeira, como definia o Conselho Federal de Educação em suas resoluções a respeito, fossem respeitadas, permitiam dar encaminhamento a novas solicitações, além do que não surtiam efeito suspensivo aos processos em tramitação.
Tais solicitações ocorreram nos intervalos entre um ato e outro ao longo dos anos 70 e 80.
A adoção desta linha de ação - contenção - se, por um lado, revelava um posicionamento radical, por outro, demonstrava a ausência de diretrizes claras quanto aos rumos e
ritmo que se pretendia imprimir ao ensino superior. Tal posicionamento é acentuado ao longo da segunda metade dos anos 70, prolongando-se na década de 80.
Surpreendentemente, até o momento atual, não se percebem acÕes que demonstrem a superação das hesitações quanto ao destino e objetivos do ensino superior. Ou seja, o Pais não conta com diretrizes claras e expressas quanto às perspectivas de sua evolução, a não ser a referência de regulação do nuaeras clausus em cada instituição.
Pelo exame das principais variáveis que compõem o sistema de ensino superior, verificamos que o mesmo conserva as características que definiram seu perfil na primeira fase tabela 5. A rede particular predomina na oferta de cursos, vagas, matrícuias.
Recentemente, suas universidades passam a receber o maior contigente de alunos, devido ao crescimento do número destas instituições na rede particular. Na tabela 6 observa-se que no período 1985-1990 simplesmente duplicou o número de universidades. Tal situação tem sido atribuída a busca de maior "autonomia e flexibilidade" por parte das mantenedoras da rede particular.