63PASI08E, José. 0 ensino superior ea São Paulo, São Paulo : Ed. Racional, 1972. p.97 in
CÜRHA, L.A.8. op. c it., p.38.
baixa que ainda encaram o diploma como um símbolo de prestígio social e, eventualmente, de ascenção social. Estes, que seriam os grandes consumidores da educação superior, são, em sua grande maioria, funcionários engajados em ocupações não manuais de baixa especialização, donde PASTORE conclui que buscam obter um diploma para alcançarem uma promoção em seu ambiente de trabalho, tal possibilidade representando expressão de mobilidade social. E, acrescenta, é o próprio sistema que inculca valor è diplomação universitária, no contexto ainda do ensino primário e secundário.64
Outra tese (sobre as causas da expansão) trazida e combatida por CUNHA refere-se à inadequação do ensino médio enquanto recurso de terminalidade formativa. Retira, do Relatório do Grupo de Trabalho que elaborou a Reforma de Ensino de I e II Graus de 1971, um dos argumentos que
justificaria a introdução obrigatória da profissionalização no Ensino de II Grau:
(...) a saior causa da frustração dos candidatos não adaitidos no ensino superior reside na ausência de una ocupação ütil nuita idade en que se tornas absorventes as preocupações cos o futuro. Só tardianente, quando não se inclui na exceção dos engressos de cursos técnicos, o joven descobre que a escolha não lhe deu sequer a tão apregoada cultura geral, e apenas o adestrou para un restiublar en que o êxito é função do núsero de vagas oferecidaB ê disputa. Houvesse ele seguido conconintateuente algo de "prático", não se deteria nos unbrais da Universidade, en busca de una natricula cono saída do desespero.65
A base da não aceitação por CUNHA das duas teses precedentes, tem sua razão mais particular nas soluções que
«PASTOHE, apud CUNHA, op. c it., p.38.
558elatório Grupo Trabalho Heforna do Io e 2 ° Graus de 1871, apud CUNHA, op. c it., p.38.
delas derivam: reformulação dos currículos, de modo que haja formação profissional no ensino médio e se oriente os estudantes para valorizá-la.
A tese do deslocamento dos canais de ascensão que interpõe em substituição para explicação da expansão do ensino superior pode ser assim resumida:
a) a mudança do quadro econômico na década de 50, quando se estabeleceu a fase de substituição dos bens de consumo duráveis e de implantação das chamadas indústrias de base, criou nova ordem de exigências;
b) além da exigência de grandes capitais, e de melhoramento da infra-estrutura (serviço de energia elétrica e transporte), da nova expansão econômica, a perpectiva de unificação dos diversos mercados regionais em um só mercado nacional promoveu a competição entre as grandes empresas industriais localizadas na região centro-sul em detrimento das pequenas empresas produtoras de bens de consumo não- durãveis;
c) no setor terciário, o processo de concentração empresarial deu margem à construção de firmas de serviços médicos, juridicos e de consultoria técnica, que tornaram cada vez mais difícil a sobrevivência doe profissionais liberais. No comércio, as grandes cadeias de supermercados recém criadas e/ou fundidas inviabilizaram os pequenos estabelec imentos;
d) as grandes empresas demandaram uma organização
burocrática bastante complexa» importando, sua implantação, na abertura de oportunidades ocupacionais para pessoa com formação escolar mais elevada;
e) na esfera estatal, as condições políticas internas e externas derivadas do papel de concentrador de capital assumido através de vários mecanismo criados pelo próprio Estado, apresentaram demanda equivalente às das grandes empresas;
f) a partir deste perfil de concentração de capital, renda e mercado, os canais de ascensão existentes - poupança, investimentos e reprodução de capital - ficaram cada vea mais estreitos. Em r&aão disso, as alternativas de ascensão das camadas médias se transferem para as hierarquias ocupacionais, através da busca de promoção para cargos mais elevados;
g) a promoção nas hierarquias ocupacionais - públicas e privadas - projeta a busca pela educação escolar e a reivindicação de subvenção jurídica, isto é, o ensino gratuito;
h) a conquista de graus escolares não garantia, mas passou a permitir que se postulasse uma forma de ascensão social para nova fase;
i) na década de 60, acentua~se o processo de concentração de propriedade, do capital, de renda e mercados, ocorrendo grande número de falências de pequenas empresas e proceso de transferência dos canais de ascensão nos moldes do que foi descrito anteriormente. Em conseqüênciam intensifica-se a
demanda de ensino superior sem ocorrer- a correspondente expansão das matriculas;
j) a competição interna que se estabeleceu nas empresas e no sistema estatal reforçou a demanda pelo ensino superior.
Ao lado da tese do deslocamento dos canais de ascensão, CUNHA cita a redefinição do papel da mulher como trabalhadora, como outro fator gerador de demanda do ensino superior.
A análise da expansão do ensino superior tem se orientado, em termos de suas conseqüências, pelo julgamento positivo-negativo conforme aponte maior democratização do ingresso ou deterioração da qualidade formativa. Pretendendo desvelar "as verdadeiras conseqüências", CUNHA se propõe examinar tais argumentos de onde apresenta a sua tese alternativa da "recomposição dos mecanismos de discriminação".
A expansão do ensino superior, em princípio, sugere que esteja sendo superado um processo antigo de discriminação social. Os dados da matrícula crescente são vistos como um indicador de abertura de oportunidade, do aparecimento de uma tendência de surgimento de uma sociedade organizada segundo o mérito individual. Ou seja, a constituição de um contigente mais importante induz à conclusão de que a sociedade baseada nos privilégios está dando lugar a uma sociedade fundada no mérito individual.
A síntese apresentada por CUNHA inclui ligeiro comentário sobre o suporte empírico da tese da democratização do ingresso, destacando o "coeficiente de abertura" e pesquisas, como a de Aparecida Joly GOUVEIA (1967), realizada na década de 60 no Estado de São Paulo. Na verdade, ele não
pode desfazer- os dados apresentados, tidos como legítimos, ou, no mínimo, oficiais, como os do coeficiente de abertura
(período virtual, em anos, do tempo de escolarização necessária para o ingresso no ensino superior; quatro anos de ensino primário mais quatro anos de ensino ginasial mais três anos de ensino colegial igual a onze anos mais o exame de vestibular) e os da pesquisadora idônea. Porém, ele relativiza a força dos dados, insinuando discordância de que o aumento da proporção de jovens ingressados no ensino superior seria, necessariamente, condicionado por integrantes da classe trabalhadora e das camadas de mais baixa renda da classe média.
Do mesmo modo, CUNHA se opõe à tese de que a expansão do ensino superior venha promovendo a sua deterioração. 0 que acontece, em sua opinião, é uma deterioração decorrente da expansão de estabelecimentos privados que já apresentavam mé qualidade. Serve-se de constatações de A.J. GOUVEIA acerca de uma dupla discriminação que, inclusive passa, a confrontar defensores da tese da deterioração e os da tese da democrat ização;