III. A FILOSOFIA DO DIREITO EM A CIDADE DO SOL
3. As fontes do direito em A Cidade do Sol
O ordenamento jurídico de Cidade do Sol é composto por preceitos de diferentes espécies, que se originam, no entanto, da mesma fonte: a sabedoria divina.
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Assim, as leis escritas81, as normas morais82 e os costumes83 possuem o mesmo grau de obrigatoriedade, isto é, o poder coercitivo do Estado solar se manifesta de modo igual, independentemente do tipo de comando. Os comportamentos proscritos, desaconselhados, permitidos ou ideais, ao lado das regras de organização, de direção e de administração, formam um mecanismo perfeito, em pleno funcionamento e racionalmente estruturado.
O pensamento de Campanella sobre leis vincula-se de maneira muito estreita ao de São Tomás de Aquino. Este reconhece quatro tipos de lei: a eterna, a revelada, a natural e a humana. A primeira expressa a arte de Deus e tem valor universal, pois rege o cosmos e o homem. A segunda se “revela” nas Sagradas Escrituras. A natural permite aos homens distinguir o certo do errado e constitui a participação deles na razão divina. Aquino acredita que os homens tendem ao bem, porque trazem consigo a sabedoria de Deus. Eis o conceito de Aquino para lei natural.
E assim as criaturas racionais têm certa participação na própria razão divina, derivando daí uma inclinação natural aos atos e fins que lhes são convenientes. “Foi assinalada em nós, Senhor, a luz da Tua face”: como se a luz da razão natural, pela qual discernimos o bem do mal, e que é a lei natural, não fosse outra coisa senão a impressão da luz divina em nós. Assim, está claro que a lei natural outra coisa não é senão a participação da lei eterna nas criaturas racionais (AQUINO, 1996, p. 96).
A lei humana decorre desta premissa sublime, colocada por Deus nos corações dos homens, que é a lei natural. Assim, a partir desta, o homem, por meio de procedimentos lógicos - conclusão e derivação -, elabora suas premissas. Por exemplo, a lei natural determina honrar pai e mãe, a lei humana proíbe agressões entre pais e filhos.
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Na cidade, as leis são escritas em uma tábua de bronze, afixada no templo.
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Resumidamente, a característica que permite mais facilmente distinguir o preceito moral da norma positiva é a coercibilidade. As consequências do descumprimento de um preceito moral não ultrapassam a censura pessoal, social ou religiosa. Por outro lado, o Estado pode exercer seu poder coercitivo, impondo sanções, quando normas positivas são desrespeitas.
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Atualmente, segundo a lei de introdução às normas do Direito Brasileiro (Decreto-lei 4657/1942), o costume é aplicado somente nos casos em que a lei for omissa. Trata-se de fonte subsidiária.
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A lei, para Campanella, classifica-se em eterna, natural ou racional84 e artificial ou positiva85. Apesar da distinção, todas emanam do mesmo legislador: Deus. Como observa Cesaro, “(…) la prospettata differenza tra tre diversi tipi di legge non corrisponde ad una sostanziale divisione tra le stesse: e infatti – come anche San Tommaso evidenziò – uno è il legislatore, e una è la legge dalla quale tutte le altre derivano” (CESARO, 2011, p. 72, nota nº 55). A lei eterna exprime a sabedoria e a arte divinas e coordena e governa todos os seres, movendo-os a Deus. “La legge eterna e prima è Sapienza onnipotente e Ragione, per la quale Dio immaginò, creò, e governa e muta tutte le cose, e conduce al proprio fine anche le cose variabili invariabilmente”. (CAMPANELLA, 2001, apud CESARO, 2011, p. 74).
Em A Cidade do Sol, essa lei eterna significa “causa primeira”. Para os solares, os europeus “ignoram como todos os seres são governados pela causa primeira86 e quais as regras e os hábitos da natureza e das nações” (CAMPANELLA, 1978, p. 252). Os solares conhecem os imperativos legais de todos os povos. Na parte externa do primeiro muro estão pintadas, com breves esclarecimentos, as cerimônias, os costumes, as leis, as origens e as habilidades das populações de outras regiões. Além disso, Sol conhece profundamente a história de todas as nações, seus ritos e suas leis. Ele igualmente envia exploradores e embaixadores a fim de aprender “os costumes, as forças, o governo, a história, os bens e os males de todos os países” (CAMPANELLA, 1978, p. 249).
A lei natural origina-se da lei eterna. “Da questa deriva la legge naturale, attività direttrice dello stesso Dio, immensa negli animi degli uomini e in tutte le cose” (CAMPANELLA, 2001, apud CESARO, 2011, p. 74). Em Campanella, como em São Tomás, a lei natural constitui a “luz divina” que ilumina e guia o homem. Segundo a metafísica de Campanella87, o homem não pode alcançar de modo absoluto a racionalidade
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A lei natural também é chamada racional porque consiste na forma de participação do homem na razão divina.
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Esta classificação consta do livro De Politica, da qual Civitas Solis constitui um apêndice. De Politica, originalmente, integra a coleção Realis Philosophia Epilogistica. (CESARO, 2011).
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Na edição italiana organizada por Baldini (2006), na de Ernst (2007) e na versão de Seroni (2010), “causa primeira” corresponde a “Dio” (Deus). Os termos “causa primeira” e Deus, segundo a Metafísica de Campanella, são sinônimos. Referem-se ao ser perfeito e elevado, causa de todos os outros seres e realidades do universo.
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de Deus, mas pode participar dela. No campo moral, como na esfera das coisas naturais, a lei natural permite ao homem conhecer, ainda que de maneira limitada, a sapiência divina. No trecho de A Cidade do Sol a seguir transcrito, Campanella refere-se, implicitamente, a esse preceito, que, segundo os solares, pode ser conhecido pelas pessoas sábias88. Os cidadãos “dizem que Deus atribui causas a todas as coisas, devendo o sábio conhecê-las, usá-las e não abusar delas” (CAMPANELLA, 1978, p. 264). Sobre o tema, Berriel comenta: “il pensiero di Campanella connesso alla sua utopia è costituito da una miscela di sistemi razionali che permettono di leggere la natura e di tradurre l’interpretazione del mondo in sistemi normativi” (BERRIEL, 2012).
Deus revela-se no mundo físico e no mundo moral, universos distintos que, no entanto, somente podem ser explicados por meio das leis divinas. Assim, na Cidade do Sol, para compreenderem o mundo físico e confessarem em voz alta “a sabedoria e a providência de Deus” (CAMPANELLA, 1978, p. 271), os habitantes “estudam a construção do universo e a anatomia do homem (por eles frequentemente praticada nos cadáveres dos condenados), assim como os planetas, os animais e a função de cada uma de suas partes” (CAMPANELLA, 1978, p. 271). No que toca à dimensão moral, os solares buscam em uma religião natural os mandamentos da lei natural, cujo preceito primordial consiste em não fazer ao outro aquilo que não se deseja para si, conforme o conselho de Jesus no Evangelho. A passagem a seguir foi retirada da longa resposta de Genovês à pergunta de Hospitalário sobre a concepção dos solares acerca do pecado de Adão89.
É, pois, um dever do homem consagrar-se inteiramente à religião e humilhar-se continuamente perante o próprio autor, o que só é possível e fácil para quem estuda e conhece as obras deste, obedecendo às suas leis e pondo em prática a sentença do filósofo: “não faças aos outros o que não queres que te façam; e o que queres que te façam faze-o aos outros” (CAMPANELLA, 1978, p. 271)90.
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A lei natural, segundo Campanella, somente pode ser conhecida pelos seres dotados de razão, ou seja, os homens.
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Campanella não acredita que o sofrimento humano decorra do pecado original. As misérias resultam da insensatez dos homens, que se entregam ao acaso e não à razão. Em A Cidade do Sol, descuidar da geração e da educação das pessoas é um modo de perpetuar o mal.
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“Assim, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles, porque esta é a lei e os profetas” (MATEUS 7,12. In: A Bíblia. Tradução ecumênica. São Paulo: Paulinas, 1958). No Evangelho de São Mateus, trata-se premissa positiva, que incita o homem a agir. No Antigo Testamento, em Tobias 4,16,
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Para Campanella, assim como as ciências possuem postulados, a moral possui um enunciado que pressupõe todos os preceitos da lei natural, devendo ser observado por todas as leis humanas. Como esclarece Cesaro, citando Campanella, esse pressuposto deve ser universal, adequado e de fácil compreensão.
Come, infatti, nelle scienze speculative ammettiamo un postulato fondamentale al quale si riducono tutti gli altri, principî, allo stesso modo si deve presupporre un primo principio morale che contiene in sé tutti gli altri precetti della legge naturale. E un tale principio dovrà necessariamente essere universalissimo, poiché non sottoposto ad alcun altro assioma; adeguato, compendiando in sé tutti gli altri precetti morali; facilissimo a conoscersi, nel seno che non può essere ignorato dall’uomo che fa uso di ragione (CESARO, 2011, p. 77).
Em A Cidade do Sol, o enunciado fundamental da lei natural, que condiciona as leis solares, é: “não faças aos outros aquilo que não queres que te façam; e faças aquilo que desejas que te façam”91. Deste princípio universal, os habitantes elaboram os dispositivos que objetivam preservar os sentimentos de fraternidade, solidariedade e alteridade que os unem. Assim, aquele que é incapaz de concluir, a partir do imperativo supremo, os preceitos que devem nortear sua conduta, ou que age deliberadamente contra o fim estabelecido por Deus, não se vale de seu bem maior – a razão –, é ignorante e criminoso.
Sobre a lei artificial ou positiva, Campanella, inspirando-se em São Tomás de Aquino, explica que o homem traz em sua consciência a lei natural e, por isso, inclina-se a obedecê-la. No entanto, esta é genérica e não comina nenhum tipo de coercibilidade. Além disso, os homens possuem capacidades cognitivas de diferentes graus. Assim, nem todos conseguem deduzir os comportamentos justos ou injustos. Dessa forma, a lei positiva, estabelecida segundo circunstâncias particulares e segundo o local em que vigora, especifica o conteúdo da lei natural e impõe sanções, revestindo de obrigatoriedade a ação ou omissão contemplada (CESARO, 2011, pp. 78-79).
trata-se de um “não fazer”: “Acautela-te, não faças nunca a outro o que não quererias que outro te fizesse” (TOBIAS 4,16. In: A Bíblia. Tradução ecumênica. São Paulo: Paulinas, 1958).
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Os moradores da Cidade do Sol têm consciência de que uma lei superior os rege, bem como conhecem seu pressuposto. Os habitantes identificam a infelicidade humana na irracionalidade de suas regras: “os homens não são governados por superiores e verdadeiras razões, vivendo infelizes e sem escutar os bons” (CAMPANELLA, 1978, p. 271). Na urbe, este critério racional significa estabelecer a correta relação entre “reali capacità e attitudini naturali e ruoli sociali” (ERNST, 1996, p. 73)92.
Quando os primeiros habitantes chegaram a Taprobana, fugiam da insensatez de governantes tiranos e por isso decidiram viver segundo a lei natural. Hoh, o grande cientista, é o chefe do governo e o ótimo legislador93. Ele promulga normas segundo a lei natural e em harmonia com a lei eterna. Para os solares, os governos que se fundam na aparência e se pautam pelo acaso provocam males sociais e desordens, são cruéis e irracionais. Nesses casos, “triunfam os perversos, se bem que eles considerem miserável esse triunfo, não havendo nada de mais vão e de mais desprezível do que querer mostrar-se aquilo que na realidade não se é ou não se merece ser, como tantos que se chamam reis, sábios, guerreiros ou santos” (CAMPANELLA, 1978, p. 271).
Em sua física, Campanella advoga que Deus, em graus diferentes, está em todas as coisas, inclusive nos animais e nos homens. Esse entendimento estende-se ao tema das leis94. O dominicano considera errada a visão que exclui da história humana a totalidade divina e a imagem da natureza como arte e sabedoria de Deus (Ernst, 1996). Ele transpõe para A Cidade do Sol esses conceitos. O primeiro editor de Campanella, Tobia Adami, afirma, no prefácio de La Città del Sole, que a obra é inspirada no grande modelo da natureza: “plane ad magnum Naturae exemplar” (ADAMI, 1623, apud ERNST, 2007, p. 16).
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Os mestres e mestras observam os solares desde pequenos a fim de identificarem seus talentos e virtudes. Todos praticam a arte militar, a agricultura e a pecuária, “de forma que quem exerce maior número é considerado possuidor de maior nobreza” (CAMPANELLA, 1978, p. 262). As tarefas mais fatigantes, como a do artesão e do pedreiro, são muito estimadas e “ninguém se recusa a exercitá-las, porque a elas se aplicam pela particular tendência revelada na infância” (CAMPANELLA, 1978, p. 262).
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Em De Politica, Campanella concebe o legislador como uma pessoa sapientíssima, diviníssima, religiosíssima e sobre-humana (CAMPANELLA, 2001, apud CESARO, 2011).
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Neste aspecto, o pensamento de Campanella assemelha-se ao de Cícero. Segundo o jurista romano, a natureza é fonte de preceitos para as condutas humanas, fonte acessível pela razão. Estes mandamentos são eternos e atemporais e possuem como matriz uma lei suprema, presente dos deuses ao homem, que distingue o justo do injusto por meio de sua inteligência. O pensamento de Cícero sobre a lei natural influenciou profundamente os primeiros teólogos cristãos.
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Em uma carta de 6 de julho de 1638, destinada a Ferdinando II, Grão-Duque da Toscana, Campanella cita a natureza como fonte da “filosofia das nações”. O filósofo escreve que ele e os espíritos esclarecidos tinham uma grande dívida para com os Medici que, fazendo vir para a Itália os livros de Platão, livraram o saber do jugo de Aristóteles e, consequentemente, de todos os sofistas. Com isso, a Itália começou a examinar a filosofia das nações com a ajuda da razão e da experiência, na natureza e não nas palavras dos homens. Nesta mesma carta, o frade afirma que os livros de Deus são a natureza e as Sagradas Escrituras (CAMPANELLA, 2004).
A comunidade solar é pensada como um todo no qual os homens são partes indissociáveis. “O cidadão existe como parte do todo, de um conjunto do qual é apenas uma partícula” (BERRIEL, 2008, p. 113). O Grão-Mestre dos Hospitalários pergunta a Genovês quais são as comidas e as bebidas dos solares. O navegante responde que para eles “se deve, primeiro, prover à vida do todo e, depois, à das respectivas partes” (CAMPANELLA, 1978, p. 264). A Cidade é, dessa forma, concebida como uma unidade, fundada nas exigências do bem comum. Da mesma forma que um órgão obedece aos impulsos cerebrais, os cidadãos naturalmente obedecem a Hoh. “L’adesione ad un’autorità (...) appare frutto di un’esigenza razionale, legata alla struttura indigente dell’esistenza” (CESARO, 2011, p. 81).
4. OS PRINCÍPIOS QUE INFORMAM O ORDENAMENTO JURÍDICO DA