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CAPÍTULO 3 – APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS COLETADOS

3.2 Análise do mapa de fontes

3.2.1 Tipos de fontes acessadas

3.2.1.5 Fontes populares

As fontes populares representaram 14% do total de interações dos cinco jornalistas observados para obter informações para suas matérias. Por “populares”, foram classificadas todas as fontes que não fossem oficiais; nem colegas, ou seja, outros profissionais de imprensa, acessados de modo direto, como por uma mensagem de WhatsApp; ou indiretas, como quando um texto produzido para um site é utilizado para a produção de um boletim de

rádio; e nem ao menos especialistas, alguém com notório saber em uma área, que é convidado a comentar um assunto relacionado a sua área de conhecimento. São, portanto, como define Schmitz (2011), pessoas comuns, que falam em nome delas próprias. Além destas, tomando a liberdade de adaptar a classificação de Schmitz, incluímos no mesmo grupo as fontes testemunhais. Elas seriam, portanto, o que Varjão chama de fontes não policiais (a autora usa na sua pesquisa apenas a divisão entre fontes policiais/oficiais, não policiais e ocultas, quando o jornalista não revela a fonte utilizada).

Assim, vítimas e testemunhas de crimes, vizinhos, lideranças sociais, pessoas impactadas por uma situação específica, manifestantes são exemplos de fontes classificadas nesta pesquisa como populares e acessadas pelos repórteres acompanhados, durante o período de observação. O acesso a esse tipo de fonte apresentou quadros bastante distintos nas duas emissoras. Na Banda B, as fontes populares representaram 18,8% das interações, enquanto que, na BandNews, corresponderam a apenas 8% das fontes. Acredita-se que resida neste ponto talvez o maior reflexo dos modos produtivos distintos adotados pelas duas emissoras, visto que as equipes da Banda B ficam a maior do tempo nas ruas e com isso têm contato direto com vítimas, testemunhas, vizinhos, enfim, com pessoas comuns que caracterizam as fontes populares. Já a BandNews tem uma produção mais centrada em sua redação, com seus repórteres indo para a rua com pautas marcadas, como coletivas e outros eventos agendados, sendo mais difícil, por telefone, estabelecer contato com esse tipo de fonte. O percentual da emissora só não foi menor porque adotamos uma classificação mais ampla para o termo “popular” e lideranças de movimentos sociais, contatadas por telefone, também foram classificadas como fontes populares. Isso, em certo sentido, torna a emissora mais dependente das assessorias de imprensa, já que mesmo movimentos sociais dispõem de assessores de imprensa.

Além disso, a questão está relacionada ao tipo de cobertura do setor de segurança que as duas emissoras fazem. A Banda B cobre, prioritariamente, o factual do policial, os locais de crime, as ocorrências em desenvolvimento, além de coletivas. A BandNews, por sua vez, conforme o relato de seus repórteres, procura fazer a cobertura apenas de casos com maior impacto social, como os ocorridos em zonas nobres ou de grande movimentação da cidade, como em parques, além das coletivas de imprensa.

Os casos em que não foi possível determinar o tipo de fonte que contribuiu para a obtenção das informações (fontes ocultas, segundo a classificação de Varjão) representaram quase 8% do total. A situação foi mais frequente na BandNews, também pela característica do trabalho, feito por telefone e meios eletrônicos, o que dificultou a observação pela

pesquisadora do contato com algumas fontes. Na BandNews, as situações em que não foi possível determinar a fonte superaram o uso de fontes populares, representando 10,5% do total, enquanto que, na Banda B, equivaleram a 5,4% do total. É possível que essas fossem fontes que os repórteres pudessem ter interesse em manter em sigilo, em função do maior cuidado para não deixar a pesquisadora perceber quem eram.

Já a busca por especialistas só não foi nula porque ocorreu uma tentativa de um repórter em entrevistar uma fonte especializada. Uma provável explicação para isso, segundo o próprio jornalista, que foi entrevistado após o período de observação, é o uso dos especialistas mais para entrevistas de estúdio, quando há mais espaço para comentários. Claro, em termos de rádio, o espaço destinado a uma notícia também conta, mas o que nos parece mais provável é que o uso quase nulo de especialistas está associado a outros fatores, como a falta de tempo para buscar fontes adicionais para uma análise; a ausência de conhecimento de fontes com esse perfil – até pelo hábito de acessá-las com pouca frequência; e mesmo pela existência de um número limitado de especialistas dispostos a dar entrevistas para a imprensa – em Curitiba, é comum ver o nome de um mesmo sociólogo ser citado em matérias de vários veículos com análise de estatísticas de segurança e o motivo alegado é que ele é um dos poucos profissionais na cidade que fazem pesquisas nessa área. Há ainda o fato de, num processo de rotina industrial, os repórteres estarem mais preocupados em cumprir suas pautas e não em fazer matérias mais profundas. Parece estar mais presente neste contexto o valor quantidade, colocando-se em segundo plano a qualidade.

Ainda sobre a questão das fontes, também chamou a atenção o fato de não terem sido entrevistados os suspeitos apresentados pela polícia, durante as coletivas de imprensa. Indagados, repórteres das duas emissoras de rádio informaram que essa é a orientação das chefias. Na Banda B, um dos repórteres contou que chegou a ser feita uma pesquisa com os ouvintes e que o resultado foi que o público concordava com a opção de não entrevistar suspeitos. Os repórteres também parecem concordar com essa orientação, sendo que, durante as entrevistas, profissionais das duas emissoras comentaram que, em geral, ouvir os suspeitos não é algo que acrescenta na matéria, pois eles sempre juram inocência. Em alguns casos específicos, porém, os jornalistas sentem a necessidade de ouvir os suspeitos, pois são situações em que a motivação da pessoa que cometeu o crime pode ser fonte para amplos debates, como em casos de aborto. Nestas situações, não há oposição das chefias para que se entreviste os presos apresentados. Durante os períodos de observação, foi possível verificar que não são apenas essas duas emissoras que evitam entrevistar os presos. Apenas alguns veículos, em geral emissoras de tevê, têm por regra tentar ouvir os suspeitos apresentados.