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O papel dos testemunhos na cobertura em tempo

4. As primeiras 48 horas

4.3 Fontes Testemunhais

As fontes testemunhais- foco de nossa análise- desempenharam predo- minantemente, um papel patêmico. Na primeira análise das 43 testemunhas, identificamos 61 ocorrências de efeitos de verdade e de pathos. O efeito patêmico apareceu 34 vezes (56%), a designação esteve presente em 20 casos (33%) e a reconstituição em sete (11%). Já a elucidação não foi encontrada.

Quadro 2 – Papel das fontes testemunhais

Quantidade de

fontes autorizadas Patêmico Designação Reconstituição Elucida-ção

43 entrevistas 34 casos 56% 20 casos 33% 7 casos 11% -

O primeiro resultado vai ao encontro de uma das características fun- damentais das fontes testemunhais: a emoção. De acordo com Lage (2001), o depoimento de quem viveu, presenciou ou foi afetado por uma situação é “colorido pela emotividade”, além de ser fragmentado e individualizado. Dessa forma, não causaria estranheza a conclusão. No entanto, o resultado revela o choque de interesses entre os objetivos jornalísticos e o papel das fontes testemunhais. Se, por um lado, o repórter busca nos testemunhos fundamentalmente subsídios para reconstruir o acontecimento- uma vez que o acesso às fontes autorizadas é dificultado e pouco proveitoso nas primeiras horas- por outro, em sua maioria, as testemunhas cumprem mais o papel de fazem sentir, de emocionar. Por mais que o repórter queira fazer saber por meio do testemunho, esses apenas conseguem fazer sentir. Entre tantos

exemplos de efeitos patêmicos, destacamos a fala de uma mãe que teve dois filhos mortos no incêndio da boate. Quando conversou com a jornalista Carla Fachim, Elaine Gonçalves havia perdido um filho e estava com o outro internado em estado grave no hospital. Diz ela:

[...] tentando sobreviver e é muito triste porque pra mãe é terrível, é muito terrível. Sábado fez dois anos que meu esposo faleceu com dois anos de doença, a minha mãe faleceu faz três meses agora dia 5 de novembro e aí, agora... eu... perder o meu filho, que saiu de casa bo- nito, arrumado, faceiro, contente, os dois juntos, os dois irmãos juntos e depois... eu venho a saber que o Gustavo em estado grave no hospital de caridade. [...] Ele sofreu queimaduras no corpo, o rosto dele tava perfeito, ele tava sedado e entubado e eu falei no ouvido dele: Gusta- vo, a mãe tá aqui. A mãe tá contigo. (Mais Você, 28/01/13)

Também verificamos que, em alguns casos, a emoção e o sofrimento não são tão explícitos quanto no depoimento acima. Porém, representam a ruptura entre o antes e o depois da tragédia, como na entrevista de um jovem que perdeu a mulher e mãe de sua filha de quatro anos. Em uma reportagem do programa Fantástico, do dia 27/01, Rudinei da Silva desabafa: “Eu nem sei o que eu vou falar pra ela, ter a pessoa do seu lado sempre, sou um cara apaixonado, adorava ela.” No dia seguinte, em uma reportagem do Jornal Nacional, José Joel Canto fala da filha também morta no incêndio: “[...] era uma pessoa feliz, de bem com a vida, era uma pessoa muito extrovertida, fora de série. Não sei o que vai ser de nós sem ela.”

Assim como no caso das fontes autorizadas, no caso das fontes teste- munhais também constatamos a ocorrência de mais de um efeito em uma mesma entrevista, como mostra o quadro abaixo.

Observamos ainda que, levando-se em conta a classificação acima, o caráter patêmico das fontes testemunhais fica ainda mais evidente, uma vez que, quando associado a outros efeitos, está presente em 78,6% dos casos. Em apenas 19% das fontes o relato não forneceu qualquer tipo de emoção. Um exemplo que retrata esse teor emocional das testemunhas é a entrevista, ao vivo, de Andiara Resta, no Domingão do Faustão (27/01/13). Além de

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contar que passou em frente à boate sem saber que sua irmã estava no local, também falou detalhes do que presenciou: “[...] tinha pessoas sangrando, pessoas com cabeça pulverizada, tinha muita gente e era muito pavor.”

Quadro 3 – Ocorrência de mais de um efeito em uma mesma entrevista

Quanti- dade de fontes testemu- nhais Patê- mico Patêmico/ Designa- ção Patê- mico/ Recons- tituição Patêmico/ Desig- nação/ Reconsti- tuição Desig- nação/ Reconsti- tuição Designa- ção 43 entrevis- tas 22 casos 51% 10 casos

23% 1 caso2,3% 1 caso2,3% 5 casos12% 3 casos7%

78,6% 19%

4. Conclusões

Concluímos que no caso de coberturas de fatos sensacionais em si, a trans- missão ao vivo, imediatamente após o acontecimento, tem seus limites no que tange à apuração e às formas de provar a verdade. Muitas vezes, dos testemunhos temos declarações que buscam evidenciar mais sentimentos do que propriamen- te fatos. Questionamo-nos: o que o jornalismo ao vivo pode fazer no ápice de acontecimentos trágicos, senão relatar o trágico? Abordamos neste trabalho a participação da RBS TV, mas poderíamos citar outras tantas coberturas.

Há uma lógica intrínseca ao jornalismo que o faz perseguir o urgente e organizar o que parece caótico. As primeiras notícias dão sentido à realidade e buscam atestar que o incrível realmente aconteceu.

Quando um fato desse tipo vem à tona pelos meios jornalísticos, emer- ge primeiramente no tom do “ao vivo”, do relato da sensação e da experiên- cia imediata. As consequências das tragédias aparecem em primeiro lugar, em detrimento das causas. Certos discursos são interditados para que somente a singularidade tenha vez. Há, inicialmente, a preponderância da imagem sobre a análise, a personalização das vítimas, a fala dos testemunhos e a despersonali- zação na apuração das responsabilidades. Entra em ação um ethos consensual, o da solidariedade. Todos, jornalistas e população, constituem-se em vítimas

virtuais e extravasam o sentimento de que qualquer um poderia estar lá. O mundo da política, das instituições e do Poder Público fica em segundo plano. Neste primeiro momento, toda a manifestação a qual revela inconformidade ou tensão é controlada para não tirar o foco do principal.

O enquadramento inicial da maioria das notícias dá visibilidade para as experiências e as emoções, mas não transcende o espetáculo e as histórias in- dividuais. Os fatos singulares são exibidos exaustivamente em seus detalhes, numa tentativa de maior compreensão do acontecimento. Flashes de âncoras famosos “direto do lugar da tragédia” ganham destaque, mesmo que não tenham informação alguma a acrescentar. Mantém-se o tom da gravidade e as informações por um determinado tempo são as mesmas e chegam à beira da fruição ou da catarse.

A principal especificidade do testemunho no jornalismo é o relato de uma vivência radical ou situação- limite. Os testemunhos baseiam-se, sobre- tudo, na representação da sensação bruta, do concreto, do instrumental e não operam com a explicação e o distanciamento dos fatos. No jornalismo diário, o testemunho não se configura num relato acabado com fins de recuperação da memória de fatos históricos, como por vezes constatamos na literatura. Porém, as fontes testemunhais sozinhas não dão o sentido primeiro ao fato até porque o relato de suas experiências individuais não são autoexplicativas, compõem uma narrativa concebida pelo jornalismo.

A função dos testemunhos é ressaltar o que há de mais humano ou desumano em tal acontecimento. É denunciar, de forma sempre parcial, a vivência de um evento radical ou a sua sobrevivência. Assim como as vítimas têm necessidade de narrar o que lhes aconteceu, cabe ao jornalismo tentar reconstruir a experiência traumática. O testemunho é, geralmente, um relato simultâneo ao acontecimento, com características efêmeras e fragmentadas, porém convocado a dar efeito de real ao discurso da notícia, mesmo que seja sem provas de verdade. Se é no testemunho que, muitas vezes, o jornalismo se humaniza, também é por intermédio dele que se pode espetacularizar ou descontextualizar um relato jornalístico.

As formas de narrar as tragédias não dizem respeito somente aos aspec- tos da notícia como mercadoria, mas também ao conceito mesmo de notícia. Genro Filho (1996) consolidou uma arquitetura teórica para explicar as es- pecificidades do conceito de notícia. A partir de categorias filosóficas (o sin- gular, o particular e o universal), considera o jornalismo como uma forma de conhecimento cristalizada no singular, ao contrário da Ciência, por exemplo,

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forma de conhecimento baseada no universal.

Numa notícia, são os aspectos singulares dos fatos que estão nas man- chetes, nos títulos e no início do texto. Cada veículo elege um aspecto sin- gular para enquadrar a notícia e necessita, com o amadurecimento da apura- ção, realizar a contextualização, ou seja, aprofundar os aspectos particulares, mostrar o que aquele fato tem em comum com outros e em que cadeia de acontecimentos ele se localiza.

Percebe-se que passados os primeiros momentos da tragédia, o jornalis- mo busca o particular. Com a contextualização, as matérias geram conheci- mento e mostram que a atividade jornalística pode ser exercida de forma ética e responsável. Neste caso, está levantando particularidades ainda mais alargadas do fato inicial. Mas, dificilmente, isso será feito na cobertura imediata do fato.

Quando a cobertura jornalística retarda na apuração dos fatos, a parti- cularização não se realiza imediatamente e as notícias ficam circunscritas ao singular e, portanto, ao aspectos sensacionais. Ou seja, os aspectos dramáti- cos são próprios de fatos como esses, mas não podem presidir a cobertura por demasiado tempo, por mais complexo que seja seu aprofundamento.

Assim, não é o uso de elementos dramáticos, constitutivos de tais tragé- dias que provoca os excessos nas coberturas das tragédias; mas sim cristalização, no discurso, da gravidade da experiência por tempo excessivo. Os problemas da cobertura não estão no relato da emoção, mas na dimensão do seu entorno, na falta das particularidades que a cercam e na ausência do contexto.

Sim, o jornalismo baseia-se na aparência dos fatos. E possibilita que o mundo se enxergue a partir do singular, por isso as primeiras notícias de uma catástrofe são como são. Os fatos não emergem como íntegros e sim de forma atomizada e são reconstruídos pelo jornalismo. Cabe também ao jor- nalismo revelar o que há em comum entre a tragédia noticiada e as demais, e mostrar as mediações sociais envolvidas. O singular precisa remeter para um contexto particular com significações universais. A notícia deve conter uma relação efetiva entre o singular e o particular para que se torne uma apreensão crítica da realidade.

Quando o jornalismo se circunscreve ao singular, borra suas fronteiras, deixa de ser uma forma de conhecimento sobre a atualidade e chega à beira do entretenimento e da fruição. É da ordem da cobertura jornalística de qualidade ultrapassar a imediaticidade do fato e transcender para as suas par- ticularidades. Missão extremamente difícil de ser cumprida numa cobertura ao vivo.

Enfim, o jornalismo extrai sua força do singular, mas não pode se resu- mir no seu relato. Se é a informação mais singular que vitaliza a notícia, o seu entorno é que lhe dá dignidade e perpetua acontecimentos como a tragédia em Santa Maria na memória social. Entretanto, trata-se de um entorno que é construído discursivamente a medida que o tempo passa. Num primeiro momento, são as emoções (efeitos patêmicos) que eclodem no discurso das fontes e dificilmente uma cobertura ao vivo dará conta de priorizar os efeitos de verdade. Transcender este momento imediato, singular e dramático só será possível se o jornalismo deixar de sofrer as pressões do “tempo real” e priorizar a apuração cuidadosa.

Referências

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Tragédia e solidariedade