As temáticas relacionadas às palavras de ordem e as postagens opina- tivas deram caráter à mobilização, apresentaram objetivos comuns entre os participantes e foram levadas à rua. Entre elas, destacam-se: “protesto pa- cífico”, “chega de impunidade” e “lutamos por justiça”. Os entrevistados, tanto organizador como participantes do protesto, reafirmaram os objetivos na luta por justiça e na necessidade do protesto ser pacífico e imparcial:
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As pessoas estavam ali não para achar um culpado ou os culpados, mas sim buscando justiça mesmo. Que as instituições e as sua representações fossem punidas por suas responsabilidades (participante número 01 do Pro- testo por Justiça, entrevista realizada dia 17 de outubro de 2013).
Mais uma cobrança política por justiça, cobrando a questão, desde aquele dia a gente já estava percebendo que a culpa iria cair dos menos culpados. (participante número 02 do Protesto por Justiça, entrevista realizada dia 14 de outubro de 2013).
Que nos não estávamos lá, que prevíamos que iria ocor- rer uma manifestação politica. Colocando que era uma manifestação com pedido de justiça. Era uma manifesta- ção apolítica, apartidária imparcial. (propositor do Pro- testo por Justiça, entrevista realizada dia 17 de outubro de 2013).
A construção da mobilização foi perpassada pela emoção, construída no processo da mobilização, através dos sentimentos oriundos do aconte- cimento, das caminhadas e da representação da tragédia na mídia. Consi- deramos os afetos envolvidos na manifestação como elementos de vínculo entre os participantes e, também, como motivadores para a participação no protesto. Ao longo das postagens no evento foi possível perceber a ira dos participantes com a omissão do poder público e dos donos da boate, a indig- nação com a possibilidade de que a investigação não levasse a uma punição justiça e o entusiasmo em participar de uma ação coletiva que demonstrasse o posicionamento dos cidadãos de Santa Maria diante da tragédia.
Assim, quando nos reportamos às postagens analisadas no Facebook, percebemos sentimentos como ira, indignação, além de solidariedade e espe- rança. Dentre as 75 postagens de nossa coleta, identificamos os sentimentos em 39 delas. Duas postagens indicavam ira, 22 indignação, 11 esperança, 7 solidariedade e, em 3 postagens, encontramos a ênfase para mais de um sentimento. Cada categoria foi manifestada no evento de forma que as de indignação reportavam assuntos sobre a insatisfação dos participantes sobre
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a investigação não ser justa, pois deveria abarcar todos os responsáveis pela fiscalização da boate. Também foram observadas postagens sobre o “jeitinho brasileiro” das instituições públicas ao não fazer cumprir as leis ou fiscalizar indevidamente os locais privados. Houve a manifestação de indignação com o silêncio do corpo de bombeiros e da prefeitura sobre a responsabilidade no caso e contra o posicionamento da primeira dama sobre os manifestan- tes, que publicou postagem em seu perfil pessoal acusando os manifestantes de serem insensíveis ao propor a mobilização. Pautas gerais de cobrança de melhorias no transporte público e de outros serviços foram acrescentadas, demonstrando um sentimento mais amplo de insatisfação gerado a partir da tragédia. Assim, o sentimento de indignação prevaleceu no protesto. Já percebido nas caminhadas em homenagens às vítimas, este sentimento foi levado para o ambiente online e compartilhado entre os sujeitos. Quando os participantes citavam notícias que abordavam o papel dos órgãos públicos no caso, sustentavam esse sentimento. A indignação foi elemento de união entre os participantes.
A ira se manifestava quando os participantes pediam o impeachment do prefeito da cidade e ao exigir dele as responsabilidades no caso. Indicavam a revolta dos participantes quanto à falta de fiscalização, como podem ser percebidas na postagem da figura 04:
Fig. 04: Acusações diretas para com o prefeito da cidade. O sentimento solidário para com as famílias e vítimas se manifestou de forma a prestar homenagens. Os participantes no evento, muitas vezes de ou- tros Estados, se posicionavam com apoio às famílias, através das orações e de pedidos de força para a cidade. A solidariedade não foi elemento principal da
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mobilização, mas apareceu no ambiente online na forma dos relatos e experi- ências pessoais com o caso.
A esperança corresponde à motivação dos participantes quando estes imaginam e projetam o futuro. Dessa forma, a esperança se manifestou nas postagens através de pedidos de mudanças no processo de fiscalizações, para que não ocorressem mais tragédias, e quando abordavam a importância da juventude para essas mudanças (Fig. 05 e 06). Ainda expressavam o desejo de que, a partir do “Protesto por Justiça”, outras manifestação ocorressem para exigir direitos, através da luta e do posicionamento político da juventude.
Fig. 05: Convocação dos jovens, a partir da capacidade para a mudança.
Fig. 06: esperança na força dos jovens para projetar mudanças na sociedade.
Nas entrevistas, os sentimentos foram citados como importantes no pro- cesso da mobilização e na idealização do Protesto por Justiça. Como afirma o propositor do evento, o sentimento construído na Caminha pela Paz foi elemen- to de motivação para a criação da manifestação.
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O evento foi criado depois daquela Caminhada pela Paz, que teve não sei quantas mil pessoas, todo mundo de branco, foi uma festa linda, festa não, uma caminhada sensacional. Então, aproveitando aquele sentimento foi criado esse. (Propositor do Protesto por Justiça, entre- vista realizada dia 17de outubro de 2013).
Neste contexto, compreendemos que o papel dos sentimentos foi de criar vínculos, ainda que efêmeros, com o grupo através do compartilha- mento da indignação com o ocorrido. O protesto também apontou para a esperança de que a investigação fosse imparcial e justa, com a projeção de mudanças para com o futuro.
Considerações finais
Através de diferentes formas de organizar manifestações, os sujeitos partici- pantes dos eventos analisados se apropriaram das ferramentas do site de rede social Facebook para o encontro de pessoas com propósitos comuns e para a construção de ações coletivas que tiveram impacto no contexto local. Pensar essas mobiliza- ções à luz da comunicação é perceber que o espaço comunicacional criado no ambiente digital foi fundamental para a organização de ações no momento ime- diatamente posterior ao incêndio. Assim, a solidariedade, na Caminhada da Paz/ Luto, e a indignação, no Protesto por Justiça, foram importantes para a reunião das pessoas em torno de ações coletivas.
Ainda, de acordo com o pensamento de Toro (1996), no processo de cons- trução do projeto em comum convocam-se os atores sociais também pelos afetos e pelas emoções. Estes estariam ligados ao aspecto motivacional em participar da ação coletiva, pelo compartilhamento do desejo de construção de sentidos e projetos com outros atores sociais. Os afetos são, assim, importantes na união e na vontade de estar junto em um momento de crise e de adversidade. A relação entre os afetos perpassa os processos de pertença social e o potencial individual de participação, fazendo da solidariedade e da indignação elementos de manutenção dos vínculos.
Compreendemos que o papel dos sentimentos foi de criar estes vínculos com o grupo através do compartilhamento da indignação com o ocorrido e ao
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se colocar no lugar do outro, por meio de gestos de solidariedade. O Protesto de Justiça foi motivado pela insatisfação e revolta diante da tragédia, mas também pela esperança de que, com a cobrança popular, a investigação fosse imparcial e justa, e a fiscalização em casas noturnas fosse mais rigorosa, de modo a projetar mudanças para o futuro. A Caminhada da Paz/Luto foi motivada pela solidarie- dade. Em ambos os eventos, a comunicação em rede permitiu que os afetos e as emoções fossem compartilhados e que fossem construídos vínculos sociais, que deram sentido à participação nas ruas.
O Facebook foi apropriado de forma espontânea através da ferramenta de criação de eventos, que permite agregar muitas pessoas em pouco tempo. A partir da combinação da organização e mobilização nas redes sociais online e no espaço urbano de Santa Maria, as ações coletivas ganharam força, o que pode ser per- cebido pelo número de participantes que conseguiram atingir. Assim, as ações geraram mobilização em um híbrido entre as redes sociais da internet e o espaço urbano ocupado.
Na análise, ainda foram percebidos sentimentos de revolta e indignações acerca do processo de investigação, com o medo da impunidade no caso. Neste contexto, alguns atores sociais utilizaram-se do conteúdo midiático massivo para se posicionar e embasar seus argumentos, reforçando a necessidade de manifesta- ção pública, sobretudo no caso do Protesto por Justiça. Na Caminhada da Paz/ Luto, percebemos que foi amplamente divulgada e noticiada, gerando imagens que ganharam força em diferentes veículos de comunicação nacionais e interna- cionais, em um processo que pode ser entendido como a midiatização do senti- mento de dor, de luto e de solidariedade daquelas pessoas que direta ou indireta- mente enfrentavam a perda dos jovens na tragédia.
Consideramos que as redes sociais online têm a possibilidade de se tornar espaços de construção de resistências, de projetos de mudança sociais e potenciali- zar atos de protesto para pressionar o poder público. Ainda que de forma inicial e espontânea, nos eventos estudados, é possível indicar, que, ao construir um espaço público online, se constrói um ambiente de deliberação, de reunião e encontro, que pode levar à ação, seja ela no próprio ambiente online, com a troca de infor- mações, construção de engajamentos e apoio mútuo, seja no contexto offline, com ações de voluntariado e manifestações diretas de insatisfação ou ajuda.
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A partir destas mobilizações sociais, as famílias e amigos das vítimas, assim como os cidadãos santa-marienses de um modo geral, se organizaram para algo maior. Por meio dos eventos e de outros que se seguiram, foram criadas asso- ciações, movimentos organizados cobrando justiça, vigílias e acompanhamento dos indiciamentos dos acusados e da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instaurada na Câmara de Vereadores de Santa Maria, entre outras ações. Ao lon- go do ano de 2013, percebemos que a Associação de Familiares de Vítimas e Sobreviventes (AVTSM)2 e o Movimento do Luto à Luta, assim como outras associações, foram se articulado em rede com outros movimentos sociais a fim de que consigam parcerias para o fortalecimento e projeção das ações organizadas. Em uma aproximação com os protestos organizados no Brasil no mês de junho de 2013, originados inicialmente em torno da luta contra o aumento da passagem, estes movimentos organizados também estiveram presentes nas ações promovidas em Santa Maria. Os protestos e outras formas de intervenção demonstram que a mobilização em torno da tragédia da boate Kiss é também uma ação contra a impunidade, pela justiça, de solidariedade diante do sofrimento do outro e de esperança de mudança, para que novos casos como o ocorrido em Santa Maria não se repitam.
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2 A AVTSM (Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria) surgiu no dia 23 de fevereiro de 2013. Os principais objetivos da AVTSM é trabalhar pela recuperação psicológica de todos; lutar pela defesa dos direitos e interesses dos fami- liares das vitimas e os sobreviventes e exigir a apuração, em todas as esferas, das causas que levaram à tragédia na Boate Kiss. (fonte: http://avtsm.org/a-avtsm/). O Movimento do Luto à luta foi criado 27 de fevereiro, por familiares e amigos de vítimas da tragédia. O objetivo é a busca pela justiça, atuando através da ação e mobilização popular. (fonte: https://www. facebook.com/MovimentoSmDoLutoALuta?fref=ts)
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