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3 CARLOS MARIGHELLA E A AÇÃO LIBERTADORA NACIONAL

3.2 ORIGEM E CARACTERÍSTICAS DA ALN

3.2.4 Foquismo

O foquismo é uma teoria revolucionária inspirada por Che Guevara e desenvolvida por Jules Régis Debray. Utilizada na década de 60 por vários grupos de esquerda. Esta teoria previa a realização de vários focos de revolução no mundo, no intuito de enfraquecer o sistema capitalista.

Mir defende a ideia de que a morte de Ernesto Che Guevara em 8 de outubro de 1967 promoveu modificações no projeto revolucionário de Marighella: “a morte de Che atrasa o seu retorno, em dois meses, tempo necessário para refazer todos os planos” (MIR, 1994, p. 246).

Segundo Sales, Marighella, durante sua permanência em Havana, adaptou o projeto revolucionário cubano para a realidade brasileira. Desta forma, o historiador analisa o texto, “Algumas questões sobre guerrilha no Brasil”, de autoria de Carlos Marighella, afirmando que

O próximo passo seria tentar adaptar às condições do Brasil as ideias cubanas. A primeira tentativa se deu quando Marighella ainda se encontrava em Cuba, no texto intitulado Algumas questões sobre guerrilhas no Brasil, publicado no Jornal do Brasil em setembro de 1968, mas escrito em Havana em outubro de 1967, sob o impacto da morte de Che Guevara na Bolívia. Neste documento, Marighella destaca que a guerrilha havia assumido nos

anos 60 uma nova dimensão: a de papel estratégico e decisivo na liberação dos povos. Isto porque, até então as experiências das revoluções socialistas haviam sido caracterizadas pela transformação da guerra anti-imperialista mundial em guerra civil pela tomada do poder, apoiadas no triunfo, da revolução de outubro de 1917 na Rússia. No caso brasileiro, caberia apontar as características fundamentais que a guerrilha deveria assumir. A estratégia central deveria ser a expulsão e o aniquilamento do imperialismo norte- americano e das forças militares brasileiras. No Brasil, a guerrilha deveria ser desencadeada fora da faixa litorânea, para evitar o cerco estratégico do inimigo (SALES, 2008, p. 209).

Mir interpreta este texto como uma homenagem de Marighella ao revolucionário argentino: “Um roteiro de um conflito guerrilheiro continental tendo o Brasil como a principal base” (MIR, 1994, p. 246). Desta maneira, “o coração do Brasil seria o coração do continente. A equação estratégica permanecia a mesma: Cuba, uma pequena mudança, daria o passo para a grande transformação continental o Brasil” (MIR, 1994, p. 247).

Rollemberg coloca em discussão se a teoria do foco guerrilheiro teria sido realmente a força motriz da estratégia de Marighella, porquanto

Teria ele aderido ao foco? Na verdade, acredito que Marighella concebeu a luta de maneira bem mais ampla complexa do que o foquismo, supostamente legitimado pela Revolução Cubana. Segundo depoimentos de militantes da ALN, que tiveram contatos com Marighella, ele teria uma visão diferente desse modelo. Seria um longo processo e dependia de uma complexa rede de contatos e apoios, que apenas começava a ser tecida. A própria organização criada não passaria de uma peça do grande quebra-cabeça. Muitos dos contatos teriam se perdido com a sua morte (ROLLEMBERG, 2009, p. 80).

A professora e militante da ALN em Recife de 1969 a 1970, Teresa Vilaça123 destaca

que para estruturar o projeto revolucionário, Marighella estudou profundamente os diversos movimentos que ocorreram no Brasil, visto que, “ele estudou o cangaço,124 ele estudou as

123 Professora de história da faculdade Visconde de Cairu, em Salvador, mestre em educação. Professora e Militante da ALN em 1969 e 1970 foi presa em abril de 1970 e liberada em maio de 1974.

124 O cangaço foi um fenômeno do banditismo, crimes e violência ocorrido em quase todo o sertão do Nordeste do Brasil, entre o século XVIII e meados do século XX. Seus membros vagavam em grupos, atravessando estados e atacando cidades, onde cometiam pilhagens, assassinatos e estupros. Para muitos especialistas, o cangaço nasceu como uma forma de defesa dos sertanejos diante de graves problemas sociais e da ineficácia do Estado.

revoluções da época do Império, a Revolução pernambucana de 1817,125 a Confederação do

Equador de 1824126 e a Conjuração Baiana127”.128

O atual dirigente do Partido dos Trabalhadores e militante da ALN em Pernambuco, de 1969 a 1970, Perly Cipriano129 defende que para realização da guerrilha rural “os militantes

passariam nos lugares previamente escolhidos, e montariam uma estrutura para ALN”.

130Apresentaremos a seguir o que o próprio idealizador da ALN escreveu sobre o foquismo,

Nosso combate contra o imperialismo é levado a cabo através de novas formas e características próprias e por isso não nos preocupamos em criar no Brasil nenhum foco guerrilheiro. Nosso esforço principal se concentra em favor da guerrilha rural não como foco, mas como o resultado da implantação da infraestrutura guerrilheira. Partindo do suposto de que o Brasil é um país continental pela imensidão de sua área, encaramos a guerrilha como guerra de movimento e não como foco (MARIGHELLA, 1969 apud NOVA; NÓVOA, 1999, p. 149).

Rollemberg, mesmo após apresentar indícios de singularidades nas estratégias da ALN para a revolução no Brasil e mencionar um possível projeto maior que teria sucumbido com a morte de Marighella, advoga a tese do caráter foquista das ações da ALN, visto que

Uma organização que surge simultaneamente com a ação revolucionária, pela base e não pela cúpula. A ação é que faz a vanguarda. Aí estava o foquismo de Marighella. A ALN, centrada na ação, na coragem de agir, na disposição para atuar, na não submissão a comandos, a hierarquias, a centralismos, desprezando a experiência, apostando na revolução de jovens de 1968; nascida na convicção de que a obrigação de todo revolucionário é fazer a revolução, frase impressa no cartaz da OLAS, que ele encarou como ninguém (ROLLEMBERG, 2009, p. 81).

125 Revolução Pernambucana de 1817 foi um movimento separatista – o último que ocorreu no período colonial – de caráter republicano que aconteceu na Capitania de Pernambuco.

126 Confederação do Equador foi um movimento revolucionário de caráter republicano e separatista que eclodiu no dia 2 de julho de 1824 em Pernambuco, se alastrando para outras províncias do Nordeste do Brasil.

127 Conjuração Baiana, também denominada como Revolta dos Alfaiates e recentemente também chamada de Revolta dos Búzios, foi um movimento de caráter emancipacionista, ocorrido no final do século XVIII (1798- 1799), na então Capitania da Bahia, na colônia brasileira.

128 Teresa Vilaça em entrevista concedida ao pesquisador Paulo Marcelo Mello. Salvador, Bahia, 11 de dezembro de 2017.

129 Dirigente partidário, Estudante e Militante da ALN entre 1968 e 1970 foi preso em março de 1970 e liberado

em dezembro de 1979. Perly Cipriano é autor de do livro Pequenas histórias na cadeia. Foi Deputado Estadual e candidato a governador do Espírito Santo pelo PT, além de vereador de Vitória-ES, também pelo PT.

130 Perly Cipriano em entrevista concedida ao pesquisador Paulo Marcelo Mello. Vitória, Espírito Santo, 31 de maio de 2018.

A partir da análise e da reflexão das publicações dos pesquisadores apresentados na bibliografia desta pesquisa, das entrevistas com militantes da ALN e dos textos escritos por Marighella, o projeto revolucionário da ALN tinha algumas propostas específicas para o contexto brasileiro. Podemos citar: a priorização na libertação nacional; a utilização das colunas móveis, adotadas muito provavelmente face à derrota de Che Guevara na Bolívia131 e

o fracasso no Brasil do foco de Caparaó e a perspectiva da futura guerrilha rural.

Porém, estes planos não alteram o caráter foquista de atuação da ALN, pois na prática, os assaltos a bancos e farmácias e os furtos de automóveis vieram a ser o cotidiano da organização. Estas ações foram executadas por um número pequeno de pessoas e não tiveram apoio popular.