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3 CARLOS MARIGHELLA E A AÇÃO LIBERTADORA NACIONAL

3.8 ALN E A IMPRENSA

3.8.2 Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco

Em finais da década de 1969 e início de 1970, os periódicos de Pernambuco publicaram algumas matérias sobre as ações da ALN no Brasil. Em uma delas, o Jornal do Commercio, ao fazer uma retrospectiva do ano de 1969, elencou algumas ações, destacando a captura do embaixador, como aquela que mais chocou a sociedade brasileira.

Nenhuma linha foi utilizada para indicar quais eram as revindicações dos envolvidos. O jornal também não apresentou algum aspecto político aos eventos, tratando-os apenas como

238 ESTOURADOS mais quatro ninhos de terroristas. O Globo. 22 dez. 1969. Página Policial, p.12, apud LIBARDI, 2007.

239 A CAÇADA. Revista Veja. São Paulo, nº 11, p. 17, nov. 1968, apud LIBARDI, 2007. 240 QUE vão fazer? Revista Veja. São Paulo, nº 49, p. 20, ago. 1969, apud LIBARDI, 2007.

ações terroristas. Também não mencionou o nome das organizações. Como podemos ver a seguir: “o terrorismo colocou todas as baterias para funcionar em 1969, realizando desde assaltos a banco, atentados a quartéis e até o sequestro do embaixador americano no Brasil […]”.241

Na mesma página o Jornal do Commercio,242 apresenta o assassinato de Marighella

como um grande feito do DOPS-SP. Destacando que a morte dele foi um duro golpe na escalada terrorista que estava ocorrendo no Brasil. Como o Jornal o Globo, o periódico pernambucano manteve a narrativa de que Marighella era um inimigo do país.

Nesta retrospectiva anual, o JC, ainda exibiu, a relação dos atos institucionais decretados pelo governo militar durante o ano de 1969. O Jornal não apresentou discordâncias em relação a estes atos.

Nesta relação, está presente o Ato Institucional nº 14, com a seguinte descrição: “estabeleceu a pena de morte para a guerra subversiva. O fuzilamento será o meio de execução e o presidente da república, poderá comutar a pena em prisão perpétua, de acordo com a nova lei de segurança nacional”.243

Em março de 1970, o Jornal do Commercio, após o sequestro do cônsul japonês no Brasil,244 que havia sido realizado no dia 11 de março de 1970, apresentou um editorial onde

endossa e justifica as ações repressivas do governo militar. Nesta matéria, o periódico afirma “[…] no ano passado o sequestro do embaixador dos Estados Unidos deflagrou uma crise […] e obrigou o governo a editar, […], o ato Institucional nº 5”.245

Na realidade o AI-5 ocorreu em 13 dezembro de 1968 e a captura do embaixador americano ocorreu posteriormente, em 4 setembro de 1969. Portanto esta narrativa de vincular

241 O SEQUESTRO do embaixador foi o ato que mais chocou. Jornal do Commercio. Recife, 28 dez. 1969. Caderno Especial. Hemeroteca do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (Apeje).

242 MORTE de Marighella é golpe na escalada terrorista. Jornal do Commercio. Recife, 28 dez. 1969. Caderno Especial. Hemeroteca do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (Apeje).

243 SETEMBRO trouxe pena de morte para subversão. Jornal do Commercio. Recife, 28 dez. 1969. Caderno Especial. Hemeroteca do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (Apeje).

244 Sequestro foi realizado pela VPR e ocorreu no dia 11 de março de 1970, em São Paulo. Terminou no dia 15 de março de 1970. Foi o primeiro sequestro realizado pela VPR, que na época era comandada pelo ex-capitão do Exército Carlos Lamarca.

245 NOVO sequestro. Jornal do Commercio. Recife, 13 mar. 1970. Editorial. Hemeroteca do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (Apeje).

o AI-5 a captura do diplomata americano não tem fundamento. Desta forma ela se apresenta como uma iniciativa do periódico, para justificar as ações de repressão da ditadura militar.

A VPR, durante o cativeiro do cônsul japonês, divulgou uma lista com cinco militantes de esquerda que deveriam ser trocados pelo diplomata. Quatro eram do VPR246 e

um da ALN, o dirigente Otávio Ângelo.247 Porém, o Diario de Pernambuco248 divulgou,

equivocadamente, que na relação estaria Câmera Ferreira, ao invés de Diógenes Arruda da VPR.

A matéria, que estampava na capa do jornal uma foto de Câmera Ferreira, avaliava de forma irônica a condição de Toledo ter sido incluído na lista, mesmo sendo o substituto de Marighella no comando da ALN. Ora, Toledo não estava detido naquele momento. Não sabemos se este erro foi mesmo um equívoco, ou uma ação deliberada, no intuito de causar mais um desgaste na imagem da ALN perante os leitores.

Em algumas matérias ficava evidente a preocupação dos periódicos, em passar para população que o governo estava com o controle da situação. Visto que,

Realmente foram desarticulados […] a ala vermelha do PCB, ALN de Marighella e a VAR-Palmares, ligada a Lamarca […]. Os terroristas ainda praticam algumas ações de efeito apenas psicológico visando provar a opinião pública que ainda estão atuantes. […] como neste assalto a união dos bancos brasileiros realizado no último dia 2 de março, quando os assaltantes

escreveram nas paredes “Comando Virgílio Gomes”.249

No aniversário de oito anos do golpe civil-militar de 1964, os periódicos de Pernambuco publicaram vários editoriais negando as evidências de que o país estava sendo governado por uma ditadura. Como podemos ver nesta matéria do Diario de Pernambuco, em que o jornal faz uma avaliação positiva do desempenho do governo ao afirma que, “as forças vigilantes da democracia detiveram o projeto declive em que nos encontrávamos e restauraram a vida nacional nos sãos princípios da democracia e do cristianismo”.250

246 Madre Marina Silveira, Diógenes Carvalho, Damares Lucena (com 3 filhos) e Mário Japa.

247 MEMORIAL DA DEMOCRACIA. Cônsul do Japão é trocado por presos. Disponível em: http://memorialdademocracia.com.br/card/consul-do-japao-e-trocado-por-presos. Acesso em: 15 mai. 2020. 248 NOVO sequestro. Jornal do Commercio. Recife, 14 mar. 1970. Capa. Hemeroteca do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (Apeje).

249 POLÍCIA garante o fim dos principais terroristas. Jornal do Commercio. Recife, 05 mar. 1970. Capa. Hemeroteca do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (Apeje).

250 A REVOLUÇÃO de março. Diario de Pernambuco. Recife, 31 mar. 1970. Editorial. Hemeroteca do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (Apeje).

Quatro dias antes, da publicação deste editorial do Diario de Pernambuco, que enalteceu a “democracia brasileira”, o Jornal do Commercio havia noticiado a condenação do escritor Caio Prado Júnior, a quatro anos e seis meses de detenção, apenas por ter dado, em 1967, uma entrevista a revista Revisão.251 Segundo a matéria do Jornal do Commercio “sob a

acusação de incitar a guerra e a subversão da ordem política e social”.252

Ao contrário da historiadora Libardi, que concluiu haver diferentes formas de narrativas, entre Veja, Globo e Jornal do Brasil, sobre as ações da ALN, em Pernambuco, pelo menos durante o período que pesquisei, não percebi esta diferença. Pois, o Diario de Pernambuco e o Jornal do Commercio estiveram com suas narrativas coladas com a do governo militar.