2.3 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE: DISJUNÇÕES E INJUNÇÕES
2.3.2 Formação Continuada como Possibilidade de Cooperação
Foerste (2005) reitera que o dispositivo contido do artigo 211 da Constituição Federal,
que trata do “regime de colaboração, a partir do qual a escola básica torna-se co-participante
da universidade na formação inicial de professores” (p. 31) está presente na lógica que
permeia a definição do paradigma para a formação inicial e a formação continuada do Parecer
9/2001 do CNE. Entretanto, a análise que GATTI (2008) faz das políticas de formação
continuada, não provê indícios de haver qualquer saliência do regime de cooperação previsto
na Constituição.
Essa análise, além disso exemplo, aponta, além de uma diversidade conceitual sobre o
que quer que se entenda ser formação continuada, bem como uma variedade de modos de
organização formal das atividades assim conceituadas. Assim, de acordo com GATTI (2008)
[…] ora se restringe o significado da expressão aos limites de cursos estruturados e
formalizados oferecidos após a graduação, ou após ingresso no exercício do
magistério, ora ele é tomado de modo amplo e genérico, como compreendendo
qualquer tipo de atividade que venha a contribuir para o desempenho profissional –
horas de trabalho coletivo na escola, reuniões pedagógicas, trocas cotidianas com os
pares, participação na gestão escolar, congressos, seminários, cursos de diversas
naturezas e formatos, oferecidos pelas Secretarias de Educação ou outras instituições
para pessoal em exercício nos sistemas de ensino, relações profissionais virtuais,
processos diversos a distância (vídeo ou teleconferências, cursos via internet etc.),
grupos de sensibilização profissional, enfim, tudo que possa oferecer ocasião de
informação, reflexão, discussão e trocas que favoreçam o aprimoramento
profissional, em qualquer de seus ângulos, em qualquer situação. Uma vastidão de
possibilidades dentro do rótulo de educação continuada. (GATTI, 2008, p. 57)
Dentro dessa variedade de modos de organização, Brito (2006: p. 49) pondera que
tanto os questionamentos a um modelo formativo tradicional e dicotomizado, quanto a
constatação de que a prática pedagógica
encerra uma especificidade e uma complexidade motivam novos olhares sobre a
formação de professores, focalizando: a formação como um continuum; a
importância da articulação teoria/prática; a inter-relação formação inicial/contínua; a
compreensão de que a formação inicial por si só não é suficiente, constituindo-se
etapa primeira do desenvolvimento profissional; o significado da atitude reflexiva no
exercício docente e o entendimento da prática de ensinar como espaço de
mobilização, utilização e produção de saberes. (BRITO, 2006, p.49)
Ocorre, entretanto que, além desse entendimento, Gatti (2008, p. 58) adverte que no
Brasil a formação continuada parece ter uma lógica compensatória, de suprimento de lacunas
e problemas da formação básica, o que faz o discurso da formação continuada ter uma lógica
diferente no país do que tem, por exemplo, em países desenvolvidos.
Curiosamente, esse discurso, reiteradamente associado a gestores da educação, parece
não ter eco, por exemplo, no inventário da literatura publicada sobre a temática em periódicos
especializados de renome no Brasil realizado por Carvalho e Simões (2002), tampouco na
posição defendida pelo Carvalho (2005) quanto ao desejo de uma posição de protagonismo
dos professores em seu processo de desenvolvimento profissional continuado.
Por outro lado, Foerste (2005) reforça o argumento de que nos casos em que o trabalho
em regime de parceria entre a escola básica e a universidade acontece, “[...] a socialização
profissional docente conta com algumas condições que podem favorecer o processo de
profissionalização do magistério[...]” (p. 33).
Como se pode observar, as posições desencontradas sobre o tema podem estar
relacionados, na linha da discussão feita por Gatti (2008), à multiplicidade de sentidos e de
concepções assumidas como formação continuada. É importante, em relação aos objetivos da
pesquisa ora proposta, explorar essa questão em maior profundidade quando da organização
do quadro teórico da tese, embora já se possa ter clareza, de antemão, que uma categorização
mais restrita pode auxiliar ao menos a clarear, quando do uso do termo, formatos e lógicas de
treinamento vinculáveis à racionalidade técnica sob as vestes de uma terminologia e de uma
epistemologia que refutam tal vinculação.
Sem desconsiderar a possibilidade de que a universidade tem algo a dizer às escolas,
essa lógica de treinamento, pode ter por trás de si uma visão distorcida e inferiorizada do
outro
11e pode, além disso, carecer de uma consciência da complexidade da tarefa de tais
sujeitos, nem sempre adequadamente problematizada pela interação da universidade com a
sociedade, seja pelo distanciamento de quem vê o contexto como algo externo, seja pela
própria inexperiência da condição de sujeito do contexto sobre o qual a ação da universitária
se debruça.
Esse é, com frequência o caso das ações de caráter primariamente assistencialista da
universidade, ou também daquelas que consideram que o conhecimento advindo da
experiência pouco ou nada podem agregar ao que já é sabido pela ciência.
Tratar da relação de contato entre a universidade e a sociedade, inclusive sob a forma
11Razão pela qual faço, na epígrafe da tese, um recurso ao texto de Rancière (2005) que é profundamente
eloquente quanto à desigualdade ser indutora de desrespeito e injustiça. Espero deixar evidente que
diversidade e igualdade não são conceitos opostos, especialmente no que concerne a respeito e justiça.
de extensão, no entanto, implica reconhecer
[…] a grandeza do espaço que ocupa, que dela faz, no meio acadêmico,
fonte de atração, de discussão e de polêmica, do despertar de sentimentos
contraditórios, como o do embevecimento quando trabalha a beleza e a
harmonia, ou de revolta quando abraça a miséria e a exclusão social.
(BARBISAN et al., 2004, p. 7)
Há, portanto, espaço para uma prática dialógica dentro do processo. A escuta dos
parceiros ajuda a acentuar a necessidade de qualquer atividade que seja desenvolvida precisa
partir de uma contextualização muito mais exaustiva do que a universidade tem sido capaz de
fazer. Dito de outra forma, ouvir apenas quais são as expectativas iniciais não é suficiente,
especialmente se não for acompanhado de um repensar com impactos sobre a própria
universidade, quer em relação aos currículos ou aos professores e aos alunos. Tomar um
caminho de diálogo efetivo equivale, concretamente, a enfrentar dicotomias do processo tais
como a supressão do sujeito na construção do objeto.
Dito de outra forma, parece estar faltando na nossa perspectiva formativa a
incorporação da visão da complexidade desse entorno social sobre o qual estamos querendo
agir. Falta, portanto, um ingrediente crucial, que é o protagonismo dos sujeitos nos processos.
Na ânsia de dar conta de nossos objetivos, acabamos, com frequência, incorporando e
organizando a agenda e inclusive dando o rumo do trabalho reflexivo a ser empreendido pelo
outro. Em que pese as boas intenções subjacentes a tal prática, há quem argumente (por
exemplo Zeichner, 2003) que mais recorrentemente tal processo constitui uma perspectiva
sutil de dominação, especialmente quando pautada na expectativa de que a reflexão tenha
como objetivo central chegar às conclusões previamente aceitas pela pesquisa acadêmica. A
esse argumento pode-se acrescentar o de Santos (2006, p. 157) de que “a injustiça social
assenta na injustiça cognitiva”, e que, guardadas as devidas proporções, é necessário
reconhecer que:
Há práticas de saber dominantes, assentadas na ciência moderna ocidental, e práticas
de saber subalternas, assentes em saberes não científicos, ocidentais e não
ocidentais, e que esta hierarquia produz e reproduz desigualdade social no mundo.
(SANTOS, 2006: p. 158)
Em termos concretos, isso reforça a necessidade de pensarmos nas implicações
políticas de nossas ações muitas vezes pretensamente apolíticas.
Longe de ser uma perspectiva exótica, esse sentido ocupa, de certo modo, uma posição
hegemônica dentro da universidade. Muitas vezes, a universidade, ao encarar a tarefa de
produzir conhecimento necessário para a sociedade, o faz a despeito da sociedade ou sem sua
participação direta. Não se está com isso advogando uma perspectiva militante, mas tão
somente alertando para o fato de que a ação da universidade não pode prescindir do olhar – e
talvez, sim, da participação direta – da sociedade.
Pode-se ponderar que uma das tarefas da universidade é propiciar situações formativas
ou criar ambientes para que a formação – o percurso formativo – de seus estudantes seja mais
adequado ou sensível aos desafios que eles tendem a enfrentar quando dela saírem (cf, por
exemplo, DARLING-HAMMOND, 2010). É precisamente neste sentido que se pode
ponderar que quanto mais (e mais cedo e frequentemente) os professores em formação inicial,
por exemplo, estiverem em relação com a sociedade, maior é a probabilidade de que isso
venha a acontecer. Para tanto, é fundamental que essa sensibilização não seja apenas um
potencial, mas que se dê concretamente através de seus currículos, de projetos ou quaisquer
outras formas relevantes de interação entre universidade e comunidade e, quanto a isso, não
há como negar o papel crucial da inserção dialogada (e organizada de modo consistente) na
escola.
Um desdobramento possível de um processo formativo com tal características é uma
maior sensibilização para a produção solidária de respostas (e conhecimento). Na medida em
que se reitera, no dia a dia, uma postura de diálogo, de respeito mútuo e de solidariedade,
aumentam as chances de gerar uma espécie de proteção contra os eventuais males que a
arrogância acadêmica e o trabalho solitário possam criar.
Dentre os espaços de inovação também podemos situar a renovação da própria
coerência entre o discurso e a prática da universidade, especialmente se partirmos da
aceitação de que “[...] a universidade tem de se atualizar, ela tem que se tornar melhor a cada
dia. Ela tem essa responsabilidade até para demonstrar aos alunos que além de ensinar ela
pratica o que ensina [...]” (TEIXEIRA, 2004, p. 112).
O contato mais estreito entre universidade e sociedade, entretanto, ajuda a visualizar
inclusive a relação de distanciamento entre ambas, quer pela falta de referências comuns, quer
pela própria incompreensão mútua de papéis e compromissos. Na medida em que uma relação
de maior proximidade se estabeleça entre ambas, talvez seja mais fácil entender os limites de
atuação (e de perspectiva) de cada um desses entes e, dessa forma, buscar soluções mais
realistas, factíveis e mutuamente envolventes para as situações concretas que afligem a
ambos. Isso, por outro lado, exige a consolidação de mecanismos de acompanhamento,
também mutuamente acessíveis.
Sob certo sentido, trata-se de um “trabalho de tradução” e que, na linha de pensamento
de Santos (2006) tal trabalho,
feito com base na sociologia das ausências e na sociologia das emergências é um
trabalho de imaginação epistemológica e de imaginação democrática, com o
objectivo de construir novas e plurais concepções de emancipação social sobre as
ruínas da emancipação social automática do projecto moderno” (SANTOS, 2006: p.
134).
Cabe nos questionarmos, por fim, em que medida tal visão apresenta confluências com
o projeto educativo no qual queremos estar envolvidos.
No documento
acervo.paulofreire.org Este documento faz parte do acervo do Centro de Referência Paulo Freire
(páginas 57-61)