Assim como o isolamento soa como marca distintiva nos estágios dos cursos de
licenciatura, a consciência sobre essa marca ajuda – em muitos casos – a criar uma força que a
ele se contrapõe em ao menos três frentes: colaboração, integração e participação.
No que diz respeito à colaboração como possibilidade de ruptura do isolamento, em
alguns cursos (por exemplo, Artes Visuais) isso se dá como processo fortemente assentado no
diálogo entre formação pedagógica e demais dimensões do currículo. Nesse caso, os
orientadores assumem um papel protagonístico nesse processo, mas contam com o apoio da
coordenação, que vê na colaboração a possibilidade de fazer frente aos desafios
exponencialmente maiores do que o tamanho do grupo envolvido com a formação de
professores no curso. Num outro nível, colaboração pode também significar a identificação de
espaços potenciais para reflexão e ação no âmbito dos colegiados, instâncias nas quais a
fragmentação de sua constituição funciona como estratégia de concentração de poder político
nos cursos. Nesses casos, a colaboração torna-se possível – nos casos analisados – pelo
recurso à autoridade dos argumentos ao invés do tradicional argumento de autoridade que
possa ser exercido de parte a parte.
O trabalho colaborativo entre orientadores, seja na mesma área ou em áreas distintas, é
ainda escasso, mas nem por isso menos promissor. Esse tipo de trabalho esbarra em duas
dificuldades centrais. A primeira, relacionada à argumentação de Krahe (2009) é a
organização fragmentária do trabalho docente na universidade: a maioria dos cursos e
estudantes de licenciatura está distribuída por unidades (na UFSM, os Centros) cujo foco não
é a formação docente, enquanto a maioria dos professores e pesquisadores que trata de
docência não está em tais unidades, funcionando, de certo modo, como prestadores de
serviços cuja relevância pode ser reconhecida em maior ou menor grau pelas instâncias nas
quais tais porfessores atuam. A segunda dificuldade é o desconhecimento mútuo sobre o
trabalho desenvolvido pelos colegas que, em tese, desempenham funções similares. Fica
evidente nas entrevistas que os problemas e questionamentos trazidos pelos estagiários tem
muito menos relação com o foco disciplinar específico de sua formação, do que com o ethos
do contexto no qual os professores em formação inicial se inserem. Ainda assim, a
organização para o acompanhamento de estágios segue sendo pautada pela divisão isolada das
áreas. Falta, para dizer o mínimo, uma perspectiva menos rigidamente disciplinar.
Por fim, a colaboração entre professores da universidade e da escola, é, como sugerem
as entrevistas (e não desautorizam os PPCs), um assunto sempre para amanhã
50. É uma
vontade, um desejo, uma intenção, mas raramente tem se mostrado como constatação. Na
regra, ambos os profissionais seguem trabalhando isoladamente e seu convívio, quando
ocorre, é efêmero e praticamente protocolar.
A outra frente de resistência ao isolamento é a busca de integração. Sua forma
aparentemente mais comum é a busca de conectar o trabalho feito nas práticas de ensino com
aquele feito em outros componentes curriculares. Esse processo seria facilitado por um
constante e sistemático revisitar do trabalho feito que permitiria, como argumenta
Darling-Hammond et al. (2005, p. 392), o refinamento da compreensão que se tem sobre ele. Os
componentes curriculares transversais de prática de ensino do Curso de Pedagogia (as PEDs)
são um bom exemplo dessa preocupação. Há que se considerar, entretanto, as consistentes
dificuldades encontradas para sua implementação de modo efetivamente transversal e
minimamente participativo. Também foi observado um movimento conciliando pesquisa e
ensino nos estágios do Curso de Artes Visuais com potencial para integrar, ao longo do
período agora mais prolongado de envolvimento com estágios, o desenvolvimento
50A imagem aqui é emprestada de “Through the Looking Glass”, continuação de Alice no País das maravilhas,
publicada em 1871 por Lewis Carroll. Numa passagem emblemática do livro, a Rainha diz a Alice que a
regra para receber geleia como recompensa é que essa seria amanhã, mas nunca hoje ou ontem. O trocadilho
da Rainha passou a ser usado quando se quer referir a uma promessa nunca cumprida.
profissional dos estagiários com questões de relevância para a escola.
Há também algumas formas emergentes de integração através da reunião de esforços
de pesquisa ou do robustecimento do conjunto de atividades desenvolvidas nos laboratórios
de prática de ensino
51. O impacto mais significativo dessas formas está em seu potencial de
fazer frente ao isolamento dos professores da universidade e de tornar possível o
compartilhamento de avanços feitos. Entretanto, poucas menções são feitas a esse tipo de
alternativa.
Ainda é interessante registrar que o acompanhamento de egressos, tal qual é feito pelo
Curso de Educação Especial, funciona como importante mecanismo de integração e permite
construir alternativas de aproximação entre universidade e escola através de uma rede de
cooperação com os egressos do curso. Essa situação de diálogo continuado, no entanto, é
pouco comum na universidade.
A terceira frente de ação para lidar com o isolamento tem relação com a busca por
mecanismos de participação no âmbito das práticas de ensino, dos quais três merecem
particular destaque. No Curso de Química, por proposição dos professores orientadores de
estágio junto ao Colegiado de curso, as apresentações finais dos estágios são feitas por bancas
constituídas, além do orientador, por qualquer profissional da área. Os estagiários, com muita
frequência, tem convidado os professores que os receberam nas escolas. Como essas bancas
são feitas de forma concentrada e assistidas por colegas e professores do curso, as
interlocuções havidas – e há unanimidade entre coordenadora e orientadores – têm trazido
uma perspectiva bastante interessante sobre questões da escola e do ensino de química
52, além
de gerarem por parte dos professores da escola uma atitude muito favorável ao acolhimento
de estagiários e de colaboração com seus orientadores. Outra experiência relevante também
relacionada à sistematização final dos estágios é a realização de um seminário pelos
51Apesar de não ter sido muito mencionados, os laboratórios nos quais vários professores desenvolvem
atividades de prática de ensino (LAMEN) parecem cumprir um papel aglutinador no contexto do
Departamento de Metodologia do Ensino. Não por acaso, creio, os esforços mais consistente de trabalhar de
modo não isolado são provenientes de professores e áreas nas quais há maior volume de atividades sendo
desenvolvidas nos laboratórios de prática de ensino(História, Química, Matemática e, mais recentemente,
Filosofia).
52
Apesar da área de Química ter nacional e internacionalmente uma participação vigorosa no campo da
educação científica, o curso na UFSM vem de uma tradição forte da Química Industrial. O programa de
pós-graduação em Química, que não tem qualquer linha ligada ao ensino é o único da instituição com conceito
máximo na CAPES. Docentes do departamento com algum interesse nessa questão tem como alternativa o
credenciamento junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências: Química da Vida e Saúde,
desenvolvido em conjunto por professores da UFRGS, FURG e UFSM.
estagiários do Curso de História. Todas as atividades desenvolvidas, incluindo a organização
da programação, divulgação e apresentações são feitas pelos estagiários. Apesar da baixa
participação de professores das escolas (o evento relatado na entrevista ocorrera num sábado),
a coordenadora do curso e o orientador de estágios acreditam que seu maior mérito é instaurar
uma discussão importante sobre ensino de história sob a perspectiva da experiência de
inserção dos professores em formação em contextos educacionais diversos.
A terceira experiência relevante sobre participação como estratégia para romper o
isolamento vem do curso de Filosofia. Em função do retorno da disciplina ao currículo do
ensino médio e de sua inclusão nos processos seletivos da universidade, a área tem se
deparado com a necessidade de discutir e fazer avançar entendimento sobre o ensino de
filosofia para além da universidade. Assim, diferentes instituições superiores de ensino de
filosofia existentes na cidade tem trabalhado juntas para a criação e consolidação de espaços
para discussão, com envolvimento de professores do ensino médio e professores das
faculdades e da universidade. Acreditam assim estarem somando esforços – ao invés de
dividi-los – para criar condições para o fortalecimento da área. Numa outra vertente, na
universidade tem acontecido um seminário sobre filosofia na escola, centrado nas
apresentações de estagiários, com a mediação e participação de professores da universidade e
da escola. Segundo relata a orientadora dos estágios sobre o evento realizado em 2008, o tom
tem sido mais propositivo do que costumava ser e a participação de professores da escola tem
aumentado
53, o que amplia sensivelmente seu impacto potencial sobre as ações da área, tanto
na universidade quanto na escola.
Por fim, na linha do que venho argumentando ao longo desse capítulo, se o panorama
das licenciaturas é, no todo, pouco animador, há, em diversos programas, iniciativas
interessantes na direção de uma relação mais cooperativa, integrada e participativa no âmbito
das licenciaturas. Antes de passar às conclusões do estudo e análise de suas implicações e
limitações, farei, no entanto, no próximo capítulo, um contraponto com a experiência de uma
instituição norte-americana (University of Wisconsin – Madison) em termos de seu processo
de construção de uma parceria com escolas de educação básica com vistas ao fortalecimento
de seu programa de formação docente, da formação continuada dos professores da escola e da
53Acompanhando as notícias pelo portal da UFSM, foi possível ver que no evento realizado no segundo
semestre de 2009 contou com professores da escola como na condição de palestrantes( cf.
http://sucuri.cpd.ufsm.br/noticias/files/arq/26129.pdf).
Como tenho procurado apontar, em que pese os avanços pontuais realizados no âmbito
das práticas de ensino, há ainda um caminho a percorrer no que concerne ao estabelecimento
de uma relação de efetiva parceria entre universidade e escola na formação de professores.
Quando da elaboração do projeto que deu origem a este trabalho de pesquisa, a busca
de referências sobre o assunto reiteradamente apontava para o conceito de Escolas de
Desenvolvimento Profissional
54, cujo uso alcançou projeção, nos Estados Unidos, a partir de
década de 1980 e que sinteticamente refere-se a uma relação de parceria, geralmente
envolvendo uma instituição de educação superior e uma escola de educação básica, em torno
da busca de qualificação tanto da formação docente quanto da aprendizagem dos estudantes
da escola.
Antes de adentrar nesse conceito (o que será feito oportunamente neste capítulo) é
importante reiterar que a preocupação central que subjaz ao presente trabalho diz respeito a
como universidade e escola conjugam esforços no processo da formação docente – inicial e
continuada – e nesse particular, evidências experienciais sobre a dificuldade de estabelecer
parcerias consistentes e mutuamente benéficas e respeitosas entre as duas instituições se
apresentavam mais solidamente do que aqueles que indicavam situações distintas desta.
Assim parecia cada vez mais evidente um descompasso entre o desejo de se avançar –
no processo formativo de docentes – na compreensão e estabelecimento de um trabalho
efetivamente cooperativo entre universidade e escola, inclusive levando em conta, conforme
alertam Zeichner & Liston (1996, p. x-xi) que o foco dos cursos de formação docente tende a
estar em aspectos que, mesmo importantes, não têm sido capazes de estabelecer conexões
adequadas entre o que ocorre dentro e fora das escolas, inclusive porque,
Nas faculdades de educação frequentemente ensinamos o que a sociologia ou
filosofia da educação têm a dizer sobre as escolas, mas tendemos a ensinar como
sociólogos ou filósofos, não como professores lutando com questões cruciais e
altamente controversas.” (ZEICHNER & LISTON, 1996, p. xi)
Em relação ao diálogo entre a pesquisa acadêmica e o conhecimento produzido nas
54No original em inglês, Professional Development Schools, mas muito comumente referida pela sigla PDS.
escolas, é preciso reconhecer que “muitos professores sentem que a pesquisa educacional
conduzida pelos acadêmicos é irrelevante para suas vidas nas escolas”(cf. ZEICHNER, 1998,
p. 208), da mesma forma que muito acadêmicos tendem a subvalorizar a pesquisa
desenvolvida nas escolas por não considerá-las como “[...] uma forma de produção de
conhecimentos” (idem, p. 209). Ao invés de acirrar ânimos, a constatação do autor é posta no
sentido de restaurar espaços de diálogo e de postular uma maior integração entre as pesquisas
e entre as vozes de acadêmicos e de professores atuantes nas escolas, entendendo com isso,
não estar presumida aí uma visão estreita de validação apenas da pesquisa educacional que
tenha utilização prática, mas de um criterioso empenho para gerar maior inteligibilidade entre
ambos e uma maior sensibilidade da academia em relação à possibilidade de vida intelectual
da escola.
A intenção explícita deste trabalho não é alimentar a polêmica, mas alimentar-se dela.
Assim, o propósito deste capítulo é estabelecer um contraponto – e não uma comparação –
entre o que foi possível observar no processo de investigação realizado na instituição
brasileira e o relato de uma caminhada feita num outro contexto. Apesar das diferenças entre
ambos, é possível vislumbrar situações algo similares no que se refere aos conflitos,
limitações e desafios encontrados no que diz respeito aos modos como universidade e escola
participam no processo da formação de professores. A intenção, portanto, é resgatar pontos de
convergência dessas caminhadas, procurando fazer com que tais pontos possam ser tomados
como elementos balizadores de uma discussão que se faz cada vez mais necessária sobre a
relação entre universidade e escolas.
Para tanto, este capítulo está organizado em três momentos. No primeiro, será feito um
breve delineamento do contexto histórico da formação de professores nos Estados Unidos,
com o objetivo de situar onde e como se produz, se encaixa e evolui um conceito como o de
Escolas de Desenvolvimento Profissional. Num segundo momento o objetivo é compartilhar a
vivência, as observações e o diálogo mantidos no âmbito de uma parceria envolvendo
universidade e escola, nos Estados Unidos. Para isso será feita uma contextualização histórica
daquela parceria, permeando tal contextualização com notas, referências e observações
colhidas in loco durante o primeiro semestre de 2009. No terceiro momento a intenção é
destacar pontos que de algum modo se salientam, buscando explicitar, conforme já
mencionado, os elementos de convergência entre os dois contextos tratados neste trabalho. A
expectativa, portanto, é que esse terceiro momento ajude a fornecer elementos a partir dos
quais seja possível – em conjunção com os dados levantados no estudo realizado no contexto
institucional brasileiro – fazer com que as sínteses, conclusões e implicações do presente
trabalho sejam evidenciadas, assim como suas limitações.
No documento
acervo.paulofreire.org Este documento faz parte do acervo do Centro de Referência Paulo Freire
(páginas 170-177)