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3 TEORIA DO PERFIL CONCEITUAL

3.3 FORMAÇÃO CONTINUADA E PERFIL CONCEITUAL

O primeiro aspecto que inevitavelmente vem à tona em relação ao uso da Teoria do Perfil Conceitual no escopo deste trabalho são as dissimilitudes entre os contextos e interesses de investigação. No trabalho de Mortimer et. al. (2014), o que se encontra é um interesse de investigação predominante no ensino de ciências, mais especificamente no aprendizado conceitual, de modo que a Teoria de Perfil Conceitual entra como uma forma de auxílio, utilizando de modelos para uma melhor compreensão dos processos que mediam este aprendizado. Outra questão que os autores se interessam são os conceitos que apresentam uma maior polissemia comparado a outros que não, de sorte que não é de interesse deles construir perfis conceituais para todo e qualquer conceito. Também, o interesse maior é em conceitos centrais de uma dada ciência, e não periféricos.

Por conta de o foco ser este aprendizado conceitual, naturalmente os contextos de investigação presentes nos trabalhos referentes ao Perfil Conceitual possuem ao menos dois dos domínios genéticos, ontogenético e microgenético, voltados à sala de aula do ensino básico (ou mesmo superior). Enquanto que neste trabalho, o âmago da investigação está em torno da Formação Continuada de Professores, a qual não necessariamente se situa em uma sala de aula

convencional de escola. Qual a importância então de se construir um perfil conceitual sobre Formação Continuada? A primeira parte da resposta, em consonância com o que Mortimer aponta como sendo um aspecto que faz com que certos conceitos sejam interessantes para a construção de seu perfil e outros não, é o fato da Formação Continuada ser um conceito polissêmico. Como já abordado no capítulo de Formação de Professores, o conceito de Formação Continuada está atrelado às vicissitudes da sociedade, a outros conceitos da Educação como a escola, o currículo, o ensino, a figura do professor, a modelos de Formação, o que faz com que existam várias compreensões diferentes deste conceito. Em síntese, o que se observa é que o conceito de Formação Continuada é polissêmico, sendo esta polissemia derivada de aspectos epistemológicos e ontológicos, conforme será aprofundado adiante.

A segunda parte da resposta se refere ao aspecto de tomada de consciência do Perfil Conceitual. Quando Mortimer (1996) aborda essa questão, ele a analisa do ponto de vista do estudante, afirmando que em seu processo de ensino-aprendizagem, a tomada de consciência de seu perfil conceitual sobre determinado conceito elevaria as chances deste estudante de selecionar melhor seus modos de pensar e falar em cada um dos contextos de utilização que o conceito em questão iria demandar. Adaptando essa ideia para a Formação Continuada, a tomada de consciência por parte do formador surte um efeito parecido, possuindo dois direcionamentos: a sua consciência das zonas que compõem o seu próprio perfil conceitual de Formação Continuada e de outros conceitos de sua área de interesse;

e a consciência das zonas que compõem os perfis conceituais de seu público-alvo, ou seja, os professores em processo de formação. No primeiro caso, de uma forma ou de outra as ações dos sujeitos são guiadas pelos modos de falar e pensar construídos ao longo de sua experiência de vida. Ter consciência disso é uma forma de minimizar vieses e construção de uma autocrítica que estabelece uma relação dialética com o segundo caso, o da consciência dos perfis conceituais dos professores sobre Formação Continuada. Este aspecto pode ser resumido por meio de duas perguntas reflexivas do formador: “o que eu entendo por Formação Continuada? ”; e “o que meu público alvo espera de uma Formação Continuada,

com base em suas vivências e experiências? ”. Estabelecer um equilíbrio entre estas duas questões é o que possibilita com que o formador adeque o seu modo de falar ao contexto onde irá atuar, sendo os modelos da TPC úteis para atingir esta equilibração.

Essa ideia supõe que existam concepções alternativas de Formação Continuada de Professores, diferentes do que é tratado na austeridade formal da academia. Como visto, existem também aspectos ontológicos a serem levados em consideração, como formulações do âmbito jurídico, mudanças de governos, mudanças sociais, entre outros. Um professor formado na década de 1970 pode ter um perfil conceitual sobre Formação Continuada completamente diferente de um professor formado no século XXI, por exemplo, por conta das vicissitudes do currículo acadêmico. Enquanto um grupo destes professores concordaria e até encorajaria um modelo de formação transmissivo, com traços de treinamento, outro grupo poderia repudiar uma abordagem deste tipo, optando por outras metodologias mais focadas em trabalhos colaborativos, pesquisa-ação, e outras perspectivas.

Nestes casos, a delimitação do perfil conceitual de Formação Continuada pode propiciar a tomada de consciência em um terceiro direcionamento: do professor, alvo da formação, consigo mesmo.

[...] não existe garantia que um indivíduo saiba quais significados são apropriados para cada contexto. Isso é algo a ser aprendido, e aprender isso é aprender sobre a própria heterogeneidade do pensamento e da fala e a diversidade de contextos nos quais os utilizamos. (MORTIMER, 2014, p. 36)

Ora, uma vez que o professor saiba quais tipos de formação melhor o beneficiam, a tendência é que este crie um filtro para que sua Formação Continuada seja a mais objetiva possível. Além disso, é o caso do professor também tomar consciência de seu próprio perfil conceitual sobre um determinado conceito de sua área de interesse e ensino. Por exemplo, será que todos os professores que já passaram por alguma formação inicial sabem que o conceito de fração possui também uma zona que a relaciona com a música? Note que isso não só não suprime concepções alternativas, como até encoraja o trabalho com elas: mesmo que atualmente o foco da Formação Continuada seja outro, um professor cujas zonas

em maior evidência de seu perfil conceitual remetem a um tipo de formação com caráter de treinamento, não está necessariamente errado. E isso ainda supõe, de uma forma ou de outra, um aprendizado conceitual de Formação Continuada, ou seja, um formador que seja capaz destes três direcionamentos de tomada de consciência do perfil conceitual de Formação Continuada, quais sejam, do formador consigo mesmo, do formador com seu público-alvo e do professor consigo mesmo, está efetivamente ensinando o professor a se formar. Esta compreensão, ou seja, a consciência do sujeito para a sua própria forma de pensar neste conceito, tem um potencial de ajudar a diminuir as resistências às mudanças mencionadas no capítulo de Formação Continuada, bem como promove o aspecto contínuo da Formação e situações de aprendizado mais condizentes com os pressupostos da Andragogia.