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Formação inicial com vistas a minimizar o “choque com a realidade”

Capítulo 5: Apresentação e Análise dos dados

5.5 Formação inicial com vistas a minimizar o “choque com a realidade”

Supervisionado, a natureza e as características das atividades desenvolvidas pelos futuros professores se aproximam muito de uma condução desejada para a realização de Estágio Supervisionado, uma vez que propõe a superação da Parceria Dirigida em que é a universidade quem determina as ações a serem desenvolvidas e a escola é quem, meramente, executará tais ações.

Este tipo de relação pode acarretar em perdas para os futuros professores, uma vez que a escola não é convidada a pensar, colaborativamente, a formação destes professores. Deste modo, os futuros professores podem conhecer apenas uma parte da escola: a sala de aula. Em outros casos, as portas da escola nem serão abertas, como podemos perceber no relato de Lucas:

“Então eu acho que a grande vantagem do PIBID é isso, ele te dá uma outra visão. Porque, normalmente, quando você é aluno da graduação, você vai fazer um estágio, é complicado, você não consegue, eu pelo menos não consegui, fui em várias escolas e tal, e não conseguia fazer o estágio. Aí eu fui numa escola pública que é aqui, razoável, uma pública com princípios bem fundamentados, cheguei lá e a coordenação falou pra mim: ‘onde que eu assino o estágio?’ Eu falei: ‘não, não quero que a senhora assine o estágio, eu quero ir na sala de aula, eu quero ver a realidade’.” (Lucas, entrevista realizada em 21/03/2012)

Por entendermos que estes futuros professores passarão pelo período de Iniciação a Docência (Tancredi, 2009; Gama, 2007) e que neste período poderão sofrer um “choque com a realidade” (Huberman, 1992; Silva, 1997) apontamos para a necessidade dos cursos de formação inicial de professores pensarem estratégias de minimizar este impacto com o contexto escolar.

Como apontamos anteriormente, esse choque pode ser minimizado quando possibilitamos aos futuros professores o conhecimento do contexto escolar, os procedimentos seguidos pela escola, a forma como os professores mais experientes conduzem suas aulas, mas esse conhecimento não deve estar restrito a uma teoria, ou a uma prática e sim previsto na articulação teoria e prática.

“[...] eu sabia a realidade da escola pública, acredito eu que alguns alunos daqui do PIBID não sabiam e tiveram um choque, porque acharam que era uma coisa e é outra” (Diogo, entrevista realizada em 19/03/2012)

Embora se reconheça que estes futuros professores já passaram um tempo considerável na escola – enquanto alunos da educação básica - e que, por este fato já a conhecem, é preciso ressaltar que a visão que estes possuem sobre a escola é uma visão de aluno, portanto este olhar, por vezes, é restrito. Deste modo, pensar em ações que propiciem essa tomada de consciência do contexto escolar possibilita uma ampliação deste olhar e pode, ainda, possibilitar a melhoria na qualidade do ensino uma vez que se planejam ações considerando as potencialidades e as fragilidades dos alunos que estão na escola de Educação Básica.

Como já apontamos anteriormente, esta ação foi desenvolvida no PIBID Exatas – PUC/SP e percebemos que foi de grande proveito para os futuros professores, sobretudo pelo fato de terem que desenvolver, em um momento posterior, projetos de intervenção:

“[...] o objetivo era justamente você ter o primeiro contato, o primeiro contato com a escola, porque ninguém ia chegar lá falando de um plano de intervenção com uma clientela que a gente não conhecia, que é uma coisa importante conhecer a clientela, e essa parte foi de uma dupla que não era a nossa, mas foi de grande valor para o plano de ação e de intervenção por que, porque a partir do momento em que você conhece a clientela que você está trabalhando, você desenvolve um plano adequado para aquele tipo de gente, de cliente.” (Diogo, entrevista realizada em 19/03/2012)

Nesta vivência os futuros professores puderam superar uma visão preconceituosa da escola pública e, ainda, refletirem sobre a escolha profissional:

“A gente se fazia essa pergunta, está valendo a pena isso aqui? Apesar da bolsa, do valor da bolsa, que outro valor que a gente está carregando para isso? [...] Então, para mim, a principal contribuição do PIBID se eu

sair amanhã vai ser essa, vale a pena gastar tempo com aluno? Sim ou não? Se for sim, você é professor, se for não, desiste e vai procurar outra coisa para fazer.” (Diogo, entrevista realizada em 19/03/2012)

Podemos perceber que este tipo de reflexão, de certo modo, pode ser decisiva para que o futuro professor escolha ou não essa profissão. Entendemos que as ações iniciais do PIBID Exatas – PUC/SP foram marcantes para os futuros professores, sobretudo pela relação que eles conseguiram estabelecer entre a vivência no PIBID Exatas – PUC/SP e as discussões teóricas feitas no curso de formação.

“Ah, eu tenho aprendido muito com relação à prática. Como eu te falei, lá é a prática, tanto é que os trabalhos que costumamos fazer na faculdade, com relação às disciplinas pedagógicas, eu faço com muita facilidade, porque é o que a gente tem feito desde o princípio, tenho contato com isso, então eu estou sem dificuldades em relação às disciplinas pedagógicas, por causa da vivência no PIBID, eu acredito. [...] Eu aprendi muita coisa na prática, mexendo. Tive acesso ao PPP da escola, nós fizemos um levantamento, aquela coisa toda, tanto é que eu tirei dez nessa disciplina, porque eu tinha tudo, já.” (Júlia, entrevista realizada em 21/03/2012)

Isso também fica evidente à medida que percebemos a influencia destas ações na ações que os futuros professores desenvolvem em outros espaços formativos:

“[...] eu fiz meu estágio no Ensino Médio, tudo aquilo que nós fizemos no PIBID eu apliquei no estágio e foi, assim, uma contribuição pra escola que o diretor queria. Já que o diretor abriu as portas pra mim, ele não queria que eu ficasse só assistindo, ele queria que eu fizesse um projeto lá e então eu fiz uma avaliação diagnóstica, apliquei, e aí peguei a deficiência dos alunos e a partir dali eu trabalhei em cima, dei algumas aulas de reforço. Então, aquilo que fiz no PIBID eu pude aplicar no estágio, então eu vejo que tudo que eu tenho aprendido no PIBID é a pratica de um professor no dia a dia, diferente do curso, um agrega ao outro, a teoria e a prática, e o PIBID, no geral, é a prática de tudo aquilo que eu tenho aprendido no curso.” (Júlia, entrevista realizada em 21/03/2012)

Além desta relação teoria e prática, os futuros professores apontam que ações como as desenvolvidas no PIBID Exatas – PUC/SP podem contribuir para a melhoria do ensino na educação básica e até mesmo nos cursos de formação de professores:

“[...] eu acredito que a tendência é melhorar, principalmente por isso, por causa desses projetos, você vê que antigamente ninguém se preocupava, a própria CAPES não se preocupava em investir dinheiro na formação de licenciandos que estão terminando, ali, o curso, para que eles conheçam o local suposto onde ele vai trabalhar antes que ele entre.” (Diogo, entrevista realizada em 19/03/2012)

Este relato nos remete à Política Nacional de Formação de Profissionais do magistério da Educação Básica (Brasil, 2009) instituída pelo Decreto 6.755 em que fica evidente o papel da CAPES em relação a Formação de Professores:

Art. 10. A CAPES incentivará a formação de profissionais do magistério para atuar na educação básica, mediante fomento a programas de iniciação á docência e concessão de bolsas a estudantes matriculados em cursos de licenciatura de graduação plena nas instituições de educação superior. (BRASIL, 2009)

É evidente que um projeto desenvolvido por meio de Parceria Universidade – Escola possibilita uma vivência significativa e pode potencializar a formação inicial do professor, assim como pode ser um fator contributivo para a minimização do possível choque com a realidade nos primeiros anos da docência. O PIBID possibilitou a superação de alguns pré-conceitos negativos atribuídos à escola pública, aspectos que tornam a carreira nesta instituição pouco atrativa. Neste contexto, fica perceptível a influência das Políticas Públicas voltadas para a Formação inicial na perspectiva de contribuir para o aumento da atratividade da carreira docente, tal como veremos a seguir.