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2.2 RAÍZES CULTURAIS BRASILEIRAS E SUA EXPRESSÃO NAS

2.2.3 Formalismo, jeitinho, malandragem, flexibilidade

Os aspectos culturais dos quais trataremos neste item parecem originários da existência de dois aspectos algo antagônicos e de alguma forma complementares na cultura brasileira: o legalismo e o personalismo.

Do personalismo mostramos suas raízes ibéricas e sua forte presença na cultura brasileira, no item anterior. O legalismo parece ter origem igualmente antiga, sendo

característica lusitana, e, mais ainda: remete à influência judaica sobre os portugueses (FREYRE, 1996, p. 229).

Os portugueses transplantaram ao Brasil todo um corpo de leis não necessariamente adaptadas à nossa realidade e de forte conteúdo autoritário. Junto com este corpo de leis, a idéia de que possíveis problemas devem ser prevenidos estabelecendo-se uma lei. Assim, desenvolvemos um gosto pela legislação que se expressa em várias instâncias e circunstâncias, de uma Constituição exagerada que se propõe a arbitrar sobre quase tudo aos “não pode” presentes em regulamentos quotidianos que, consistentemente, submetem os cidadãos ao Estado (DAMATTA, 1997, p. 98).

Barros e Spyer Prates (1996) relacionam o legalismo à dimensão de Hofstede “Evitar Incertezas”. Uma das formas de prevenção contra a imprevisibilidade do futuro seria um exacerbado uso das leis, que seria, portanto, esperado nos países que possuem alto índice na dimensão citada. De fato, observa-se que Portugal é o segundo país com maior pontuação nesta dimensão, enquanto o Brasil, como já mostramos, apresenta pontuação bem acima da média.

O legalismo, como dizíamos, aparece no Brasil acompanhado do forte traço de personalismo, resultando, como aponta DaMatta (1990, 1997, p.96-97), num sistema dividido e em equilíbrio, em que o brasileiro oscila entre ser indivíduo – sujeito das regras universais – e pessoa – sujeito das relações sociais.

Em nossa história, a lei não formal do engenho sempre foi mais importante do que o pacote de leis do Estado. Assim, nossos sistemas de relações tendem a ser mais fortes do que qualquer lei escrita. Instala-se, então, o formalismo, definido como a discrepância entre nossas Instituições Sociais, Políticas e Jurídicas e a prática social.

Soma-se a estas características brasileiras, a tendência do formalismo ocorrer em países em desenvolvimento e dependentes, pela tentativa de ascensão destes numa estratégia de transformação da realidade por força da lei e/ou ou por efeito da subjugação daqueles dos quais dependem (PRESTES MOTTA; ALCADIPANI, 1999;

BARBOSA, 1992). Esta lógica poder ser transportada à realidade das empresas brasileiras, que importam programas prontos de gestão, seja por imposição de suas matrizes, seja pelo seu próprio desejo de transformação via imposição de receituários aos seus funcionários.

Oprimido por legislações ostensivas e autoritárias que, via-de-regra, não traduzem seu interesse e, ao mesmo tempo, sabedor da força das relações sociais, o brasileiro se faz malandro e procura dar um jeitinho nas adversidades. Com o jeitinho, estabelece-se uma válvula de escape, uma estratégia de sobrevivência diante das negações que a vida oferece.

O enredo e personagens do jeitinho são bem conhecidos, como aponta DaMatta (1997). Um cidadão comum deseja uma coisa, mas a legislação não está a seu favor. Ele apresenta sua solicitação a alguma autoridade, que a nega, cumprindo a lei. Criado numa casa em que desenvolveu manhas para conseguir satisfazer suas necessidades (DAMATTA, 1997), o cidadão comum apela, de maneira bem natural, à autoridade: não haverá como dar um jeitinho?

O jeitinho situa-se entre um favor e a corrupção (BARBOSA, 1992). Não é algo que a autoridade esteja em condições regulares de fazer. Tampouco se trata de corrompê-la pelo oferecimento de dinheiro ou algo de valor. Trata-se de apelar à compaixão, à sensibilidade ou ao bom-senso de quem está na posição de dar ou não um jeitinho. Várias concepções estão aí implícitas e partilhadas socialmente, permitindo o desenrolar do enredo do jeitinho: há algo além do pode e não pode da lei, as leis nem sempre são justas ou coerentes, o julgamento do aplicador pode estar acima da lei. Tais concepções estão, certamente, longe de serem universais.

Jeitinho e malandragem, derivando do formalismo, parecem ser uma resposta aprendida pelo brasileiro que não compõe as elites à distância de poder, ao autoritarismo, ao legalismo. Tal resposta será tão mais eficaz quanto mais efetivas forem suas relações pessoais (ainda que alguns jeitinhos não dependam disso). Quanto mais contato tiver com pessoas importantes, com políticos, com funcionários públicos em posição de decisão, eventualmente com empresários, menos

dependente da crueza da Lei. Quanto mais amigos e padrinhos, melhor, pois “aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei” (DAMATTA, 1990).

Se fica claro o ganho àquele que obtém um jeitinho, faz-se interessante também refletir um momento sobre o que ganha, afinal, aquele que concede o jeitinho. Por que este se motiva a infringir uma regra em benefício de alguém que talvez sequer conheça? Prestes Motta e Alcadipani (1999) apontam para o fato de que, passando da posição de aplicador da lei para avaliador de sua pertinência e aplicação, o concedente fortalece seu próprio poder. Em relação aos políticos e governantes brasileiros, Chauí lembra que têm seu poder legitimado pelos favorecimentos que fazem e pelas relações de tutela e clientela que são capazes de engendrar.

O jeitinho é, portanto, uma estratégia de adaptação e navegação social que não altera o status quo. Como aponta DaMatta (1997), ao se conceder um jeitinho, nada se modifica, apenas a lei fica um pouco desmoralizada, mas qual o problema disso, se já estamos habituados à idéia de que, entre nós, algumas leis pegam e outras não? Prestes Motta e Alcadipani (1999) mostram, então, que ele funciona como mecanismo de controle social. Como cada um, diante de um problema, faz uso do jeitinho para resolvê-lo, não há razão para um questionamento ou transformação da ordem estabelecida. O brasileiro pode ser eficaz em sua estratégia de resolver problemas, mas, de certa forma, torna-se vítima e prisioneiro da própria malandragem, pois quanto mais bem sucedido, mais perpetua a necessidade de continuar dando jeito nas coisas.

Prestes Motta e Alcadipani (1999) lembram, ainda, que nossa sociedade legalista se paralisaria ou explodiria, caso todas as leis fossem cumpridas rigorosamente e não houvesse o jeitinho. Este funciona, dessa forma, como elemento estabilizador do sistema social que permite a dominação e o controle.

O jeitinho também pode operar como mecanismo de navegação e de controle social nas organizações, suavizando o lado legalista e prescritivo das mesmas. Apresentando, em alguns casos, normatização que tem fins menos operacionais do que de divulgação de imagem, a organização conta e se beneficia com a “transgressão criativa” de seus funcionários, ao mesmo tempo em que transfere a

eles o ônus da responsabilidade (PAGÉS ET AL., 1992). Não nos é estranho ouvir casos de funcionários que burlaram uma norma e trouxeram um excelente resultado para sua empresa. Ele pode ser transformado em herói e a norma pode inclusive chegar a ser alterada ou eliminada. Se sua transgressão bem intencionada, por outro lado, tivesse gerado um escândalo ou um prejuízo, este mesmo funcionário estaria sujeito a ser punido.

Barros e Spyer Prates (1996) destacam, parcialmente ligada ao formalismo e ao jeitinho, a característica brasileira de flexibilidade, expressa em termos de adaptabilidade e criatividade, como sendo uma das mais presentes nas empresas nacionais. A flexibilidade, entretanto, não envolve, necessariamente, a transposição de uma regra ou lei, mas sim a superação de dificuldades (COHEN, 2000), o que, aliás, pode ser creditado ao espírito aventureiro do colonizador português (HOLANDA, 1995, p. 47; RIBEIRO, 1995, p. 70), do qual falaremos mais a seguir.