4.3 O CONTROLE DO TIPO MATERNO
4.3.2 Quero ser grande
A fragilidade e a finitude do ser humano é um dado que marca seu nascimento e o acompanha até a sua morte. É tão presente e inexorável quanto terrível. Não há absolutamente como negá-las e, paradoxalmente, parece ser muito difícil não tentar negá-las, através de inúmeros mecanismos de defesa utilizados na esperança de aplacar a dor que a pequenez provoca.
Nascido prematuro, o ser humano não tem como crescer por si só. Precisa ser protegido, nutrido, orientado e amado por anos, até que ganhe autonomia (ENRIQUEZ, 1990). As figuras da mãe que nutre e do pai que protege são necessidades vitais e por isso revestidas, pela criança, de uma aura de onipotência. A possibilidade de perda do amor dos pais fica associada à morte e, em conseqüência, é geradora de forte angústia. A criança procurará, como defesa, identificar-se aos pais.
O amadurecimento e a vida adulta não livram o ser humano da fragilidade. Se de fato há um ganho em força e autonomia, não há nenhuma garantia em poder escapar de doenças, violência, perdas, acidentes e outros eventos que causem sofrimento. E há sempre a certeza da morte. Resgatando Freud, Enriquez (1990) mostra que persiste uma angústia derivada do desamparo infantil. O ser humano guarda consigo um forte desejo de ser protegido e consolado. Ele tem nostalgia dos pais.
Assim como fez na infância, o adulto tende a continuar buscando figuras poderosas para se identificar. Vai criar substitutos para os pais que sejam capazes, ao menos em seu imaginário, de protegê-lo e amá-lo. Esses podem ser deuses ou outros seres humanos tomados como onipotentes.
Os grupos serão espaços privilegiados para o ser humano buscar escapar de seu sentimento de fragilidade e desamparo e vivenciar as fantasias de proteção, onipotência e perfeição. Um objeto amoroso único caracteriza um grupo. Este pode ser um chefe que, como pai afetuoso, cria vínculos a partir de um discurso amoroso. Os indivíduos colocam esse mesmo objeto amoroso idealizado no lugar de seu ideal do ego, identificando-se uns aos outros (FREUD, 1996).
É bastante interessante que o objeto amoroso do grupo que toma o lugar do ideal do ego pode não ser uma pessoa, mas uma abstração (FREUD, 1996). Todo grupo parte de um projeto e um desejo em comum e possui um imaginário (FREITAS, 2000). O imaginário do grupo pode tomar o lugar de um chefe, ou, dito de outro modo, o chefe pode estar representado pela mensagem que um dia pronunciou e que agora expressa o desejo das pessoas do grupo (ENRIQUEZ, 1990).
O grupo acaba possuindo um eu próprio, captando os movimentos de projeção e identificação dos indivíduos e tornado-se o objeto libidinal comum que toma o lugar do ideal do ego de cada indivíduo que o compõe (FREITAS, 2000). O pai representado pelos deuses e chefes é trocado pelo próprio grupo (ENRIQUEZ, 1990), que é projeção fantasmática do corpo da mãe. Mostrando-se grande e perfeito, o grupo esconde suas fragilidades para devolver fantasiosamente aos indivíduos a potência sentida enquanto criança em relação de amor fusional com a mãe (FREITAS, 2000).
É bastante conhecido o trabalho de Pagès et al. (1992) que mostra como as grandes organizações são efetivamente capazes de tomar o lugar da mãe, uma vez que, como já argumentamos, são os grupos mais proeminentes na sociedade e em melhores condições de se tornarem objetos de investimento libidinal. É dentro das organizações que hoje os indivíduos têm mais possibilidade de vivenciarem suas fantasias de proteção e onipotência (AMADO, 2000).
No mundo agrário, o sustento vinha da terra, e a ameaça, principalmente das forças da natureza. No mundo urbano, as organizações estão em condição privilegiada de serem as deusas da vez, na medida em que dominam a natureza e são fontes de nutrição através do salário dado em troca do trabalho, convidando à devoção a uma nova fé. Trabalhando nelas, o ser humano pode se sentir importante e realizado, uma vez que partícipa da construção do mundo. É lá que os indivíduos vão procurar realizar seus projetos e desejos (PRESTES MOTTA, 1991).
A ameaça vem de não encontrar trabalho ou de perdê-lo, ou seja, de não encontrar abrigo sob a proteção de uma mãe. A ameaça é concreta: é a ameaça de não
encontrar sustento, que certamente faz reviver situações de terror infantil. Como era preciso agradar aos pais, será preciso agradar às organizações.
Agradar às grandes organizações não é tarefa das mais fáceis. Diante da imagem de potência que fazem de si mesmas, o indivíduo se sente muito pequeno e prova, ainda segundo a análise de Pagès et al. (1992), fortes sentimentos de angústia de destruição e de dependência, ao mesmo tempo em que experimenta agressividade face à ameaça que ela representa. Como defesa, desenvolve ainda mais o desejo de onipotência, que projeta sobre ela para com ela se identificar. A imagem de grandeza da organização é alimentada pelos mecanismos internos do indivíduo, que cria uma organização imaginária ainda mais forte que ele toma por ideal do ego.
Enquanto mães, portanto, as organizações são deveras exigentes, quase devoradoras (PRESTES MOTTA, 1991). O indivíduo terá que aderir aos seus princípios e atingir os ideais de perfeição que ela representa. Para ser digno de seu amor, deverá ser tão maravilhoso quanto ela é. A ameaça da retirada de amor por parte das empresas é uma ameaça inconsciente que não abandona os indivíduos. Altos índices de desemprego a tornam ainda mais terrível.
Ao buscar fugir da sua condição de pequenez e finitude, o ser humano é capaz de grandes ilusões que o deslocam da realidade. Ao vivê-las em grupo, abdica ainda do exercício da elaboração e da criação individual (ENRIQUEZ, 1990). Se a religião é uma ilusão surpreendente, na medida em que se funda sobre um amor ausente (FREUD, 1996; ENRIQUEZ, 1990), a ilusão de se tomar as organizações enquanto substitutas da mãe parece não menos surpreendente, se considerarmos, de maneira fria, que, imersas na lógica competitiva do capitalismo, não podem oferecer nada que não esteja ligado ao seu controle e aos seus interesses de lucratividade e sobrevivência.
A organização é capaz de astuta sedução (FREITAS,1999, p. 158-160). Interessa às organizações serem amadas e serem percebidas como capazes de amar. Mas uma organização, não sendo humana, não ama, não tem sentimento (AUBERT; GAULEJAC, 1991). Trata-se de um amor que facilmente poderia ser percebido como irreal e interesseiro, mas é tido como verdadeiro pelo indivíduo que quer ser grande
e precisa de algo com que se identificar. Assim, a idéia da maternidade das empresas, por mais estranha que seja, já é tão incorporada socialmente que não é incomum que o nome da empresa vire um sobrenome do funcionário: é o fulano da empresa X (FREITAS,1997; HARAZIN, 1999).
A singularidade do amor materno das empresas reside no fato de que nos momentos difíceis (dela ou dos funcionários), ao invés de proteger, ela tende a se livrar de seus filhos. Quando isso acontece, o funcionário não perde só o emprego: perde o amor que julgava existir, o sobrenome, a identidade, a fantasia de ser poderoso e imortal.