CAPÍTULO I METODOLOGIA: CAMINHOS PERCORRIDOS
1.2 O TRABALHO DE CAMPO
1.2.2 Formas de coleta de dados adotadas
Em pesquisas qualitativas, os resultados são provenientes de procedimentos que derivam de observação, entrevista, coleta e organização de material documental, entre outros instrumentos que podem ser adotados. Neste trabalho de avaliação da implementação da política de mudança curricular, elegemos, para compor o corpus documental de análise, as seguintes fontes (em versão impressa e/ou eletrônica): registros oficiais dos cursos como projetos pedagógicos, livros de atas, relatórios de avaliação institucional; documentos contendo dados quantitativos de alunos e docentes fornecidos por setores administrativos; outras fontes das bases norteadoras da política universitária, adotada por cada instituição, e entrevistas individuais semiestruturadas.
Consideramos o conceito de Cellard (2010, p. 296), para definirmos o que seja documento em uma abordagem mais globalizante. Em seu entendimento, “[...] tudo o que é vestígio do passado, tudo o que serve de testemunho, é de fato considerado como documento ou fonte [...]”, podendo tratar-se de textos escritos, entre vários tantos registros, até qualificar de fonte de pesquisa um relatório de entrevista, assim como anotações registradas em um processo de observação.
As pesquisas qualitativas trabalham com significados, motivações, valores e crenças, e estes não podem ser simplesmente reduzidos às questões quantitativas, já que respondem a noções muito particulares. Entretanto, os dados quantitativos e
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os qualitativos complementam-se dentro de uma pesquisa (MINAYO, 2008). Minayo (2008a, p. 22) ainda afirma que:
Os dois tipos de abordagem e os dados delas advindos, porém, não são incompatíveis. Entre eles há uma oposição complementar que, quando bem trabalhada teórica e praticamente, produz riqueza de informação, aprofundamento e maior fidedignidade interpretativa.
Tais afirmações vêm ao encontro aos tipos de dados que coletamos, nos quais dados quantitativos não são desprezados, por se constituírem complementares à abordagem qualitativa dos fenômenos estudados. Neste caso, utilizamos dados que resultaram da descrição de fenômenos ou fatos encontrados na documentação, visando a identificar e situar sua ocorrência, principalmente, no que diz respeito a local, tempo e frequência.
Quanto à documentação decorrente das entrevistas, trata-se de abordar as relações dos sujeitos envolvidos que se comportam em função de suas crenças, valores e opiniões, consolidadas em sua prática e sua relação com a valoração que atribuem ao projeto pedagógico, decorrente da mudança com a qual estão comprometidos em implementar. Possibilita, também, desvelar as implicações pessoais e institucionais, conforme o projeto de sociedade que desejam compartilhar.
Assim, a investigação considerou, como fonte primária, as entrevistas concedidas pelos sujeitos que participaram do processo de reformulação das propostas curriculares e de sua implementação e, como fontes secundárias, a análise dos demais documentos (oficiais) recolhidos nas instituições, relacionados com o processo de mudança implementado, bem como a bibliografia específica relacionada ao objeto.
Para investigar a relação existente entre cada mudança curricular e seu processo de implementação de forma situada, houve a necessidade de adentrar no contexto em que ocorreu. Dessa forma, o processo de negociação para acesso ao “campo” passou pelas solicitações e encaminhamentos formais que as instituições exigiram para a liberação da pesquisa, como será explicitado no procedimento ético. Essas
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questões demandaram bastante tempo da pesquisa.
Para o procedimento referente ao levantamento e à organização dos documentos coletados, visando a melhor compreensão do contexto em que se desenvolveu o objeto deste estudo, buscamos o auxílio dos coordenadores de curso e das secretárias das instituições, para acessarmos os documentos autorizados. Tal auxílio foi necessário também para o estabelecimento do contato com os pretensos entrevistados e para a organização da logística de realização das entrevistas, visando à composição do corpus documental a ser analisado. Identificamos como documentos oficiais todos os registros (a que tivemos acesso) produzidos pelos órgãos competentes em nível consultivo, deliberativo e executivo da UEMS e UFMS.
Quanto às fontes secundárias, foram as primeiras a que tivemos acesso. Entretanto, em uma das IES, na busca e coleta desse material, não nos foi permitido pelo colegiado do curso acessar qualquer tipo de ata de reunião. Essa decisão impossibilitou qualquer inferência a respeito desse tipo de documento, para desvelar aspectos do processo de construção dessa mudança institucional, tais como a conexão entre as atividades do grupo e destas em relação à forma como o gestor procurou administrar tal processo.
Na outra instituição, foi autorizado todo e qualquer acesso ao material de arquivo, ali encontramos cinco livros atas: dois deles contendo as atas de reunião de colegiado de curso (RCC) e três deles contendo atas das reuniões pedagógicas (RP).2 Destes três últimos livros, havia dois que estavam numerados em cinco e seis, respectivamente, e um livro de reunião de colegiado de curso que não possuía numeração, mas que foi codificado por nós como RCC, para identificação no momento de tabulação. Os documentos foram disponibilizados pela coordenação
2 É um espaço de trabalho de quatro horas semanais atribuído à organização e ao planejamento das atividades, à elaboração e correção das avaliações dos alunos construídas coletivamente pelos docentes envolvidos nas unidades temáticas (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MATO GROSSO DO SUL, 2003). Atividade esta que foi estabelecida no PPP como atividade ordinária do Curso de Enfermagem da UEMS.
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do curso de enfermagem a partir de arquivos do curso, de sua organização e de seu expressivo volume.
Ao fazermos uma leitura exploratória do material, abdicamos das atas de colegiado, uma vez que seu conteúdo era basicamente de ordem deliberativa e de cunho organizacional/administrativo em sua maioria. Leitura exploratória é aquela que, para Gil (2010), tem como objetivo verificar em que medida a obra consultada interessa à pesquisa. Então, delimitamos, como material de pesquisa, as atas das reuniões pedagógicas das comissões de reformulação pedagógica do curso. A partir de então, passamos aos outros níveis de leitura do material selecionado, como sugerido por Gil (2010).
Quanto às atas das reuniões pedagógicas, identificavam-se diretamente com o objetivo proposto, já que a RP semanal para o curso da UEMS foi uma estratégia de mudança para a efetivação da nova proposta curricular que foi implementada em 2004.
As RPs foram reconhecidas como atividades específicas de “gestão pedagógica”, como denomina Betini (2009). Segundo ele, as reuniões são uma importante estratégia ordenadora do processo de implementação; são espaços reservados para gerenciá-la em relação à prática pedagógica, às intenções e aos acordos estabelecidos durante o processo de construção do projeto e implementação da mudança.
Assim, as atas das reuniões pedagógicas devem retratar, principalmente, a prática pedagógica da sala de aula. Entretanto, como alerta Freitas, não podemos esquecer que essa prática está inserida em um ambiente maior, como está demonstrado na Figura 1.
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FIGURA 1 - Os níveis da organização do trabalho pedagógico
Fonte: Freitas et al. (2011, p. 18).
O autor diz, ainda, ser importante perceber que a estes dois grandes ambientes (instituição e sala de aula) correspondem objetivos que se relacionam, mesmo que de forma determinista. Por um lado, os objetivos da instituição incorporam a função social seletiva constante no projeto pedagógico; por outro, os objetivos pedagógicos das disciplinas.3
Dahlberg (2003, p. 162), referindo-se à organização do trabalho pedagógico, considera que essas reuniões são ferramentas importantes, uma vez que “[...] é o tempo incorporado na semana de trabalho […], para analisar, debater e refletir sobre a prática pedagógica”. Outra importante “ferramenta pedagógica” é o método/procedimento da “documentação pedagógica” (DAHLBERG, 2003), que, neste trabalho, relacionamos com as atas geradas durante as reuniões do curso. Nesses termos, atas são registros administrativos/pedagógicos do trabalho coletivo de implementação do currículo, que chamaremos de “documentação pedagógica”, pautados em Dahlberg, que considera várias formas de produção desse material. Como acreditamos que as fontes selecionadas adequam-se aos formatos e ao propósito referido por essa autora, entendemos ser coerente aplicar tal termo a este estudo.
A autora sugere que, ao utilizarmos o termo, estaremos reportando-nos a dois temas
3Nos dois projetos estudados, as disciplinas sofreram mudanças, e os respectivos conteúdos mantiveram-se agrupados não mais por disciplinas, mas em módulos.
Organização do Trabalho pedagógico global da escola Organização do trabalho pedagógico da sala de aula
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relacionados: um processo e um importante conteúdo desse processo. No estudo por ela realizado, o conteúdo, por exemplo, é o registro do que é dito e feito pelos discentes e da forma como o docente relaciona-se com eles e com seu trabalho. Ela esclarece que essas características técnicas são manifestações externas de algo muito maior – a prática pedagógica (DAHLBERG, 2003).
Essa documentação pedagógica foi organizada e arquivada pelo curso em livros atas tipograficamente numerados (100 páginas) para melhor organização, e neles registradas a descrição dos momentos de socialização do corpo docente, as necessidades, decisões e atividades do processo de trabalho implementado. Tivemos acesso a 80 atas que foram lidas de forma sistematizada como estratégia de apropriação do processo de implementação de mudança curricular. Tais atas foram produzidas durante o período de 2004 a 2008, embora o período estudado compreenda os anos de 2002 a 2011.
Primeiramente, foi realizada uma leitura exploratória rápida de tais documentos, desencadeando um trabalho que se mostrou exaustivo. Durante o processo de organização e leitura da documentação pedagógica, após alguns ensaios, foi elaborada uma matriz, em planilha do Microsoft office Excel 2007 (Apêndice A), na qual fomos agregando e contrastando alguns elementos importantes das atas que evidenciavam o conteúdo no movimento histórico/cronológico do processo.
Organizamos a documentação pedagógica selecionada pela ordem cronológica das reuniões, representadas no quadro abaixo:
QUADRO 1 - Demonstrativo da distribuição das atas pedagógicas por período entre os anos de 2004 a 2008, UEMS, 2014
Período 2004 2005 2006 2007 2008 Total
Quantidade de atas por período 1 5 30 33 11 80
Fonte: Elaborado pela pesquisadora a partir dos dados das atas.
Em relação aos livros, encontramos a seguinte distribuição:
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entre elas, havia uma única ata de reunião pedagógica, com data de 2004, a única ata do primeiro ano de implementação do currículo encontrada;
- 29 atas no livro de ata número cinco; destas, 5 são referentes ao ano de 2005 e 24 ao ano de 2006;
- e 50 atas no livro ata número seis; destas, 6 são referentes ao ano de 2006, 33 ao ano de 2007 e 11 ao ano de 2008.
Os outros documentos oriundos das IES classificadas como fontes secundárias foram: os PP, tanto em versão impressa como em versão digitalizada, cópias de legislações e os relatórios do curso contendo dados estatísticos de alunos, professores e do curso, que fomos solicitando e acessando à medida que a pesquisa se desenvolvia.
Quanto às entrevistas, fonte primária de coleta de dados, demos início aos contatos individuais junto aos colaboradores que seriam entrevistados, simultaneamente, à etapa de negociação dos dados secundários. Para fazermos o contato com os sujeitos, valemo-nos de informações fornecidas pelos cursos, como listas de telefones e e-mails, e enviamos o convite para participação na pesquisa por e-mail. Alguns responderam imediatamente ao convite, porém, para outros, foi necessário fazermos novos contatos via telefone ou pessoalmente.
Estabelecidos os contatos, os que manifestaram interesse em participar do estudo foram também os facilitadores do processo, favorecendo o acesso e a realização das entrevistas, que tiveram como espaço físico salas de reunião ou salas de professores nas dependências das instituições estudadas e locais de trabalho de alguns dos entrevistados que não estavam mais vinculados a essas instituições, nas cidades de Campo Grande e Dourados em MS, com exceção de uma delas que foi realizada nas dependências da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP), campus de São Paulo (SP), visto que um dos entrevistados tinha vínculo empregatício na referida instituição e residia naquele estado.
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corpus documental e como recurso metodológico para analisarmos este estudo. De acordo com Minayo (2008b), as entrevistas podem ser consideradas conversas com intenção definida e caracterizam-se por sua forma de organização.
Minayo (2008a, p. 64) define entrevista como sendo:
[…] acima de tudo uma conversa a dois, ou entre vários interlocutores, realizada por iniciativa do entrevistador. Ela tem o objetivo de c onstruir informações pertinentes para um objeto de pesquisa, e abordagem pelo entrevistador, de temas igualmente pertinentes com vistas a este objetivo.
As entrevistas iniciavam com a apresentação pessoal/profissional, exposição da finalidade da pesquisa e introdução do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) (Apêndice B), em duas vias, assinadas pelo pesquisador e orientador da pesquisa para serem assinadas também pelos colaboradores, sendo uma das vias entregue ao entrevistado e a outra guardada no arquivo do pesquisador, conforme orientação ética.
A entrevista foi baseada em um roteiro semiestruturado (Apêndice C), composto por dois blocos de questões. O primeiro bloco referia-se às variáveis sociodemográficas: sexo, faixa etária e formação acadêmica. Com o intuito de levantar dados de identificação e características do sujeito, esse bloco era preenchido manualmente pelo entrevistado. O segundo bloco, contendo questões relacionadas ao objeto de estudo, iniciava logo após o preenchimento do primeiro e era respondido oralmente, de forma dialogada, sendo esse momento gravado (em dois gravadores) do início ao fim. As 27 entrevistas concedidas perfizeram um total de 37 horas de gravação, que foram transcritas na íntegra.
Os dados obtidos junto aos entrevistados foram todos transcritos e restituídos via e-mail aos respectivos sujeitos para leitura e validação do material. Todo o material foi validado pelos colaboradores, sendo que obtivemos todas as respostas também via e-mail entre o período de 23 de junho de 2013 a 2 de agosto de 2014. Após o retorno de cada texto de entrevista, organizamos as informações em dois blocos de questões. No primeiro bloco, sistematizamos a caracterização sociodemográfica e no segundo os dados gerados a partir das vozes dos colaboradores entrevistados.
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No intuito de mantermos o anonimato de cada sujeito garantido no TCLE, atribuímos a cada um deles um código identificador por meio do número da entrevista; sendo entrevista 01 a entrevista 27, mantendo a mesma sequência em que, cronologicamente, foram entrevistados. Ainda atribuímos a abreviatura “E”, de entrevista, seguida do número da entrevista representados como E01 a E27, acrescentadas as abreviaturas C de coordenador, P de professor e A de acadêmico, seguido, ainda, da sigla da instituição, UEMS ou UFMS, a qual representam e o ano (2012 ou 2013) da realização da entrevista, respectivamente. Por exemplo: E01C- UEMS, 2012.
As entrevistas, como fonte primária dessas percepções, constituíram-se no momento em que os sujeitos participantes generosamente se dispuseram a informar acerca das impressões, sentimentos, opiniões e experiências vividas no processo estudado. Tiveram graus distintos de direção (mais ou menos dirigidas), conforme o interesse da pesquisadora na informação objetivada.
A análise documental consiste em encontrar um sentido para os dados coletados e demonstrar como eles respondem ao problema de pesquisa formulado (DESLAURIERS, 2010). Nesses termos, o tratamento dos dados documentais teve a intenção de captar e explicitar os sentidos apontados pela documentação produzida durante o processo de gerenciamento da mudança curricular instituída. Para isso, foram planejados passos que nos permitiram o levantamento e a organização, conforme etapas sugeridas por Minayo (2005) e Cellard (2010). O primeiro movimento é a organização de todos os dados coletados, isto é, do material. Em seguida, viriam o processamento dos dados, a leitura e releitura desses, a definição das categorias e a descrição. Logo, para cada grupo de documentos específicos do corpus documental, apresentaremos a análise desenvolvida por meio da metodologia denominada Análise de Conteúdo conforme apresentamos no item 1.3.
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