CAPÍTULO I METODOLOGIA: CAMINHOS PERCORRIDOS
1.3 TRATAMENTO DOS DADOS: ANÁLISE DE CONTEÚDO
Inúmeros desafios são enfrentados em processos de implantação e implementação de propostas de mudança no ensino, quando envolvem currículos considerados
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transformadores nas diversas subáreas da saúde. Referimo-nos, principalmente, àqueles que incluem novas metodologias de ensino, ideias, teorias, influências, considerando como espaço de implantação/implementação o complexo universo acadêmico, o que implica na atuação e formação dos docentes e discentes. Esses desafios tornaram-se mais presentes após a proposição das DCNs, que, desde 2001, apontam para outras possibilidades, dando outro tom à formação dos profissionais de saúde e convocando as IES a promoverem a formação profissional inicial (graduação/bacharelado) com o compromisso e a qualificação necessários para atender às demandas do SUS. Desafios esses que vem desacomodando o campo do ensino em enfermagem e possibilitando reflexões que se voltam aos saberes cotidianamente produzidos e reproduzidos no processo de (re)construção da identidade profissional dos egressos.
Procuramos, portanto, a partir das vozes dos profissionais envolvidos nos processos de mudança, identificar suas percepções sobre a trajetória desses processos – da elaboração à implementação –, com o objetivo de que esses profissionais revelassem sua participação durante o curso dessas mudanças, o que daria a nós um indicativo de como eles têm interpretado, integrado, atuado e/ou rejeitado essa nova forma e/ou concepção curricular, em princípio, uma versão inovadora. A complexidade da investigação qualitativa revelou-se, mas a opção metodológica pela Análise de Conteúdo criou uma trilha que ajudou na aproximação possível, neste momento, com nosso objeto de estudo.
Acatamos, desse modo, para a análise dos dados, as recomendações tanto de Trivinos (2006) como de Bardin (2004), no que tange à Análise de Conteúdo, uma vez que, como método, presta-se ao estudo das motivações, das atitudes, dos valores, das crenças, das tendências e da compreensão das ideologias que podem existir nos dispositivos legais, nos princípios e nas diretrizes em uma dada sociedade.
No exercício de esclarecer as questões que nos motivaram a alcançar os objetivos definidos, optamos por ordenar os depoimentos, nem sempre narrados de forma linear, pautados na formulação elaborada por Bardin (2008, p. 44), que, de um
53 modo geral, a concebe como:
Um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens.
Partimos da constituição do corpus documental e submetemo-lo aos procedimentos analíticos em suas três diferentes fases/polos cronológicos: a pré-análise; a exploração do material; e o tratamento dos resultados com a obtenção de inferência e interpretação (BARDIN, 2008). A pré-análise constitui-se do que se chama de “leitura flutuante”. É o primeiro contato com os documentos e, portanto, o momento em que surgem hipóteses e informações provisórias de acordo com o quadro teórico que embasa o estudo. No entanto, conforme salienta a autora, nem sempre as hipóteses são estabelecidas na pré-análise, elas podem surgir, assim como as questões norteadoras, no decorrer da pesquisa. Os textos oriundos das transcrições das entrevistas realizadas integraram também o corpus documental da pesquisa.
O segundo momento corresponde à exploração do material. Essa fase “longa e fastidiosa” consiste em operações de codificação, decomposição e enumeração. Essa etapa de tratamento do material constitui uma transformação, ou seja, é o momento em que os dados brutos são codificados e transformados em uma forma mais organizada, por recorte, agregação e enumeração, de maneira a permitir atingir uma representação do conteúdo ou da sua expressão em unidades de sentido (BARDIN, 2008). Codificar, portanto, implica proceder ao recorte dos temas, que é a escolha das unidades de registro e a escolha de categorias por meio de classificação e agregação. “[...] a codificação é o processo pelo qual os dados brutos são transformados sistematicamente e agregados em unidades, as quais permitem uma descrição exata das categorias pertinentes do conteúdo” (BARDIN, 2008, p. 129).
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organização da codificação compreende três escolhas: “[...] o recorte: escolha das unidades; a enumeração: escolha das regras de contagem; e a classificação e a agregação: escolha das categorias”. Para classificar os elementos em categorias, deve-se observar o que cada elemento tem em comum com os outros. Categorizar demanda um agrupamento por unidades de sentido, que tem como pressuposto transformar dados brutos em dados organizados, produzindo um sistema de categorias. “É o método das categorias, espécie de gavetas ou rubricas significativas que permitem a classificação dos elementos de significação constitutivas da mensagem” (BARDIN, 2008, p. 39).
Nessa direção, a categorização tem como primeiro objetivo fornecer, por condensação, uma representação simplificada dos dados brutos, o que permite reunir um maior número de dados, correlacionando-os para compreendê-los, supondo-se que a decomposição-reconstrução desempenha uma função na indicação da correspondência entre as mensagens e a realidade subjacente (BARDIN, 2008). Assim, ordenar elementos em categorias implica observar, ao mesmo tempo, o que cada elemento tem em comum e o que o diferencia dos demais. Elegemos, para o presente estudo, a técnica da análise categorial, que conforme Bardin (2008, p. 199):
[...] funciona por operações de desmembramento do texto em unidades, em categorias segundo reagrupamentos analógicos. Entre as diferentes possibilidades de categorização, a investigação, dos temas, ou a análise temática, é rápida e eficaz na condição de se aplicar a discursos directos (significações manifestas) e simples.
Nesse sentido, por meio da análise de conteúdo das entrevistas realizadas, ou seja, pelo encontro das unidades de sentido delas extraídas com os outros dados documentais e a bibliografia selecionada acerca de mudança curricular, foi possível traçar uma dada compreensão dos percursos das mudanças implementadas na visão de tais sujeitos, possibilitando uma aproximação possível à nossa questão de pesquisa.
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