• Nenhum resultado encontrado

De acordo com o que foi visto no capítulo anterior relativo ao estudo de caso na empresa Catarinense de Cerâmica, significativa proporção das vendas da empresa é destinada para a exportação. Inclusive uma empresa controlada e lojas foram instaladas em outros países para melhor desenvolver as atividades comerciais internacionais. Na mesma direção de impulsão dos negócios externos constatou-se que as três melhores opções estratégicas de operar consistem nas vendas para outros países (capítulo III, tabela 09, p. 103). Além desses aspectos positivos da internacionalização do comércio, existem formas de estruturação das empresas no sentido de criar condições de alcance privilegiado por meio da negociação triangular da produção exportada para o exterior.

A Secretaria da Receita Federal119 conceitua a triangulação como operação intrafirmas, intermediada por estabelecimentos em países com legislação tributária mais favorável ao negócio. Esse órgão do governo federal exemplifica as operações de importação de petróleo pela PETROBRAS, em que o Brasil importa petróleo e seus derivados da Argentina, porém,

119

SECRETARIA DA RECEITA FEDERAL. Legislação federal disponível em: <http://www.receita.fazenda.gov.br/aduana/Balança/2000/novembro/principaispaises.htm> Acesso em: 19 jan. 2001.

devido ao tratamento tributário mais favorável, as operações financeiras das compras são realizadas em Cayman, sendo o petróleo transportado diretamente da Argentina para o Brasil.

Segundo Schoueri (1995:44), a Corte Fiscal alemã, em julgamento de caso sobre aplicação de treaty shopping120, declarou que os investidores têm o direito de estruturar suas relações jurídicas como melhor lhes convier, inclusive do ponto de vista fiscal. O autor traz em sua obra estudos que apontam a liberalidade do uso de treaty shopping nos países europeus, com exceção da França que faz forte repreensão ao abuso do direito e a Inglaterra, que repreende com menor severidade. Assim o autor afirma que “... os alemães passaram a constituir sociedades de investimentos (holdings) em países de baixa tributação, encarregadas, exclusivamente, de receber os frutos dos investimentos dos contribuintes, retendo-os ou reaplicando-os, sem que chegassem às mãos dos primeiros investidores que, assim, escapavam da pretensão tributária do fisco alemão.”121

As pesquisas sobre a admissibilidade de práticas de treaty shopping, realizadas por Schoueri, também estenderam-se sobre os países das américas. Em sua obra o autor relata que: Estados Unidos da América permite prática de treaty shopping se o objetivo empresarial tem estrutura e posse real das operações realizadas; México não reprime a prática; Canadá faz repreensão; Argentina não permite. Conforme revela o autor, os países asiáticos estão reformulando suas legislações para o combate à prática do treaty shopping em operações fictícias. Quanto ao Brasil, diz o autor que o direito brasileiro não oferece, ao jurista, instrumento referente à interpretação e aplicação da lei que poça impedir a prática do treaty shopping.

Schoueri122 aponta o planejamento fiscal internacional através de treaty shopping e classifica em tipos de estrutura necessárias para obtenção dos resultados desejados:

a) - pela estrutura de empresas-canais. Situação em que os países A e B possuem acordo de bitributação, em função do qual o país A isenta de imposto os lucros e dividendos gerados em seu país e transferidos para o país B. Uma empresa do país C, sem acordo de bitributação, possui investimentos no país A. Para obter o benefício do acordo entre os países A e B, a empresa do país C cria uma subsidiária no país B, para qual transfere as ações de controle, obtendo o benefício.

120

Treaty shopping, segundo o autor, é uma forma lícita de planejamento fiscal através de acordos de bitributação.

121

SCHOUERI, Luís Eduardo. Planejamento fiscal através de acordos de bitributação: treaty shopping. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1995. p. 43.

122

SCHOUERI, Luís Eduardo. Planejamento fiscal através de acordos de bitributação: treaty shopping. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1995. p. 24-27.

b) - pela estrutura trampolim. Situação em que os países A e B têm acordo de não tributação dos juros oriundos do país A e pagos a residentes no país B. O país C não possui acordo com A ou B. Neste caso, uma empresa do país C efetuou empréstimo para a empresa do país A e, para obter os benefícios do acordo entre A e B, transferiu o crédito desse empréstimo à sua subsidiária no país B. Assim a subsidiária do país B passou a ser credora dos empréstimos efetuados à empresa do país A e devedora da empresa do país C. Em princípio, a subsidiária do país B seria tributada pela receita de juros, mas tem o equivalente de despesas de juros pagos sobre os débitos com a empresa do país C. Além disso, o país B não tributa na fonte os juros pagos ao exterior e o país C não tributa os juros recebidos do exterior.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE, citada por Schoueri123, reconhece a dificuldade de combater as técnicas avançadas de treaty shopping e, para que os efeitos visados pelos tratados se concretizem, sugere que cláusulas do acordo conferindo isenções tenham somente aplicabilidade se tais rendimentos forem submetidos à tributação ordinária no Estado investidor. Nesse caso adverte Schoueri, “Caso os parceiros do Brasil venham a exigir a adoção de semelhante cláusula, deverá ser ponderado o reflexo de tal medida no que se refere ao Parecer Normativo (CST) n.º 62/75, em cujo documento o Coordenador do Sistema de Tributação considera isentos os lucros transferidos do exterior por filiais e subsidiárias de sociedades brasileiras”. Isto significa que esse rendimento estará isento da tributação no país onde é gerado e isento no Brasil pela transferência124. Logo, se o contrato bilateral prevê o mesmo tratamento às rendas dos parceiros geradas no Brasil, este deixará de arrecadar o tributo sobre o rendimento das empresas brasileiras gerado no exterior, como também, sobre o rendimento das empresas estrangeiras gerado no Brasil.

4.2 - Planejamento tributário pelo poder de barganha para interesses

Documentos relacionados