OS AGENTES DO SPHAN
2.7. FORMULAÇÃO DOS CONSENSOS
Experts e ideólogos atuaram como elite intelectual do Estado Novo. Ainda que tenham oscilado em suas atribuições entre a especulação pura sobre a arte ou a datilografia de notificações de tombamento, esse conjunto de agentes esteve seu trabalho destinado a ao esforço intelectual da construção da Nação, em diferentes momentos de seu processo.
Na medida em que construíram a Nação, podem ser considerados intelectuais-políticos (Codato, 2008). Apesar das diferenças em suas origens e trajetórias, esses agentes transmutaram crenças nacionalistas em um projeto de Nação. Como passadistas e coloniais, ou modernistas e construtivistas, esses intelectuais convergiram em torno de um ponto. O barroco é consenso como patrimônio nacional, “tendo em vista seu rendimento simbólico da relação passado-futuro” (Santos, 1996, p.24). O lugar privilegiado que a arquitetura barroca ocupa fornece à “Nação” a realização da civilização nacional, forjando uma memória coletiva comum a todos os brasileiros.
Essa memória inventada e simbolizada pelo barroco exclui da história todos os não-brancos, não-lusitanos e não-católicos (cf. Rubino, 1996, p. 103) e o período Republicano. Esse é também o ponto de equilíbrio entre a arquitetura modernista e a arquitetura colonial.
Apesar dessas diferenças, o Conselho Consultivo do SPHAN assinalou a especialização do saber nas decisões estatais, sob uma forma aparentemente coletiva. Cabe salientar que as decisões sobre o processo total do tombamento foram aparentemente coletivas, uma vez que a decisão dos conselheiros se restringia aos casos em que a impugnação ao tombamento era solicitada.
Os custos da manutenção dos dois grupos antagônicos foram altos para o Ministério Capanema: houve contestação articulada, dentro do próprio Conselho, contra a difusão do estilo arquitetônico modernista, promovida e divulgada pelo Estado, por parte dos intelectuais neocoloniais. Mas houve benefícios em manter os dois grupos como conselheiros. Os grupos concorrentes afastaram as representações nacionais da República
Velha, aprofundando a e consolidando distância simbólica do Estado Novo em relação ao período político pré-1930. Não por acaso, o período entre a Proclamação da República e a Revolução de 1930 está sub-representado entre os bens tombados durante o Estado Novo;
raros são os exemplares de engenhos de café tombados pelo SPHAN.
A exclusão de símbolos da República Velha reforça a legitimidade das transformações promovidas pela Revolução de 1930 e consolidadas pelo Estado Novo. Essa exclusão do período Republicano também promove a crítica antipopular à democracia, à existência de partidos políticos, ao regionalismo. Assim, aclama o Estado Novo e reforça a legitimidade os aparelhos autônomos de Estado como vencedores. Conforme aponta Chuva (2009, p. 288), “o SPHAN participava (...) das redes de nacionalização do regime varguista, que, espalhadas pelo país, integravam paulatinamente grupos dispersos, enquadrando-os em padrões nacionais”.
A despeito dessa disputa interna, o SPHAN se estabeleceu como um lócus burocrático e acadêmico sobre patrimônio (cf. Santos, 1996, p.77). Suas concepções são promovidas e difundidas por meio da Revista do SPHAN, que atuou como um mecanismo de transmissão e legitimação das pesquisas realizadas pela agência estatal. A atividade editorial era um efeito direto dos processos de tombamento. Em especial, efeito das avaliações e vistorias técnicas e dos estudos realizados acerca do patrimônio nacional, trabalho de experts e ideólogos.
Efeito editorial da concorrência com outras instituições que se ocupavam do patrimônio, entre as quais se destaca o Museu Nacional, a Revista do SPHAN funcionou igualmente como instrumento de demonstração de competência intelectual que sustentava todas as práticas que envolviam os processos de tombamento dos bens de patrimônio durante o regime autoritário do Estado Novo. Por isso, apesar dos inúmeros documentos internos e cartas apontarem para a existência de resistências regionais, a Revista do SPHAN não explicita, não divulga e não reproduz conflitos.
Assim como outras publicações estadonovistas, como Cultura Política, a Revista do SPHAN difundia a aparência coesa e coerente da identidade nacional. Ainda que disputassem em torno do modernismo ou do colonialismo, os conselheiros do SPHAN não tinham orientação política regionalista. Tinham conhecimentos regionais em função de sua trajetória, mas não adicionavam elementos simbólicos às resistências regionalistas. Pelo contrário, eram nacionalistas. A ausência de intelectuais regionalistas combativos, como Mário de Andrade (SP), Augusto Meyer (RS) e Gilberto Freyre (PE) no Conselho
Consultivo denotam que a incorporação de intelectuais ao Conselho ocorreu como escolha política do Estado. A presença desses intelectuais seria extremamente custosa à centralização política e à criação da Nação brasileira.
2.8 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os agentes recrutados pelo SPHAN oscilaram entre o patrimonialismo e o universalismo, o bacharelismo e o tecnicismo, o diletantismo e o objetivismo Experts e ideólogos atuaram como elite intelectual, sendo responsáveis por definir o patrimônio nacional. Levada a cabo por agentes de categorias e atribuições distintas, os agentes do SPHAN (ideólogos e experts) representaram seus estados de origem no balanço de bens tombados durante o Estado Novo. Eles polarizaram suas posições em torno do modernismo ou do neocolonialismo, mas essas posições, conforme se verá, não definiram o conjunto de bens tombados. Pelo contrário, apesar das disputas, funcionários e conselheiros do SPHAN convergiram ao elegerem o estilo barroco como síntese do patrimônio nacional. Eles também não valorizaram bens patrimoniais relativos à República Velha, reforçando o rompimento simbólico com o passado intencionado peãs políticas culturais do Estado Novo.
A figura do ideólogo está relacionada à formação geral e à ação racional com relação a valores. No caso do SPHAN, os ideólogos são os membros do Conselho Consultivo do SPHAN, instancia que se caracterizou como ator coletivo e especializado que legitimou o tombamento autoritário dos bens de patrimônio. A maioria dos ideólogos do SPHAN nasceu no Rio de Janeiro ou viveu boa parte na cidade. Essa maioria representou instituições estabelecidas no campo das artes ou do patrimônio, como o MN, a ENBA ou a ABL. Sua formação superior prioritária era em Medicina ou Direito e eram estudiosos de História da Arte ou pintores. Por sua vez, a figura do expert está relacionada à especialização técnica e à ação racional com relação a fins. Os experts do SPHAN foram responsáveis pela burocratização dos processos de tombamento. No caso baiano, na ausência da mediação de ideólogos, os experts realizaram o conjunto estadual de bens tombados mais heterogêneo do período.
Defendemos também neste segundo capítulo que o conceito de cooptação não descreve a incorporação de intelectuais ao SPHAN. O termo retira a responsabilidade dos agentes sobre seus atos quando incorporados a um regime autoritário e impõe exigências conceituais que não podem ser cumpridas no contexto político em questão. Cooptação é um conceito oposto ao conceito de autonomia. E os agentes do SPHAN representaram seus interesses de modo duplo: (a) de um lado, eles tiveram o poder de incluir representações simbólicas regionais entre o patrimônio nacional classificado e protegido pelo Estado; (b) de outro, poder de representação dos interesses “nacionais” nos processos de negociação com proprietários regionais.
CAPÍTULO 3