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OS AGENTES DO SPHAN

2.4. PERFIL DOS IDEÓLOGOS

2.4.2. INSTITUIÇÕES DE ORIGEM

Segundo o arquivo de personalidades do IPHAN/COPEDOC, nenhuma das instituições citadas nas biografias dos Conselheiros do SPHAN entre 1937 e 1945 estava fora do estado do Rio de Janeiro. Portanto, no aspecto regional, existe uma homogeneidade completa das instituições de origem dos conselheiros. Seis deles tinham vínculo com a Escola Nacional de Belas Artes, quatro deles com o Museu Nacional, e outros três com a Academia Brasileira de Letras. Essas eram

"Instituições culturais que se ocuparam do patrimônio histórico nacional gozaram de uma posição privilegiada no interior do Estado varguista não porque meramente celebraram os sucessos da história brasileira e da evolução cultural, mas também porque elas ajudaram a promover uma agenda política mais ampla de um governo federal autoritário, centralizante e nacionalista que avaliou a tradição como a base da modernização" (Williams, 1994, p.46)

O Museu Histórico Nacional pode ser caracterizado como a instituição anterior ao SPHAN mais semelhante ele. Junto ao Instituto Histórico-Geográfico Brasileiro, foi uma das instituições que se ocupou previamente do patrimônio antes do regime varguista.

(Williams, 1994, p. 48). Em funcionamento desde a década de 1920, foi dirigido pó Gustavo Barroso e foi uma das primeiras instituições culturais a celebrar a Revolução de 1930 no país por meio de exposições que atestavam grandes feitos históricos nacionais (ibidem, p. 49). Sob o governo de Vargas no pós-1930, a instituição recebeu doações que representavam as conquistas da Revolução de 1930. Nesse período o MHN aumentou consideravelmente seus espaços. Em função do caráter profundamente patriótico de suas exposições, o museu foi regularmente visitado por oficiais, funcionários públicos, estudantes, militares, diplomadas e turistas estrangeiros. Além disso, o Museu foi muito frequentado por membros da nobreza brasileira, que eram grandes entusiastas da cultura museológica do Rio de Janeiro, no período (ibidem, p. 53).

A Escola Nacional de Belas Artes (ENBA) foi criada em 1890, logo após a Proclamação da República. Essa é a instituição que deu continuidade à Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, criada em 1816. A ENBA foi responsável pela formação de importantes artistas plásticos e arquitetos, e foi lócus do conflito entre neocoloniais e

modernistas, expresso nas disputas entre José Marianno Filho (diretor da instituição entre os anos de 1926 e 1927) e Lúcio Costa (diretor entre os anos de 1930 e 1931). Esse conflito se transfere diretamente para o SPHAN e se reflete especialmente na ocasião da construção do Hotel de Ouro Preto. Outra instituição que exportou conselheiros para o SPHAN é a Academia Brasileira de Letras. Fundada em 1897 por Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Rodrigo Octavio, Silva Ramos e Inglês de Sousa, a instituição atuou como espaço de consagração nacional de escritores brasileiros.

Quadro 2.1 – Estado de Origem e profissão dos membros do Conselho Consultivo do SPHAN

Nome País Estado Instituições Profissão Afonso Arinos de

Melo Franco Brasil MG ABL, HGB,

ABH, advogado promotor,escritor, professor de história do Brasil

Alberto Childe

(Dmitri Vonizin) Rússia - MN, MA arqueólogo, antropólogo, médico, tradutor

Augusto José

Marques Junior Brasil RJ ENBA pintor, desenhista e professor Carlos de

Azevedo Leão Brasil RJ ENBA arquiteto e desenhista Edgar Roquette

historiador da arte, professor da USP

Gustavo Barroso Brasil CE MHN, ABL advogado, político, folclorista Heloisa Alberto

Manuel Bandeira Brasil PE CPII jornalista, poeta e professor de literatura

Osvaldo Teixeira Brasil RJ MNBA, ENBA pintor e historiador da arte Otavio José

Correia Lima Brasil RS ENBA escultor e professor Raimundo Lopes

da Cunha Brasil MA MN etnógrafo, geógrafo e poeta Rodolfo

Gonçalves de Siqueira

Brasil PA ENBA colecionador e diplomata

Rodrigo Melo Franco de Andrade49

Brasil MG SPHAN advogado e jornalista

Fonte: levantamento estatístico e dados elaborados pela autora

49 Presidente do Conselho Consultivo, sem poder de voto.

O Museu Nacional se constituiu como referencia nacional em história natural e antropologia. Ele é criado em 1842 a partir de uma reformulação do antigo Museu Imperial, e foi mantido durante os anos 1930. Seu prédio, inclusive, foi um dos primeiros bens de patrimônio tombados pelo SPHAN, três meses após o início das atividades da instituição. Isso não ocorre por acaso. O Museu Nacional foi a instituição cujos diretores mais se preocuparam com a criação do SPHAN. Conforme mostramos no capítulo anterior, Heloisa Alberto Torres, que se tornaria diretora da instituição em 1938, expressou preocupação quanto ao futuro da instituição, numa condição de concorrência com o SPHAN. Mas isso na prática não ocorreu. O SPHAN e O MN tiveram atribuições distintas e o SPHAN incorporou importantes pesquisadores do Museu Nacional, o que representou uma forma de compromisso bem sucedido assumido pelo Estado e pela instituição.

2.4.3. FORMAÇÃO

Formados prioritariamente em Medicina e em Direito, os conselheiros mantiveram o padrão bacharelesco dos intelectuais da década de 1930. Quase todos os conselheiros tinham alguma relação com o exterior, em especial por meio de estudos realizados na França, ou contatos acadêmicos em países como os Estados Unidos ou a Argentina. Não seria forçoso afirmar que todos estariam a par dos imperativos nacionalistas do período.

Sua formação acadêmica alinhavada com o contato com outras Nações lhes concedeu uma posição privilegiada para formular a narrativa histórica da Nação brasileira.

Distintos dos técnicos contratados pela instituição, que tinham um perfil objetivo e especializado, os Conselheiros eram agentes ilustrados que versavam sobre diversas áreas de atuação. Esses indivíduos eram conhecidos pela produção e estudos a respeito de conhecimentos históricos, jurídicos e artísticos brasileiros. Sua atuação racional com relação a valores nacionais permite vê-los como ideólogos do Estado Novo. Esses agentes escreveram um enorme conjunto de ensaios sobre a arte, o folclore e o patrimônio brasileiros que celebram a unicidade nacional e a inadequação de valores regionalistas. Em

algum momento de suas trajetórias se tornaram professores universitários – situação frequentemente incentivada pelo Estado Novo.

No longo prazo esses intelectuais não obtiveram o prestígio que os técnicos lograram, a exemplo de Lucio Costa, que é lembrado por dar forma material ao Estado moderno Brasileiro. 50 Mas isso se deu por uma importante distinção entre eles. Os experts gravitaram em torno do modernismo no Rio de Janeiro e em São Paulo, e os ideólogos, em torno do neocolonialismo e da recuperação do patrimônio colonial. Tratava-se, antes de tudo, de uma oposição geracional, entre aqueles que sentiam saudades do passado e aqueles que pretendiam criar bens de patrimônio futuros. Ainda que o colonialismo tenha sido o ponto de equilíbrio entre os grupos, os modernistas, na condição de experts, foram aqueles que deram a forma material da State Building brasileira.