Equidade geográfica
BCG FUNDAÇÃO ATAULPHO DE PAIVA
3.4 Fortalecimento da capacidade nacional: obstáculos
Bio-Manguinhos vem conseguindo atender com sucesso às demandas do PNI e de outros programas do Ministério da Saúde, apesar da persistência de obstáculos resultantes de sua atual estrutura jurídica e sua base de financiamento. Esse esforço da instituição contribuiu para a criação no país de uma razoável capacidade instalada para a produção de vacinas – Bio-Manguinhos/Fiocruz e o Instituto Butantan já atendem a 90% das necessidades do setor público, o que corresponde a 90% da demanda de vacinas do país. Tais avanços decorreram do importante apoio governamental ao Programa de Autossuficiência Nacional em Imunobiológicos (PASNI), criado em meados da década de 80, e que por mais de dez anos assegurou a modernização dos laboratórios produtores, resultando em produtos concretos. Essa é uma área com enorme potencial de desenvolvimento, que requer procedimentos e cenários futuros alinhados com o planejamento estratégico de Bio-Manguinhos.
Entretanto, persistem ainda grandes obstáculos nos campos da inovação, desenvolvimento tecnológico e produção em biotecnologia no país. Estudo extenso sobre o tema (Cebrap/Apex/Bio-Rio, 2011) mostrou o quanto ainda é incipiente a indústria biotecnológica no país, o que indica uma situação de grande vulnerabilidade, pela importância estratégica desse setor para a competitividade nacional.
Para superar tal situação crítica de fragilidade da capacidade tecnológica e industrial do país nessa área, a política governamental brasileira constituiu Parcerias para Desenvolvimento Produtivo (PDPs) como componente central da sua política industrial. No entanto, são vários os desafios que se impõem no processo de constituição das PDPs, entre os quais a necessidade de constituir parcerias realmente inovadoras e, sobretudo, critérios que possibilitem a adequada identificação do parceiro que deverá transferir a tecnologia de produção.
A consolidação de Bio-Manguinhos como uma instituição de referência nacional e internacional em imunobiológicos e a sua estruturação como empresa pública vêm, portanto, requerendo da instituição, da Fiocruz e do governo brasileiro a intensificação de esforços para estruturação de um sistema produtivo intensivo em tecnologias inovadoras, com um sistema de gestão flexível para atender a atividades de produção industrial. A instituição deverá se reestruturar para lidar com questões de crescente complexidade relacionadas ao avanço acelerado de novas tecnologias e novos produtos e às novas questões referentes à reconfiguração do mercado global, exportando a sua produção excedente para países em desenvolvimento e mesmo para países emergentes.
Com efeito, essas mudanças institucionais devem ser examinadas em um cenário mais amplo de crescentes demandas globais por inovação e desenvolvimento tecnológico no contexto da Década das Vacinas (Vaccines Collaboration, 2013; Homma et al., 2013), intensificando e acelerando as estratégias no âmbito do
O principal desafio para o Brasil e os demais países emergentes do BRICs é o de definir estratégias adequadas para maximizar a utilização de todo o seu potencial científico e tecnológico, com um programa intensivo e de longo prazo de apoio à inovação, ao desenvolvimento e à infraestrutura no seu parque produtivo de vacinas, assegurando melhor desempenho e maior competitividade internacional dos seus produtores de vacinas no mercado.
Para o sucesso de tal programa, será necessário um esforço de governança da inovação e do desenvolvimento tecnológico por meio de uma ação coordenada em âmbito federal que assegure fontes estáveis e sustentáveis de financiamento e mercado interno para a produção nacional para o conjunto de ações de PD&I e produção de imunobiológicos estratégicos para o país.
Esse esforço de governança deverá compreender também a coordenação de processos de desenvolvimento tecnológico entre as instituições nacionais produtoras, para evitar competição deletéria aos interesses nacionais e desperdício de recursos. É necessário, com essa finalidade, assegurar os chamados advanced market
commitment e o apoio dos respectivos governos e de organizações internacionais
como a Bill and Melinda Gates Foundation, a OMS, a OPAS, a GAVI e o Unicef, para que o Brasil atinja um novo patamar na inovação e produção de vacinas.
Já observamos em publicações anteriores (Homma et al., 2013; Possas et al., 2015) que, caso não haja uma rápida reversão nessa tendência, tal situação resultará em uma perversa divisão internacional do mercado de imunobiológicos. Enquanto os produtores de países desenvolvidos e mesmo alguns países emergentes, como Índia, Coreia e China, vêm se concentrando de forma crescente no mercado de produtos inovadores e mais lucrativos, os produtores de países em desenvolvimento tendem a ficar restritos ao mercado de imunobiológicos tradicionais, apesar dos seus esforços para reverter esse quadro (Jodar et al., 2003; La Force et al., 2007).
Os produtores públicos brasileiros e Bio-Manguinhos, em particular, vêm fazendo um esforço considerável para mudar tal cenário (Homma et al., 2013; Martins et al., 2011). No entanto, para reverter esse quadro, será fundamental adotar estratégias de impacto, fortalecendo a capacidade de inovação de vacinas no país e em Bio- Manguinhos, criando e assegurando a sustentabilidade de parcerias público- privadas, de novas iniciativas de financiamento e de estímulo à inovação, ao desenvolvimento tecnológico e à produção.
Os esforços de produtores nacionais como Bio-Manguinhos devem ser encarados não apenas como estratégicos para a saúde pública, mas também como um componente essencial de uma estratégia nacional para acelerar a inovação e aumentar a competitividade econômica brasileira no campo florescente da biotecnologia, cada vez mais importante para a saúde e a economia globais.
É importante também destacar a necessidade de maior interação entre os grupos de cientistas que trabalham em diversos segmentos da ciência e tecnologia, explorando possibilidades de cooperação em torno de problemas que aguardam soluções, uma vez que a inovação surge da colaboração científica, da formação de redes que incluem competências complementares.
Como bem aponta Thomas Kuhn em sua obra A estrutura das revoluções científicas (Kuhn, 1962), a autêntica evolução da ciência traduz-se por uma revolução, isto é, pelo rompimento com o paradigma vigente e a adoção de um novo paradigma. Tal processo não se faz de forma cumulativa, como ordinariamente se costuma acreditar; na verdade, ele emerge de uma ruptura. É essa revolução, a partir da ruptura com as práticas atualmente estabelecidas, que se faz necessária para que possa efetivamente ocorrer a inovação em vacinas em nosso país. Temos que entender que inovação é o final de todo o investimento na cadeia de inovação. Ou seja: para registrar produtos, temos que ter centenas ou milhares de projetos no início da cadeia.
3.5 Desafios tecnológicos no desenvolvimento e produção de vacinas inovadoras: