Chiquinho é o filho mais novo de Romana e Otávio, e seu maior sonho é trabalhar na fábrica e casar com sua namorada, Terezinha. Chiquinho trabalha no armazém e, segundo ele, o Senhor Álvaro, seu chefe, “tem bom coração”. Apesar de Terezinha achar Chiquinho encrenqueiro e atrapalhado, também alimenta o desejo de casar com o rapaz.
Um certo dia ela perguntou a Chiquinho o motivo do Senhor Álvaro ter-lhe descontado o ordenado e ele respondeu que foi devido a uma turma de moleques que assaltou o armazém. Segundo Chiquinho, os assaltantes foram legais, porque deram para ele frutas e chocolate, logo depois ele confessa que o chocolate que deu à Terezinha há tempos atrás era o chocolate do roubo. Terezinha, por sua vez, fica chateada com a situação e o chama de frouxo e diz que em seu lugar faria uma cena de alvoroço junto aos moleques ladrões:
TEREZINHA – Tu foi sim! CHIQUINHO – Foi o que?
TEREZINHA – Frouxo, mole! Eu dava um escândalo!
CHIQUINHO – Mulhé pode dá escândalo, homem não! Tem de agüentá calado; malandro não estrila, agüenta a mão! (GUARNIERI, 1985, p. 64).
Queremos chamar atenção para a última fala da personagem Chiquinho, quando ele afirma que mulher pode dar escândalo e homem não. Esse trecho fez surgir a música que cantamos em ritmo de coco. Foucault explica que o século XVIII foi primordial para
115
que a família tornasse a sexualidade como algo fixo em seu interior e assim tornar-se o lugar de ternura e afeição. Para ele, o dispositivo86 de sexualidade está conectado ao dispositivo familiar e as relações de poder tornam-se cada vez mais permanentes neste território. Logo, faz-se coerente uma explicação sobre este aspecto, tendo em vista que nosso objeto de estudo se refere a uma dramaturgia que trata de relações familiares.
Sobre o dispositivo da sexualidade Foucault (2015) aponta que foram criadas táticas que estabeleceram dispositivos de poder relacionados ao sexo. Como exemplo de fonte teórica esclarecedora, podemos citar: a Histerização do corpo da mulher (p.113)87, que foi alvo de vários processos, a princípio foi explorado, classificado e em seguida considerado “saturado de sexualidade”. Outro aspecto refere-se às patologias que foram atribuídas a esse corpo e aos seus possíveis tratamentos médicos, por fim, as atribuições do corpo da mulher aos papéis sociais, como a função em criar os filhos, logo toda responsabilidade em educar recaiu sobre a imagem da mãe que passou a ser a “mulher
nervosa” e histérica.
Antes do século XVIII, a educação sobre sexualidade provinha da informação dos médicos, pedagogos e até dos orientadores espirituais. Um século depois é o suficiente para a sexualidade desabrochar no âmbito familiar e com isso fazer surgir novos papéis dentro da família, como nos assegura Foucault:
Aparecem, então, essas personagens novas: a mulher nervosa, a esposa frígida, a mãe indiferente ou assediada por obsessões homicidas, o marido impotente, sádico, perverso, a moça histérica ou neurastênica, a criança precoce e já esgotada, o jovem homossexual que recusa o casamento ou menospreza sua própria mulher (FOUCAULT, 2015, p. 120)
A passagem do texto de Guarnieri em que expõe Terezinha e Chiquinho em uma conversa aparentemente frívola nos fez pensar sobre os papéis sociais atribuídos sobre a figura do homem e, em especial, neste caso, da mulher dentro da sociedade. Vale salientar que identificamos neste episódio a presença da mulher, ou a função cabível atribuída à mulher como um agente importantíssimo para as ações de (micro) relações de poder.
86Segundo o filósofo Giorgio Agamben, quando Foucault usa a palavra “dispositivo” faz referência ao
termo “positividade” estudado por Hyppolite na obra do filósofo Hegel. Segundo Hyppolite, Hegel caracterizou este termo como um componente histórico que carrega regras e leis exteriores impostas aos indivíduos de maneira tão bem articuladas que acreditamos serem naturais. Para Agamben, o maior interesse de Foucault em relação aos dispositivos era investigar seu vínculo com as relações de poder (2009, p. 32).
87FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: A vontade de saber. Tradução de Maria Thereza da
116
A partir desta visualização da relação de poder no discurso entre Chiquinho e Terezinha, sentimos a necessidade de experimentá-la em cena, de modo que escrevemos um diálogo que intitulamos de “O coco Foucault”, na qual a personagem de Chiquinho, em ritmo de coco, indaga a Foucault:
CHIQUINHO –
Seu Foucault meu camarada Me dê uma explicação Se a mulher pode gritar
Porque o homem não pode não?
Logo em seguida, no mesmo ritmo, a personagem de Foucault responde:
FOUCAULT –
Mon ami est la suivante (Meu amigo, é o seguinte) E isto é réalité (realidade)
A família estreita tudo
Sobre a sexualité (sexualidade) Histeriza a mulher
Se apoiando em professor Na igreja e no poder E até mesmo no doutor. Criança feito você Entra no dispositivo Parece mesmo até Não ser um sujeito vivo. Aceite você ou não Assim se deu na história E a vida traz tudo isto Guardada em sua memória88
Nesta cena, danço segurando o coco na mão, colocando-o na frente dos seios, nas nádegas, na vagina e por todo o corpo. Essa intenção é colocada como uma sensação de libertação do corpo feminino durante séculos oprimido dentro da sociedade. Representa também todas as mulheres consideradas histéricas e nervosas. A dança é acompanhada pelo ritmo do coco, que é entoado pelo meu canto, este também varia de língua e na primeira fala de Foucault ele responde em francês à questão levantada por Chiquinho.
No texto de Guarnieri, Chiquinho afirma com convicção que “mulhé pode dá escândalo, homem não!” (GUARNIERI, 1985, p. 64), mas no nosso processo cênico
117
Chiquinho indaga a Foucault “se a mulher pode gritar/ porque o homem não pode não?”, ou seja, ele questiona o funcionamento do comportamento de homens e mulheres e assume a postura de um rapaz sensível em relação aos sentimentos. Essa nova característica efetivada nas ações de Chiquinho nos remete a uma potencialidade nova surgida dentro do nosso processo.