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CAPÍTULO 3: MUNDOS SONOROS, TROCAS E CIRCULAÇÕES

3.3 França: Arquivos da Palavra e o Museu do Homem

Embora se tenha notícias do uso do fonógrafo com finalidades científicas na França desde 1900 com a criação do arquivo sonoro da Société d'Anthropologie de Paris, é no Instituto

227 Ibid. 228 Ibid., p.145. 229 Ibid., p.146.

230ALVARENGA, Oneyda, A discoteca pública municipal. São Paulo: Departamento de Cultura,1942. Separata da Revista do Arquivo

Municipal, n. LXXXVII. p.16.

de Fonética da Sorbonne que Mário de Andrade encontrará inspiração para criar o Arquivo da Palavra na Discoteca Pública Municipal.

O Archives de la Parole232 foi fundado em 1911 dentro do Instituto de Fonética da

Universidade de Paris, e nasceu da iniciativa conjunta do linguista Ferdinand Brunot e do industrial Emile Pathé (irmão do produtor de discos e fonógrafos Charles Pathé), que montaram um sofisticado laboratório sonoro para gravar, estudar e conservar a língua falada. O arquivo é inaugurado com registros de "vozes célebres" 233.

Em 1924, o linguista Hubert Pernot assume o arquivo que, em 1928, passará a integrar o Museu da Palavra e do Gesto (Musée de la parole et du geste), ainda ligado ao Instituto de Fonética. Foi na gestão de Pernot que o arquivo ampliou o escopo de suas gravações assimilando também folclore musical, como comprova o decreto de novembro de 1928 em que instituição assume os objetivos de "coletar e preservar em matéria inalterável as palavras de homens famosos, a dicção e canto de grandes artistas, canções populares e melodias, línguas, dialetos e o patois ..." 234

É nesse contexto que, em 1926 e 1928, as brasileiras Edith Capote Valente e Elsie Houston gravam em discos Pathé canções populares brasileiras para os Archives de la Parole235. Mário de Andrade, que conhecia as duas, sabia das gravações e, na relação de instituições públicas com acervos de música brasileira publicada no artigo "Música e Canções Populares no Brasil", de 1936, indica o museu francês entre os arquivos públicos em que se poderia pesquisar a música brasileira:

6. Musée des Archives de la Parole, da Sorbonne, Paris. Este museu possui uma pequena coleção de canções populares brasileiras em discos cantados por cantoras artistas como sta. Capote Valente e sra Elsie Houston. 236

Como vimos anteriormente, Hubert Pernot estava engajado em uma movimentação mundial de coleta de música folclórica e, naquele mesmo 1928, no Congresso de Artes

232 Atualmente, as coleções sonoras do Arquivo da Palavra integram o Departamento Audiovisual da Biblioteca Nacional da França. Grande

parte do conteúdo está disponível para consulta e audição online no site Gallica.Fr.

233 Entre 1911 e 1920, Ferdinand Brunot registra as vozes de Émile Durkheim, Guillaume Apollinaire lendo a Ponte Mirabeau, Maurice Barrès,

o Comandante Dreyfus falando sobre suas memórias. In: VERDURE, Nicolas. Les archives de l'enregistrement sonore à la Bibliothèque

nationale de France., Vingtième Siècle. Revue d'histoire 2006/4 (no 92), p. 61-66. DOI 10.3917/ving.092.0061)

234 CORDEREIX, Pascal. Les enregistrements du musée de la Parole et du Geste à l'Exposition coloniale. Entre science, propagande et

commerce », Vingtième Siècle. Revue d'histoire, vol. no 92, no. 4, 2006, pp. 47-59.

235 Edith Capote Valente (1926 e 1927) grava Passarinho verde, Ajoeia Chiquinha, Sonho Gaúcho, Fado, Viola Quebrada, Chora chora

choradô e Criorinho de Bahia (1927). Elsie Houston (1928) grava Estrela do Céu, Puxa o Melão Sabiá, Tutu Marambá, Iaia vancê que morrer, Bambo de Bambu. gravações disponíveis em http://gallica.bnf.fr/

Populares realizado em Praga, lançava o apelo para que governos se mobilizassem na gravação fonográfica de cantos melodias populares ameaçadas237.

A principal conexão do Departamento de Cultura com os arquivos sonoros da França teria vindo com os ensinamentos da etnóloga francesa Dina Dreyfus (à época Dina Lévi- Strauss) no curso de Etnografia promovido pelo Departamento de Cultura e ministrado por ela em São Paulo em 1936 com o objetivo de capacitar funcionários da Prefeitura no trabalho de pesquisa de campo para estudo de folclore238. A antropóloga, que havia sido assistente no Musée du Trocadéro em Paris, chegava no Brasil em 1935 com um grupo de pesquisadores franceses que integrariam a recém-criada Universidade de São Paulo.

Em dezembro de 1936, Dina escreve um relatório ao Service des Oeuvres Françaises à

L'Étranger confirmando estar "tentando (...) situar a atividade etnográfica e folclórica do

Departamento de Cultura sob a orientação permanente do Museu do Trocadéro e das instituições folclóricas francesas"239. Como confirma Luisa Valentini (2013) a colaboração de Dina com o Departamento se desdobraria em três frentes:

A realização de pesquisas; a tentativa de instituir no DC o que se concebia como uma investigação em moldes científicos segundo padrões internacionais; e o estabelecimento de conexões com instituições francesas como o Museé de l'Hommme e o Museé des Arts e des

Traditions Populaires, fundados naquele mesmo momento240.

Como confirma Vera Lúcia Cardim de Cerqueira (2016), Dina acreditava estar constituindo em São Paulo um serviço de estudos de etnografia e folclore aos moldes das instituições francesas:

Na expectativa de ser reconhecida como integrante do grupo de profissionais franceses em trabalho na cidade de São Paulo, Dina Lévi-Strauss apresenta um relatório, em 1936, ao diretor do Oeuvres Françaises à L’Etranger, onde expõe suas ações junto ao Departamento de Cultura. Dina relata que seu trabalho tem como objetivo central a constituição de um serviço etnográfico e folclórico, sob a orientação do Museu Etnográfico do Trocadéro e outras instituições francesas.241

237Art populaire : travaux artistiques et scientifiques du 1er Congrès international des arts populaires, Prague, 1928, Paris, Éd. Duchartre,

1931, t. II, p. 104.

238Sobre o curso e a Sociedade de Etnografia e Folclore encabeçados por Dina conferir: CERQUEIRA, Vera Lucia Cardim. Contribuições de

Samuel Lowrie e Dina Lévi-Strauss ao Departamento de Cultura de São Paulo (1935 1938),.2010. 161 f. Dissertação (Mestrado em

Ciências Sociais) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2010. e VALENTINI, Luísa. Um laboratório de antropologia:

o encontro entre Mário de Andrade, Dina Dreyfus e Claude Lévi-Strauss (1935-1938). São Paulo: Alameda, 2013.

239 SANDRONI, Carlos. Mário, Oneyda, Dina e Claude. Revista do Patrimônio Histórico Artístico Nacional, IPHAN.N.30(2002) p. 242 240 VALENTINI, Luísa. Um laboratório de antropologia: o encontro entre Mário de Andrade, Dina Dreyfus e Claude Lévi-Strauss

(1935-1938). São Paulo: Alameda, 2013. p.22.

241 CERQUEIRA, Vera Lucia Cardim de. De Mário de Andrade ao Pavilhão das Culturas Brasileiras Mudanças nas práticas

Em carta de agradecimento pelo curso ministrado, Mário sugere que, ao voltar à Europa, a pesquisadora adquira, para o Departamento "um material completo de medidas antropológicas", e "alguns modelos de formulário de pesquisa etnográfica existentes nos Museus e Sociedades científicas de Etnografia242. Com o apoio do DC, Dina e Claude Lévi- Strauss realizaram, também em 1936, uma expedição etnográfica ao Mato Grosso. A coleção formada na expedição seria apresentada pelo casal na França no Musée du Trocadéro, e resultaria em um convite para que o Departamento de Cultura participasse da Exposição Universal de Paris de 1937243. Em maio daquele ano, Mário de Andrade escreve ao Prefeito Fábio Prado sugerindo que representantes do DC participassem do evento:

O Departamento de Cultura tece, por várias vezes, a honra de receber do sr. Comissário Geral da Exposição de Paris na América do Sul convites para fazer- se representar nos diversos congressos a serem realizados em julho e agosto, tais como os de População, de Ciências Sociais e de Etnografia e Folclore, aos quais poderiam algumas divisões contribuir com trabalhos originais e de grande interesse para a propaganda cultural do município.244

Anos mais tarde, o Musée de L'Homme (antigo Museé du Trocaderó) apoiaria uma segunda expedição do Departamento conduzida de Dina e Claude, em 1938, à Serra do Norte:

... este departamento de Cultura acaba de receber, por intermédio do prof. Claude Lévi-Strauss, um convite do governo francês, para realizarmos de colaboração este Departamento e aquele governo, uma expedição etnográfica aos índios Pareci e Nhambiquara do Mato Grosso… o material recolhido dividir-se-ia em duas partes iguais, uma para o Departamento de Cultura, outra para o Museu Etnográfico de Paris…além da natural importância de um departamento municipal nosso colaborar com um grande país como a França, obteríamos uma documentação etnográfica preciosa, e realizaríamos estudos culturais de importância internacional...245

Da contribuição francesa para o projeto da Discoteca, além das questões de metodologia etnográfica trazidas por Dina, reconhecemos a inspiração para criação dos nomes "Arquivo da Palavra" e "Homens Ilustres do Brasil", e a vontade de desenvolver estudos científicos de fonética e linguística a partir do disco. Como vimos no capítulo, a Discoteca Pública Municipal,

242 Carta de Mário de Andrade para Dina [Dreyfus] Lévi-Strauss. 29 de outubro de 1936. In: CALIL, Carlos Augusto e PENTEADO, Flávio

Rodrigo (org). Me esqueci completamente de mim, sou um departamento de cultura. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015. p.295.

243 O Departamento de Cultura de São Paulo participa do Congresso Internacional de Folclore em Paris, 1937, com a apresentação da

pesquisa de tabus alimentares, coordenada por Dina Lévi-Strauss e representada por Nicanor Miranda. In: CERQUEIRA, Vera Lucia Cardim de. De Mário de Andrade ao Pavilhão das Culturas Brasileiras Mudanças nas práticas institucionais de guarda da cultura popular. PUC - SP. Doutorado em Ciências Sociais São Paulo. 2016 p.33.

244 Ofício do Diretor do Departamento de Cultura ao prefeito municipal informando convite para participação em congresso em Paris. São

Paulo, 24 de maio de 1937. Processo 41.592 (AHSP/SMC).

245 Ofício do Diretor do Departamento de Cultura ao prefeito municipal solicitando-lhe verba para a expedição etnográfica a Mato Grosso

assim como o Museu do Trocadéro, estava alinhada com uma nova museologia, empenhada não apenas na exibição de objetos e sons, mas na produção de documentos e pesquisas.