ENTIDADE/ LOCAL/
4 CONSTITUIÇÃO DE IDENTIDADE DA EDUCADORA POPULAR QUEM É QUEM NO BARCO?
4.4 Francijairo da Silva – Um encontro com o Boto Ulisses
Francijairo foi o único tripulante homem e novato em nosso barco. Apesar de tê-lo conhecido anteriormente através de um contato com o GTPA via AEC, não tínhamos participado juntos de uma formação até o Roda. Confesso que fiquei muito surpresa quando ele aceitou o convite para o embarque nessa viagem. Lembro-me de uma fala que muito me impressionou e que só pude recolher o significado em um de nossos últimos contatos, quando ele me explicou: “Quando disse que era preciso ter cuidado com o trato com a realidade dos Educadores populares visto suas incompletudes, dicotomias, paradoxos... foi por preocupação de que você não se decepcionasse”.
Quanta modéstia tem esse Ulisses! Não só o canto de sereia me seduziu, não só a força e magia do boto Ulisses! Durante a viagem, quantos encontros, encantos! Quanta aprendizagem! Quanto vislumbre!
Francijairo é assim: simplicidade, humildade, coragem, sensibilidade, e cuidado, muito cuidado com o outro! “O contato com o outro... quando a gente percebe esta importância... Cuidado com o descartável tem que ser algo contínuo. Essa coisa de tirar proveito do outro não pode ter significado só num
momento. Ela deve ter sentido até a morte.” Esse cuidado boffiano, essa ética freiriana... esse desejo ulissiano de escutar...
O ser humano tem uma coisa muito bonita. Que é o falar. Acho muito bonito escutar as pessoas, é muito interessante porque nós não temos o hábito de ouvir, as pessoas querem falar. Dar a oportunidade da pessoa falar é muito bom, principalmente o alfabetizando. Às vezes a sala de aula é o único lugar em que ele é escutado. É um desabafo. Aprendi com Paulo Freire.
É preciso coragem para escutar porque escutar o outro sempre implica em escutar- se. Talvez seja esse um dos perigos que Ulisses da Odisséia corre quando pára para escutar as sereias. É preciso disciplina também para escutar.
[...] Ulisses chegou à ilha das Sereias. Curioso em escutar-lhes o embriagador canto, mas temeroso em deixar-se morrer por ele, ele ordenou à tripulação do barco que o amarrassem no mastro, enquanto os demais tapariam seus ouvidos com cera. Não demorou para que das rochas não muito distantes chegasse o som harmonioso e sedutor das sereias: "Vem aqui, decantado Ulisses, ilustre glória dos Aqueus; detém tua nau, para escutares a nossa voz. Jamais alguém por aqui passou em naus escura, que não ouvisse a voz de agradáveis sons que sai de nossos lábios..." - (Odisséia, rapsódia XII)83
Talvez tenha sido essa precaução que levou Francijairo a realizar um movimento muito interessante durante a pesquisa: inicialmente, produziu pouco material escrito. O seu memorial de formação, por exemplo, foi feito apenas com fotos: Na primeira página, fotos dele na posse do presidente Lula, depois, fotos de seus filhos e mulher, algumas formações do CEPACS, fotos com alunos(as), fotos de aniversário, seu local de trabalho, participação em movimento partidário, orçamento participativo, e uma única foto “escolar” de seus colegas do 2º ano do ensino médio. Entendo que, possivelmente, Francijairo possa não ter fotos de quando era criança na escola, mas um memorial de formação como o dele é realmente algo sui generis. No entanto, não deixa de ser uma pista sobre a forma como ele percebe seu processo de formação: muito mais fora da escola que dentro dela. Tentemos conhecer um pouco mais Francijairo:
Francijairo começou a trabalhar com 12 anos. Sua mãe entendia que ele tinha que trabalhar, ler e escrever o nome já bastava.
As iniciativas de estudo foram todas minhas. Comecei a trabalhar com 12 anos. Foi no diálogo que consegui mostrar para minha
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mãe do que eu queria: estudar. Daí a gente se tornou grandes amigos, uma relação de amizade Isso me fez mais sensível em relação à mulher. Uma amiga na escola também, éramos réu- confesso um do outro. [...] As relações conflituosas parecem ser mais verdadeiras do que as que começam harmoniosas.
Nosso pequeno Ulisses, como que seduzido pelo canto da sereia-conhecimento, luta ardorosamente para que possa desprender dos laços maternos, e quando isso acontece, lança-se a esse mar escola, sua única possibilidade de encontrá-la. Vencido esse embate, Francijairo ingressa pela primeira vez na escola aos 12 anos de idade, sendo um aluno muito dedicado. “Tive muita sorte com minhas professoras, estas eram como que segundas mães, me incentivavam, eu tirava boas notas [...] Eu era exemplo pros demais colegas[...] às vezes me sentia mal com isso.” Mas segundo ele, “Não tive tempo de analisar a escola, a ansiedade de entrar na escola não me permitiu analisá-la [...] A vontade de estudar não me permitiu observar a escola ou dela falar. A escola é maravilhosa [...] Na escola aprendi os códigos, a leitura e a escrita [...]”
Observa-se que o desejo que Francijairo tem pelo conhecimento, essa curiosidade ingênua prestes a se transformar em curiosidade epistemológica, já na infância parece ser algo inato, se é que isso existe. Ao ser questionado se teve referência de algum adulto que o tivesse impressionado ou influenciado nesse aspecto, diz não se lembrar.
Talvez esse desejo lacaniano, de falta, tenha suscitado seu desejo pela escola. E, diferentemente de Neide, experimenta nesse espaço uma acolhida muito positiva, que só virá a questionar durante sua participação no movimento estudantil.
Conta como veio parar em Brasília e um pouco de sua trajetória profissional. Morava com sua mãe e irmã no Ceará, mas queria conhecer o mundo, viajar, se envolver com o MST. Quando sua mãe faleceu, veio para Brasília, onde trabalhou na TVE e depois na “Casas da Banha”, supermercado da cidade. Com menos de um ano fez a primeira greve de operadores de caixa e em pouco tempo ocupava um cargo na diretoria do sindicato e era promovido para fiscal de caixa, conquistando maior autonomia. Diz ter criado muito caso ali dentro. Quando a “Casas da Banha” foi à falência, ficou responsável pelas negociações.
Conseguimos que a empresa fizesse acordo com os funcionários, pagando os nossos direitos. Tinha muitos conhecimentos jurídicos e conseguia me relacionar com as questões decorrentes do acordo.
Saí do sindicato com essa experiência de movimento sindical e movimento estudantil. Me filiei ao PSB. Fui para Sobradinho. Tinha uma vida política muito corrida. Em Sobradinho fui trabalhar como militante do PSB, fui presidente, depois com o orçamento participativo, depois no CEPACS.
Ressalta a importância da sua participação no grêmio estudantil, dizendo que foi a partir daí que começou a analisar a escola. “A ação da discussão política no grêmio gerou consciência política e eu começo a me situar nesse momento.”
No entanto, destaca a importância da EP, onde diz que se encontra mais que nos outros movimentos, segundo Francijairo, trabalhar com alfabetização de pessoas jovens e adultas é um pretexto para canalizar todos os problemas da comunidade. “O Movimento estudantil tem uma luta única. O sindical é o de salário, no Movimento de alfabetização posso trabalhar, discutir tudo, é mais global”.
Francijairo, atualmente, atua no CEPACS como dirigente, educador popular, na formação inicial e continuada de educadoras, supervisão e elaboração de projetos. Ressalta a importância desta entidade que possibilita a troca de experiências, o aprendizado nas relações entre pessoas diferentes, o desenvolvimento do pensamento político, religioso, dos conceitos de sociedade, valores e princípios.
Diante de sua grande inserção e conhecimento que tem da comunidade de Sobradinho, considera “um pecado a gente não registrar os movimentos sociais da nossa comunidade e da experiência de cada um, há tantos movimentos, tantos artistas na comunidade de Sobradinho...”
E, essa presença amorosa e constante em sua comunidade fez com que Francijairo compreendesse que um educador popular se faz assim, através do “conhecimento da comunidade (conjuntura), atualização da comunidade, ser militante; solidariedade, ter princípios; tecnologias – o educador tem que estar atento a isso, cada dia é um dia, as coisas têm que ir sendo atualizadas; entendimento do contexto global/local, influências...”
Complementa que o educador popular deve “primeiro, conhecer a geografia política e social da comunidade que atua ou vai atuar. Segundo assumir um compromisso com sigo mesmo, e ter o domínio de: princípios e valores
do compromisso, responsabilidade, ética, e acima de tudo, capacidade de dialogar com o oposto”.
Francijairo, da mesma forma que Neide, tem uma matriz bem próxima a de Freire. Sua visão sobre a construção do educador popular é muito próxima a de Freire, em que o educador não nasce de uma “forma modulada, desenhada ou ate mesmo criada, nasce de um engajamento do processo da luta necessária, e importante para sua comunidade”. Nesse sentido, acredita que não se deve tomar o educador como algo ideal, perfeito, como se fosse o objeto feito e pronto. Esse educador ideal
[...] nasce do trabalho de engajamento do processo de uma educação libertadora, na sua formação, * requer uma prática, com rigorosidade, pesquisa, o respeito aos saberes. Está pratica requer do educador popular, estudo, reflexão da sua formação bancaria, respeito aos seus conhecimentos [...] disciplina no habito da leitura, e produção dos seus conhecimentos, sua reflexão, continua da sua pratica como educador popular. Assim, o educador popular, não deve negar seu contexto histórico, pois faz parte da sua formação, a reflexão sobre o contexto histórico, assim o educador popular se reconhecerá no processo de uma educação de liberdade.
E, é assim que Francijairo começa a se construir como educador popular. Segundo ele, sua opção pela EP nasceu da necessidade de se encontrar como sujeito.
de todas as experiências que vivi, não me encontrei dentro de um processo que fosse capaz de sistematizar e problematizar todas necessidades ao mesmo tempo, e de um vivência de experiências e decepções tão fortes. Mais o que pude perceber é que conheci algo tão forte e poderoso, que até em tão, não foi possível perceber em outros movimentos, o Dialogo.
Complementa dizendo que sua opção deu-se também
primeiro pela ausência do estado, não por achar que vou para o céu, o estou fazendo favor. Mais como membro de uma sociedade tenho direito e deveres. Na verdade não teria sentido algum, viver numa comunidade sem que me sentisse parte dela, em todos os aspectos, principalmente político. Uma coisa tenho certeza, me vejo completo nesse processo, diante de experiências de classe que atuei, esta sem duvidas é a mais completa.”
Francijairo, de modo crescente, desenvolveu durante o processo de pesquisa reflexões sistemáticas sobre a questão do diálogo, do outro, do tempo, da escola e da formação, tendo percorrido um caminho muito parecido com o de Neide, nesse sentido. Em relação à escola diz que sua crítica, devido à sua experiência na EP, o fez ver que a
escola está cada vez mais distante do aluno, não parece ser dedicada nem à ele, nem às pessoas que lá trabalham, nem à comunidade. “A escola que ta aí tem que colocar no chão, derrubar os muros, as cercas... O porteiro, a merendeira, o faxineiro não são reconhecidos pela escola como sujeitos contribuidores.”
E, mais uma vez, me encontro com falas tão próximas às minhas... Encontro-me com o Ulisses, a sereia: Um escutando o outro. Um encontro inusitado, realmente. Encanto irresistível diante de boto e sereia.