ENTIDADE/ LOCAL/
4 CONSTITUIÇÃO DE IDENTIDADE DA EDUCADORA POPULAR QUEM É QUEM NO BARCO?
4.3 Leda Dutra – Encontro com Iara, a Sereia do norte
As sereias não vivem sós, estão sempre em bando. Durante a pesquisa me percebi rodeada de sereias provenientes de lugares distintos. Iara – Mãe d’Água – vive nas encantarias do fundo dos rios na Amazônia. Ela atrai os moços e os fascina, mostrando-lhes seu rosto belíssimo à flor das águas e deixando submersa a cauda de peixe. Para seduzi-los,
faz promessas de todos os gêneros. Para aumentar o estado de encantamento canta belas melodias. Quem tiver visto seu rosto uma única vez jamais poderáesquecê-lo. Leda, nossa Iara, nos mostra sua face, contando uma pouco da sua trajetória de vida, suas memórias.
Nasceu em Castelo, no interior do Piauí e, ainda bebê seus pais se mudaram para Juazeiro, onde viveu até os seis anos. Depois, se mudou para a capital à procura de uma vida melhor, onde morou mais de vinte e cinco anos, quando resolveu mudar-se para Brasília, em busca de uma vida melhor. Em Juazeiro, ingressa na 1ª série e sobre essa experiência nos conta que a escola ficava próxima de sua casa:
[...] avistava do terreiro de minha casa. [...] Ás vezes, eu não conseguia chegar na hora marcada, pois, aparecia uma vaca valente, da cara preta. Ela sempre vinha comer na hora em que eu tinha que passar pelo pasto. Meu irmão mais velho, não tinha medo de vacas e seguia em frente. Eu, menina medroza, preferia voltar para casa e esperar a vaca sair do caminho.
Guarda uma boa lembrança de sua primeira professora
Ana era o nome dela. Ela era muito bonita e bem nova e tinha muita paciência. Logo aprendir a escrever meu nome e adorava escrevê-lo nos troncos das árvores. Também aprendir a contar e quando a galinha cacarejava eu corria para catar os ovos e saia contando. Contava tudo, os porquinhos, carneiros, pintinhos.
As coisas pareciam ir bem em sua vida até que Leda compartilha com milhares de brasileiros e brasileiras o drama do exílio de sua terra natal:
[...] a situação financeira foi ficando difícil e chegou um tempo que quase não tinha o que contar. Meu pai teve que vender os animais, só sobraram as galinhas. Quando eu cansava de contar os ovos e os pintinhos, eu contava as pedrinhas. A situação ficou mais difícil e meu pai teve que vender tudo e fomos morar na capital. Lembro do dia em que mudamos. Meu pai colocou o resto do que sobrou no caminhão, inclusive algumas galinhas e seguimos rumo a capital. E no toca-fita do caminhão tocava uma música de Luiz Gonzaga que eu retratava exatamente o que eu e minha família estávamos vivendo: A dor de se deixar a terra natal e sair em busca de uma vida melhor. Chegando na capital, fomos morar com uma madrinha e fiquei alguns meses sem estudar. Foi um tempo difícil.”
A música parece ser um elemento importante em sua vida. Música no ar, música no papel, nossa Iara, assim como Neide, cantou-nos também alguns de seus poemas, que versavam, entre outras coisas, sobre amor de ninfa sereia81, distante do mar:
Sou fantasmas nas noites de solidão Ando pela casa
Procuro uma mão que me leve para longe Sou fantasma nas noites de chuva
Olho pela janela
Os pingos d’água que renovam as folhas Ah! E essa chuva
Que não me renova Lavando minha alma Limpando minha mente.
Leda Dutra
Leda vai se mostrando uma pessoa muito afetiva, alegre e meiga, mas reconhece que isso foi uma construção, visto que a sua família não era muito carinhosa. “Passei muito tempo sem sentir o prazer do abraço. Uma prima me deu um abraço tão forte... fiquei tão maravilhada, não queria que acabasse o tempo. É um aprendizado, a gente vai aprendendo aos poucos.”
Outras aprendizagens são narradas por ela, como a experiência na sua primeira escola em Teresina. É com essa sensibilidade que Leda vive outra experiência escolar solitariamente, ao ingressar na escola em Teresina. Não se lembra de muita coisa, nem da professora, mas recorda, da escola, das coisas que a gente nunca esquece, embora não estejam em seu currículo: “fiquei sem dançar a quadrilha porquê o meu par ficou doente e não tinha ninguém para substituí-lo. Aquilo me deixou muito triste e nunca mais dancei quadrilha em nenhuma outra escola. Bloqueou mesmo.”
Analisando histórias de vida de professoras e das pessoas de um modo geral, percebo que as maiores marcas da escola não são as expressas no currículo escolar.
81 Leda viveu intensamente o amor, e portanto, o risco de sua dor: “Posso dizer que amei todos os homens
Geralmente, as pessoas lembram-se do recreio, das amizades, das feiras, festas, trabalhos em grupo... e de traumas como esse citado pela Leda. Perrenoud (1995), nesse sentido, parece ter razão quando diz que os momentos de maior aprendizagem parecem estar fora da rotina da sala de aula e dos conteúdos ali apresentados.
Aliás, pergunto-me se a sua descrição de menina medrosa de vaca é fruto dessa experiência ou por ela reforçada. O relato a seguir mostra que Leda não se posiciona medrosamente diante da vida, pelo contrário, sempre segue seus próprios caminhos de acordo com seus desejos de sereia. Aliás, em duelo entre sereia e vaca, parece-me que Leda sai ganhando. Esta imagem me vem à tona diante do seu relato sobre o ingresso em uma nova escola:
O meu sonho era estudar nessa escola, por se tratar de uma, digo, por ser uma das melhores escolas daquela região. Era uma escola enorme, com dois pavimentos, duas quadras de esportes e uma horta. A escola tinha a fama de ter professores carrascos, e eu morria de medo só em pensar que iria passar por eles, mas passei por eles e passei de ano também. (grifo nosso)
Interessante esse movimento de enfrentamento que realiza. E, diferentemente da escola anterior, desta escola, recorda de situações didáticas por ela organizadas, através de
laboratórios de Orientações profissionais, que se dividiam em: Educação para o lar, comércio, oficinas e hortas. Tive que passar por todas e a que menos me interessou foi a educação para o lar. [...] A que mais gostei foi o comércio. A sala era uma loja onde cada aluno poderia ser o vendedor, passar o troco, emitir nota fiscal. Gostei tanto que resolvi fazer contabilidade.
Da menina que conta pedrinhas, pintinhos, Leda vai se constituindo numa mulher com desejo de fazer outras contas. Mas enfrentou outras dificuldades, além das vacas quando cursou a 4ª série: “Devido a situação financeira que estava a cada dia mais difícil, meu pai nunca podia comprar meu material. Eu e meus irmãos nos virávamos e sempre pedíamos a Deus para que as coisas melhorassem. “
Em entrevista, apontei para Leda se a indicação de que a falta de material escolar apontada no questionário por ela como uma das maiores dificuldades no seu trabalho em EJA não era uma recorrência dessa experiência que vivenciou quando pequena. Essa
questão se fez mais significativa quando participei de suas aulas. O livro didático82, por
exemplo, existia, mas não era o centro do trabalho pedagógico. Ao contrário, nos dias que estivemos juntas, ela organizou a montagem de um jornal com a turma, a construção de um livro sobre o folclore... Atividades que literalmente tiram o livro de cena.
Entretanto, chegamos a uma constatação interessante: há algo no livro didático que impulsiona o desejo dos alunos e alunas de EJA por ele. Será o desejo contido, de tê-lo tido na infância quando não se pôde tê-lo? “Para mim, sem pensar neles, eu não compraria o livro didático. Mas é uma cobrança deles. Sem livro a aula não é aula. Todo dia no final, a gente usava livro didático”.
Leda admite que teve um ambiente bem favorável aos estudos: “Em casa todo mundo teve oportunidade de aprender a ler e escrever. Estudaram com uma professora informal, escola improvisada [...] Tenho primas que são professoras, irmãs. Uma prima incentivou bastante a fazer Pedagogia. O namorado incentivou a fazer curso superior”.
É visível o limite que o livro didático pode impor no trabalho pedagógico, seja pela inibição da criatividade, pela comunicação subliminar que transmite, pela falta de sentido do trabalho proposto mas, independente dessas questões, por que será que, por exemplo, até eu me recordo com prazer de trabalhos que nele realizava quando pequena? Que tipo de relação é essa que travamos com esse livro? Mas esse é um conto para uma outra história...
Outra dificuldade encontrada por Leda para seguir seu caminho foi em relação aos desejos de sua mãe que queria muito que ela fizesse magistério. Mas esse não era seu sonho. “Eu queria ser tudo, menos professora. Ironia do destino, hoje sou uma professora. A razão de minha repulsa era o salário que era muito pouco e o descaso, a desvalorização, enfim, eu não sonhava aquilo para mim.”
Conseguiu convencer sua mãe e ingressou na Escola Técnica Federal do Piauí. Desta escola Leda se recorda com muito fascínio. Foi um dos melhores anos de sua vida, fez novas amizades, aprendeu muito – cresceu. Aos seus dezoito anos, nossa sereia, ingressava na fase das paixões. Tudo a fascinava.
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Queria fazer tudo ao mesmo tempo. Fazia curso de informática, redação, fazia academia, dava aulas particulares e ainda tinha tempo para o namorado. O curso de Contabilidade me abriu as portas para o mercado de trabalho, pois fiz um estágio em um escritório de contabilidade e depois de um ano eu fui trabalhar em outra empresa onde fiquei por 13 anos. Não me arrependo de ter contrariado minha mãe pois aprendir muito nesse curso e nas empresas nas quais trabalhei.
Mas logo que termina o curso de Contabilidade, iniciou um curso de magistério, como sua mãe queria, pois iria ter um concurso para professora da rede municipal, que pagava um salário melhor. “Então, resolvir fazer o curso em uma escola particular, mas eu ganhava pouco e não deu para pagar o curso. Desistir depois de quatro meses. Eu me arrependo de não ter me esforçado mais para terminar o curso, pois hoje, ele me faz falta.”
Tão logo, ingressou na Universidade Federal de Piauí, que foi para ela “outra escola da vida”. Mas o mais interessante é que Leda acaba realizando o que sua mãe queria, mesmo contrariando-a mais uma vez, ao inscrever-se em outro curso.
[...] fiz o vestibular para jornalismo, influenciada pelo namorado que já cursava e achava o curso maravilhoso. Porém, para consolar minha mãe, eu coloquei a Pedagogia como segunda Opção e não é que eu passei para Pedagogia. Eu fiquei muito feliz pois eu tinha ótimas referências do curso e hoje eu não me arrependo da minha opção.
Sobre a faculdade, declara que as aulas eram como uma terapia de grupo. No começo, sentiu muita dificuldade, porque as aulas eram bem diferentes das quais estava acostumada: carteiras em círculos, debates, seminários... Relata que foi difícil conciliar trabalho e Universidade, já que trabalhava o dia todo e estudava à noite, mas conseguiu terminar o curso, embora trabalhando em outra área.
E foi desse casamento entre estudo e trabalho que nasceu Leda, a educadora popular:
Eu trabalhava numa empresa do ramo da construção civil e era responsável pela admissão, folha de pagamento e demissão de funcionários e ficava triste ao ver quantos funcionários que assinavam com o polegar e o constrangimento deles em assumir que era analfabetos. [...] Alguns diziam que tinham esquecido o óculos, não queriam mostrar que não sabiam ler e escrever. Limpavam os dedos no lado de fora da empresa, a parede ficava cheia de dedo.
E, com um dedinho de amor, nossa sereia, agora fascinada por outros mares, ajuda seus alunos a imprimirem novo significado aos seus dedos. Diz que a sua vivência mais importante como educadora popular é ver “a alegria estampada no rosto de um aluno quando conseguiu escrever o seu nome e telefone”, experiências que começou a ter desde quando se mudou para Brasília, em 2000:
Como educadora popular, se posiciona de forma muito cuidadosa com seus alunos e alunas, afirmando que
Os alunos de EJA têm que ver na gente um cúmplice, eles estão tão melindrados com a situação, se eles vêem qualquer rejeição na gente... A gente não pode ter vergonha de chegar bem perto. Aproximação física e de todas as formas. Eu pegava na mão. Tive até medo de ser mal interpretada. Se não tiver confiança...
A sua visão de EJA foi construída aos poucos. Sua vivência nos cursos de formação continuada da AEC lhe rendeu boas reflexões a respeito da aprendizagem, do trabalho pedagógico, de modo geral: “Eu não me faço só, me faço com o outro que não precisa ser físico; pode ser livro, TV, a gente pode não ter a troca. Nos meus registros como o outro e Paulo Freire foi importante!”
Sua relação com o registro parece ser reforçada ao escrever seu memorial, que foi uma experiência maravilhosa para ela. “Confesso que o fiz com grande prazer. Minha vontade era mergulhar por entre as linhas, entrar no livro da minha vida e viver tudo de novo, ou quem sabe até, mudar alguma coisa.”
Leda vê, no memorial, um recurso significativo também junto aos alunos e alunas de EJA:
É de grande importância, nós, enquanto educadores e educadoras, fazermos essa retrospectiva de nossas vidas, pois, através dela, é que podemos detectar erros, traumas e quem sabe, saná-los ou amenizá-los. Com nossos educandos, é importante que fassemos também esse trabalho de voltar ao passado e relembrar sua história de vida. Trabalho esse, que pode ser feito através de relatos orais, escritos ou até mesmo através de desenhos.
Cabe fazer referência ao fato de que a experiência profissional de Leda não se restringe à EJA. Juntamente com Marly e Elaine, Leda atua como contrato temporário na Secretaria de Educação. Assumiu uma turma de Educação Infantil nesse ano, mas confessa
que o trabalho em EJA lhe parece muito mais completo, se sente muito mais realizada. Salienta que a OTP na escola é muito complicada, por exemplo, “toda semana a gente tem que organizar o mural. Isso toma muito tempo da gente [...].” Acrescenta que “desde que comecei na FEDF não durmo muito. [...] Não tô satisfeita. Antes da FEDF eu tinha mais tempo para mim.”
E mais uma vez... o tempo... Sobre ele e outras questões, aprofundaremos no próximo capítulo.