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Frederico V, Elizabeth Stuart e o Palatinado

Invisíveis, os rosa-cruzes operaram secretamente até 1613, quando o novo e jovem regente do Palatinado entrou para a família real inglesa.

O Casamento do Eleitor Palatino e da Princesa Elizabeth.

Os rosa-cruzes anônimos logo se juntaram em torno de Frederico V, Eleitor Palatino do Reno,[49] calvinista e sobrinho do líder protestante francês Henri de la Tour d’Auvergne, que tinha ligações com o Priorado de Sião. Em 14 de fevereiro de 1613, Frederico (que havia sucedido a seu pai em 1610, quando ainda era um menino de 14 anos) casou-se com a filha de Jaime I da Inglaterra, Elizabeth Stuart, na Capela Real em Whitehall, Londres. Nos impressos do casamento, aparecia o Nome de Deus em hebraico (o Tetragrammaton) irradiando raios de sol que envolviam Frederico e Elizabeth. Houve apresentações de Otelo e A Tempestade de Shakespeare para celebrar a união. O Conde

de Southampton, patrono de Shakespeare, provavelmente estava presente. De acordo com Chamberlain, Sir Francis Bacon foi o principal idealizador da mascarada apresentada em Gray’s Inn, The Marriage of the Thames and the Rhine. Em junho, Elizabeth viajou a Heidelberg, no Palatinado, um país

sem litoral, cercado por outros países: os Países Baixos Espanhóis, Lorraine, Württemberg e os vários estados alemães a sudoeste da moderna Frankfurt.

Mapa mostrando a posição do Palatinado no começo do século XVII

Parece que ela foi acompanhada pelo Conde de Southampton e logo depois construiu uma réplica do teatro Globe numa ala do castelo de Heidelberg. (Ainda é possível visitar esse teatro: pode- se percorrer a parte de cima e ver lá embaixo, embora o “poço” esteja hoje em ruínas.)

A noiva e o noivo tinham ambos 17 anos e o casamento tinha ligações ancestrais com Marie de Guise, cujos dois casamentos uniram as casas de Lorraine e Stuart. Elizabeth conheceu Bacon na Inglaterra e era uma ávida leitora de seus livros: assim, foi apenas natural ele ter composto um dos entretenimentos para o casamento dela. A respeito desse casamento, Frances Yates escreveu que havia uma cultura em formação no Palatinado, uma cultura que viera da Renascença, mas agregara tendências mais recentes, “uma cultura que pode ser definida pelo adjetivo ‘rosacruciana’”. O movimento em torno de Frederico, Eleitor Palatino, era uma tentativa de dar expressão político- religiosa ao ideal de reforma hermética. Agora, havia um estado rosacruciano com uma corte em Heidelberg.[50]

Andreae

Em 1614, surgiram dois livros que causaram sensação na Europa: Fama Fraternitatis e Confessio,

ambos atribuídos a Johann Valentin Andreae (ou Andrea, ou mesmo Andreas). Esses dois livros foram os primeiros dos chamados “Manifestos Rosacrucianos” e descreviam as viagens do alemão Christian Rosenkreutz que, dizia-se, tinha nascido em 1378 e falecido em 1484, com 106 anos de idade, tendo estudado a Cabala no Oriente. Em 1616, apareceu um terceiro Manifesto Rosacruciano. As Núpcias Alquímicas de Christian Rosenkreutz, saturado de ideias herméticas, que acabou sendo uma inspiração para o Fausto de Goethe. (Publicado anonimamente, sua autoria foi mais tarde reconhecida por Andreae.)

Johann Valentin Andreae

Andreae nasceu em Württemberg, o estado luterano vizinho ao Palatinado. Seu avô era um conhecido teólogo luterano, que tinha o apelido de “o Lutero de Württemberg”. O próprio Andreae se tornou pastor luterano, mas manteve o interesse pelo Calvinismo. Em 1601, com 15 anos de idade, sua mãe o levou a Tübingen para estudar na universidade de Württemberg. Ainda estudante, escreveu duas comédias e uma primeira versão de As Núpcias Alquímicas, que foi reescrito antes de 1616 para incluir

referências a Heidelberg e a Frederico V, Rei do Palatinado. Frederico I, o Duque de Württemberg, era um anglófilo que visitara várias vezes a Inglaterra. John Dee tinha estado na Boêmia nos anos 1580 e sua influência cabalística pode ter chegado a Andreae através da corte do Duque de Württemberg ou através dos que rodeavam o Eleitor Palatino. Já em 1610, Andreae viajou pela Europa e dizia-se que ele era membro de uma sociedade secreta relacionada ao Hermetismo. (Talvez fosse o Priorado de Sião.)

Os Manifestos Rosacrucianos parecem ter emanado de movimentos em torno de Frederico. As Núpcias Alquímicas de Christian Rosenkreutz de 1616 traz referências ao Eleitor Palatino e sua corte em

Heidelberg, aos dois primeiros Manifestos Rosacrucianos e ao casamento de Frederico. De fato, na versão de As Núpcias Alquímicas, reescrita por Andreae, o Casamento Real a que Rosenkreutz é convidado

se baseia no casamento de Frederico V e Elizabeth. Além disso, o castelo de As Núpcias Alquímicas é

inspirado no castelo de Heidelberg, cujos jardins (com seus labirintos) eram cheios de obras de Salomon de Caus (leões e fontes com cabeças de leões). Frederico tinha feito os jardins para sua

mulher, cortando terraços nos penhascos íngremes abaixo do castelo, plantando laranjeiras e amoreiras e criando quedas d’água. Esperava-se na verdade que Frederico iniciasse a reforma anunciada em Fama Fraternitatis e Confessio, e houve uma breve idade de ouro hermética inspirada pelo

Fludd

O médico inglês Robert Fludd, filho do oficial encarregado do pagamento das tropas de Elizabeth I na França e nos Países Baixos, era um graduado de Oxford que viajou pela Europa, aprofundou-se na filosofia hermética e, em 1614, participou da primeira aparição na arena pública da Ordem da Rose-Croix. Em 1617, escreveu um tratado em defesa do Tractatus Apologeticus Rose-Croix, tendo

claramente se inspirado na Cabala judaica. Foi o autor de Philosophia Mosaica, cujo título sugere um forte

interesse cabalista. Ele pode ter sido influenciado pelos familistas. Ensinava que o Céu pode ser alcançado na terra: “Os rosa-cruzes se chamam de irmãos porque são ‘Filhos de Deus’”. Fludd era agora considerado o principal intérprete do Rosacrucianismo na Inglaterra, onde a nova filosofia era menos conhecida do que no Continente. Declarou seu apoio ao Rosacrucianismo anunciando que “o bem mais elevado” era “a Magia, a Cabala e a Alquimia dos Irmãos da Rosa-Cruz”.

O Palatinado, um reino rosacruciano que inspirou o Colégio Invisível e enfatizou a invisibilidade como estilo de vida rosacruciano, foi responsável pela publicação dos mais importantes trabalhos rosacrucianos. A magnum opus de Robert Fludd foi publicada no Palatinado por Johann

Theodore De Bry, em Oppenheim, durante o reinado de Frederico V. Os três volumes de Utriusque Cosmi Historia, ou História do Macrocosmo e do Microcosmo, apareceram em rápida sucessão, em 1617, 1618 e 1619,

durante o reinado de Frederico, sendo o primeiro volume dedicado a Jaime I. A rapidez com que foram publicados esses três livros volumosos deixou claro que havia uma política para publicar o quanto antes qualquer material que favorecesse o movimento rosacruciano do Palatinado. A missão de Fludd era atualizar a filosofia da Renascença – “a Magia e a Cabala” da Renascença, os textos herméticos de Ficino e Pico della Mirandola, a alquimia de Paracelso e de John Dee, uma tradição da qual tirou muito material. Além disso, o seu plano para a reforma das ciências, apresentado nos três volumes, lembrava O Avanço do Aprendizado de Bacon.

Podemos apenas adivinhar a frequência das idas de Fludd ao Palatinado. O pai de De Bry tinha muitas ligações na Inglaterra e havia muitos mensageiros entre Londres e o Palatinado, já que Jaime I mantinha contato com sua filha Elizabeth Stuart. O serviço postal prestado por esses mensageiros permitia que Fludd e De Bry ficassem em contato. Fludd era muito próximo também de Janus Gruter, bibliotecário da biblioteca de Heidelberg (e amigo pessoal de Andreae), o que sugere que Fludd (como também Andreae) fazia visitas a Heidelberg para ver seu editor e visitar a biblioteca.

Um amigo de Robert Fludd, o alquimista alemão Michael Maier, que viajava muito para a Inglaterra, escreveu um tratado em defesa da Rose-Croix – Apologia Compendiaria Fraternitatem de Rosea Croce

(1616, Breve Apologia da Fraternidade da Rosa Cruz). O seu Atalanta Fugiens foi publicado por De Bry no

Palatinado em 1618. Como o inglês Fludd, Maier, um luterano de Praga, era um médico paracelsista; foi médico de Rudolf II no Palatinado e se tornou Conde. Era também o secretário rosacruciano e dirigia de fato a Ordem no Palatinado.

Fludd deve ter conhecido Andreae durante suas visitas ao amigo comum Gruter, em Heidelberg. Fludd foi Grão-Mestre do Priorado de Sião de 1595 a 1637, e Andreae o sucedeu, o que indica que se conheciam. Ambos exerceram várias funções.

Em 1602, Fludd era tutor de Charles, Duque de Guise, que se casou em 1610 com Henriette- Catherine de Joyeuse, cujas propriedades incluíam Couiza, perto de Rennes-le-Château, e Arques, o local da tumba que aparece na tela de Poussin – ambas vendidas depois à coroa. Em 1614, Andreae foi ordenado diácono de uma pequena cidade perto de Stuttgart e lá viveu até 1640, quando foi nomeado pregador e depois capelão do Duque de Brunswick. Essas funções deram aos dois a oportunidade de se encontrar no Continente.

O templário Jaime I subiu ao trono em 1603, chocando a Ordem do Priorado de Sião, que controlava os monarcas ingleses desde Henrique II. Isso pôs fim a uma linhagem de Tudors sionistas que usavam a rosa da Rose-Croix de Sião (supostamente fundada por De Gisors em 1220) e significava que tinham perdido o emblema que tinha sido deles por 400 anos.[51] O Grão-Mestre à época dessa perda era Fludd e é provável que o estado rosacruciano em torno de Elizabeth, filha de Jaime I, fosse uma tentativa de recuperar a Inglaterra: esperava-se que, um dia, Elizabeth sucedesse ao pai no trono inglês – com Frederico V como consorte sionista-rosacruciano. Esse pensamento deve ter ocorrido a Bacon e ao Conde de Southampton na época do casamento de Elizabeth Stuart, e pode ter sido um fator no aparecimento da Rose-Croix na Inglaterra em 1614, um ano após o casamento.

Supõe-se que Fludd tenha tido a ajuda de Francis Bacon para fundar a Ordem Rose-Croix na Inglaterra.[52] Até que ponto Fludd agiu em nome de Bacon ao levar a Rose-Croix para a arena pública? Como já vimos, parece que Bacon já havia fundado uma Sociedade Rosi Crosse antes de Fludd iniciar a Ordem ou Fraternidade da Rosacruz na Inglaterra. Paoli Rossi demonstrou que a obra de Bacon derivou da tradição hermética, na época personificada por Fludd, Grão-Mestre do Priorado de Sião e, segundo a Encyclopaedia of Freemasonry , “pai imediato da Franco-Maçonaria”.[53] Yates escreve

sobre o paralelismo entre os movimentos rosacruciano e baconiano.[54]

Dodd credita a Bacon a criação do Rosacrucianismo pós-1614 e também a redação dos Manifestos Rosacrucianos. Muitos livros comentam que tanto os Manifestos quanto os escritos de Robert Fludd são baconianos. (Frances Yates, entretanto, vê a mão de John Dee nos Manifestos.) Em

The Rosicrucian Enlightenment *, Yates afirma que, antes de The Advancement of Learning de 1605, não há qualquer

evidência de que Bacon pensasse sobre os Manifestos Rosacrucianos.[55] Tudo o que podemos afirmar é que, entre 1614 e 1617, houve um movimento rosacruciano associado a Bacon, que tinha estudado as filosofias Hermética, Gnóstica e Neoplatônica, assim como a Cabala.

* Iluminismo Rosacruz, Editora Pensamento, SP, 1983 (esgotado).

De acordo com Manly P. Hall,[56] em The Secret Teachings of All Ages, o programa original da

Fraternidade Rosacruz era revolucionário e tinha três objetivos: (1) a abolição das formas monárquicas de governo e sua substituição “pelo governo da elite filosófica”; (2) a reforma da ciência, da filosofia e da ética; e (3) a descoberta do Remédio Universal, ou panaceia, para todas as formas de doenças.

Esses três objetivos foram perseguidos em segredo, já que a organização rosacruciana corria o risco de ser suprimida pelo Cristianismo dogmático. O objetivo antimonárquico do Rosacrucianismo não se tornou amplamente conhecido pelos rosa-cruzes antes de 1620, como veremos. Antes disso, era possível ser monarquista e rosa-cruz (o que provavelmente era o caso de Shakespeare). O segundo objetivo era baconiano e engloba o avanço do aprendizado e a grande instauração (a reorganização das

ciências para devolver ao homem o domínio da natureza, que ele perdeu com a Queda). O terceiro objetivo envolvia a alquimia e a busca da pedra filosofal, uma panaceia universal que tornaria possível a juventude eterna.